O otimista num boteco do Leblon – João Ubaldo Ribeiro

Por Editor, 8 de outubro de 2008 19:47

— Ih, achei que estava chegando cedo e já encontro vocês todos esbravejando e xingando o governo e falando mal de tudo, que coisa!

— E tu quer que alguém fale bem de alguma coisa?

— Quero! Quero! Ou então falem de mulher, nunca mais se falou em mulher aqui. Aliás, mulher nem encosta mais aqui, com este baixo astral, esta mistura de velório com broxura, vamos parar com isso! Broxura cívica, ha-ha-ha! Broxura cívica, querem vocês. Tesão patriótica, digo eu! Sacou? Eu hoje estou com a macaca, respondo qualquer coisa.

— Não é possível que você esteja achando tudo bom.

— Estou, estou! Não tenho queixa. Eu sou um otimista nato, vou a qualquer extremo para defender o otimismo, não vou morrer tortinho e cheio de estresse como vocês. É uma questão de perspectiva. Da perspectiva otimista vai tudo bem mesmo. Aliás, nosso problema é o pessimismo. Se não fosse ele, estaríamos muito melhor.

— Ah, então vamos ver. Atenção, pessoal, o Bigode está dizendo que basta otimismo para salvar o Brasil.

— E basta mesmo. O que dá pra chorar dá pra rir, cara, com todo o respeito ao grande Billy Blanco. Olha aqui, hoje eu estou armando uma tenda de pai-de-santo otimista aqui, podem perguntar tudo, que eu derrubo qualquer coisa no otimismo. Pergunta aí, vai.

— Então esclareça aqui uma coisa que a gente vinha discutindo quando você chegou, só essa já vai pegar você. É o seguinte: tu entendeu o que aquele general explicou sobre as despesas da Presidência tipo segurança nacional?

— Entendi perfeitamente, ele falou português, não falou?

— Ah, tu tá querendo sacanear, tu sabe que não é isso o que eu quero dizer. Claro que ele falou português e todo mundo entendeu o português.

— Agora quem ficou sem entender fui eu, cara. Vamos na lógica silogística: 1)todo mundo aqui entende português; 2)ele falou português; 3)logo todo mundo entendeu o que ele disse. Lógica aristotélica da melhor qualidade. E agora tu vem me dizer que ninguém entendeu? Não é verdade, todo mundo entendeu.

— Saco, Bigode, tu sabe o que eu quero dizer!

— Claro. Tu falou português, eu falo português e portanto sei.

— Tu quer curtir com a cara da gente mesmo, deixa pra lá.

— Deixa pra lá, não, eu avisei que tudo aqui ia ser dentro de uma perspectiva otimista. Se você quer ouvir o ponto de vista otimista, só podia querer ouvir isso que eu falei.

— Tá legal. Do ponto de vista otimista, o que foi que o general disse sobre despesas envolvendo a segurança nacional?

— Essa também é mole. Disse que despesas que envolvem a segurança nacional são despesas que envolvem a segurança nacional.

— Muito bem, e o que são essas despesas, dê um exemplo.

— Vamos lá. Vamos supor que um dos 86 ministros, por falta do que fazer, goste de chupar pirulito, nos intervalos das sonecas da reunião. Aí um terrorista descobre isso e envenena o pirulito do ministro. Daí a uns dois ou três dias, quando descobrissem que o ministro não estava mais dormindo, o mal já estaria feito. Melhor prevenir que remediar.

— O pirulito do ministro. Bigode, você…

— Podia ser até pior, podia ser o Pirulito Presidencial, só que não contam com a astúcia dele, que não pára de falar e não dá tempo para enfiarem nem um chiclete, quanto mais um pirulito, na boca dele.

— É, faça sua piadinha otimista, mas o general mesmo também disse que não saberia bem enumerar as despesas devidas à segurança nacional.

— E não deve saber mesmo. De repente o presidente passa a gostar de sorvete de tapioca e se esquece de avisar ao general, já imaginou nova crise da tapioca? O país não ia agüentar.

— Mesmo assim, já formaram duas CPIS para investigar.

— Medida de economia! Nenhum otimista vai deixar de ver isso imediatamente.

— Bigode…

— Tá na cara! Em que é que essas CPIS vão dar?

— Em pizza. Isso todo mundo sabe.

— Mas você disse isso num tom pessimista e fica infeliz. O otimista vê isso e fica feliz. Já que ambas vão dar em pizza, faz-se somente uma comemoração e economiza-se a outra. Isso para não falar na possibilidade de que alguém queira botar veneno na mozarela do dr. Garibaldi e olha mais uma despesa de segurança nacional aí.

— É cara, pensando bem, de certa forma você tem razão, tem que ver as coisas assim mesmo.

— É claro! A vida é curta e vivemos num país feliz, com o melhor presidente do mundo, já temos o mesmo presidente aí engatilhado, o esquema necessário está sendo somente ajustado e…

— Espere aí. Outro dia ele chegou quase a gritar, dizendo que não queria saber de terceiro mandato.

— Por isso mesmo. Faz parte. Já se sabe até o nome do primeiro candidato que ele disser ou sugerir que vai apoiar.

— Você já sabe o nome?

— Bem, mais ou menos. Genericamente, digamos. É Boi-de-piranha.

 

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