Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada – Cristine Martin
Um interessante artigo do site AlterNet levanta uma questão no mínimo preocupante: nos EUA, é mais barato comer um hambúrguer do que uma salada devido aos grandes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtores de carnes e laticínios. O gráfico abaixo mostra que esses produtos recebem 73,80% dos subsídios governamentais, enquanto cereais recebem 13,23% e frutas e vegetais, apenas 0,37%.
Ao comparar as duas pirâmides do gráfico, vemos que a dieta saudável e ideal deveria ser composta de cereais, vegetais e frutas, e que os produtos proteicos, geralmente de origem animal, deveriam responder por uma pequena parte da dieta.
Entretanto, devido à disparidade de preços, famílias americanas com poucos recursos ingerem mais fast-food que deveriam, simplesmente porque esses alimentos são mais baratos e de fácil acesso que frutas e vegetais. Infelizmente, a diferença será gasta mais adiante, em médicos e remédios.
A procura por alimentos orgânicos e locais ainda está limitada aos que têm condições financeiras para buscar uma alimentação mais saudável; a população menos informada e com menos recursos (e tempo para cozinhar em casa) acaba ingerindo uma dieta rica em proteínas, gordura e carboidratos simples, que somados à falta de atividade física, levam aos altos índices de obesidade que afetam especialmente os menos favorecidos.
Na raiz desse problema está a legislação "Farm bill", que fornece bilhões de dólares em subsídios, cuja maior parte vai para grandes agronegócios que produzem milho, soja, trigo, algodão e arroz; os dois primeiros são usados na alimentação do gado. No final, esses subsídios "agrícolas" vão mesmo para a produção de carne.
Por outro lado, agricultores que produzem frutas e vegetais recebem menos de 1 por cento da ajuda do governo. O subsídio incluído na Farm Bill foi criado como um programa temporário em 1996, mas foi mantido pelas farm bills de 2002 e 2008.
O artigo também alerta que desde 1978 o preço dos refrigerantes caiu 33 por cento enquanto o preço das laranjas subiu 40 por cento. Não foram só esses números que mudaram desde a década de 70: o peso médio de um jovem de 18 anos hoje é 7 kg maior que o de um jovem de 18 anos no fim dos anos 70. O peso médio de uma mulher de 60 anos hoje é 9 kg maior que o de uma mulher de 60 anos no fim dos anos 70. O peso médio de um homem hoje tem 11 kg a mais. Os americanos estão ficando mais gordos e menos saudáveis.
Mas os grandes produtores de alimentos não são os únicos beneficiados pela política de subsídios governamentais norte-americanos; no capítulo mais recente da disputa entre o governo dos EUA e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil recebeu autorização da OMC para retaliar os EUA pelos prejuízos causados pelos subsídios aos produtores de algodão. A China é o maior produtor mundial de algodão, enquanto EUA estão em segundo lugar e o Brasil é o quinto da lista.
Os subsídios têm prejudicado a exportação de algodão pelos outros países, favorecendo os EUA na concorrência, pois seus preços caem artificialmente e provocam a queda dos preços internacionais dos produtos. Com a retaliação, que deve se iniciar em abril, diversos tipos de produtos importados dos EUA terão aumento nos impostos de importação. A medida afeta principalmente artigos de luxo como automóveis, eletrônicos e cosméticos, mas também o trigo.
Antes de 1996, os produtores agrícolas recebiam subsídios com base no tipo de colheita e nos preços de mercado. Tal política fazia que os agricultores decidissem o que plantar com base mais na política do governo que nas demandas do mercado. A reforma "Freedom to Farm", aprovada naquele ano, separou os subsídios daquelas condições. A partir daí, os agricultores recebiam valores fixos, sem importar o que fosse plantado. Com o tempo, a maior porcentagem dos recursos ficou nas mãos de poucos grandes produtores.
No início de 2009 o presidente Obama havia declarado o corte dos pagamentos diretos aos produtores agrícolas mais ricos (com ganhos de mais de $ 500 mil dólares por ano), a redução de subsídios para seguro rural e a eliminação de créditos para o armazenamento de algodão para o orçamento de 2010. A decisão da OMC indica que ele não cumpriu com essas determinações.
O Congresso dos EUA rejeitou por duas vezes o veto do presidente Obama à Farm Bill de 2008. No início de março deste ano, o Senado norte-americano aprovou um aumento no teto do subsídio a ser recebido individualmente pelos agricultores. O valor aprovado é de até 360 mil dólares por ano para cada produtor.
Como comparação, o maior gasto com subsídio agrícola no Brasil é na complementação da taxa de juros devida pelo agricultor aos bancos. Essa ajuda chega a R$ 60 bilhões por ano.
Os Estados Unidos e a Europa, que seriam grandes mercados para nossos produtos agrícolas, subsidiam seus produtores e suas exportações, o que gera uma concorrência desleal com países que não têm essa ajuda de seus governos. Ao mesmo tempo, exigem a abertura de nosso mercado.
No artigo do site MX Trading, o Prof. de Economia Rural da UFP, Eugênio Stefanello, diz que "os Estados Unidos não se constrangem em violar as normas do comércio internacional quando querem beneficiar seus produtores e chama isto de segurança alimentar ou promoção do desenvolvimento econômico interno. Os americanos já anunciaram que vão continuar subsidiando a sua agricultura e que querem aumentar suas exportações do agronegócio".
O Prof Stefanello afirma que ao Brasil resta buscar, através da OMC, o cumprimento das normativas internacionais, e que a estratégia que vem sendo usada pelo nosso Ministério da Agricultura é o melhor meio de enfrentar essa concorrência. O setor privado deveria aumentar a produtividade, reduzindo custos e melhorando a qualidade de seus produtos. O setor público deveria adotar uma política agrícola baseada na estabilização da renda, reduzindo a carga tributária, facilitando o transporte e simplificando a burocracia e negociando a redução de barreiras impostas pelos outros países à importação de produtos brasileiros.
O Brasil hoje exporta principalmente para a China, EUA e Europa; com essas medidas e o combate à política de subsídios usada pelos outros países, as exportações brasileiras poderiam crescer, o que seria bom para o PIB brasileiro e, por que não, para a dieta dos norte-americanos. Afinal, um sanduíche (não necessariamente hambúrguer) acompanhado de uma boa saladinha é bem melhor e mais saudável, não?
Para saber mais:
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artigo: "Why a Big Mac costs more than a salad", de Tara Lohan, no site AlterNet
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artigo: "Com chapéu alheio" – site MX Trading
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artigo: "OMC autoriza Brasil a retaliar EUA por subsídio ao algodão" – O Globo
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artigo: "Subsidies in the Soil: Farm Bill talking points", de Brain M Riedl, no site Heritage.org
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artigo: "Latest plan to cut farm subsidies likely dead", de Steve Karnowski, no site Real Clear Politics
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CRISTINE
Maravilhoso artigo.
Estudioso em Direito, uma das primeiras lições que aprendi foi a definição maravilhosa do jurista eterno, Pedro Lessa, onde, dentro dela, se extrai a finalidade do Estado:
” dar condições de vida e desenvolvimento ao indivíduo e a sociedade “.
Por aí se vê, como pode o poder do capitalismo selvagem prejudicar, em nome da ambição de poucos, os objetivos estatais, no caso, como muito bem demonstrastes, a saúde do povo americano.
A obesidade é uma doença, conceito que, infelizmente, poucos tem conhecimento.
Ela reduz o tempo vida e pode-nos conduzir a doenças graves, inclusive à morbidade.
A saúde de cada um de nós é um direito que temos em escolher, somos livres para abusarmos de todos os malefícios de uma péssima alimentação, mas a Saúde Pública é um dever do Estado.
Desta forma, é inadmissível uma política de subsídios que coloque em risco, o que está muito bem demonstrado por teu artigo, a saúde como um todo no EEUU, pois está induzindo o povo mais necessitado, pelo baixo preço, ao consumo excessivo de proteinas animais, as quais estão no topo da pirâmide alimentar, para serem utilizadas – e devem ser – mas em quantidades mínimas.
Embora os EEUU se propaguem como a maior democracia do mundo, parece, mesmo, que há ditadores ocultos, que, de forma sutil, quase imperceptivel, promovem o ditame de suas vontades pessoais, mesmo em detrimento ao interesse coletivo.
Nem mesmo a vontade do presidente, eleito por grande maioria do povo americano, consegue enfrentar o lobby dos verdadeiros detentores do Poder.
Excelente e instrutivo artigo, que nos dá, dentro das medidas exatas, a dimensão da malignidade do capitalismo sem freios.
Não sou daqueles que colocam culpa de todos os males no capitalismo, mas há que se ter meios e condições para detê-lo, quando extravasa os limites e chega a causar graves prejuízos ao povo.
Esta questão – capitalismo selvagem – inclusive tem tido, atualmente, muita projeção nos temas ambientais.
Mas não devemos esquecer que, seja nos regimes socialistas, como nos democráticos, ele está presente, como acontece, v. gratia, com a China que, a pretexto de necessidade imperiosa de crescimento, está exageradamente agredindo o ambiente.
Essa luta para deter os excessos do capitalismo – é claro – é muito mais acessível nos países democráticos, onde a vontade popular pode influir nos destinos do País, mas há que se ter uma consciência nacional sempre mais elevada, na escolha também dos membros congressistas, pois todos governam.
Parabéns pelo notável texto.
abraços.
@gutierritos: obrigada pela leitura e pelo excelente comentário; como sempre você vem enriquecer os textos com suas observações.
Não creio que o capitalismo em si seja o grande culpado, mas da forma como vem sendo conduzido, tem causado mais mal que bem. A busca do lucro a qualquer preço, sem pensar nas consequências, está nos levando a uma situação cada vez mais insustentável.
Aquecimento global, obesidade de um lado e fome crônica de outro, concentração de renda, desemprego, consumismo exgerado, abuso e desperdício dos recursos naturais, todos esses problemas são consequência desse capitalismo selvagem.
Em seu último parágrafo você aponta uma saída: a democracia, e a conscientização do povo. Só mesmo assim poderemos mudar alguma coisa.
Grande abraço!
gutierritos respondeu:
março 13th, 2010 at 15:38
@Cristine,
Também penso assim.
Há que se buscar a sustentabilidade do sistema capitalista.
Mas há aqueles que pensam ser esta idéia utópica:
http://www.gazetadopovo.com.br/economia/conteudo.phtml?id=767050
De qualquer forma, penso que todo conceito envolve a participação do ser humano, quem criou o sistema, quem o organiza, quem o executado e quem o pode transformar e dar-lhe sustentabilidade.
Mas o homem?!…
É tão difícil, mas a esperança, prezada amiga, não pode deixar de existir! Quando ela for extinta, estaremos juntos dela também!
Abraços.
Cristine respondeu:
março 13th, 2010 at 16:12
@gutierritos, tem razão, se perdermos a esperança e acharmos que não adianta fazer nada, é o caminho mais curto até o fim.
No artigo cujo link enviou acima eles dizem que a sustentabilidade total é impossível; acredito que sim, mas até mesmo uma sustentabilidade parcial é preferível a nenhuma. Qualquer ação que se faça no sentido de diminuir o impacto ambiental é válida.
Revogar o capitalismo é meio difícil, mas quanto mais pessoas se conscientizarem da sua responsabilidade social e ambiental, melhor será. Afinal, todo sistema é feito de pessoas.
Grande abraço!
Parabéns pelo artigo, muito esclarecedor. Uma evidência de que o capitalismo precisa de uma urgente reforma para ser tornar humano e cumprir o seu papel.
Cristine respondeu:
março 13th, 2010 at 19:53
@Paulo Afonso, obrigada, Paulo; se governos e empresas não lembrarem que suas decisões afetam a vida de milhões de pessoas, e visarem só o lucro ou as metas de crescimento estaremos perdidos; por outro lado, se as decisões forem tomadas daqui para a frente visando o bem comum, já é meio caminho andado para um mundo melhor.
Grande abraço!
Cris
Desculpe-me pelo atraso em comentar o seu excelente texto.
Estou com problemas na internet (no servidor), que está me deixando fora do ar muito tempo.
Primeiro, permita-me dar uma dicazinha sobre a palavra em destaque no texto:
“Subsídio: do latim subsidium, subsídio, ajuda.
Primeiramente significou socorro militar, indicando tropas de reserva e quantias pagas pelo Estado a seus funcionários.
Mais tarde passou a designar renúncias fiscais, com o fim de baratear o custo final de determinados produtos.
Os pais da pátria são pródigos em arranjar subsídios,cuja conta no fim é paga pela filha.” (Deonísio da Silva)
O fato é que, com a globalização, os subsídios passaram a ter um papel preponderante no comércio entre as nações.
Volta é meia deparamo-nos com uma briga aqui, outra acolá.
Mas, no fim, os mais mais pobres ou menos desenvolvidos é que são os mais afetados.
As grandes potências não obedecem às leis da OMC que procuram equilibrar o comércio, de modo a não prejudicar os países mais frágeis.
As grandes potências trabalham com o lucro a qualquer preço.
Nem que para isso sacrifique a saúde de seu povo.
Sem falar que as grandes indústrias são partes efetivas do jogo político, que se desenrola por trás dos bastidores.
E mais, em muitos casos, elas são o próprio governo, como vemos aqui na América do Sul.
Já que a OMC não dá conta de punir os responsáveis, sou totalmente favorável aos embargos.
Também não podemos nos esquecer de que o lema do capitalismo não engloba o bem-estar dos indivíduos, mas o enriquecimento a qualquer preço.
O EUA é uma prova incontestável de tal política.
Cris, parabéns palo artigo inteligente, esclarecedor e fácil de ser compreendido.
Grande beijo,
lu
Cristine respondeu:
março 15th, 2010 at 19:29
@LuDiasBh, Obrigada pelo excelente comentário, como sempre cheio de opiniões e informações preciosas.
Concordo com você, o lema do capitalismo é o enriquecimento a qualquer custo. E em geral quem paga a conta somos nós.
O proposto ‘capitalismo sustentável’, se vier a existir, será uma boa possibilidade de manter o lado bom do capitalismo e também visando o bem estar e a sobrevivência dos indivíduos. Tomara, não?
Grande beijo!