O charme da morte – Paulo Valença
O charme da morte – Paulo Valença
1
O automóvel estaciona em frente do grande terraço, que é um bar. Os ocupantes das mesas – em sua maioria são os operários da fábrica próxima – têm a atenção no carro prateado. Desse salta o negro de dois metros de altura, de rosto fechado, acompanhado por rapazes.
Puxando da perna esquerda ele se encaminha à mesa em ângulo limite entre o terraço e o salão, onde também há mesas, cadeiras e a pista de dança, tendo aos fundos o palco com o conjunto, que se organiza.
A mesa fica à esquerda da porta de acesso ao salão. Quando o homenzarrão vem às sextas-feiras ela é a sua preferida.
Então o garçom Luciano cuida para que nada falte à mesa, enquanto olhos curiosos se prendem aos seus ocupantes e observam a fartura de comidas e bebidas.
Da mesa se ouvirá tilintar de talheres, de copos, pancadinhas nas costas e risadas. Contudo, o gigante pouco sorri e, quando fala, os demais silenciam, compenetrados, para o ouvir. Luciano põe-se atento ao menor sinal, pois, depois, ao tirar a despesa, receberá boa gorjeta e sorrindo, dirá:
- Obrigado, seu Edu. Volte sempre.
- Certo, meu rapaz. Até a próxima sexta.
Agora, os músicos experimentam os instrumentos. Sem tardar, animarão o ambiente de luzes coloridas.
- Quem é aquele negrão, na mesa?
Pergunta o funcionário novo da fábrica ao antigo, que responde:
- É o capanga do doutor José Luis, um dos acionistas da empresa.
- Capanga?
- Claro, meu: guarda-costas, que faz os “serviços” que o patrão ordena. Já bateu e matou muita gente.
- Matou?
- Cara, você é muito ingênuo… Parece viver noutro mundo. Surrou, mandou gente deste pra o outro mundo.
Nervoso ante a revelação, o rapazote bebe apressado e, com disfarce, volta a atenção à figura negra. Compreensivo, o colega sorri. O conjunto com estridência começa sua apresentação.
De repente, surgem novos funcionários da indústria, seguidos de moças. Destas, duas se sentam à mesa de Edu que, devido ao calor, tem em destaque o rosto comprido, de cabelos baixinhos, escuros.
Edu graceja com as jovens, que gargalham, com espalhafato.
Ao aceno do gigante, Luciano se aproxima:
- Diga, seu Edu.
- Me traga mais cerveja e outro galeto, com bastante verdura. Mas, me traga um galeto completo, porque o que veio mais parecia um pombo, pequeno que nem você.
Risadas. Tolerante, Luciano também sorri. Depois que o garçom retira-se, Edu:
- Quando a Inha começou, o atendimento era outra coisa. Mas, ela começou a enricar e tá dando uma de gostosa, se julgando.
Um dos componentes da mesa concorda:
- Você tá certo. Temos de deixar de vir aqui.
Edu retira a cigarreira dourada de um dos bolsos da camisa suada. Ante os olhos fascinados, pesca um cigarro e com o isqueiro também dourado, acende-o. Ao fechar o objeto, o clic da tampa ressoa e ele ouve exclamações de inveja. Contudo, procede como se não as escutasse, enquanto é dominado por uma onda de bem-estar. A fumaça sobe em círculos dos lábios grossos e Edu – por que hoje está tão falante? – retorna a falar:
- Tem gente que reclama que ganha pouco, que a fábrica não tem refeitório, que não ganha cesta de natal, não recebe salubridade… Eu penso assim: se não está satisfeiro, faça então um acordo, peça pra sair. Gente pra trabalhar, é o que não falta, principalmente, nessa recessão.
Outra vez apóiam-no:
- Concordo.
- Você tá mais do que certo.
Uma das moças fita Edu, numa promessa que ele entende ser o convite para findarem a noite em um motel. Próximo, o garçom se mantém atento ao novo chamado. O conjunto agora executa um sucesso “brega” da atualidade. A noite envelhece. Ao meio-fio o carro solta reflexos ante a claridade do poste. Vendo-o assim, Edu envaidece-se de repente. Quanto sofreu para chegar ao atual presente! De apanhador de bagaço de cana até os dias atuais, curtiu muitas humilhações,,, Entretanto, ambicioso, logo entendeu que para se erguer na vida, todo o jogo é válido e, enquanto lavava os carros, vigiava as mansões dos diretores, foi “dedurando” colegas, adquirindo aos poucos, a confiança dos patrões e, graças ao seu jeitão sisudo e também ao físico avantajado, sem tardar, conseguiu a chefia da segurança.
Seu rosto se torna mais negro e fechado com as lembranças, que prosseguem.
- Você é de nossa inteira confiança, Edu. Faça o “serviço” direito e não se arrependerá. Aceita um cigarro?
- Não, doutor, obrigado. O senhor pode ficar despreocupado.
- Muito bem. Mas, se lembre: aconteça o que acontecer, não pronuncie o meu nome. Saindo daqui, você que se cuide. Para isso é que estou lhe gratificando muito bem. O que lhe dou, você não ganharia em dez anos trabalhando!
Nervoso, o homem gordo então se voltou à janela, onde ficando com a vista na noite fechada, o dispensou:
- É só. Aguardo notícias.
Aí ele, com o pacote – como a metade do pagamento pelo que faria – se despediu:
- Fique tranquilo doutor José Luis. Boa noite.
Dias depois cumpria sua “tarefa”. Em seguida, outras. E foi se tornando um profissional. Entretanto, de súbito, vem-lhe um receio…
- Algum problema, Edu?
Com a indagação, ele reentregando-se ao presente, responde:
- Não, nenhum. Estou pensando demais, ficando velho…
Então acena, pedindo mais cerveja.
Outra vez a morena de olhos negros, fita-o, provocando-o.
Aquiescendo ao insistente apelo ao prazer, ele sorri.
2
A jovem loura sorrindo:
- Quem nos contratou, Gogóia?
Com naturalidade, o homem responde:
- Alguém que me disse que o crioulo sabe muito… Mas isso não nos interessa. Aliás, quanto menos a gente souber desse assunto, melhor. Você aceita outra dose?
Ela aquiesce com a cabeça e ainda sorrindo:
- Aceito. Peça também mais camarões. Bom… Extá tudo certo: na próxima sexta, agirei. Ou melhor, agiremos.
- É isso aí: você o “paquera”, depois leva-o ao apartamento e eu entro em ação, acabo com ele!
Chega então o rosto ao dela e com o braço forte lhe envolvendo o pescoço, trazendo-a:
- Mas, Cileide, me dá um daqueles beijos!
- Esse Gogóia…
Entretanto, amante e passiva, atende.
3
Fascinado com os cabelos louros, longos, os olhos azuis, as pernas esguias, cruzadas, Edu avisa aos componentes da mesa:
- Aguentem aí, que eu vou bater um “papo” com aquela loura ali.
Então, à semelhança do cordeiro indo para o matadouro ele vai ao encontro da morte, que o atrai com charme.
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Ora bem vamos por partes Certo Paulo???
Primeiro o seu estilo
Tive a nitida sensação de estar a ler aqueles livros de gangsters do meu tempo de jovem
Narrações curtas, sem discrições desnecessárias apenas e somente as que transportam o leitor para o local da acção
Leitura rápida, tão rápida como é exigido aos cerebros residentes destes mundos.
Gostei
Segundo a quase antecipada moral da historia??? Vou arriscar…apetece-me eheheh
Tenho cá para mim que Edu…vai aprender que ao ser executor das mortes encomendadas ficou a saber demais e…alguém também vai executar a sua morte negociada
Será que acertei??? Será???
Obrigado por esta optima leitura
Paulo Valença
É sempre um prazer ler um texto seu.
Gosto do modo como faz o entrelaçamento da narrativa.
Vai levando o autor, sempre a buscar ápice do conto.
E o faz com uma simplicidade, que torna o texto mais saboroso.
Aproveito para o convidar para ir tomar um cafezinho nos meus posts.
Meu abraço carinhoso,
lu dias
Paulo Valença respondeu:
janeiro 21st, 2009 at 9:18
Elisabeteluisfialho,
Você expressou bem o que pretendi dizer, portanto, de coração aberto lhe agradeço esse inteligente e fraternal comentário.
Paulo.
Paulo Valença respondeu:
janeiro 21st, 2009 at 9:38
lu,
Agradeço a inteligente e fraternal análise ao que escrevo.
Sem o incentivo dos mestres, a gente que escreve vai aos poucos, desanimando e parando… Obrigado!
Paulo.
Paulo,
Sempre gosto doas suas histórias. Voce consegue entrelaçar fatos e personagens de maneira muito interessante. ParabénsUm abraço. Ana
Paulo Valença respondeu:
janeiro 21st, 2009 at 10:01
Ana,
Você em poucas palavras diz tudo, é uma talentosa e fraternal colega, daí mais uma vez lhe agradecer o incentivo ao que produzo: Obrigado!
Abraço,
Paulo.
Arquivo náo fica vivo muito tempo. Maior o coqueiro maior é o tombo do coco. Peixe morre é pela boca. Quem sabe demais, fica sem saber nada logo, logo. Você é um craque, Paulo. Amo uas histórias.
Hila,
Você sintetizou tudo, é isso aí: no mundo do crime há a própria justiça.
Agradeço-lhe a inteligente análise, que me anima a prosseguir escrevendo.
Paulo.