O índio e a terra – 2ª parte – Mário Mendonça

Por Mário Mendonça, 6 de outubro de 2008 8:26

(Discurso feito pelo Chefe Seattle ao Presidente Franklin Pierce em 1854,
depois de o Governo Americano ter dado a entender que desejava adquirir o Território da Tribo).

 

Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.

Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as árvores, o homem.

O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensivel ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragância das flores campestres.

Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.

Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios ) matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.

Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra – fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

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5 comentários para “O índio e a terra – 2ª parte – Mário Mendonça”

  1. Lu Dias Bh disse:

    Mário Mendonça

    Continuo apaixonada por este texto.

    Não sei divisar que parte é mais comovente e verdadeira.

    Até eu, que sempre me julguei universalista, tenho muito a aprender com ele.

    Este devia ser o Evangelho da Humanidade.

    Não haveria necessidade de leis humanas ou religiosas.

    Como pode alguém ler este texto divino e não se tocar.

    Talvez seja feito de pedra.

    Na parte que diz:

    “Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.”

    Somente ainda não foi absorvida pelos tolos e prepotentes, pois o cosmo é uno.
    Não há nada que façamos de que não advenha uma consequência, boa ou ruim.

    Somos apenas o apêndice de tudo que existe abaixo e acima de nós.

    Até quando poderemos negar tal verdade?

    Talvez até quando a vida estiver quase que totalmente em extinção.

    Mário,
    pena que textos como este não ocupem a mídia mundial.

    Somos ainda muito pequenos para o entender por completo.

    Precisamos crescer como seres humanos.

    Obrigada, amigão!

    lu dias

  2. Moacyr disse:

    Mário

    Comungo com todas as palavras ditas pela Lu. Pena que a comunhão não atinja pelo menos 1/4 da humanidade. Não deveria haver uma sala de aula, onde o professor responsável pela língua do país, deixasse de levar a seus alunos idéias tão propícias a nosso tempo. Não deveria haver uma só repartição pública, onde cada funcionário não pudesse ter acesso a este texto. Não poderia haver uma só empresa, onde os empregados não tomassem conhecimento de tais verdades.
    Meu abraço,

    Moacyr

  3. Mário Mendonça disse:

    Caríssimos Lu e Moacyr.

    Não imaginava que Vsas, iriam se apaixonar tanto por este escrito, mas fico muito feliz, que tenha contribuído para tal.

    Faz muito tempo que o li, e se falar onde, vocês não iriam acreditar. E desde a primeira vez, me veio um sinal de alerta para esta pérola apache.

    Infelizmente, aquele povo foi dizimado, pelos bárbaros colonizadores europeus, que fizeram daquela terra, um corpo sem alma, onde impera a intolerância e o desprezo pelo seu semelhante.

    ” Lu, para crescermos, como seres humanos, não é difícil, basta olharmos ao nosso redor ” .

    Fico agradecido.

    Um grande abraço.

  4. Lu Dias Bh disse:

    Mário Mendonça

    Faça o favor de tratar a mim e ao Moacyr de “vocês”.
    Ainda nem fomos eleitos vereadores.
    Nada de finesse!

    Caso contrário vou chamar você de Excelência.
    Todos gostaram do texto.

    Grande beijo!

    lu

  5. Lu Dias Bh disse:

    Mário

    Não fique rondando por aí de bar em bar.
    Basta vir ao blog do Paulo Afonso.
    Beijos,

    lu

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