Tizé - Terezinha Pereira Sonho impossível - Sonia Quartin



jul 25

Distração 1:

O telefone celular tocou. Pedro estava no fórum, esperando audiência. Advogado de renome era muito solicitado, e muito atencioso nos seus processos. Quanto às pequenas necessidades do cotidiano, mostrava-se sempre distraído. Sua irmã, Berenice ao telefone, nervosa:

— Pedro! Não dá mais! Vou me separar do Zé Paulo! Preciso de você!

— Na hora do almoço vou até aí! Estou no Fórum, esperando audiência. Não se precipite! Espere por mim! Calma!

Desligou. Berenice morava em uma vila do Andaraí, de casas parecidas com varandinha na frente.

A hora marcada, lá estava. Encontrou uma faxineira lavando a varanda com a porta aberta.

— Sua patroa…

— No banho. O capitão ta no quintal.

Pedro pensou: “Capitão? Mais um cachorro, na certa! Berenice e sua mania de cachorro!”

Entrou, procurando um assento na poltrona mais próxima. Tinha um violão sobre ela. Quem estaria aprendendo violão? Certamente não seria sua irmã. Nunca foi dada à música! Sentou-se confortavelmente e, com a intimidade que havia entre os dois, pegou o instrumento e começou a dedilhá-lo.

Eis que a porta do banheiro se abre e uma mulher estranha, apenas enrolada em uma toalha, passa pelo corredor e entra no quarto. Não era Berenice! Olhou em torno: Reparando bem, aquela sala nada lembrava a sala de sua irmã. Paredes de outra cor… Móveis de outro estilo… E aquela mulher lá no quarto… Aquela mulher de toalha não era Berenice… Então, o capitão…

“O capitão??? Não é um cachorro!!!!”

Saiu como uma bala pela porta, tropeçando na empregada e escorregando no sabão.

Distração 2:

Como advogado, Pedro era procurador de um senhor, proprietário de várias casas no centro da cidade. Recebia os aluguéis, alugava e realugava, tomando todas as providências necessárias de um bom procurador.

Certo dia, sendo abordado por um rapaz na rua - ó milagre! - reconheceu de imediato tratar-se de um dos inquilinos das tais casas.

— Bom dia, doutor Pedro!

— Bom dia, meu rapaz!

— Queria, mesmo, falar com o senhor!

Pedro pensou: “Lá vem ele falar da tal infiltração! E eu com tanta pressa! Com hora marcada!”

E antes que o pobre rapaz começasse a falar, interrompeu, dizendo:

— Não precisa falar nada, meu rapaz! Já sei do que se trata: encontrei seu pai, ainda agorinha, e ele me pôs a par de tudo!

O rapaz, atônito, gaguejou uma despedida e saiu quase correndo.

— Rapaz mais esquisito! – pensou Pedro.

Só quando foi receber os aluguéis, pode compreender o que se passara. Isso, por um comentário que aquele inquilino fizera com toda a vizinhança:

— O doutor Pedro, coitado! Não está bom da cabeça, não! Disse que encontrou com meu pai, que falou com ele! Meu Pai? Pois meu pai já morreu há mais de dez anos!

Pedro tinha reconhecido o rapaz, sim! Só confundiu o morador da casa 1, órfão de pai, com o inquilino da casa 3, com cujo pai tinha se encontrado pouco antes.

Distração 3:

— Pedro, meu camarada! Bom te encontrar! Ia mesmo te procurar. Tenho uma notícia muito triste para te dar: O Bira morreu!

— O Bira? Nosso amigão? Quando? De que? Tão moço! Da nossa idade, não? O Bira?

— De infarto! Ainda está na capela São João Batista! Capela seis! Hoje não posso ir, mas vou ao enterro!

— Amanhã, eu que não posso! Vou hoje!

Tocou para o cemitério. Amigos desde a faculdade os três: Pedro. Ricardo e Bira, como todos o chamavam. Devia essa última homenagem ao velho amigo.

Entrou na capela: caixão no meio do salão, ninguém em torno. Aproximou-se sem olhar para ninguém. O amigo tinha o rosto coberto por um lenço branco. Em sua lembrança, tanta coisa se passava: momentos que viveram nas salas de aula, as farras que fizeram… A formatura… Tantos sonhos… Seus olhos se encheram de lágrimas. Bons tempos! E agora o amigão ali! Tirou o lenço do bolso e enxugou as lágrimas que agora lhe escorriam pelas faces.

Vendo sua sincera emoção, alguém se aproximou. Levantou a cabeça, mas não reconheceu a mulher que, de pé à sua frente, parecia meio espantada. Pedro conhecia muito bem toda a família do falecido. Passara boas tardes estudando em sua casa. Tinha ido ao seu casamento… Mas… Quem seria a mulher que olhava comovida para ele? Não era sua mãe, muito menos sua mulher. Correu os olhos em torno: todos estranhos.

Disfarçadamente retirou o lenço que cobria o rosto do… Quem era este defunto? Não era o seu amigo! Deparou-se com um homem idoso e desconhecido. O que fazer?

Com a esperteza de um bom advogado, lenta e solenemente recobriu o rosto daquele estranho e, voltando-se para quem agora lhe parecia ser a viúva, falou, balançando a cabeça:

— Grande homem! Grande homem!

Sem mais uma palavra, em passos firmes e solenes deixou o cemitério.

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Publicado por Sonia Quartin \\ tags:

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Um comentário para “O Distraído - Sonia Quartin”

  1. Paulo Afonso disse: Reply to this comment

    O pior é que eu, com a idade, também ando muito distraído. Procuro seguir os ensinamentos do Manto Açafrão, personagem do amigo Carino, e prestar plena atenção naquilo que faço.

    [Resposta]

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