Peixotinho estava muito tenso, e embora fosse um caso diferente, pensou em se inspirar em Fernando Pessoa e seus heteronômios. Ora, se o homem podia, por que não?
Ocorre que “Violeta” começava a arrebatar toda a atenção para as histórias de amor que ele escrevia com todo o afinco, investido daquele personagem.
E como se não bastasse, o tal “pseudônimo” que resolvera adotar, àquela altura fazia sucesso até com a Margarida, sua paixão platônica e desventurada de um ano.
No começo divertira-se intensamente, sendo cúmplice da admiração de Margarida e até resolvera alimentar o sentimento, mas tudo ali parecia não ter a volta esperada. Peixotinho caíra na sua produção e a tal da Violeta (que era seu momento mágico…) alcançava muito sucesso entre os leitores de plantão e tomava o coração da Margarida.
Sim, é bem verdade, que poderia contar-lhe toda a trama, mas que graça teria? E por outra, iria de fato se arriscar, para que ela o desprezasse como um bobo?
Não. Resolveu que continuaria angariando a fama de “a dama do amor” por algum tempo, a não ser por aquela bufa conversa…
— Como é?!! Não acredito!!! Você escreveu para a revista pedindo o endereço da Violeta?!!
— Sim, preciso muito falar com ela.
— Margarida!!! Pode ser uma pessoa muito ocupada!! Às vezes até é uma dessas escritoras inacessíveis, com muito trabalho acumulado…
— Não Peixotinho, eu preciso falar do meu sentimento e da minha admiração!
— Escreve uma carta e a revista entrega… ponderou o amigo, transparecendo aflição.
— Que nada! Já tentei isso inúmeras vezes…
— O que você tem tanto para dizer? arriscou o amigo.
— Você não entenderia…
— Ah,sim. Deixe-me ver…Quer aprender sua técnica, saber de onde vem a inspiração… essas coisas…
— Não… falou Violeta com certo mistério.
— Quer saber de sua infância, sua terra natal e os livros que leu?
— Não… respondeu a mulher.
— O que quer então? tentava descobrir o pobre aflito.
— Você não entenderia…
Depois de responder com toda fleuma, Margarida pegou seu sanduíche,se despediu de Peixotinho e foi comê-lo lá no parque enquanto planejava a vida.
Imagina, já tinha sido difícil confessar para si mesma e para o tal psicanalista o que acontecia, só faltava agora mais esse desgaste de explicar para o amigo sensível esta nova paixão… O outro não entenderia e talvez até fizesse disso um péssimo conto, se ao menos escrevesse como a Violeta…
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19 de agosto de 2008 at 23:10
Nina Araújo,
passei apenas para lhe dizer que o seu conto está lindo.
Acabo de chegar do hospital, onde meu marido ficou internado.
Meu abraço!
20 de agosto de 2008 at 8:25
Caramba! E está tudo bem por aí? Mande notícias…
Obrigada pelo carinho de sempre. Abraços,Nina.