O Rio Sagrado em Varanasi – Lu Dias
“Amiga, encontro-me em Varanasi, cidade do Rio Ganges – rio sagrado da Índia, considerado um dos maiores centros de peregrinação do país.
Nunca imaginei que no mundo existisse lugar tão caótico. A cidade tem uma superpopulação de vacas, que se alimentam de lixo e papel, e ainda conseguem dormir no meio do trânsito, obrigando carros e pessoas a se desviarem. Aliás, aqui tem uma superpopulação de tudo: de gente, moscas, pernilongos, cabras e macacos. Quase não existem semáforos. Mão e contramão? Desconhecem!
(…)
Partimos para ver o nascer do sol no rio, das coisas mais impressionantes que já presenciei. Acordamos às quatro da manhã e seguimos a pé, acompanhados por uma multidão. Pelo jeito a confusão já começa cedo. Imagina que essa peregrinação acontece todos os dias e há mais de mil anos.
Passamos por uma espécie de corredor, onde dezenas de hansenianos e aleijados nos estendem suas mãos. No início dessa passarela, notas são trocadas por moedas, que devem ser ofertadas aos pedintes. É impossível ficar insensível a tudo isso.
O sol começa a nascer. A visão fascina, pois o Ganges é volumoso e a distância de um lado ao outro é grande. Nas margens foram construídos pavimentos, chamados “ghats”, onde ocorrem cremações. A santidade do rio, pelo que entendi se deve ao fato de o deus Shiva, o “Senhor do Universo”, ter se banhado em suas águas para se ver livre dos pecados. Por isso, os devotos se banham na esperança de também purificarem suas almas.
Nos “ghats”, existem locais com sombrinhas de bambu, onde ficam os “sadhus”, considerados homens santos. Desprovidos de bens materiais, são magérrimos, com cabelos enormes e emaranhados. Ao morrerem, segundo o nosso guia, não são cremados, mas jogados no rio amarrados a uma pedra, assim como as grávidas e aqueles que morrem de varíola.
Já os indianos comuns são cremados nos “ghats” e suas cinzas jogadas nas águas. Acredita-se que a varíola é uma deusa que habita na pele das pessoas e, assim sendo, não deve ser queimada.
Enfim, no Ganges existe de tudo: cadáveres inteiros, cremados, animais mortos, esgotos de origens diversas, crianças nadando, homens e mulheres se banhando (para purificarem suas almas), escovando os dentes com os dedos, lavando roupas e engolindo compulsivamente as suas águas. Creem que o rio não traz doenças, mas curas. Trombando no barquinho em que estamos, uma coisa enorme e peluda, que imagino ser um búfalo em elevado estado de decomposição.
(…)
Impressiono-me com a cremação de corpos. Na Índia existem dois tipos de cremação: a elétrica, mais barata, e a outra feita com toras de madeira, em que o corpo permanece cerca de três horas até se transformar em cinzas.
A morte para os orientais é vista com naturalidade, pois é apenas uma passagem entre as milhares de vidas pelas quais passamos (no que também acredito). Quem tem suas cinzas jogadas no rio sagrado se purifica ainda mais para entrar na seguinte.
O guia nos conta uma curiosidade: não faz muito tempo, quando o marido morria, a viúva deveria acompanhá-lo. Para isso, se atirava na pira onde o corpo do esposo ardia em chamas. Aquela que não fizesse isso, não era bem aceita, tornando-se marginalizada perante a sociedade. Foi preciso que o governo interviesse para acabar com suicídios tão absurdos.
(…)
Uma coisa que não dá para esquecer é o cheiro da Índia que sentimos ali – uma mistura de condimentos, flores, incensos…
Em determinado momento, sem jeito de ir para lugar algum, “alguém” insistentemente me empurra. Já ia reclamar, quando vi que se tratava de uma vaca pedindo passagem.
Coisas da Índia!”
Nota: este texto é parte de uma correspondência que a jornalista Laura Medioli (Laura@otempo.com.br), em 1999, durante a sua primeira viagem à Índia, escreveu a uma amiga./ Jornal Pampulha, 13 a 19/06/2009.
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Depois ainda falam mal do Arrudas e do Tietê!
Lu Dias BH respondeu:
junho 16th, 2009 at 13:39
@Hila Flávia,
Hila
Você não é moleza.
Hahahahahahahahhaha.
Ninguém poderá dizer que minto nos textos que escrevo.
Mato o pau e mostro a cobra.
Beijos,
lu
Mais um relato para comprovar o que já sabíamos: o Ganges é considerado sagrado, então os hindus (mesmo que olhem) não veem todo o tipo de imundície que é jogada em suas águas. Nada contra as cinzas, mas pelo menos, que sejam cinzas!
A varíola é uma deusa, e por isso não deve ser queimada? minha nossa, faltam mesmo as noções básicas de higiene e biologia por ali…
Pegando carona no comentário da Hila, já imaginaram se o Tietê fosse sagrado? aff…
Abraços!
Lu Dias BH respondeu:
junho 16th, 2009 at 20:25
@Cristine,
Cris
Não dá para acreditar num absurdo desse.
A varíola é uma deusa… hahahahahahaha
Dessa eu não sabia, confesso-lhe.
Nunca havia visto em lugar algum.
Essa gente não conhece um mínimo de higiene.
Apesar de tanta tecnologia.
Are Baba!
Beijão, minha lindinha,
lu
Lu,
A India do turismo e da espiritualidade é uma.
A outra, fica debaixo do tapete.
De vez em quando, alguém ergue uma ponta e mostra a realidade
Beijos,
Maria Tereza.
Lu Dias BH respondeu:
junho 16th, 2009 at 20:35
@Maria Tereza,
Tê
A novela Caminhos das Índias poderia ser um fiasco, mas só de ter mostrado a realidade indiana já valeu.
Pouca gente conhecia tais absurdos, que agora estão sendo mostrados ao mundo.
E, coisas como essas, não podem ficar debaixo do tapete.
É preciso botar a boca no trombone.
E nós estamos fazendo isso muito bem.
Os dalits agradecem.
Beijos,
lu
E esse texto foi escrito há dez anos… e nada mudou.
Rituais e crenças que nada contem de noções básicas de saúde e respeito. ” Que país é esse?”
Beijo! E lu, pensei que você estivesse por lá e sem me levar. Lembra que alguém iria pagar as despesas? rs
Lu Dias BH respondeu:
junho 16th, 2009 at 20:40
@Jovimari,
Jovimari
Estava com saudades de você.
Imagine, se eu ia para a Índia sem levá-la.
De jeito maneira, amiga.
O pior é que agora eu não quero ir lá.
Vou ficar olhando só os problemas.
Vixe Maria!
Beijos,
lu
LU DIAS
Hoje você é uma das melhores pesquisadores e comentaristas sobre as índias.
Esse excelente texto que você nos trouxe ratifica, em muito, aquilo que tudo que você tem-nos afirmado.
Agora só falta a Camila jogar-se nesse rio e tomar banho de sari e tudo.
Parabéns.
E bonsoir.
Lu Dias BH respondeu:
junho 17th, 2009 at 0:03
@GUTIERRITOS,
Gutie
HAHAHAHAHAHAHAHAHHA
Não seja mau!
Não deseje isso a nossa brasileirinha.
Depois vou lhe passar a listagem dos livros que já li sobre a Índia.
Logo estarei falando híndi.
Are Baba!
Abraços,
lu
Lu,
Se Cabral tivesse conhecido suas histórias, antes de partir de Portugala caminho das Índias, na certa teria ficado quieto em casa.
E nós aqui? Estaríamos falando que língua? Espanhol, inglês?
Beijos,
TT
Lu Dias BH respondeu:
junho 17th, 2009 at 21:59
@Terezinha,
TT
Gostaria de estar falando a língua do biquinho: francês.
E você, qual escolheria?
Beijos,
lu
Terezinha respondeu:
junho 19th, 2009 at 15:17
@Lu Dias BH,
Eu estaria parolando!
Beijos,
TT
Lu Dias BH respondeu:
junho 19th, 2009 at 18:16
@Terezinha,
TT
Io me chiamo Lu Dias.
Parola!
Parola!
Terezinha respondeu:
junho 20th, 2009 at 12:43
@Lu Dias BH,
Io sono Terezinha. Sono una ragazza brasiliana. Sono pará-minense.
Di dove è tu?
Ciao, Lu.
TT
Digo: Portugal.
TT
Lu Dias BH respondeu:
junho 17th, 2009 at 22:00
@Terezinha,
TT
Houve apenas o acasalamento de Portugal com o “a”.
Não se preocupe.
Beijos,
lu
Ola Lu,
Bem a cada novo texto q leio sobre este país, espanta-me que existam ainda turistas a querer visita-lo. E pior q isso, pq a OMS não faz nada?
Bjs
Lu Dias BH respondeu:
junho 17th, 2009 at 22:02
@Katia,
Kátia
A OMS age como os três macaquinhos chineses:
Não vê!
Não ouve!
Não fala!
O que é uma pena, ver tanta omissão partindo de um órgão considerado tão sério.
Estava com saudades de você!
Beijos,
lu
TT
Mia bambina
Io sono belohorizontina.
Gracias!
lu