A sala de visitas de minha infância - Lu Dias Do diário de um homem de letras - João Ubaldo



ago 21

 

Beagá costuma aparecer com algumas novidades, que apesar do reboliço do vai-e-vem diário, acaba por nos chamar atenção.

O que é louvável, pois na maioria das vezes, funcionamos como autômatos, zumbis que não sabem aonde querem chegar.

No ano passado tivemos a visita das vaquinhas mais lindas do planeta, plantadas nas praças e calçadas. Não faço idéia de como apareceram. Apenas sei que um dia a cidade amanheceu berrante. E ninguém deixava de admirar aquelas belezuras.

Todos os belo-horizontinos torciam, para que as lindinhas ali ficassem por toda a vida. Mas um dia, descobrimos que as vaquinhas tinham ido pro brejo.

Do mesmo jeito que apareceram, escafederam-se. Talvez seja coisa de extraterrestres.

Depois do ET de Varginha passamos a acreditar em tudo.

Mas um certo aparecimento marcou a minha vida para sempre. E até hoje me tira boas gargalhadas. Peço ao leitor que se apiede de mim e ria só um pouquinho.

Para que entendam melhor o causo, devo dizer que tenho um carinho muito grande pelos velhinhos, que tanto trabalharam pelo país e hoje recebem um “miserê” de aposentadoria.

Além de serem os coitados, presas prediletas dos larápios e de certas casas que lhes emprestam dinheiro, mas que depois lhes tiram o sangue, é comum ver muitos deles pedindo esmolas.

Pois, não é que o calor estava brabo na capital das Gerais e meu doce “husband”, minha filha e eu resolvemos nos refrescar com um choppinho gelado. Acho que tomei três. Não! A bem da verdade foram quatro. Desculpem-me, mas acho que ficaram na casa dos seis, até onde contei.

Estávamos a poucos quarteirões de onde moro, de modo que viemos a pé. Não sei se é porque a lua estava escura, embora fosse lua cheia ou talvez tenha brigado com o sol, chiliques de astros, o que sei é que a minha visão estava meio turva.

Eis que ao chegar numa pracinha (Bahia/Goiás/Goitacases) encontro dois pobres velhinhos, de pé, àquela hora da noite, pedindo esmola. Quanta judiação!

Meu coração que já estava meio conturbado por um “copito” de chopp, amoleceu geral. Meus olhos ficaram marejados. Então pedi ao meu amado que me desse R$ 4, 00 trocados. Ele não entendeu bem o que eu queria fazer, mas preferiu não me interrogar, em razão da altura do meu salto etílico.

Deixei-os para trás e me dirigi aos dois pobrezitos, na ponta da pracinha. Vi, que apenas um trazia uma caixinha na mão, o mais gordinho. Como eram amigos iriam repartir depois o que ganhassem.

Olhei a caixinha de escanteio, mas não vi onde colocar a oferenda.

Olhei de novo e… percebi que eram apenas duas estátuas. Recuso-me a comentar, que a esse tempo, a dupla que me acompanhava quase rolava no chão de tanto rir.

Descobri que a cidade estava toda cheia de estátuas de pessoas ilustres, tarde demais.

Resultado: sempre que ali passo com um indivíduo dessa risível dupla, ouço a pergunta:

— E aí Lu, não vai dar nada para os velhinhos hoje?

Agora, a história se inverteu: todo velhinho que vejo quietinho, penso que seja uma estátua.

 

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Publicado por Lu Dias Bh \\ tags:

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9 comentários para “O dia em que Drummond e Pedro Nava me enganaram - Lu Dias”

  1. célia maria disse: Reply to this comment

    lu

    Seis? Vc só sabe contar até seis? kkkkkkkkkk

    beijinhos

  2. Mary B. disse: Reply to this comment

    Ehhhh Lu, não podemos rir de vc não!!! O amor vai além do ser humano… ou seres inanimados também têm direito ao amor!!!! rsrs

  3. Lu Dias Bh disse: Reply to this comment

    Célia

    Aí está você que não me deixa mentir, pois eu lhe mostrei os dois senhores…risos…
    E quase aconteceu o mesmo conosco, num outro dia.
    Beijos,

    lu

  4. Lu Dias Bh disse: Reply to this comment

    Mary

    É por isso que a Célia diz que sou estrambelhada.
    Mas quem mandou a lua cheia ficar turva naquela noite?
    Não tive nenhuma culpa.
    Hoje os dois velhinhos sempre me alegram ao passar por eles, pois acabo dando boas risadas.
    Abraços,

    lu

  5. Nina Araújo disse: Reply to this comment

    “Acho que tomei três. Não! A bem da verdade foram quatro. Desculpem-me, mas acho que ficaram na casa dos seis, até onde contei.”

    Lu, ler voce é uma delícia e o final do velhinho como estátua,hehehehehe.Voce não é fácil!! Beijos,Nina.

  6. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    Nina Araújo

    Mas que essa foi uma das minhas maiores gafes, não resta dúvida.
    Pelo menos tenho motivos para rir, toda as vezes que por ali passo.
    Haja bondade no meu coração e chopp na cuca!
    Obrigada pelo carinho!

  7. célia maria disse: Reply to this comment

    lu

    Não me comprometa!!!! Os velhinhos são realmente umas gracinhas mas eu só
    fiz carinho neles, nem tive intenção de dar nenhuma esmola até pq
    estavam muito bem vestidos, o que seria uma afronta.
    E também não tomamos seis chopps, tomamos só trêssssss!!!!!!
    Da próxima vez vamos convidá-los para pagar um chopp para nós. kkkkkkkk

    beijinhos

  8. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    Celita

    Os três chopps (na verdade 5 meu e 6 seus) foram de quando lhe contei o causo, ao passarmos em frente aos ilustres…risos.
    Aquele foi o segundo capítulo da história.
    Já combinei com eles os nossos shopps. Vamos vender aquele livro de bronze…e beber uns 10, cada uma.
    Beijos!

  9. Maria Tereza disse: Reply to this comment

    Ainda bem que andava a pé…Olha o bafômetro aí, gente!
    Suas crõnicas são adoráveis.

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