O pedinte – Dayse Maria Campos Ferreira

Por Editor, 3 de novembro de 2008 17:45

Durante o expediente, no momento da “pausa para o café”, um colega, indignado, contou para o grupo que se formava em volta da cafeteira o motivo de sua indignação. Disse ele que, durante o almoço, em sua casa, havia atendido um certo sujeito com aquela cara de “sou muito pobre, me ajude!”. O homem iniciou um discurso dizendo coisas como: “sou pobre, mas não tenho vergonha de pedir; pedir é melhor que roubar; minha mulher e os 12 filhos estão doentes e com fome; não consigo trabalho; os remédios são caros (claro que ele apresentou aquela famosa receita toda rasgada e suja). Por fim, o tal sujeito pediu um dinheirinho para comprar arroz ou, pelo menos, um pouco de fubá. Meu amigo disse ter oferecido ao homem, não dinheiro, pois estava sem nenhum “trocado”, mas um bom prato de comida. Resolvido assim, mandou a patroa arrumar aquele “prato feito” digno de um estivador e serviu ao homem, dando-lhe, também, um saco cheio de paezinhos, sobra do dia anterior, mas em totais condições de consumo. Pois bem, a história já vai longa e nada de sabermos o porquê da indignação do meu amigo. Ocorreu que o homem pegou o prato e os pães e sentou-se na calçada. Alguns minutos depois, o amigo, feliz por ter praticado a caridade da semana, saiu de casa para o trabalho. E não é que ele, a alguns passos da porta de sua casa, vê, por trás de umas pedras, toda a comida que havia oferecido ao sujeito… e a sacola com os pães também!

Indignado!!! Assim estava meu amigo. Jurou nunca mais perder o seu precioso tempo para ajudar qualquer vagabundo, ainda mais no momento em que deveria estar em sua poltrona, cochilando após a merecida refeição e esperando a hora de voltar ao batente. Indignado!!! Revoltado!!!

Eu e os outros partimos para a solidariedade e foi um tal de “que absurdo!”; “que horror!”; “esse mundo está perdido!”; “não suporto esses vagabundos”; “por isso é que eu nem atendo a campainha!”; “eu digo sempre que a patroa não está”- completou uma das mulheres que fazia parte do grupo. Eu mesma entrei no coro e declarei minha total concordância com a indignação do amigo e com sua decisão de não mais “fazer papel de trouxa”.

Mas, voltando à rotina do trabalho, pensei em como fomos capazes de generalizar a situação. Aquele homem havia pedido dinheiro, recebeu comida e jogou fora. Mas será que todos os pobres que pedem dinheiro para comprar comida estão mentindo? Será que todos os que receberem um prato de comida, irão jogá-lo fora? Será que todos os maltrapilhos com os quais nos deparamos pelas ruas são vagabundos? Não seria cômodo demais fazermos desse caso um motivo para não atendermos a campainha quando se tratar de um pedinte? Não seria por demais injusto olhar nossos irmãos de humanidade, esses que moram na mesma casa que nós – o planeta Terra, como se fossem seres indignos de nossa atenção, de nosso respeito e de nossa confiança?

Afinal, cheguei à conclusão de que não vou simplesmente fingir que não há pobreza real; não vou fazer de conta que injustiças sociais não existem, nem vou me fazer de surda fingindo não ouvir o pedido de ajuda ou me fazer de cega, fingindo não ver a mão estendida. O bem que eu fizer é problema meu, e eu sei que devo fazê-lo. Quem receber de mim esse bem, faça dele o que bem entender, isso não é problema meu. Eu quero me preocupar com as minhas ações; quero agir dentro da ética e do sentido de humanidade. Se alguém fizer mau uso do que receber de mim, tudo bem. Cada um dá o que tem. Lembro-me de uma frase que li em um livro de Allan Kardec e que me faz pensar na lógica de tudo isso: “Você é responsável por todo o mal que ocorrer como conseqüência do bem que deixar de praticar”. Isso é muito sério.

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4 comentários para “O pedinte – Dayse Maria Campos Ferreira”

  1. Paulo Afonso disse:

    Dayse, seja bem-vinda. Muito bom o texto, como já disse no e-mail que enviei. Escreva sempre. Pelo jeito vou mudar o nome do blog para “Alma Mineira” :-)

  2. GUTIERRITOS disse:

    PREZADA DAYSE

    Gostei muito de sua crônica, pois deu ênfase ao sentimento de solidariedade que deve habitar nossos corações.

    A compaixão é o sentimento fraterno que nos coloca a nu diante de nosso semelhante.

    Nós somos o outro.

    E assim podemos nos transformar a todos.

    Parabéns pela sua crônica.

    Boa noite.

  3. Lu Dias Bh disse:

    Dayse

    Também sou mineira.
    É um prazer tê-la conosco.

    Fatos como esse já me aconteceram e me deixar p…. da vida.

    Até o dia em que compreendi que não importa o que outro faz com o que lhe ofertei com todo o meu coração, mas a ação em si, feita por mim.

    Pois quem dá, recebe muito mais de que quem recebe.
    E não é a postura do outra que impedirá que muitas coisas boas retornem para nós.
    E há coisa melhor de que se sentir útil?
    Dividir um pouco do que temos em excesso?

    Dias atrás um rapaz me pediu dinheiro para comprar comida. Eu esta na rua.
    Como já havia eram umas quatro horas, levei-o a um carinho de sanduíche mais próximo, pois nunca dou dinheiro.

    A senhora fez um belo sanduíche para ele e refrigerante.
    Mal dei as costas, ele o jogou no chão, conforme me contou a senhora depois, pisando em cima e gritando que queria era dinheiro.
    Ou seja, ele queria dinheiro para comprar drogas.

    O importante foi a minha boa ação.
    O resto é com ele e a vida.
    Em hipótese alguma dou dinheiro.
    Quando vêm com receita, vou até a farmácia junto.

    A droga torna esses seres abomináveis, mas não pode, em função disso tirar a nossa humanidade.

    Beijos,

    lu

  4. [...] com a intenção de despertar nossa atenção para o assunto. Pensei em fazer isso após ler “O Pedinte“, no qual uma alma bondosa se revolta ao ver a comida que havia oferecido a um pedinte ser [...]



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