O meio do homem – Terezinha Pereira

Por Terezinha Pereira, 6 de janeiro de 2010 18:18

 

O homem alto deita-se no chão. Numa praça. Bem no centro da cidade. Fecha os olhos. Sente fugir-lhe o ar. Era como se ocupasse o espaço do ar. Um ar seco e denso. Quase pode pegá-lo.

Onde estão as árvores?

O homem ouve o ruído da pouca água do rio que corre perto daquela praça. Água que, algum dia, fora incolor, sem cheiro, sabor de água. Hoje, esse fio d’água corre pela cidade quase em silêncio. Tem cor de ferrugem, cheiro de enxofre e gosto de muita coisa. Menos de água. O homem já viu peixes nadando naquele rio. Ele sabe. Peixes alegres. Cardumes inteiros nadando. Pra lá e pra cá.

Para onde foram os peixes?

O homem abre os olhos. Havia uma montanha bem ali na frente. Montanha de ferro.

Para onde levaram a montanha?

Buzinas. Arranques de veículos. Apitos. Veículos da mídia ambulante:

_ Olha a uva do sul!

_ Abacaxi, abacaxi massa amarela.

_ Os melhores móveis de jacarandá-da-baía, você compra nas Lojas do Pedro!

_ Jacarandá? Ainda existe? Cerejeira? Sucupira? Mogno? Uva e abacaxi têm gosto de mofo. Bom seria para o homem alto, que colocasse um algodão no ouvido para ficar na saudade. Saudade…….. até mesmo do cocô de passarinho, que há algum tempo, sujava toda aquela praça.

Para onde foram os passarinhos?

O homem alto se levanta. Parece sentir-se mais alto ainda. Cabeça bem distante dos pés. Olha a seu redor. Vê a poeira avermelhada que cobre os telhados das casas. Vê um restinho de grama no jardim que-já-foi-verde.

E eu? Para onde vou?

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10 comentários para “O meio do homem – Terezinha Pereira”

  1. Ana Lucia disse:

    Tetê querida,
    Chega a doer a sua crônica de tão verdadeira. Às vezes me pergunto o que ainda vai sobrar. Um pena como estamos a perder tudo. Falta consciência, minha amiga. Eu sempre tento fazer minha parte. Um beijo. Ana

    Terezinha respondeu:

    @Ana Lucia, Obrigada pela leitura.
    Acredita. Este texto foi escrito em 1992.
    Há 18 anos! E o que mudou de lá pra á?
    Beijo,
    TT

  2. Lu Dias BH disse:

    TT

    Ao ler a sua crôncia, lembrei-me do filme Mad Marx, que trata da decadência da Terra.
    Senti uma sensação ruim, de tão real que me pareceu.
    Tocou-me profundamente o coração.
    Tomara que este dia nunca chegue.

    Parabéns por este texto tão tocante.

    Beijos no coração,

    lu

    Terezinha respondeu:

    @Lu Dias BH, Obrigada, menina!
    Os acontecimentos derradeiros me levaram a buscar esse texto. Nem imaginava a idade dele. Foi escrito em 1992. Naquela época a natureza já emitia seus sinais.
    Beijo,
    TT

  3. manoel rodrigues disse:

    Oi, Terezinha
    No seu belo texto eu senti uma deterioração completa: do ambiente e da vida do homem, ambos precisando de ajuda. Torço que ela chegue ao homem, pois assim ele será capaz de prover a outra. O homem, à semelhança divina, pode tudo, se saudável de espírito.
    Abraços
    Manoel

    Terezinha respondeu:

    @manoel rodrigues, Obrigada, Manoel.
    Estamos mesmo precisando nos ajudar. Que o façamos enquanto resta algum tempo.
    TT

  4. GUTIE disse:

    TEREZINHA

    Lindo seu texto, mostrando de uma forma bem diferenciada a ação humana destruidora da natureza.

    Temos que fortalecer nossa consciência ecológica e entendermos que poderemos um dia acordar muito tarde.

    Parabéns pelo teu texto.

  5. Terezinha disse:

    O que sinto é que, em duas décadas de “alertas” quase nada tem sido feito1
    Obrigada pelo apoio à causa.

    TT

  6. Edgard Santos disse:

    T.T.

    Bem escrita a sua crônica.
    Procuro ser otimista e acreditar que o bom Deus esteja a nos passar uma tremenda repreensão por sermos tão cabeças duras.
    Ele não quer nos destruir, mas que despertemos e mudemos de atitude em relação ao meio ambiente, preparando-nos para um novo ciclo. Beijos,

    E.S.

    Terezinha respondeu:

    @Edgard Santos, Deus não está a nos castigar. Apenas, estamos sofrendo consequências de atos praticados por nós, “seres desumanos”.
    Obrigada pela leitura.
    TT



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