O doce e amargo sonho – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 10 de junho de 2010 16:11

(*) Por Paulo Valença

A casa grande foi demolida. Em seu local estão erguendo um edifício. A guarita ainda permanece. Guará parado na calçada analisa tudo, lembrando-se.

Naquela guarita, passou noites e noites… O Dr. Salomão (seria mesmo o seu nome?) chegando tarde da noite no carro importado cinza possante, macio. Após estacionar o carro saltava, com uma adolescente.

A lourinha com o medalhão dourado. A moreninha… E o escândalo depois. O desaparecimento das jovens. A dedução policial de que o sumiço delas tinha a ver com o tráfico de moças enviadas para o exterior, a serviço da rede de prostituição. A droga dominando-as, convencendo-as a partir, em busca do sonho de ser modelo. O doce e amargo sonho! As manchetes dos noticiários. E o colega Israel sendo assassinado ao sair de casa, por dois motoqueiros. O corpo no leito, ensangüentado do Dr. Salomão na casa à beira-mar, paraíso do sossego para o sexo e o consumo de drogas. Ele, Guará, descolocado, sua luta para retornar ao mercado de trabalho. O emprego de guarda do Transporte de valores… Tudo como se fosse um filme assistido, vivido, sofrido.

- Assim é a vida. Tudo passa.

O desabafo baixinho e de repente se lembra do velho do terceiro andar do prédio na calçada oposta, que ficava na cadeira de rodas à janela, olhando para fora. Xeretando, na ocupação de enfermo aposentado.

A janela está fechada.

Guará se afasta. No céu azul o sol de luz muito clara banha a rua, a construção que substitui a casa grande, as criaturas que se cruzam nas calçadas, os veículos na cena movimentada. Tudo seguindo uma ordem de prosseguimento. Haja o que houver, o mundo não pára, tem a própria marcha.

- É isso aí, seu Guará!

Fala de novo, gracejando. Dobra a esquina e na outra um pouco adiante, pega o ônibus, que parte em velocidade. Sim, o melhor mesmo é procurar esquecer o passado, o filme de ontem.

(*) Lu Dias BH disse:
Paulo Valença O escritor dos contos curtos.
Você é o escritor de seu tempo.

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8 comentários para “O doce e amargo sonho – Paulo Valença”

  1. Ana Lucia disse:

    Paulo,
    Triste realidade. Há que se realmente tocar pra frente, ainda que restem cicatrizes. Muito bom. Beijo

    Paulo Valença respondeu:

    @Ana Lucia,
    Ana Lucia,
    Você diz bem “Triste realidade”.
    Sim, e vamos pra frente. A esperança não morre. Mais do que nunca temos de ser otimistas!
    Obrigado por as palavras de incentivo.
    Abraço afetuoso.

  2. gutierritos disse:

    PAULO

    Infelizmente, hoje os dramas de nosso cotidiano estão recheados de droga, que cada vez mais está destruindo as famílias, principalmente nossos jovens.

    Mesmo desanimados, devemos perseverar na busca de soluções, virar a página, mas não esquecê-la, pois toda experiência traz mais sabedoria, mesmo que nos leve ao desanimo.

    Parabéns pelo conto, muito crítico, que nos faz refletir e bastante.

    abraços.

    Paulo Valença respondeu:

    @gutierritos,
    Gutierritos,
    É mesmo, o nosso cotidiano está com o drama da droga e, colega, nem gosto de pensar nisso. Só quando tento escrever é que me preocupo…
    Saudade de um tempo em que havia tranquilidade, ajuste social!
    Obrigado pelo comentário.
    Abraços.

  3. manoel rodrigues disse:

    Oi, Paulo
    Antigamente eu não gostava de passar pelos lugares onde havia vivido anteriormente, exatamente para não ser assaltado por essa nostalgia que tomou conta do Guará. Isso aconteceu inclusive com o local aonde trabalhei por vinte anos seguidos, mesmo que tenha sido eu a pedir demissão. Por isso, compreendo muito o sentimento exposto no seu belo conto.
    abraços
    Manoel

    Paulo Valença respondeu:

    @manoel rodrigues,
    manoel,
    A gente evita se lembrar do que viveu, nos marcou a existência com cenas dolorosas, contudo, com a idade, as lembranças chegam, nos transportando ao passado…
    Agradeço-lhe mais uma vez as palavras ao que produzo.
    Abraços.

  4. LuDiasBh disse:

    PV

    Tenho um ponto em comum com o Manoel.
    Também não gosto de passar em lugares que me trazem boas recordações.
    Para mim, a saudade é sempre doída, mesmo que seja de momentos bons.
    As pessoas começam a desfilar na minha mente, uma por uma…

    Perto de onde moro havia um estacionamento.
    Ali passava eu todos os dias e brincava com um gaguinho e o porteiro da noite.

    O seu conto é primoroso e comovente.
    Parabéns!

    Abraços,

    lu

    No lugar estão erguendo um prédio comercial.

    Paulo Valença respondeu:

    @LuDiasBh,
    Lu,
    É como eu já disse ao Manoel, com a velhice, nos chegam as recordações, principalmente as que tanto nos marcaram em dores e essas cicratizes provam que vivemos e afinal, adquirimos a experência, estamos mais forte para enfrentarmos o imprevisto.
    Obrigado por as palavras de apoio ao que escrevo.
    Abraço carinhoso.

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