Timoneiro Timoneiro


  


O que torna as sociedades mais felizes e saudáveis?

Por , 24 de março de 2010 16:23


O que tem maior impacto no nível de felicidade de uma sociedade? Se você pensou que é a riqueza, está enganado.

O epidemiologista britânico Richard Wilkinson estuda há algumas décadas por que algumas sociedades são mais saudáveis que outras. Ele descobriu que o que torna uma sociedade saudável não é o que ela tem a mais que outras – mais renda, mais educação, mais riqueza – mas a igualdade na distribuição dos bens.

Ele também constatou que muitos problemas sociais, desde doenças mentais ao abuso de drogas, são piores em sociedades desiguais. Os efeitos dessa desigualdade também incluem a diminuição da confiança, o aumento de doenças e a ansiedade, que encoraja o consumo excessivo.

Por outro lado, sociedades com menores diferenças entre ricos e pobres, ou seja, menor desigualdade social, são mais resilientes e seus membros têm vidas mais longas e felizes.

Ao analisar e comparar as sociedades, Wilkinson observou os índices de problemas como expectativa de vida, doenças mentais, gravidez na adolescência, violência, a porcentagem da população que está em prisões e uso de drogas. Esses índices eram muito piores em países com alta desigualdade social. A renda per capita não tem muito efeito nas previsões da taxa de mortalidade de um país, mas a distribuição de renda sim. Em países desiguais, esses problemas aumentam de dez a doze vezes que em países com maior igualdade.

O curioso é que sempre pensamos nesses problemas como ligados à pobreza. Wilkinson mostra que eles estão ligados não à renda, mas à estratificação da renda. Essa é uma ideia que a maioria de nós já tinha, intuitivamente – pensávamos que a concentração de renda era um fator pernicioso – e agora sabemos que isso é verdade.

Wilkinson lembra de um psiquiatra de prisão que passou 25 anos conversando com homens muito violentos, e disse que ainda não vira um ato de violência que não tivesse sido causado por desrespeito, humilhação ou perda da dignidade. Esses fatores desencadeiam a violência e são mais intensos em sociedades desiguais, onde o status e a competição são intensificados e somos mais sensíveis a julgamentos sociais.

Os efeitos psicossociais da desigualdade são os maiores fatores de estresse. Somos seres sociais, e o ambiente e os relacionamentos sociais nos afetam em grande escala. A competição e a ansiedade para manter o padrão social que (acreditamos que) esperam de nós causam grande estresse e levam a dívidas. Isso faz que as pessoas trabalhem mais, consumam mais (o que consumimos mostra quem somos, ou assim pensam as pessoas), e isso torna-se um círculo vicioso que cada vez mais diminui a sensação de felicidade e prejudica os relacionamentos. Nunca é o suficiente.

Outra consequência da desigualdade sobre os relacionamentos é que ela cria uma hierarquia social baseada no poder – e o que o acompanha: status, riqueza, acesso privilegiado a recursos. E essa hierarquia é um potencial para conflitos. Felizmente, ao mesmo tempo em que somos animais sociais, sujeitos a essas consequências da desigualdade, também temos o potencial para o amor, aprendizado e cooperação. Podemos anular esse potencial para conflitos através da participação, compartilhamento e generosidade, não só no sentido material.

Entre os países ricos com maior igualdade estão o Japão e a Suécia. Esta última tem grandes diferenças salariais, que são redistribuídos através de impostos e benefícios. O país tem uma grande taxa de assistência social pelo estado, que cuida da assistência médica, educação, seguridade social e seguro desemprego. Por outro lado, o Japão tem menos diferenças salariais, faz muito menos redistribuição e não tem grandes gastos sociais. Ambos os países vão muito bem; estão entre os países com maior igualdade e os resultados sociais são muito positivos.

Mas uma sociedade não pode depender apenas dessas medidas para garantir a felicidade, pois elas estão ao sabor dos governos e da política. A estrutura de igualdade deve estar profundamente enraizada na sociedade. Empresas amigáveis, com participação dos funcionários, cooperativas, transparência na contabilidade, geram maior produtividade e funcionários mais felizes.

Essa sensação de igualdade também se reflete em outras áreas, como a sustentabilidade. Os índices de reciclagem, a diminuição do consumo, o consumo consciente, vêm da sensação de estar colaborando para o bem comum. E isso é mais frequente em sociedades saudáveis e com maior igualdade.

Um bom exemplo de sociedade saudável e feliz é o Butão, a democracia mais jovem do mundo. Na verdade, o pequeno país asiático tem o índice de "Felicidade Interna Bruta" (FIB), que guia a política do Butão e seu modelo de desenvolvimento. Quem começou isso foi o Rei Jigme Singye Wangchuck, que há 35 anos tornou-se o quarto rei do Butão, com apenas 18 anos de idade.

O Rei Jigme, que foi educado no Reino Unido, é muito querido pelo povo, que não tem uma só palavra de crítica ou censura a ele. No dia de sua posse, ele disse que "A felicidade interna bruta é muito mais importante do que o produto interno bruto". Sua ideia é que o modo de medir o progresso não deve ser baseado apenas no fluxo de dinheiro. Uma sociedade só se desenvolve verdadeiramente quando os avanços material e espiritual se complementam e reforçam um ao outro. Cada passo de uma sociedade deve ser avaliado em função não apenas do rendimento econômico, mas também se ele leva ou não à felicidade. É o bem comum em primeiro lugar.

O fato de o país ser de maioria budista ajuda a explicar o sucesso dessa filosofia e prática de governo. Outro fator que contribuiu foi o relativo isolamento do Butão quanto ao resto do mundo. A televisão e a internet chegaram ao país apenas em 1999. Thimpu é a única capital do mundo sem semáforos, e o aeroporto internacional tem apenas uma pista.

Para o Butão, os quatro pilares que devem inspirar cada política do governo são:

  1. Um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e equitativo
  2. A preservação e promoção da cultura
  3. A conservação do meio ambiente
  4. O bom governo

Para garantir que as decisões do governo estão indo na direção certa, os cidadãos butaneses respondem um questionário a cada dois anos, com perguntas sobre como o cidadão percebe sua vida em nove áreas principais. A análise das respostas indica se o povo está se sentindo feliz, e quais áreas merecem mais atenção por parte do governo. O questionário é a base para o cálculo do índice de Felicidade Interna Bruta.

O Butão é um país pequeno, com apenas 700 mil habitantes, e sua economia depende da energia hidráulica e do turismo sustentável. O país recebe ajuda externa, há pouca corrupção, e ainda assim em 2007 o Butão foi a segunda economia que mais rápido cresceu no mundo.

Apesar da receita butanesa não ser exportável, ela serve para inspirar outros países a repensar as decisões de seus governos. Se o FIB não pode ser usado pelos países ocidentais para medir o grau de felicidade e saúde de seus cidadãos, tampouco o PIB serve para isso.

Vivemos em sociedades altamente competitivas, e estamos sempre correndo atrás de algo – correndo para pagar as contas, para alimentar nossos filhos, para manter o emprego, para conseguir um emprego, para fazer mais um curso, para manter a cabeça fora d´água. E o resultado reflete-se na nossa saúde e em nossa falta de felicidade.

Talvez se tomarmos consciência disso e mudarmos individualmente, se cobrarmos de nossos governantes uma maior transparência e atitudes que beneficiem a todos em vez de a uma minoria privilegiada, se participarmos mais – seja através do voto, de nossas opiniões, de trabalhos voluntários – talvez consigamos dar o primeiro passo em direção a uma sociedade menos violenta, e mais saudável e feliz.

* * *

Para saber mais:

"What makes the healthiest and happiest societies? Hint: it´s not wealth" – artigo de Brooke Jarvis no site AlterNet

"Butão: o reino que quis medir a felicidade" – artigo de Pablo Guimón, publicado originalmente no jornal El País em 29/11/2009, cuja tradução (de Moisés Sbardelotto) está no site Sun Net.

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