O olhar impudico farejava o amor. Procurava o amor por todo lado, em cada canto, jardim, quintal, praia, quarto, balada, carro, tela de cinema, de televisão, enfim, em qualquer cena de pretenso romance, de desejo, de afagos, por onde pessoas se encostassem, o olhar impudico lá estava, farejando o amor.
O amor, por sua vez, se escondia. Não aparecia mesmo, pois não estava onde o olhar impudico pensava que o encontraria. Estavam presentes a adrenalina solta, o cio descontrolado, a ânsia de acabar com a solidão, o ardor da carne, a intenção de se exibir, o malabarismo, a vontade de mostrar competência, mas o amor, não estava presente.
Ele era arredio, delicado, sua consistência era tecida com fibras mais finas do que a fibra ótica, num entranhado misterioso, iluminado e sólido, apesar da aparente fragilidade. Ao mesmo tempo que era forte como uma rocha, a suportar até furacões, era fino como um caniço, pois não se quebrava. Ao mesmo que era manso como um beija-flor, era arrojado como ondas batendo na pedra. Ao mesmo que era querido, era temido, pois colocava as pessoas em estado de ternura tamanha que assustava.
Amor que sabia misteriosamente se esconder e não sucumbir à tentação de atender a todo chamado. Sabia reconhecer quando o chamavam de verdade, para valer. Era sabido o suficiente para não se deixar enganar.
Mas o olhar impudico não desistia. Como adorava se mostrar fantasiando-se de amor! Como aparecia bufando qual moribundo às portas da morte, mostrando no rosto toda a sua inverdade e sua intenção apenas de provocar sensações. Como era falso o olhar impudico refletido nos olhos de falsos amantes, colocando limites na eternidade. Tudo fugaz. Após seu exercício muitas vezes acrobático, para fazer sucesso, restava uma abissal solidão.
Por isso o amor se escondia tão bem. Sabia que seria usado em ilusões que o diminuiriam, que o deixariam muito, mas muito triste mesmo.
Um dia, depois de quase ser descoberto pelo olhar impudico, o amor resolveu que se esconderia bem longe, quase impossível de ser alcançado. Mas também resolveu que deixaria uma senha para ser buscado por aqueles que o desejassem ardorosamente.
E foi morar na Via Láctea. No caminho dos deuses do Olimpo. Bem longe mesmo. Não havia avião que o alcançasse, nem foguete espacial, sequer uma sonda o veria, mesmo usando o maior e melhor telescópio do mundo.
O olhar impudico desistiu dele e ficou mesmo por aqui, usando em vão o nome do ausente e causando danos irreparáveis aos sentimentos humanos.
E o amor passou a ser encontrado somente, como diz a canção, por aqueles que têm estrelas nos olhos e costumam andar bem mais de mil léguas só para buscar as flores de maio azuis.
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28 de agosto de 2008 at 10:35
(Poema dedicado a Hila Flávia depois de ser seu texto sobre o olhar impudico)
Meu Olhar é Santo
O meu olhar de amor
é dissonante
não sai à cata do cio,
é quase santo, macio
não sucumbe a adrenalina
das noites de pegadas
no clima está calejada
é firme nas madrugadas
porque tem a doma cansada
dos ardores vazios
dos disparos da endorfina
do vão suspiro acrobático
que parecia simpático
mas amanhece em fastios
meu olhar de amor
é bravo conquistado
é calmo das noites banais
é curado das fantasias
é safo dos ares carnais
do discurso sensualizado
o meu olhar de amor
mora longe
não vive fácil nas ruas
não faz ares de fome
nem se trai com a coruja
meu olhar de amor
não se curva
e dorme na fonte do plexo
mora onde o beija-flor sonha
mora onde a pérola é ostra
que todo o coração espera
o meu olhar de amor
é fera
que não tem porque se apressar…
Nina Araújo
28 de agosto de 2008 at 10:37
Fiquei maravilhada com este seu texto maravilhoso e quando dei por mim estes versos pularam. Abraços, Nina.
3 de setembro de 2008 at 2:08
“E o amor passou a ser encontrado somente, como diz a canção, por aqueles que têm estrelas nos olhos e costumam andar bem mais de mil léguas só para buscar as flores de maio azuis.”
HILA,
isso é o amor. Que desfecho mais belo!
Tetê