Procura-se boas notícias - Terezinha Pereira Perdoar - Ailton Ferreira



dez 02

1
O velho estaciona o carro e, como se medisse o gesto, devagar saltando, fecha a porta e adentra no bar.
Sentado no tamborete, o rapaz fitando-o, indaga:
- Tudo certo, seu Gilson?
Sentando no tamborete defronte, o idoso responde:
- Tá, tudo bem.
Silenciam. O rapaz prende a atenção à rua, que, ante o início da noite, diminui o cruzar de veículos e pedestres.
Na calçada oposta, a luz do poste está mais fraca.
- Aquela lâmpada vai logo se queimar.
- É, também já notei, seu Gilson. Mas… o senhor não vai querer nada?
Sorrindo, o homem graceja:
- Se quero? Claro que quero, Romeu. Você já me viu chegar e não beber? Não, deixe, que eu mesmo pego a cerveja.
Levanta-se e sempre devagar, retira a garrafa do freezer ao lado. Depois, retirando o copo da bandeja à lateral, retrocede ao balcão, onde bebe.
Seu Gilson não quer mais pensar. Há quantos dias, noites, reflete? A falta de apetite, a perda de peso, o nervosismo que o acomete de súbito…Com sua mãe também foi assim. Teme que a doença seja a mesma que por medo, deixou de fumar, que, até o nome não pronuncia…
- Outra cerveja?
Desperta com a indagação:
- Quero, quero.
Coxeando da perna esquerda, o rapaz então se aproxima. Como se não lhe percebesse o defeito, o velho, com nobreza, foge a vista.
No poste, a iluminação pisca, pisca. Morrendo.
Estendendo o braço, Romeu liga o som, na prateleira vizinha.
A música irrita o freguês:
- Tem consciência, Romeu: baixa isso!
Atendendo-o, o rapaz retrocede ao tamborete. E mais uma vez põem-se calados.
Um menino passa na calçada e grita, em provocação:
- Acorda, Romeu!
- Vai te lascar, “dorme-sujo!”.
Gozando a irritação causada, o menino sorrindo, distancia-se.
O sensato lhe será consultar um médico, tirar essa dúvida, encarar a realidade. Talvez tudo não passe de sua imaginação. Não se encontre doente, esteja - como sempre - apenas imaginoso, pessimista.
Ligeiro bebe, enquanto Romeu cabeceia, cochilando.

2
Ela vence a escadaria que liga o morro à avenida. É alta, esguia, loura. Em calças compridas vermelhas, blusa branca e sobraçando a pasta colegial, move-se com graciosa pressa.
Na mercearia de Elias, o negro percebe-a:
- Lá vai a “Xuxinha” estudar.
Aí, Elias, que é gordo e vermelho, sorrindo, com ironia:
- É. As meninas desse lugar são bastante estudiosas…
O freguês se faz de desentendido:
- Por quê o senhor diz isso?
O comerciante então se afastando a fim de despachar o menino que se avizinha do balcão:
-Ô Negrão: isso de estudar é pra tapear, elas vão é paquerar, e depois pra os motéis.
O outro após soltar a risada dobrada:
- Eita, língua ferina da peste!
Elias, sorrindo:
- Que vai querer, esse menino?
- Um pacote de café e um de arroz.
No fim da rua, a figura loura desaparece ao dobrar a esquina.
Pensativo, o negro estende os olhos ao morro defronte. Nas casas construídas através de invasões, e envoltas nas trevas da noite, com a luminosidade das lâmpadas se destacando, enchendo o mundo de uma poesia tristonha. Quantos dramas ocorrem agora naquelas casinhas? Em qual dessas, mora a lourinha que há pouco desceu a escadaria longa e estreita? Ah, quantos contrastes, mistérios! Contudo, talvez esteja nisso a razão de se valorizar a vida. Sim, porque todos nós temos uma cruz… E, quantos não a suportam?
- Vai outra dose, moreno?
- Mas, é claro!

3
Passando defronte ao bar, ela desperta a atenção do velho, que comenta:
- Vê que lourinha gostosa!
Romeu então a seguindo com os olhos:
- É a nossa “Xuxinha” do bairro.
O idoso:
- E vai estudar nessa hora?
Romeu sorrindo, com malícia:
- “Me engana, que eu gosto…” Vai é “transar” por aí.
- Lamentável.
Diz baixinho, o velho. Ainda uma adolescente e prostituindo-se. Provavelmente, a pobreza seja a maior responsável. O pai recebendo uma “mixaria”, ou mesmo, desempregado. A mãe submissa, preocupada em administrar a despesa, cuidar dos filhos. A mocinha bonita, sonhadora, vendo novelas, os exemplos de filmes, ouvindo conversa de amigas experientes. O namorado explorando-lhe carícias. O meio no qual vive… Humana, acaba se prostituindo. Mas, assim é a vida, o mundo. O quê ele pode fazer? Se até mesmo teme a provável doença que começa a pressentir, que devagarinho domina-o…
Agita a cabeça, como se desejasse não mais pensar e querendo se limitar ao presente:
- Outra dose, bem reforçada, Romeu.
O rapaz ergue-se e, sorrindo:
- O senhor hoje está inspirado.
Aí, com dificuldade, puxando a perna, dirige-se à prateleira.
Na calçada defronte, a luz pisca, morrendo.
- A lâmpada pifou, Romeu.
- Problema dela.
A sensação boa da embriaguês domina o velho. E ele não mais pensa na doença temível, no futuro negro. Mas, será mesmo? Sim, está decidido: procurará o médico.
A rua torna-se mais escura sem a iluminação do poste. Apenas um ou outro pedestre é visto, quando banhado pelos faróis de um carro.
- Escuridão danada!
- Pois é, seu Gilson. Assim escuro, com tantos assaltos… O melhor é mesmo se ficar em casa, se fica mais protegido. Tranqüilo.
Quando não se tem em que pensar… Conclui intimamente, o velho. Bebe. Depois, com a voz mais grossa, embriagado deixará o bar, para retornar na noite seguinte, como se mantivesse um ritual, dolorosa fuga às reflexões.
Então, com os olhos sonolentos, Romeu o seguirá e, de repente, sentirá uma coisa… Enquanto sua perna doente treme, nervosa.

4
Ali está o carro azul-escuro, com os vidros “fumê” meio descidos.
O motorista envelhecido, gordo, espera-a.
Apressa-se. Hoje, irão ao bar à orla da praia. Ao som do piano, comerão lagostas, com vinho branco, importado.
Nesses instantes, o homem lhe será gentil. Bem vestido, com o jeitão de rico industrial, causará boa impressão aos freqüentadeores do recinto luxuoso. Também se sabendo analisada, ela sorrirá e, com elegância, agitando os cabelos longos para trás, prosseguirá a refeição. Sob a mesa, sentirá a perna quente provocando-a. Depois… Na cama, se submeterá ao louco capricho dele.
- Eu não gosto assim.
A voz dele então se tornará mais cheia, prepotente:
- Mas eu gosto. Vire-se!
Obedece. E sente o corpo quente, pesado, colado nas costas. A respiração nervosa. E a temível penetração que a humilha, fazendo-a sentir-se pequenina, um objeto. Tudo, menos mulher. Assim até quando?
- Demorei muito?
- Nada. Também cheguei agorinha.
Então, a mão de dedos curtos e grossos abre a porta.
Mais uma vez ela adentra no automóvel, que se afasta em velocidade, enquanto com a mão livre, o homem lhe acaricia a coxa macia, longa. Em silêncio, ela fita o vidro sobre a direção, como em busca de proteção ao que sente e ao que sofrerá logo mais.
O carro distancia-se, com o gordo excitado ao imaginar o que curtirá.
A mão corre-lhe sobre a coxa. Superior, o “coroa” sorri e, apressa mais o veículo.
Ela cerra os olhos, numa resignação dos vencidos. Um dia, talvez seja outra. Diferente. Apenas, simplesmente, uma mulher. Com um vazio vencendo-lhe o peito, sorri, tristemente.

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4 comentários para “O peso da cruz - Paulo Valença”

  1. Hila Flávia disse: Reply to this comment

    Paulo, uma vez tive que tomar uma decisão muito difícil, ao ter conhecimento de abuso de menores num lugar onde trabalhava. Procurei e procurei o que falar para os funcionários, pois, após as denúncias e punições inclusive legais, ficou um clima horrível no ar. Então me vali da PALAVRA e citei o Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículos 1 a 7. É uma palavra dura demais e penso que ela se aplica a todos aqueles que abusam de crianças e de mulheres desvalidas, que subjugam pessoas sem esperança enfim, a todos aqueles que se aproveitam da miséria humana para tirar proveito, inclusive os que roubam e corrompem para obter recursos indevidos. Quem acrescenta peso à cruz alheia
    através do escândalo, que segundo a sua acepção primitiva no grego, significa causa de queda, corre o risco de ganhar o peso da mó de um moinho pendurada no pescoço. Eu fico tão indignada com a exploração do ser humano que não acho outra alternativa senão a oração para me acalmar. A denúncia é essencial e seu texto tem clareza e, infelizmente, atualidade. Abraço fraterno.

    [Resposta]

  2. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Paulo,
    Seus textos são tão reais e bem escritos que doem. E a verdade nua e crua sempre dói. O meu abraço. Ana

    [Resposta]

  3. Paulo Valença disse: Reply to this comment

    Hila Flávia,
    Belíssimo o seu comentário.
    Você interpretou muito bem o texto e, como é natural, lhe agradeço de coração aberto: Obrigado!
    Abraço
    Paulo.

    [Resposta]

  4. Paulo Valença disse: Reply to this comment

    Ana Lucia Timotheo da Costa,

    Como sempre, você em poucas e inteligentes palavras diz tudo, entendendo-me e, assim, novamente sensibilizado lhe agradeço: Obrigado!
    Abraço
    Paulo.

    [Resposta]

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