O pedido – Haydée Colussi
Vindo do rodeio, lindo como uma aparição mágica, ele saltou da garupa de Trovão em frente à varanda da sede da fazenda.
Seu José o levou o cavalo de pelagem muito escura e brilhante para o galpão
- Licença?
- Entra Otávio, respondeu meu pai, chega aqui para um mate.
Deus fora bom prá mim pois eu estava com meu vestido de cambraia, todo bordado, que me ficava sempre tão bem.
Meu coração corcoveava por causa de sua chegada. Deolinda que sempre cuidara da gente caprichara nas minhas tranças e até se poderia dizer que isto tudo me deixara muito bonita.
Pedro, meu irmão mais velho, e meu pai estavam nas poltronas da varanda tomando chimarrão e eu no balanço inventado por meu avô e que ficava suspenso por correntes presas ao teto.
Era um balanço grande que dava muito bem para quatro pessoas.
Otávio pediu licença a meu pai e sentou-se a meu lado só que na outra ponta do assento, mas com o salto da bota no chão, ele mudava o ritmo do balançar o que me deixava muito nervosa e de rosto vermelho pois meu pai poderia notar que a seu modo ele estava me embalando.
De lá do galpão, vinha o som da viola de Seu José, um dos tropeiros e marido de Deolinda, que cantava uma toada dolente.
Quando meu Pai tornou a encher a cuia do chimarrão Otávio me olhou dentro dos olhos e meu corpo todo tremeu.
Só consegui baixar os olhos pois se tentasse qualquer outra coisa não iria poder mesmo.
À noite ia ter baile na sede e as mulheres da casa com os empregados arrumavam tudo para que nada tivesse a ousadia de dar errado.
Minha mãe tinha seus “ditos”. “O que é bem feito, dificilmente pode dar errado.” Ou “Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar.” Ou então “Como diz sempre teu pai – Se é vaca roceira não tem cerca que a segure.”
Esses ditos de cunho moral nos acompanham até hoje e eu me surpreendo repetindo-os às vezes.
Naquela noite a casa estava um esplendor.
A orquestra já chegara e os músicos estavam na cozinha comendo.
Num momento de distração de todos, Otávio chegou perto de mim que colocava os guardanapos ao lado dos pratos e falou baixinho.
- Quero falar contigo. Despista D.Deolinda e vai até a mangueira grande que eu te espero lá.
Deixei passar algum tempo e dizendo ir ao toilette fugi pela porta dos fundos e fui encontrá-lo muito excitada.
Assim que cheguei à mangueira grande atrás da casa ele lá estava.
Sorriu do meu jeito nervoso e chegando perto me falou.
- Hoje vou pedir tua mão. Posso?
Eu não consegui falar tal a emoção que sentia por isto balancei a cabeça num sim.
- Olha, e abrindo uma caixinha de veludo me mostrou o anel da mãe dele que eu sempre achara lindo. Prá mim era a jóia mais bonita que ela tinha.
- Deixa eu ver se te serve.
Muito nervosa e com as mãos tremendo deixei que ele me colocasse o anel no dedo.
Estava um pouquinho grande mas eu o queria assim mesmo.
Sem soltar minha mão ele me puxou de leve contra seu peito e me deu um beijo longo que me fez levitar.
Senti seu corpo forte e o mundo girou a minha volta. Tudo era maravilhoso. Naquele instante eu poderia fazer qualquer coisa
Quando se é jovem e feliz a vida é nossa e nós somos eternos.
Desde a noite do baile de meu noivado já se passaram muitos anos.
Otávio e eu agora estamos mais velhos, a vida teve algumas dificuldades, meu corpo está bem mais maduro e a vida continuou.
Uma coisa no entanto nunca mudou.
Até hoje, basta que ele me olhe nos olhos para tudo voltar numa bruma gostosa. Então o gosto da sua boca na minha como foi naquela noite do pedido eu ainda posso sentir.
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Déia,
Que mate abençoado aquele, hein?
Foi o começo de uma linda e duradoura relação. E a excitação do primeiro beijo a gente nunca esquece, não é verdade?
Você tem um grande talento para relatar belas e marcantes recordações. Muito bom. Beijos,
Edgard Santos
Haydée Colussi respondeu:
julho 28th, 2009 at 20:23
@Edgard Santos,
Edgard querido,
Fico feliz que tenhas gostado.
Tens razão. Dos beijos de amor a gente nunca esquece. Sua sensação fica na boca prá sempre.
Obrigada querido
É muito gostoso escrever aqui no Oasis.
Beijos
Deia
deia querida,
‘Quando se é jovem e feliz a vida é nossa e nós somos eternos.’ Que verdade, minha amiga! Lindo! Muito bom! Beijo. Ana
Haydée Colussi respondeu:
julho 28th, 2009 at 20:28
@Ana Lucia Timotheo da Costa,
Aninha querida Linda!!!
Como é bom encontrar almas irmãs neste mundo. Obrigada por fazeres parte e obrigada por leres o que escrevo e por concordadres comigo quando digo que quando se é feliz a gente é indestrutível, feito super herói.
Beijos querida
Deia
Haydée
” lembranças, purificam e alegram a alma”
” foi ontem ” !!!
Abraços
Haydée Colussi respondeu:
julho 29th, 2009 at 3:00
@Mário Mendonça,
Mário querido,
Já respondi mas não sei o que acontece com alguns dos meus coments. De repente sem mais nem porque eles somem nalguma esquina do alma carioca, fogem e nunca mais são encontrados. Fico triste pois de alguns deles eu até que gostava.
Mas tudo bem. Não vamos chorar o leite derramado.
Aí vai outra.
Que lindo o que me dizes.
Amei que penses assim pois desse teu jeito a esperança nunca morre ela virá amanhã, como para Scarlett O’Harajá que com toda e qualquer dificuldade que surgisse ela sempre se valia do seguinte estratagema: “Vou pensar nisto amanhã!!!”. Isto tudo e mais o fato de que as lembranças sempre trazem para perto da gente o que já nos aconteceu de bom não importando quando.
Beijos
Deia
HAYDÉE
Que romantismo.
Gosto tanto quando escreves com o teu coração.
É tão maravilhoso!
Já tive essas lembranças. São tão lindas.
E conseguistes colocar, encantadoramente, o amor no seu texto.
Parabéns. Foi ótimo ter lido.
Haydée Colussi respondeu:
julho 30th, 2009 at 2:50
@GUTIERRITOS,
Gutierritos,
Querido. És sempre, como já te falei uma vez, um príncipe em teus comentários.
Estimulante, delicado, inteligente e sempre sempre um amor.
Adoro quando falas do que eu escrevo e fico feliz quando te leio.
Um beijo
Haydée