O rei Momo: mitologia grega, circo, carnaval e cinema – Terezinha Pereira

Por Terezinha Pereira, 5 de fevereiro de 2010 6:55

O rei do carnaval brasileiro tem sua origem na mitologia grega. Momo, filho do Sol e da Noite, é conhecido como o deus da sátira, do sarcasmo, do culto ao prazer e ao entretenimento, do riso, da pilhéria, das críticas maliciosas, etc. Segundo a história, ele tinha o costume de criticar os feitos de outros deuses. Uma vez, solicitado para opinar sobre obras de Zeus, Atena e Prometeu, fez-lhes severas críticas. Irados, os deuses o expulsaram do Paraíso, vindo ele cair no planeta Terra. Dizem que veio para tirar o sossego dos homens. Será?

A cerimônia de coroação de Momo como rei vem do tempo da Roma antiga. Para os romanos, Momo era obeso e isso significava fartura e extravagância. Por isso, elegiam mais belo soldado da tropa romana para ser coroado rei. Como rei Momo, o escolhido podia brincar, comer, beber e fazer o que tivesse vontade durante seu curto reinado. Terminada a festança, ele era levado ao altar do deus Saturno para ser sacrificado. Depois de morto, era velado e enterrado com todas as honrarias de “um chefe de estado”. Se “rei morto, rei posto”, a cada ano era eleito um novo rei Momo.

A primeira representação do rei Momo no Brasil data de 1910 e foi encarnada pelo palhaço negro, artista Benjamim de Oliveira (natural de Pará de Minas), na opereta “Cupido no oriente”, de autoria de Benjamim de Oliveira e David Carlos, levada à cena no Circo Spinelli, no Rio de Janeiro. * No desenrolar da peça, Cupido (Eros), deus alado do amor, filho de Vênus, surge no palácio de um sultão e contracena com odaliscas, fidalgos, conselheiros e também com deuses e deusas da mitologia: Momo, Júpiter, Vênus, Saturno, Mercúrio, Baco, Plutão, Eolo, Vulcano, Esculápio, etc. Há registros de que essa peça tenha ficado em cartaz no período de 1910 a 1912.

Como comandante da folia do carnaval brasileiro, o rei Momo surgiu em 1932 (1933?), no Rio de Janeiro. Primeiro criaram um rei Momo na forma de um boneco de papelão. Esse boneco desfilou com um grupo de carnavalescos no centro do Rio de Janeiro e depois foi posto num trono e reverenciado como o rei da folia. No entanto, não obteve o sucesso esperado. No ano seguinte, resolveram escolher um homem bem gordo para Momo. A idéia partira de um cronista do jornal “A noite” e o primeiro rei Momo foi eleito lá mesmo, na redação daquele jornal. Assim, o colunista esportivo, Moraes Cardoso, possuidor das características momescas, foi coroado como o primeiro rei Momo. Saudado com confetes, serpentinas e lança-perfume, ele saiu com os foliões pela avenida afora. Gostou tanto que reinou até 1948, quando morreu. A moda de um rei Momo bem gordo pegou e continua como o símbolo do “dono” do carnaval do país.

No cinema, a figura do rei Momo surge na mesma época, no semi-documentário “A voz do Carnaval”, primeiro filme falado produzido pela Cinédia, dirigido por Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, que estreou às vésperas do carnaval de 1933. No roteiro, feito de cenas reais e de ficção, o rei Momo chega a praça Mauá, Rio de Janeiro, a bordo do rebocador Mocanguê. Ao descer, os foliões o saúdam calorosamente e o acompanham pela avenida até ao “Beira-Mar Cassino”, ponto de encontro e de espetáculos da época, onde lhe dão o trono. Dando-se conta do tamanho da pândega, Momo não quer saber de trono e foge para ver o Carnaval do Rio. As cenas que intercalam o percurso de Momo filmado em estúdio, mostram cenas dos desfiles do corso e as batalhas de confete com os ranchos e os cordões, registradas com som direto nas ruas do Rio.

Destacam-se no filme as músicas e o elenco formado pelos artistas mais famosos da época: Gina Cavaliere, Lu Marival, Regina Maura, Elsa Moreno, Nana Figueiredo, Pablo Palitos (um famoso cômico argentino que faz o papel de Momo), Lamartine Babo, Paulo Gonçalves, Apoio Corrêa, Henrique Chaves, Jararaca e Ratinho e a nossa “pequena notável”, Carmen Miranda, que estréia oficialmente no cinema. Nesse filme ela canta “Moleque indigesto”, de Lamartine Babo e “Good-bye, boy”, de Assis Valente.

Outras músicas que, suponho, “fizeram Momo fugir do trono” nesse filme em que foi coroado rei do carnaval no Rio de Janeiro, continuam fazendo sucesso quando se fala em marchinhas de carnaval: “Linda Morena”, de Lamartine Babo, “Aí, hein?”; de Lamartine Babo e Paulo Valença; “Boa bola”, de Lamartine Babo e Paulo Valença; “Fita amarela”, de Noel Rosa; “Mas como… outra vez”, de Noel Rosa e Francisco Alves; “Formosa”, de J. Rui e Nássara; “É batucada” de J. Luís de Moraes; “Vai haver o diabo” de Benedito Lacerda e Gastão Viana); “Vai haver barulho no chatô” (Walfrido Silva e Noel Rosa); “Trem blindado” (João de Barro); “Moreninha da praia” (João de Barro); “Alô, Jone” (Jurandyr Santos); “Opa, opa!”, etc..

Infelizmente, pelo que se tem notícia, não existe nenhuma cópia preservada de “A voz do carnaval”. Assim, não podemos ver a primeira figura de rei Momo que foi levada às telas do cinema brasileiro.

*****

* Costa, Haroldo. 100 anos de carnaval no Brasil. São Paulo: Irmãos Vitale, 2000.

Silva, Ermínia. Circo-teatro _ Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil. Rio de Janeiro: Altana, 2007

Moleque indigesto, com Carmen Miranda:

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14 comentários para “O rei Momo: mitologia grega, circo, carnaval e cinema – Terezinha Pereira”

  1. manoel.rodrigues disse:

    Oi, Terezinha
    Logo que comecei a ler o seu texto eu me imaginei com “momo”, por causa do sarcasmo, pilhéria, criticas maliciosas, etc. Depois, analisando bem, vi que não estou com essa bola toda, que meu problema é o alfabeto, que ao invès de “m” eu devia colocar o “b”, para me conceituar.
    Dito isso, gostei muito da sua descrição sobre essa figura importante do carnaval. Primeiro, por saber que a história dessa figura é tão antiga assim. Segundo, por encontrar a resposta para o antigo requisito da gordura ( hoje ela não é mais necessária, basta a alegria e empatia do candidato a rei momo, mas, antigamente, quanto mais gordo melhor). Terceiro, por saber que foi de Pará de Minas a primeira personificação brasileira dessa majestade. Finalmente, lendo o nome das musicas por você citadas, e os respectivos autores, eu vi duas vezes o nome de Paulo Valença. Algum parentesco com o nosso colaborador?
    Bela matéria.
    Abraços
    Manoel

  2. Quantas informações, Terezinha!
    Eu não sabia nada sobre rei Momo… até ler o seu texto.
    Bem interessante! Parabéns pelo trabalho!
    Admiro muito sua cultura e conhecimentos.
    Um abraço!!!

    Terezinha respondeu:

    @Carmélia Cândida, Obrigada, Carmélia

    Desde que soube das “proezas” no “nego Bejo”, homem de nossa terra, venho o perseguindo. Encontro-o em lugares inusitados. Desta vez, foi estreando a figura do Momo no Brasil. Há cem anos!
    Beijo,
    TT

  3. Terezinha disse:

    @manoel.rodrigues: Obrigada,
    Manoel
    Ando perseguindo os passos dados pelo meu conterrâneo Benjamim de Oliveira há cem anos. Encontro-o sempre fazendo arte. Benjamim foi mesmo um pioneiro. O mais interessante: desta vez pesquisava sobre Momo. E não é que o Benjamim surge lá do Circo Spinelli representando Momo? Lá se foi o meu tempo… Fiquei um dia no google, recorri-me ao livro da Ermínia. Muito divertido.
    Se puder, leia o livro da Ermínia Silva, doutora em Benjamim, citado no final do texto. É excelente.
    Quanto ao Paulo Valente não é meu parente. O Valente deste espaço é o mesmo das músicas? Se for, vou falar mais das músicas e informar “que estamos em casa”, que somos vizinhos. Que bom estar perto de tanta gente boa!
    Abraços,
    TT

    manoel.rodrigues respondeu:

    @Terezinha,
    Oi, Terezinha
    Eu estava falando do Paulo Valença que você citou como um dos compositores de algumas músicas do filme.
    O nosso amigo colaborador anda meio sumido, mas tem esse mesmo nome. Como o filme é de 1933, imagino que não sejam a mesma pessoa, talvez só homônimos, quem sabe parentes?
    Abraços
    Manoel

  4. Terezinha disse:

    Chi…erei no nome: Valença! Paulo Valença1 Vamos ver o que ele diz, se é parente do autor das músicas.
    Quanto a você se sentir um Momo… Pode ser. Pelo seu Anjo Castigado…Já li quase todo. Vou falar sobre ele. na semana depis da semana do carnaval.
    Ainda pretendo escrever mais um texto sobre o carnaval e viajo. Não sei se volto antes ou depois do fim do reinado de Momo.
    Enquanto isso… Vou continuar o ofício do riso. Vou terminar de ler O anjo castigado.
    Abraços,
    TT

  5. LuDiasBh disse:

    TT

    Você acaba de me dar uma bela aula sobre essa figura maravilhosa que povoa o imaginário popular e os carnavais: o Rei Momo.

    Você está sempre em dia com a História.
    Essa menina sabe de tudo!

    Engraçado, parece que o Rei Momo anda perdendo prestígio.
    A sua presença, hoje, tem sido bem mais recatada, do que nos tempos de outrora.

    O que é uma pena.

    Amiga, parabéns pelo belo texto apresentado.

    Como dizia meu pai:
    - Vivendo e aprendendo!

    Beijos,

    lu

    Terezinha respondeu:

    @LuDiasBh, Obrigada,Lu
    Escrever este texto, para mim, também foi um aprendizado.
    Passei o dia pesquisando quando o Google “juntou Benjamim de Oliveira com o rei Momo”. Foi uma festa encontrar mais este ponto em favor do grande artista paraminense, do início dos 1900.
    Beijo,
    TT

  6. Júlio Saldanha disse:

    Terezinha,

    Que maravilha de texto! Eu sempre me interessei pelas coisas do carnaval mas nunca atinei para a origem do rei Momo. Como as coisas começam a surgir quando temos um foco, não é mesmo. Olha o Benjamim aí de novo! Parabéns, mais uma vez.

    Abraços

    Júlio Saldanha

  7. Ana Lucia disse:

    Tetê querida,
    Muito interessante a sua aula sobre Momo. A vida é eterna aprendizagem. Grande abraço. Ana

  8. Regina Maria disse:

    Oi Terezinha! Que interessante vc descobrir o Benjamin, quando pesquisava sobre o momo! Tbm não sabia nada sobre este assunto. O texto ficou muito bom. Bj, Regina

  9. Regina Maria disse:

    Terezinha, que interesssante vc descobrir o Benjamin, quando pesquisava sobre o momo. Tbm não sabia nada sobre este assunto. Seu texto ficou muito bom. Bj, Regina

  10. GUTIE disse:

    TEREZINHA

    O texto está bem profissional e artístico, completo, trazendo-nos inclusive muitos ensinamentos, enriquecendo-nos com tua maravilhosa cultura.

    Foi muito ilustrativo, falar sobre o filme A voz do Carnaval, inclusive que apresenta cenas reais, com a chegada do Rei Momo, no Rio de Janeiro e também sobre as músicas daquele tempo.

    Ah, adoro muito as musicas de Noel Rosa.

    Eh, Fita Amarela: quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela.

    Parabéns.



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