O segredo de Agatha Christie
Hoje, 15 de setembro, comemoram-se os 120 anos do nascimento de Agatha Christie, e muitos sites, blogs e até o Google estão celebrando a data.
Dame Agatha Christie, nascida Agatha Mary Clarissa Miller, é a escritora com maior número de livros vendidos de todos os tempos, e divide com William Shakespeare o título de autor mais vendido de todos os gêneros. Seus 80 romances venderam 4 bilhões de cópias e foram traduzidos para 103 idiomas.
O sucesso de seus romances se deve à fórmula simples que ela usava: um assassinato abala o cenário pacífico de seus personagens, e a descoberta do culpado (e posterior punição) restaura a tranquilidade, criando a ilusão de que a razão humana pode compreender e resolver qualquer problema. Ela cria um enigma e apresenta a solução; isso tem um efeito catártico e tranquilizador nos leitores.
Sua linguagem também é simples e direta; os livros começam com grande quantidade de detalhes e descrições, e a partir da apresentação dos fatos e pistas, o ritmo da narrativa (e da leitura) se acelera quanto mais próximo do final, geralmente uma confrontação dramática e objetiva. Christie sabia como envolver seus leitores e prender sua atenção em uma narrativa cuidadosamente controlada, com pistas falsas e verdadeiras, deixando ao leitor a tarefa de tentar desvendar o mistério antes do detetive; quantos de nós não apostamos nossas fichas neste ou naquele culpado, e vibramos quando nosso palpite estava correto? Mesmo quando não estava, gostamos de pensar que poderíamos ter acertado.
Agatha Christie criou dois dos mais famosos detetives da literatura, opostos em tudo: a simpática velhinha Jane Marple, que com bisbilhotice discreta e curiosidade e lógica implacáveis, além de um excelente conhecimento da natureza humana, consegue desvendar os mistérios mais difíceis. Entre os doze livros em que Miss Marple aparece, destacam-se Convite para um homicídio, Assassinato na casa do Pastor, Um corpo na biblioteca e A maldição do espelho.
Com suas “pequeninas células cinzentas”, o detetive belga Hercule Poirot consegue resolver os crimes mais complexos. Apesar de pedante, meticuloso e perfeccionista, este é um personagem extremamente apreciado e, por incrível que pareça, simpático. Poirot aparece em 33 romances e 51 contos, entre os quais O misterioso caso de Styles (onde ele é apresentado ao público), Morte no Nilo, Morte na Mesopotâmia, Assassinato no Expresso do Oriente, O assassinato de Roger Ackroyd e por fim, Cai o Pano, última história de Poirot.
Agatha escreveu os dois últimos romances com seus personagens (Cai o Pano e Um crime adormecido) durante a Segunda Guerra, e manteve-os trancados no cofre do banco por mais de 30 anos, ate autorizar sua publicação no final de sua vida, quando percebeu que não poderia mais escrever romances.
Da mesma forma que Arthur Conan Doyle, a escritora estava cansada de seu detetive mais famoso, mas resistiu à tentação de matá-lo porque o público o apreciava. Por outro lado, ela gostava de Miss Marple, apesar de ter escrito bem menos livros com ela. Christie nunca escreveu uma história com os dois detetives juntos, Poirot e Miss Marple, e em uma gravação descoberta e publicada em 2008, ela explica o motivo: “Hercule Poirot, um completo egoísta, não gostaria uma velhota mexeriqueira lhe desse sugestões ou lhe ensinasse seu ofício“.
Seus personagens não eram baseados em pessoas reais, mas em pessoas anônimas que ela observava em trens, restaurantes e a partir das quais construía a história. Suas tramas eram construídas a partir do crime; ela primeiro decidia o assassino, seu método e o motivo. Em seguida ela considerava os outros suspeitos e finalmente, definia as pistas falsas e verdadeiras. Ela anotava detalhes em cadernos, e por vezes uma trama permanecia incompleta por muito tempo, até que ela a completava rapidamente.
(cena do game de "Morte no Nilo")
O universo de Christie refletia os lugares onde cresceu, morou ou visitou, assim como a estrutura social que conhecia. Nascida na Inglaterra vitoriana, ela estava acostumada com as vilas onde todos se conheciam e sabiam da vida uns dos outros; as grandes mansões com muitos criados, ou as casas de ‘classe média’ com poucos criados; as restrições e truques de sobrevivência durante e após a guerra; suas viagens pelo Oriente acompanhando o segundo marido, o arqueologista Max Mallowan; os refugiados de guerra vivendo em pequenas cidadezinhas da Europa; tudo isso está retratado em seus livros.
Mesmo que a maioria de seus romances siga a fórmula clássica do “whodunit”, com a apresentação dos personagens, o crime, a análise dos fatos e suspeitos pelo detetive e a conclusão, alguns de seus livros fogem a esse padrão, e então temos suas melhores e mais criativas histórias, como Assassinato no expresso do Oriente e O caso dos dez negrinhos.
Apesar de muitos críticos “torcerem o nariz” para as obras de Christie, ela é amada pelo público, e frequentemente seus livros são a primeira leitura “adulta” de crianças e adolescentes. Sua linguagem simples e direta, o fascínio de seus mistérios e a vontade de resolvê-los antes de Poirot ou Miss Marple, as descrições de um mundo que não mais existe, tudo isso contribui para torná-la uma das escritoras mais queridas do público de todo o mundo.
Seus livros foram adaptados para o cinema, TV, teatro, quadrinhos e video games. Poirot e Miss Marple foram interpretados por ótimos atores e atrizes, como David Suchet, Albert Finney, Peter Ustinov, Helen Hayes, Joan Hickson, Geraldine McEwan, Angela Lansbury e outros.
Para comemorar os 120 anos do nascimento da escritora, até o Google do Reino Unido criou um logotipo especial. Muitos sites, blogs e editoras também prepararam artigos e promoções especiais, e certamente muitos leitores hoje estão lendo ou relendo histórias da Dama do Crime. Viva Agatha!
Para saber mais:
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Agatha Christie: the curious case of the cosy queen, no The Independent
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Hercule Poirot na Wikipedia
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Agatha’s Style and Writing, no site Poirot.us
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Agatha Christie – Her method of Writing, no site The Christie Mystery
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Assassinato no Expresso do Oriente – no Batata Transgênica e no Rato de Biblioteca
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O caso dos dez negrinhos, no Rato de Biblioteca
Veja também...
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