O homem invisível (2) – Edgard Santos
2ª Parte
O casal não tinha filhos. Damiana, na flor dos vinte e três anos, freqüentava uma academia que ficava num mini Shopping Center ao lado da rodoviária. Seu corpo jovem, quase magro e elegante, estava totalmente em forma para todos os olhares que a admiravam e, principalmente para o marido que a amava. Mas teve que perder a gordurinha localizada na cintura e endurecer o bumbum. Religiosamente, todos os sábados pela manhã, acompanhava-a no passeio que fazia a pé para também exercitar-se. Foi num desses retornos que aconteceu o incidente. Cleber esperava por ela quase na saída do Shopping, sentado a uma mesa de lanchonete. Folheava uma revista que acabara de comprar na banca em frente; sobre a mesa uma garrafa e um copo em feitio de tulipa com mais espuma do que cerveja. A morena desceu os degraus da escadaria e, do patamar, jogou um beijo quando ele se viro u para olhar. Ainda trajava calça de nylon azul escuro colada ao corpo e um mocassim branco nos pés. A blusa de malha tinha marcas de suor recente da ginástica. Ele fez um sinal de OK e ela voltou para onde estava. Em menos de dez minutos já estava em seus braços de banho tomado, roupa trocada e cheirosa.
A chegada à casa foi diferente e insólita. Damiana tinha que disfarçar ao dirigir-se a ele na rua. As roupas que Cleber usava no momento do choque também sumiram inexplicavelmente, portanto o único sinal, em princípio, era a sua voz. Nào havia viva alma no local. Eles tinham acabado de atravessar a estrada e o beco entre as casas para seguir em direção à estrada de ferro. A chuvinha fria incomodava e o guarda-chuva voou pelos ares. Damiana viu-se desesperada. – Meu Deus! Amor, onde está você? Cleber!!! – gritou atônita.
– Hei! Estou aqui do seu lado, não está me vendo? – ele abraçou-a; a mulher tremeu da cabeça aos pés.
– Acalme-se, está tudo bem. Onde está o guarda-chuva? Vamos para casa.
– Amor, o que está acontecendo? Onde você está? Eu sinto você, mas não o vejo.
– O que!? Olhe aqui minha mão; esta vendo? Vê a minha mão?
– Não; eu não vejo sua mão, nem seu rosto, nem seu corpo. Eu não vejo você.
– Você está cega! Você quer dizer que ficou cega?
– Não! Você não está entendendo, amor, eu vejo tudo muito bem. Só não vejo é … você … não vejo você.
– O que!? Quer dizer que eu morri!… já não pertenço a este mundo? E eu que nunca acreditei nessas coisas.
– Mas eu sinto você; acho que não morreu. – Cleber segurou-lhe no braço.
– Sente minha mão? – perguntou.
– Claro! Perfeitamente.
– Tem certeza que não é a mão de outro homem? – brincou.
– Cleber?
– Oi!
– Não está usando um dos seus truques engraçadinhos?
– Juro que não; também não sou tão bom assim. Acho que está é querendo se vingar das minhas brincadeiras.
– Estou com medo – disse Damiana com a expressão contraída. Cleber viu que ela não brincava. Abraçou-a mais uma vez, acalmando-a.
– Vamos para casa; estou ensopado.
Passaram o resto do dia entre ações e experimentos, buscando um meio qualquer de reverter aquele quadro. Como não conseguissem, tiveram que se adaptar, principalmente Damiana que não estava acostumada a conviver com uma pessoa invisível. Ver copos, garrafas, livros e toalhas passeando pela casa, portas e janelas abrindo-se e fechando-se sozinhas e ouvir o som de uma voz sem saber ao certo a direção, era, no mínimo, inusitado para ela, quando não, hilariante. Fizeram o teste das roupas e constataram, dentro do óbvio, uma assustadora realidade. Cleber tinha que andar nu para não ser percebido ou conviver em ambiente cuja familiaridade o protegesse contra possíveis situações constrangedoras e de risco. Deduz-se logo que, a depender das circunstâncias, isto seria impraticável.
Esperaram três dias, no quarto saíram às ruas. O céu enfarruscado do fim de semana havia dado lugar a uma manhã limpa e agradável. Entraram no automóvel, um Alfa Romeo prateado, com Damiana ao volante. Para precaverem-se contra um eventual contratempo, tinham, no banco traseiro do carro, uma vestimenta completa para Cleber, composta de camisa esporte enxadrezada, calça de brim e sapatos com meias e uma cueca branca. Desceram a rua de paralelepípedos, contornaram a pracinha e, a estátua branca do chafariz, a botar água pelas ventas, parecia entender a situação de Cleber e zombar dela. Seguiram pela rua preferencial e Damiana, extremamente acautelada, premia a buzina ao aproximar-se de cada cruzamento. Chegaram em frente à cancela e tiveram que esperar pacientemente a passagem de um trem de carga com seus intermináveis vagões atulhados de carvão m ineral a granel que desfilavam indiferentes ante os veículos que já começavam a se fazer numerosos; passaram finalmente. Alcançaram a via de alto acesso, pegando o sinal ainda verde e atravessaram-na dobrando então a primeira à esquerda e Damiana estacionou ao final de uma fila de táxis amarelos a espera de passageiros e suas bagagens. Um menino magricela, de chinelos azuis e camiseta branca, quase escondendo uma surrada bermuda jeans, aproximou-se com uma caixinha contendo amendoins e chicletes. Ela adquiriu alguns e o guri, sorridente, embolsou logo as moedas. Distraída, Damiana ofereceu o amendoim ao marido que o pegou também sem cuidados. Foi o suficiente para o moleque arregalar os olhinhos encantados ao ver o saquinho flutuante e solitário. Cleber, entretanto, atinou com a gafe e desceu a mão insistente para o assento do carro, fazendo desaparecer da vista do atordoado garoto o enigma.
A mulher pegou as peças de roupa, dobrou-as com cuidado e meteu-as numa bolsa grande de couro marrom com zíper. Daí, saíram a pé para uma insólita caminhada. Foram horas de apreensão e muitas vezes mal estar, ao fim das quais Damiana viu-se completamente estressada. As situações que precisou enfrentar, os disfarces e as constrições acabaram por afetar-lhe o humor ao fim do dia.
– Não sei o que vai ser de nós. Você viu que maçada? – disse, atirando-se no sofá escarlate de sua confortável sala de estar. Os pés, ajudando-se mutuamente, livraram-se das sandálias de tiras douradas e ela descansou as pernas sobre um dos braços do estofado e a cabeça e as mãos sobre o outro. Na poltrona em frente, um copo comprido com conhaque e gelo subia e descia.
– Não foi engraçado aquela cena na porta da academia? Sua amiga loirinha deve ter achado que você perdeu o juízo quando olhou para o lado e falou com a parede. E o pior é que eu nem estava ali.
– Aonde você tinha ido?
– Você não se lembra, paixão? Desci para ir ao banheiro, até dei um beijinho com estalido em sua boquinha… invisível, é claro.
– A coisa não é para brincadeiras. Foram tantos os momentos de tensão que tive que contornar. Tenho quase a certeza de que não consegui enganar muita gente. Imagino o que devem ter pensado de minhas estripulias aqueles que as perceberam. Devem ter-me tomado como maga ou, pior, como doida varrida.
Cleber, ou melhor, o seu espectro, levantou-se e, acocorando-se junto à esposa com o copo agora pairando entre as pernas, beijou-a e ela sentiu-lhe os lábios úmidos e um leve aroma da bebida ao retribuir-lhe o gesto com afagoso toque de mão entre os cabelos da nuca.
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