Ô Trabalheira – Hila Flávia

Por Hila Flávia, 31 de janeiro de 2009 6:49

para José Roberto Pereira

Faltam dois dias para chegar a Belo Horizonte, de onde saí no ano passado. No dia 20 de dezembro fomos, família toda, para Gramado e, de lá, viemos para a beira do lago. Aqui ficaram avós e netos e os pais deles vieram e foram, vieram e foram. Vou, mas volto rápido. Apenas o tempo de uma chuva, pois o carnaval se aproxima e o meu é meio comprido. Umas duas semanas e meia, pelo menos. Uma para preparar, meia para o propriamente dito e outra para descansar e arrumar a casa. De carnaval não vejo nadinha de nada, pois meu gosto mesmo é para barraquinha de festa junina, com quadrilha, bingo e leilão. E uma boa sanfona chiando na terra batida.

Mas o assunto hoje é o feijão.

Não sei se todos fazem idéia da trabalheira e da aflição que dá plantar e colher o feijão das águas. Tem o do tempo, que é menos sofrido, pois não tem a ameaça constante de chuva. Mas este das águas é um deus nos acuda. Hoje, como brilha um sol lindo e quente, todo o pessoal do povoado sumiu. Estão todos na lida do feijão. E é preciso mesmo, pois primeiro, depois da primeira chuvarada e com a terra molhada uns dois palmos para dentro, a semente é encovada. A partir deste momento, começa a rezação, pois é bom que chova um pouco, não muito, para não melar a semente. Dado um solzinho, as primeiras folhinhas aparecem linda e viçosas. Um pouco de chuva, um pouco de so. Um pouco de chuva, um pouco de sol. Os olhos continuam vigilantes, arrancadas aqui e ali umas pragas de capim invasoras. Chega o tempo de colher. E a chuva não dá trégua. Não pode passar do tempo, e a chuva não dá descanso. O assunto começa a render. Aliás, é o único que anda em todas as bocas. O feijão vai melar, o feijão vai aguar, vamos perder o feijão. Começam as promessas e as lamúrias: – Nunca mais na vida planto feijão nas águas. – É muito sofrimento. – Parece castigo. A ladainha parece sem fim.

Então, o sol aparece. É uma correria sem fim. Some o povo de novo, colhendo as ramas cheias de favas e colocando num lugar seguro. Nesta hora serve tudo: cimentado com cobertura, varandas, paiol, até sala das casas e cozinhas ficam cheias das ramas, até que sequem. Dá sol, colocam as ramas para fora. Ameaça chuva, volta com elas para dentro de casa. E o tempo, doido, brinca com o pessoal do feijão. O estado de excitação é enorme, vamos dizer mesmo que a adrenalina, para fazer um comentário moderno, corre solta.

As ramas secam. É hora de batê-las. É uma surra de dar medo. Batem as coitadinhas no chão com vontade e braço forte é preciso. E os grãos de feijão vão aparecendo. Uma cena de rara beleza, quando são jogadas para o lado as ramas secas e os grãos ficam no chão. Segue-se então outra fase muito importante, que é a secagem. Começa tudo de novo: pôe no sol, esconde da chuva. Põe no sol, esconde da chuva. Os grãos vão secando até chegar no ponto certo. Nem demais, nem de menos.

Vem a peneirada, no vento, para tirar as impurezas, as folhas, os raminhos, tudo que não pertence ao que deve ficar limpinho, que é o grão de feijão. A chamada, nesta hora, é pelo vento. Vem vento, vem ajudar a peneirar.

Peneirado e limpo o feijão, bem sequinho, é hora de enlitrar. O que é enlitrar? É colocar os grãos numa garrafa PET limpa e seca, com uns poucos grãos de pimenta do reino, fechar bem fechado, e estocar até que venha a safra do feijão de tempo.

Quando você cozinha o feijão e coloca na mesa aquela maravilha, nem se lembra de tudo o que aconteceu. O feijão maravilha. Fruto do trabalho do homem e da ajuda da natureza, milagre da alimentação.

É por esta e por outras que amo meu povoado. Aqui vejo e sinto tudo de bom no mundo: a natureza, o ar puro, as águas limpas, o sol e a lua à vontade, o vento fazendo parte do processo da vida, e o povo de Deus fazendo sua parte na transformação da semente em alimento. E não só do feijão, que no atual momento é a bola da vez.

Acompanha-se a lavoura e a feitura de tanta coisa: do milho, da mandioca, do amendoim, a dos queijos e requeijões de prato, das compotas de frutas da época, da colheita do pequi, da colheita do café nas grandes plantações de fazendas vizinhas (esta fora do povoado mas com a participação de muita gente daqui. Como o pagamento é feito por baldes colhidos, quem pode vai e colhe o que dá tempo de colher).

O interessante´é que, apesar das lamúrias e das aflições, nas próximas águas, todos semeiam de novo . E a vida tem sentido, vale a pena, renasce sempre a cada folha que desponta do chão.

Enquanto isto, sinto que tomei um rumo certo. Um tempo de plantação possível, que a idade não me deixa mais brincar de jovem, mas, certamente, um tempo de colheita do que consegui plantar.

Louvado seja Deus que tem me dado tempo para ver as maravilhas.

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4 comentários para “Ô Trabalheira – Hila Flávia”

  1. lu dias bh disse:

    Hila

    Não sabia que o plantio e a colheita de feijão demandava tanto trabalho.
    Dá pra fazermos uma pequena ideia de quantas pessoas contribuem para que comamos um prato de feijão.
    Este é mais um milagre da vida.
    E muita gente por aí, pensando que não precisa de ninguém.
    Adorei seu texto.
    Muito lindo!
    Seja bem-vinda às Gerais.
    Beijos,

    lu

  2. GUTIERRITOS disse:

    HILA

    Não me canso de ler a beleza que há em seus pensamentos, refletindo em textos lindos, onde sempre estão presentes o amor à família, o trabalho, a fé e a esperança.

    Eu sou seu fã de carteirinha.

    Continue a escrever e colocar para fora todos seus sentimentos, que tanto nos comove e nos ajuda a viver com dignidade.

  3. Hila Flávia disse:

    Lu e Gutierritos, é muito bom prestarmos atenção nas coisas da vida. Nada surge do acaso e nem existe coincidência. Tudo tem sua razão de ser e a cada um dos elementos da natureza corresponde um riqueza inimaginável. Pensem que todos contribuiram para o simples feijão: o ar, com o vento. O calor, com o sol. As águas, com a chuva. A terra, com o solo. E, orquestrando uma sincronia poerfeita, a mão do homem e sua boa vontade. É o milagre da vida. Como também o são os amigos que surgem através da virtualidade de um computador. São os irmãos eletrônicos não menos queridos que os da vida real. Um milagre da tecnologia. Obrigada pelo carinho.

  4. Hila Flávia,

    Sua crônica “Ô Trabalheira” é excelente: você com sua maneira simples de talentosa narradora, sabe como dizer as coisas, sabe nos sensibilizar. E assim encantado, repito sua frase: ” E a vida tem sentido, vale a pena, renasce sempre a cada folha que desponta do chão”. Pura poesia. Parabéns!
    Abraço,
    Paulo.



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