Os olhos não mentem jamais – J. Carino
Minha saudosa mãe gostava de repetir a frase que dá título a esta crônica. Nestes tempos de escândalos, mensalões e operações isto e aquilo, a frase parece mais verdadeira que nunca.
Vivemos os tempos da superexposição na mídia. De tudo temos fotos, filmes, vídeos; a TV, os jornais e revistas flagram e trazem ao conforto de nossa poltrona prisões, depoimentos e entrevistas de suspeitos e de criminosos. E, para mim, os olhos e olhares dessa gente desempenham um papel central e revelador.
Olhar nos olhos não é fácil. Que o digam os apaixonados deejando confessar sua paixão ou os meliantes que almejam esconder seus crimes e falcatruas.
Outra frase lapidar e igualmente verdadeira é: “Os olhos são o espelho da alma”. De fato, para alguém dedicado a observar, quem mente, dissimula, escamoteia demonstra uma falta de sintonia entre a alma que contém a verdade e as palavras que proferem a mentira. Os olhos, que devem estabelecer a sintonia entre uma coisa e outra, traem os propósitos escusos ocultos no discurso que falta à verdade.
O olhar dos políticos e empresário pilhados nas ações corruptas e corruptoras é implacavelmente revelador. É um olhar que se desvia, que se mantém baixo, e mesmo quando seu portador tenta manter a firmeza para tornar a mentira convincente, deixa entrever a falsidade que se procura esconder.
Políticos, que são mentirosos contumazes (e uma coisa, infelizmente é quase sinônimo da outra) parecem crentes na sua imensa capacidade de mentir e enganar. Mas, lá está o olhar – repare, caro leitor – a traí-los inapelavelmente. Os olhos movimentam-se de forma estranha; seu brilho é diferente, ou muitas vezes nem existe, revelando um olhar opaco que parece estar contemplando a mentira interior de seu dono, enquanto tenta passar aos interlocutores uma “verdade” mentirosa.
Concordo com a genial filósofa Hannah Arendt quando afirma serem bem diferentes a “opinião” usada em política da “verdade” almejada (embora jamais alcançável) pela ciência ou pela filosofia. Porém, há limites para o grau de desfaçatez com que políticos e criminosos manipulam as opiniões e tentam impingir mentiras como verdades. A opinião transforma-se então em simples e deslavada mentira, indigna de uma política que, se existir, poderá ser escrita com “p” maiúsculo.
Para perceber tanto esses olhares que desejam esconder a falsidade quanto os que expressam verdades, não se depende tanto quanto se pensa de capacidade intelectiva; basta ter a capacidade de sentir. Por isso, pessoas inteiramente desprovidas de cultura livresca também detectam – talvez até com mais certeza e propriedade – nos olhares a exibição de mentiras impossíveis de disfarçar. E se tais pessoas acabam, por exemplo, votando e renovando o mandato de tais crápulas é menos porque “acreditam” do que por que são confrontados com necessidades materiais básicas que os políticos mentirosos acabam por garantir, enquanto salvaguardam, prioritariamente, seus próprios ganhos e seu poder.
Olhe, prezado leitor, os olhos das crianças. Eis aí um olhar inequivocamente cristalino. Esse olhar se mostra mesmo quando as crianças, que também exercitam com freqüência a mentira, tentam nos convencer de que não se trata de inverdades.
Compare agora, leitor, um olhar infantil desses com a forma de olhar dos criminosos de toda ordem a que me referi antes. Observem e vejam como os olhos não mentem jamais.
Da próxima vez que TV, fotografias ou vídeos mostrarem os mentirosos em ação, repare no olhar dessa gente, caro leitor. Os olhos, como reflexos da alma, revelam, para além da camada superficial física do olho – do globo ocular, da íris, da retina – um brilho de mentira e uma aura de desfaçatez, impossíveis de ocultar inteiramente da observação mais atenta, mais cuidadosa.
Tente, prezado leitor, desconectar esse olhar das palavras que são proferidas pelo mentiroso. A falta de sintonia – sem trocadilho – salta aos olhos.
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J CARINO
De fato, os olhos não mentem.
Isto já percebi.
Pessoas que não olham diretamente para a gente, desvia o olhar para os lados, para cima, para baixo demonstram, na hora, que ou não estão interessados em nossa conversa, ou não querem nem saber, ou estão envergonhadas, mas uma coisa é certa: não possuem sinceridade.
E mais: dificilmente são amigas.
Parabéns pela tua crônica.
J. Carino respondeu:
outubro 10th, 2009 at 9:24
@GUTIERRITOS,
Muito bem observado, Gutierritos.
Cordial abraço.
Carino
Oi, Carino.
Sua mãe é sábia. Sua crônica está perfeita. Mais do que o tom da voz, os olhos dizem exatamente o que a pessoa está querendo dizer: ou para reforçar o que está sendo dito ou desmenti-lo. Aliás, muitas vezes os olhos não precisam da voz para enviar a mensagem.
Por isso, detesto falar ao telefone.
Abraços
Manoel
J. Carino respondeu:
outubro 10th, 2009 at 19:48
@manoel rodrigues,
Manoel:
Tenho um amigo, Itamar, com quem fiz, recentemente, a produção de um jantar beneficente aqui para o Hospital Antônio Pedro, de Niterói. Pois bem, em quase todos os contatos, ele evitou usar o telefone, concordando com o seu argumento: nada substitui o “olho no olho” possibilitado pela presença física.
Obrigado pelo comentário.
Cordial abraço.
Carino,
Concordo com suas idéias do princípio ao fim. Sábia, realmente, a sua mãe. Olhos são transparência, meu amigo. Odeio quem fala sem olhar para mim. Sou como o Gutie. Um abraço. Ana
J. Carino respondeu:
outubro 10th, 2009 at 19:51
@Ana Lucia,
É, Ana Lucia, Dona Maria Augusta, embora tenha estudado apenas até o que então se denominada Terceira Série, num colégio de roça, tinha a sabedoria da escola da vida.
Também não gosto de quem desvia o olhar.
Cordial abraço.