Ortotanásia, Eutanásia e Distanásia – LuDiasBH

Por LuDiasBH, 30 de maio de 2010 16:33

Em abril passado, entrou em vigor em nosso país O Novo Código de Ética Médica, que estabelece normas sobre situações clínicas até então cheias de controvérsias. E, se há um campo, em que a ética deve ser vista com muito rigor, esse é, sem dúvida, a área médica, que lida com a vida humana.

Embora muitas religiões sejam pródigas em afirmar que somente Deus pode decidir sobre o nascimento e a morte do homem, a prática não funciona bem assim. Deixando de lado a violência, a fome (fruto das desigualdades sociais), a pena de morte, as guerras e tantas outras mazelas que ceifam vidas, a medicina possui poderes tanto para prolongar, quanto para abreviar a permanência humana na Terra.

Dentre as normas do Novo Código de Ética Médica, uma delas estabelece que, nas situações clínicas irreversíveis e terminais, em que procedimentos cirúrgicos e terapêuticos configurem-se desnecessários, servindo apenas para aumentar o sofrimento do doente, o médico deve evitá-los, concentrando-se em oferecer todos os cuidados paliativos que atenuem a dor do paciente. Tal prática é chamada de ortotanásia.

O professor e geriatra brasileiro, Franklin Santana Santos, é um dos principais estudiosos da ortotanásia no país. Segundo ele, além de aliviar a dor física do doente é também necessário respeitar suas necessidades espirituais ou existenciais.

Segundo Santos, os médicos encontravam muitas dificuldades em lidar com pacientes terminais, com medo de incorrerem em risco de processos por parte do Conselho Regional de Medicina. Agora, o profissional que optar por não entubar um paciente em estado terminal, com chance zero de cura, não corre risco de ser processado, pois a prática da ortotanásia (que ainda não foi aprovada por uma lei) está amparada pelo novo código como uma atitude ética.

Os procedimentos respaldados pela ortotanásia devem ser vistos com muito rigor, pois, se provada a má fé do profissional, ele será acusado de omissão de socorro, eutanásia (prática, sem amparo legal, pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável) ou assassinato e, portanto, sujeito a todas as penalidades da lei. Penso que a família deverá, mais do que nunca, receber todas as informações possíveis, inclusive de outros médicos, para que não se sinta depois, responsável pela morte de alguém querido.

Também não podemos nos esquecer de que, apesar do belo juramento feito pelos médicos, quando se formam, a realidade é bem outra. Ninguém em sã consciência pode negar que os pacientes ricos são bem melhor tratados, muitas vezes passando por cirurgias desnecessárias, pois constituem um filão de “prosperidade” para os hospitais particulares, que hoje trabalham visando o lucro em primeiro lugar. Por isso, o risco de uma eutanásia será muito maior com pacientes pobres do SUS. Olho vivo!

As fronteiras entre a ortotanásia e a eutanásia precisam ser bem delimitadas. Segundo o doutor Santos. Por exemplo, se um paciente foi diagnosticado recentemente com câncer e tem a perspectiva de viver várias semanas ou meses, em caso de uma parada cardíaca ele deve ser reanimado, recebendo todos os recursos tecnológicos, que vão lhe dar melhor qualidade de vida, no tempo que ainda lhe resta. Mas, se o doente já estiver em fase terminal, com metástase no cérebro e no pulmão, ele não deve ser reanimado. Se o profissional reanimá-lo estará cometendo distanásia (usando todos os meios para prolongar a vida do paciente à custa do sofrimento dele).

Quando vemos os profissionais de branco (médicos, enfermeiros, etc.), na sua lida nos hospitais com os mais diferentes tipos de doenças e doentes, ficamos impressionados com a facilidade com que transitam entre a vida e a morte. Mas as coisas não são como parecem. Pesquisas provam que eles também lidam mal com a morte e que possuem medo dela, assim como toda a sociedade, pois foram treinados para curar e não para apenas cuidar. Cada paciente, que parte, não deixa de ser considerado um fracasso pelo profissional.

Segundo o doutor Santos, só para que tenhamos uma noção de como o médico não está preparado para a morte, das 181 faculdades de medicina do Brasil, apenas a Faculdade de Itajubá/MG tem na graduação a disciplina obrigatória de tanatologia (parte da medicina legal, que se ocupa da morte e dos problemas médico-legais com ela relacionados.). E, que é exatamente esse medo de trazer a morte para a discussão, que atrapalha a expansão dos cuidados paliativos no Brasil, pois tais cuidados estão ligados diretamente à morte.

Ao contrário do Oriente, onde a morte natural é vista com normalidade, nós ocidentais negamos a transitoriedade da vida. Somos parte de uma cultura pautada no prazer, no ter, na beleza e no poder. Achamo-nos capazes de estancar a fluidez de nossa existência. Dificilmente vemos na nossa sociedade um espaço, para se discutir a nossa efemeridade. Mesmo as escolas postergam tal assunto, de modo que as crianças, ao perderem um ente querido, não associam a morte como parte da vida, o que lhes gera muitos traumas.

Há também sérias discussões, para que se diga ou não ao doente sobre o seu estado de saúde. A maioria das famílias opta pelo silêncio. Ignora o fato de que as pessoas hoje são muito mais bem informadas sobre suas próprias doenças. A grande maioria dos médicos acha que o doente precisa saber de tudo, de modo a compartilhar sua angústia e, em muitos casos, resolver pendências de sua vida. Ele pode ter outras dores além das físicas, como sociais, psicológicas, existenciais, espirituais e buscar encontrar alívio para elas. Tanto o médico quanto a família precisam estar cientes disso, ajudando o paciente terminal.

Ao ser perguntado se existe a boa morte, doutor Santos toma como exemplo os estadunidenses, que enumeram as condições da boa morte:

1- Não ter sofrimento.

2- Estar rodeado pelas pessoas amadas.

3- Ter autonomia e permitir que a doença siga seu curso sem interferências extraordinárias da ciência.

“A beleza da morte é que ela nos desnuda completamente. A morte obriga a pessoa a ser ela mesma, a se aceitar como é. Já vi muitos religiosos aflitos diante da morte, porque a espiritualidade deles era pregada, mas não vivida. Por outro lado, vejo ateus que morrem muito bem. Convictos de que tudo acabou. Eles sentem que fizeram tudo o que podiam, que gozaram a vida e ela foi muito boa. Quando a pessoa sente que a vida teve um sentido, ela morre bem. Não importa se acredita em Deus ou não. Quem vive bem, morre bem.” (Dr. Franklin Santana Santos)

Mas, o que você leitor, pensa sobre tudo isso? Agora, a palavra é sua!

Fonte de pesquisa: Revista Época, 19 de abril de 2010

Bookmark e Compartilhe

Veja também...

Imprimir Imprimir        

Enviar a um amigo





Enviar a um amigo         308 views


    


25 comentários para “Ortotanásia, Eutanásia e Distanásia – LuDiasBH”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Paulo A Teixeira , Paulo A Teixeira . Paulo A Teixeira said: Ortonásia, Eutanásia e Distanásia – LuDiasBH http://bit.ly/c2zyvh Alma Carioca – Arte e Cultura [...]

  2. Paulo Afonso disse:

    Lu,

    Escrevi um longo comentário sobre o assunto. Apertei alguma tecla errada e perdi tudo.

    Tornei a escrever, tornei a perder.

    Preciso de um tmpo para escrevr tudo novamente. Uma pena.

    Bjs,

    Marta Isabel respondeu:

    @Paulo Afonso,

    Paulo

    HAHAHAHAHHAHAHAHA

    Está provando de seu veneno.
    É assim que anda acontecendo conosco.
    Quero o comentário!

    Abraços,

    lu

    LuDiasBh respondeu:

    @Marta Isabel,

    Paulo

    A Marta sempre envia os comentários via e-mail.
    Eu os transponho para o blog, mas sempre acabo me esquecendo de mudar o cabeçalho.
    Minhas escusas!

    Lu

  3. Paulo Afonso disse:

    Como seria bom se a morte acontecesse como um interruptor que se desliga. Na verdade, não é bem assim. A morte acontece em etapas.

    Isso se aplica nos casos de morte natural, quando o coração é o primeiro a parar de funcionar. O corpo ainda respira e tem o domínio da consciência. Há uma luta desesperada para manter o corpo vivo, sem a circulação do sangue.

    Os pulmões são os próximos a parar, sob o acompanhamento desesperado do cérebro, da consciência, que assiste a tudo, impotente, e começa a morrer. É neste momento que acontece a liberação de substâncias químicas e se observa uma luz branca muito intensa, como um túnel, que se apaga logo em seguida. Pacientes reanimados contaram essa experiência, muitos dizendo ser a passagem para outra dimensão.

    Sem respiração, circulação e consciência, após um processo traumático, o paciente é considerado morto. Mas a morte completa ainda não aconteceu. O corpo físico é o somatório de trilhões de células e seres parasitas, que ainda vivem e procuram sobreviver individualmente. Leva algum tempo até que estejam mortos, e alguns ainda sobrevivem, sendo responsáveis pela decomposição do corpo.

    Poderia parar por aqui, com o fim do corpo físico que conhecemos, mas ainda há o corpo astral, mais sutil, que está ligado ao corpo físico por um cordão prateado. Sua separação demora algum tempo. Por isso os espiritualistas não concordam com a cremação do corpo, a menos que seja feita após 3 dias da morte física, dando tempo para a completa libertação do corpo astral.

    O corpo astral é capaz de desligar-se do corpo físico quando ainda estamos vivos, no fenômeno chamado de desdobramento, ou viagem astral. Pessoas treinadas nas técnicas do desdobramento desligam-se mais rapidamente após a morte física.

    O corpo astral é muito importante. É ele quem sobrevive à morte, levando informações para o outro plano. Quem aceita a reencarnação sabe que crianças podem nascer com cicatrizes e marcas que foram adquiridas em vidas anteriores. Estudiosos de magia sabem que, para atingir um inimigo, devem ferir seu corpo astral. Fazendo isso também atingirão o corpo físico. Ferimentos no corpo físico, quando não atingem o corpo astral, são curados com facilidade.

    Mas isso é assunto para outra discussão.

    LuDiasBh respondeu:

    @Paulo Afonso,

    Paulo Afonso

    Vixe Maria!
    Comecei a me arrepiar com a sua descrição da morte.
    Mas, se nunca passou pela experiência da morte, como pode conhecer tudo isso?

    Vi depoimentos em Veja de pessoas, que quase cruzaram o umbral da vida para a morte (algumas dizem que cruzaram), mas que descrevem a passagem como maravilhosa.
    Como se fosse a mais bela das sensações e não como essa tortura descrita por você.

    Pelo que pude entender, com a morte assistida, o agônico não sofre nada, pois está sedado.

    O corpo astral desliga-se do corpo carnal através do cordão de prata.
    Inclusive assisti a um médico no Jô falando que ele ensina uma técnica, para que a pessoa faça essa viagem astral.
    Muitos fazem essa viagem durante o sono (estudei gnose).
    Tive uma amiga, cuja irmã fazia essa viagem sem controle, a ponto de ter que procurar tratamento com um renomado psicólogo mineiro.

    Abraços,

    lu

    LuDiasBh respondeu:

    @LuDiasBh,

    Paulo

    Por favor, corrija o título para mim.
    O correto é ORTOTANÁSIA.

    Obrigada,

    lu

  4. Cristine disse:

    Olá Lu,

    Esse é um assunto delicado, não sei se tenho uma opinião formada a respeito, apesar de já ter refletido muito.

    Quando minha mãe estava em estado terminal, só pude rezar para que Deus a levasse logo e acabasse com seu sofrimento. Ficar prolongando aquilo seria crueldade. Mas ela foi muito bem cuidada até o final.

    Não tenho medo da morte, e se acontecesse de eu estar numa situação dessas, não ia querer que me reanimassem. Não sei se aqui é válido, mas nos Estados Unidos há um documento que o paciente terminal assina, declarando sua vontade de não ser reanimado caso ocorra uma parada cardíaca.

    Realmente as pessoas (e especialmente a classe médica) não sabem aceitar a morte, além do medo da morte em si, do desconhecido além dela, para muitas pessoas até falar no assunto é tabu, como se ao não falar na morte ela pudesse ser evitada. Interessante sua colocação dos médicos encarando a morte do paciente como um fracasso profissional. Muitas vezes, nada se pode fazer, e isso não depende de nós.

    Quando li seu texto lembrei de um filme excelente, que me pôs para pensar: Mar Adentro. O espanhol Ramón Sampedro luta pelo direito de morrer, depois de ter ficado tetraplégico em um acidente. Conforme a história avança, começamos a pensar o que seria o certo ou o errado, e o que faríamos na situação dele, ou mesmo de sua família e amigos.

    A história me impressionou tanto que escrevi um artigo sobre ele.

    Mas ainda assim, não sei o que faria. Só sei que não concordo com esses prolongamentos inúteis da vida quando não há esperança de cura. Melhor aceitar o curso natural das coisas e ter um fim tranquilo e com dignidade, cercado das pessoas queridas.

    Grande beijo!

    LuDiasBh respondeu:

    @Cristine,

    Cris

    A minha mãe estava ótima e teve um aneurisma intestinal.
    Foi levada na mesma hora para o hospital, onde foi operada.
    Ficou quatro meses na UTI, vindo a falecer por falência dos órgãos.
    Segundo os médicos não houve sofrimento, pois ela, no final, ficava sedada.

    Essa é uma questão difícil, depois que se vê uma pessoa sair do estado vegetativo após 16 anos.
    Mas, não há razão para ver alguém sofrer indefinidamente, sem ver uma luz no fim do túnel.

    Eu, pessoalmente, nunca consegui aceitar a morte.
    Aceitava enquanto ela não se metia em meu caminho.
    Depois da morte de meus pais, fiquei ainda mais revoltada.

    Por que não publica o artigo aqui no blog?
    Seria muito interessante.

    Minha querida, é sempre um prazer ler seus comentários.

    Grande beijo,

    lu

  5. gutierritos disse:

    LuDias

    Excelente texto, ótimo tema, bem a propósito, com a aprovação do novo Código de Ética médico.

    No que concerne a ortotanásia, já era a favor.

    É um entender que a vida é passageira e que estamos aqui para sermos felizes. Se tivermos chance de continuar a viver, mesmo com sofrimento, o médico deverá fazer tudo que for possível para extender a continuidade desta vida.

    Entretanto, sou a favor da eutanásia, ou seja, ajudando uma pessoa sem qualquer condição de sobreviver, ao meio de dores inimagináveis, a deixar a vida e descansar. No entanto, temos que respeitar a lei, que veda este proceder.

    Essa prática, a ortotanásia, embora somente agora aprovada, já era feita, pois em casos terminais, apenas se deve fazer de tudo para que a pessoa não sofra com a chegada do final de sua vida. Na prática, v. gratia, o desligar, por exemplo, da respiração artificial.

    A Eutanásia – a morte piedosa – renita-se, é proibida pela lei, considerada por nossas leis como uma assassinato, pois o médico intervém, dando ao paciente, que sofre, procedimentos e substâncias, que o leva à morte, independentemente da doença, de forma que ela, a morte, consentida pelo paciente, seja-lhe mais digna e sem sofrimentos.

    É claro que a Eutanásia – por influência da religião cristã – é condenada, mas já tive conhecimento, pela imprensa, de médicos que a praticaram, na Europa, convencidos por seus pacientes, compadecidos com o seu sofrimento.

    Conheço alguém que ainda hoje está esperando pela morte. Sofre dores terríveis, pois todos os ossos de seu corpo, ao leve movimento, estão se quebrando. Nem se pode pegá-la e pronto: mais uma fratura. Como fazer um pessoa desta, sem qualquer condição de sobrevivência, continuar a viver, quando vier a pedir e até implorar pelo final de seu sofrimento.

    Mas veja bem: essa minha posição, se a lei a permitesse, somente seria viável quando o sofrimento for doloroso demais e o caso não tiver nenhuma condição de sobrevivência e existir um apelo de um doente, pedindo a sua morte e que esteja lúcido e capaz de manifestar a sua vontade, cercado ainda de autorização judicial ( se fosse permitido é claro ).

    Entretanto, a legislação brasileira proibe a eutanásia. E sua execução é considerado um homicídio.

    Parabéns pelo seu artigo.

    abraços.

    LuDiasBh respondeu:

    Gutie

    Os artigos dos comentaristas estão excelentes, enriquecendo o texto mais e mais.

    A eutanásia é uma faca de dois gumes, num mundo cão como o nosso.
    Os médicos de hoje, na sua maioria, já abandonaram o juramento feito no ato da formatura.
    Os hospitais públicos são um perigo, se contrastados com os particulares.
    O dinheiro pode prolongar a vida ou diminuí-la, de acordo com o profissional sem caráter.
    Os ricos não sofrerão o absurdo de passar por uma eutanásia desnecessária.
    Mas, e os pobres e miseráveis?
    Essa é a questão que se levanta num mundo capitalista, em relação à eutanásia.
    Mas entendo perfeitamente a sua posição.
    E com ela eu concordo.
    Acontece que as fronteiras são tão tênues.
    E os profissionais cada vez mais sem ética.

    No caso da senhora citada por você, ela deveria estar no hospital sendo assistida por médicos, ou seja, passar pelos procedimentos da ortotanásia.

    E parabéns pelo seu comentário.

    Abraços,

    lu

    LuDiasBh respondeu:

    @LuDiasBh,

    Cris

    Vi sua recomendação de leitura deste texto no seu RATO DE BIBLIOTECA.
    Muito obbrigada, minha amiga.

    Lu

  6. manoel rodrigues disse:

    Oi, Lu
    Esse é um assunto muito delicado e que nunca vai ter unanimidade.
    Numa análise fria, qualquer pessoa deveria ser favorável à Eutanásia ou a Ortotanásia.
    Mas, quando o paciente é um ser que amamos, como pensar friamente, como esmagar o amor egoísta, como apagar a esperança por um milagre?
    Muito complicada uma resposta para essa questão.
    Abraços
    Manoel

    LuDiasBh respondeu:

    @manoel rodrigues,

    Manoel

    Também penso como você.
    O amor egoístico faz parte de nossa natureza.
    Nunca é fácil despedirmos daqueles que amamos, para sempre.
    E não adianta a história de que “nós nos reencontraremos um dia”.
    Não existe maior dor do que o sentimento de perda para sempre.
    Como bem diz, sempre acreditamos que a situação pode se reverter.
    Minha mãe ficou 4 meses no CTI e eu sempre carreguei a esperança de que ela superaria.
    A nossa dor nunca é igual à dor do outro.
    Ela é imensurável.

    Beijos,

    lu

  7. Hila Flávia disse:

    Lu querida, no meu ofício a gente via de tudo. Uma vez, chegou uma família numa situação desesperadora, por causa de um testamento que a mãe havia feito e que os filhos queriam que revogasse, o que naturalmente não ocorreu, por que existia coação e testamento só pode ser feito por pessoas livres de qualquer tipo de coação ou pressão de qualquer ordem. É a lei e é o entendimento que deve nortear o exercício de um notário.Na época, escrevi um poema que lhe transcrevo. Por causa do tema, pois considero a morte a única certeza da vida. Veja bem:

    SOSSEGO FINAL

    Dois dias a mulher berrou de dor.
    O câncer lhe corroía as entranhas,
    mas ela precisava de lucidez para testar.
    Trocou então a morfina pelo testamento.
    Afinal eram muitos os seus bens
    e eles a perturbavam.

    Seus parentes davam palpites,
    seus afoitos filhos a apressavam,
    pois queria cada um o benefício
    da parte disponível.

    Corendo chamaram o tabelião,
    correndo convocaram testemunhas
    correndo pediram laudo médico.
    Correndo, que podia nem dar tempo;
    correndo que a cobiça
    não se satisfaz com a legítima.
    Correndo, correndo, correndo,
    que a morte não espera.

    E a mulher, sem saber como fazer,
    não conseguia contentar a todos.

    Ah! Meu Deus, não quero morrer
    assim desassossegada.
    Quero morrer deixando apenas a vida.
    Ao sentir a morte chegando,
    chamar o companheiro,filhos,netos,bisnetos.
    Recostar a cabeça bem velhinha
    no travesseiro que minha sogra me fez,
    na cama de jacarandá que foi da minha avó,
    e rezar uma prece de louvor á vida.

    E aí,simplesmente, fechar os olhos.

    E na minha certidão de óbito constar:
    Não deixou bens.
    Partilhou afetos.

    LuDiasBh respondeu:

    @Hila Flávia,

    Hila

    Que poema mais sensível e maravilhoso.
    Somente pessoas generosas como você são capazes de captar o sofrimento de outrem com tanta realidade.

    Deveria tê-lo enviado para a família apodrecida pela ganância.
    Como a sede pela riqueza pode apagar qualquer rastro de humanidade e racionalidade?
    Onde ficou o amor dessa gente?
    Estou horrorizada!

    E que maravilha de pensamento:
    “Quero morrer deixando apenas a vida.”

    e

    “E na minha certidão de óbito constar:
    Não deixou bens.
    Partilhou afetos.”

    E por estas e outras que não pode nos privar de sua presença.

    Beijos no coração,

    lu

  8. Haydée Colussi disse:

    Oi Lu, querida

    Muito difícil este tema porque é complicado demais brincar de Deus.
    Corajosa você ao abordar assunto tão polêmico. Tão polêmico quanto a pena de morte, o aborto e outros mais. Para mim é-me muito difícil pensar em abreviar a vida seja ela de quem for porém quando existe a dor, a pessoa está ferida por um mal terminal, minha vontade egoista é a de, apesar de querê-la próxima, deixá-la ir. Egoista porque não consigo suportar ver o “sentir dor” de alguém. Valeu abordar tal tema com a precisão, especificidade e clareza que você aplica a seus textos.
    Beijo
    Deia

    LuDiasBh respondeu:

    @Haydée Colussi,

    Deia

    A eutanásia é proibida no Brasil, mas mesmo assim é preciso muito cuidado ao optar pela ortotanásia.
    É necessário ter às mãos a opinião de vários profissionais, para se tomar tal decisão.
    Para que não venhamos a nos sentir culpados ao longo da vida.
    Depois que li sobre uma moça que saiu da vida vegetativa após 16 anos, vi que a coisa é muito mais séria.

    Obrigada por seu comentário.
    Você é sempre muito generosa para comigo.

    Beijos,

    lu

  9. Jovimari disse:

    Lu, Gostei do texto, dos comentário, mas principalmente do que o Paulo falou e do que o Dr. Franklin disse no último parágrafo.

    Bonito pensar na morte não como um fim. Bonito pensar na morte sem sofrimento. Feio deixar sofrer ou fazer sofrer.

    E sinceramente, longe de mim a dona morte! Seja o não seja, não quero saber… ruim ou bom? aqui está mais ou menos, prefiro ficar… ;)

    Beijo!

    LuDiasBh respondeu:

    @Jovimari,

    Jovi

    O novo procedimento (ortotanásia) é muito mais humano, não resta a menor dúvida.
    Mas é preciso que os profissionais sejam pessoas muito conscientes.
    O assunto é muito sério.

    Quando não se tem mais saída é humano diminuir o sofrimento.
    Achei que o novo Código de Ética Médica não poderia jamais deixar tal assunto de fora.

    Beijos,

    lu

  10. messias disse:

    um poeminha feito há 28 anos antes:
    …saio de mim para procurar-me/deixo-me sozinho sem mim/que desdita/eu sem vida por minha vida/para mim o ir é chegar/a que lugar não sei/sei apenas que é desintegrar-se/ como no prisma /ei.

    um tema complexo, bem temos normas bem objetivas no caso de eutanasia nos animais!
    bjos

    Messias

    LuDiasBh respondeu:

    @messias,

    Messias

    O seu poema está bem filosófico.
    Muito bonito.

    Cite algumas regras de eutanásia em animais.

    Abraços,

    lu

  11. [...] começar, recomendo um artigo ótimo da Lu Dias no Alma Carioca, que analisa e explica as diferenças entre Ortotanásia, Eutanásia e [...]

  12. Patricia disse:

    Ei Lu!

    A profissão que o erro é inadmissível, em último caso, por ser um humano é o médico. Ele tem uma vida em suas mãos para ser salva.
    Cabe a alguém decidir se uma outra pessoa deve ou não morrer, com que direito ou poder. Temos a ortotanásia para aliviar os sofrimentos vamos usar e abusar deste procedimento.
    Eu jamais iria querer a eutanásia a um ser que amo ou tenha admiração, a medicina esta muito evoluída e assim a capacidade de aliviar o sofrimento.
    Apesar de saber que a única certeza que temos na vida é a morte, ninguém quer ela por perto aaaaaffff.
    Bjos.

    LuDiasBh respondeu:

    @Patricia,

    Pat

    Eu também não aceitaria a eutanásia, quando existem tantos meios de aliviar o sofrimento.
    Você viu o caso da moça que saiu do coma após 16 anos?
    Acho a ortotanásia humana e acessível.
    Não é justo tirar a vida de ninguém.
    Concordo com você!

    Beijos,

    lu

Índice

Panorama Theme by Themocracy