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Os subsídios agrícolas, o Big Mac e a salada – Cristine Martin

Por Cristine Martin, 13 de março de 2010 2:37

Um interessante artigo do site AlterNet levanta uma questão no mínimo preocupante: nos EUA, é mais barato comer um hambúrguer do que uma salada devido aos grandes subsídios oferecidos pelo governo norte-americano aos produtores de carnes e laticínios. O gráfico abaixo mostra que esses produtos recebem 73,80% dos subsídios governamentais, enquanto cereais recebem 13,23% e frutas e vegetais, apenas 0,37%.

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Ao comparar as duas pirâmides do gráfico, vemos que a dieta saudável e ideal deveria ser composta de cereais, vegetais e frutas, e que os produtos proteicos, geralmente de origem animal, deveriam responder por uma pequena parte da dieta.

Entretanto, devido à disparidade de preços, famílias americanas com poucos recursos ingerem mais fast-food que deveriam, simplesmente porque esses alimentos são mais baratos e de fácil acesso que frutas e vegetais. Infelizmente, a diferença será gasta mais adiante, em médicos e remédios.

A procura por alimentos orgânicos e locais ainda está limitada aos que têm condições financeiras para buscar uma alimentação mais saudável; a população menos informada e com menos recursos (e tempo para cozinhar em casa) acaba ingerindo uma dieta rica em proteínas, gordura e carboidratos simples, que somados à falta de atividade física, levam aos altos índices de obesidade que afetam especialmente os menos favorecidos.

Na raiz desse problema está a legislação "Farm bill", que fornece bilhões de dólares em subsídios, cuja maior parte vai para grandes agronegócios que produzem milho, soja, trigo, algodão e arroz; os dois primeiros são usados na alimentação do gado. No final, esses subsídios "agrícolas" vão mesmo para a produção de carne.

Por outro lado, agricultores que produzem frutas e vegetais recebem menos de 1 por cento da ajuda do governo. O subsídio incluído na Farm Bill foi criado como um programa temporário em 1996, mas foi mantido pelas farm bills de 2002 e 2008.

O artigo também alerta que desde 1978 o preço dos refrigerantes caiu 33 por cento enquanto o preço das laranjas subiu 40 por cento. Não foram só esses números que mudaram desde a década de 70: o peso médio de um jovem de 18 anos hoje é 7 kg maior que o de um jovem de 18 anos no fim dos anos 70. O peso médio de uma mulher de 60 anos hoje é 9 kg maior que o de uma mulher de 60 anos no fim dos anos 70. O peso médio de um homem hoje tem 11 kg a mais. Os americanos estão ficando mais gordos e menos saudáveis.

Mas os grandes produtores de alimentos não são os únicos beneficiados pela política de subsídios governamentais norte-americanos; no capítulo mais recente da disputa entre o governo dos EUA e a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil recebeu autorização da OMC para retaliar os EUA pelos prejuízos causados pelos subsídios aos produtores de algodão. A China é o maior produtor mundial de algodão, enquanto EUA estão em segundo lugar e o Brasil é o quinto da lista.

Os subsídios têm prejudicado a exportação de algodão pelos outros países, favorecendo os EUA na concorrência, pois seus preços caem artificialmente e provocam a queda dos preços internacionais dos produtos. Com a retaliação, que deve se iniciar em abril, diversos tipos de produtos importados dos EUA terão aumento nos impostos de importação. A medida afeta principalmente artigos de luxo como automóveis, eletrônicos e cosméticos, mas também o trigo.

Antes de 1996, os produtores agrícolas recebiam subsídios com base no tipo de colheita e nos preços de mercado. Tal política fazia que os agricultores decidissem o que plantar com base mais na política do governo que nas demandas do mercado. A reforma "Freedom to Farm", aprovada naquele ano, separou os subsídios daquelas condições. A partir daí, os agricultores recebiam valores fixos, sem importar o que fosse plantado. Com o tempo, a maior porcentagem dos recursos ficou nas mãos de poucos grandes produtores.

No início de 2009 o presidente Obama havia declarado o corte dos pagamentos diretos aos produtores agrícolas mais ricos (com ganhos de mais de $ 500 mil dólares por ano), a redução de subsídios para seguro rural e a eliminação de créditos para o armazenamento de algodão para o orçamento de 2010. A decisão da OMC indica que ele não cumpriu com essas determinações.

O Congresso dos EUA rejeitou por duas vezes o veto do presidente Obama à Farm Bill de 2008. No início de março deste ano, o Senado norte-americano aprovou um aumento no teto do subsídio a ser recebido individualmente pelos agricultores. O valor aprovado é de até 360 mil dólares por ano para cada produtor.

Como comparação, o maior gasto com subsídio agrícola no Brasil é na complementação da taxa de juros devida pelo agricultor aos bancos. Essa ajuda chega a R$ 60 bilhões por ano.

Os Estados Unidos e a Europa, que seriam grandes mercados para nossos produtos agrícolas, subsidiam seus produtores e suas exportações, o que gera uma concorrência desleal com países que não têm essa ajuda de seus governos. Ao mesmo tempo, exigem a abertura de nosso mercado.

No artigo do site MX Trading, o Prof. de Economia Rural da UFP, Eugênio Stefanello, diz que "os Estados Unidos não se constrangem em violar as normas do comércio internacional quando querem beneficiar seus produtores e chama isto de segurança alimentar ou promoção do desenvolvimento econômico interno. Os americanos já anunciaram que vão continuar subsidiando a sua agricultura e que querem aumentar suas exportações do agronegócio".

O Prof Stefanello afirma que ao Brasil resta buscar, através da OMC, o cumprimento das normativas internacionais, e que a estratégia que vem sendo usada pelo nosso Ministério da Agricultura é o melhor meio de enfrentar essa concorrência. O setor privado deveria aumentar a produtividade, reduzindo custos e melhorando a qualidade de seus produtos. O setor público deveria adotar uma política agrícola baseada na estabilização da renda, reduzindo a carga tributária, facilitando o transporte e simplificando a burocracia e negociando a redução de barreiras impostas pelos outros países à importação de produtos brasileiros.

O Brasil hoje exporta principalmente para a China, EUA e Europa; com essas medidas e o combate à política de subsídios usada pelos outros países, as exportações brasileiras poderiam crescer, o que seria bom para o PIB brasileiro e, por que não, para a dieta dos norte-americanos. Afinal, um sanduíche (não necessariamente hambúrguer) acompanhado de uma boa saladinha é bem melhor e mais saudável, não?

Para saber mais:

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A vagareza da literatura – Terezinha Pereira

Por Terezinha Pereira, 13 de março de 2010 2:32

Fiquei matutando sobre o dito da escritora Malluh Praxedes (mineira, de Pará de Minas) em uma de suas crônicas: “a literatura é a mais lenta das artes”. Diz ela haver lido esta afirmativa numa entrevista que um escritor e estudioso de literatura concedera ao jornal “Estado de S.Paulo”. Um dizer que trata da relação silenciosa e solitária e lenta do autor e também do leitor com um livro.

Comentou também Malluh nesse artigo, a respeito do “amor à primeira vista” que pega um observador, espectador ou mesmo admirador diante de alguma expressão artística: um quadro, uma escultura, ou mesmo uma peça de teatro ou um filme. Nestes casos, a obra se desnuda de imediato diante do que a contempla. No entanto, quando um leitor pega um livro, esse não tem como imaginar o que vai encontrar ali dentro. Ele tem que percorrer página por página, linha por linha, palavra por palavra, ponto por ponto, para se dar conta do que o autor da obra estaria querendo lhe contar.

Pouco após a leitura do texto da Malluh, vi um programa na televisão, o “Terras de Minas” em que foram mostrados caminhos percorridos por Guimarães Rosa antes de ele construir a grande obra-prima da literatura brasileira que é o seu “Grande sertões: veredas”. Antes de escrever o livro, Rosa percorreu a pé, a cavalo, de carro de boi, grande extensão das terras de Minas que lhe possibilitaram conceber o cenário, a linguagem e os personagens de seu livro. Ele caminhou, dia claro, dia escuro, apreciou amanheceres, quando o céu apresentava um barrado rosa, viveu anoiteceres, quando este céu ficava de um laranja ou _ nem mesmo ele soube dizer_ se cor de cobre. Conheceu boiadeiros, jagunços, donos de fazendas, mulheres destemidas, terras sem fim. Ouviu casos acontecidos e também casos de assombração. Comeu de comidas ainda não experimentadas, bebeu de bebidas inusitadas. Coisas de sertão.

Nesse tempo, Rosa viveu o sertão. Sentiu o cheiro, a temperatura, viu as cores, até mesmo a infinidade de tons de verde das matas dos caminhos percorridos. Só então, isolado em seu escritório, Rosa trabalhou com as palavras. Pegou de uma caderneta, cheia de anotações e desenhos que, segundo seus acompanhantes, ele levava sempre pendurada no pescoço, como se fosse um medalhão e partiu para o jogo. (Que será a literatura senão um jogo de palavras?) Jogo de palavras. Palavras que vêm, palavras que fogem. Palavras que brotam de outras. Palavras que chegam carregadas de outras. Foram precisos mais de 3 anos de luta para que “Grande sertão: Veredas” chegasse aos leitores, em 1957.

Que nessa luta Rosa varou noites, dias, finais de semana, períodos de férias, estou convencida de que sim. Posso até jurar que ele tenha passado dias e dias perseguindo palavras. Ele refletiu, cogitou, remoeu, matutou, costurou, remendou, fez cortes e recortes. Quando o livro foi oferecido ao leitor, deu-se um susto. Que história é esta? Que são estas palavras? Nonada! A primeira palavra do livro. Que vem a ser uma história que começa com o não e o nada? O desafio de Rosa. (Querem me decifrar. Então, leia. Se necessário, releia, tresleia.) Depois de nonada, o narrador intervêm “Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. ……….O senhor ri certas risadas…….. Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão.” Rosa faz alusão a ruídos para explicar o que é o sertão de que ele vai contar. Tiros. Risadas. Cachorrada a latir. Com palavras, Rosa pinta ruídos. Depois, depois…depois que a cachorrada pega a latir é que se vai ver se deu mortos. Com palavras, Rosa escreve o som, tece a paisagem, os diversos tons do verde, o tingimento variado do céu, o canto da boiada, a lamúria do boiador, a saga de cada um dos personagens. Com a justa vagareza da literatura.

Há 50 anos que Rosa trouxe a público o resultado de sua luta, de sua perseguição a palavras, num livro que percorre mundo inteiro a desafiar leitores. Um livro que encanta, espanta, surpreende, maravilha, assombra quem se propõe a percorrer, com lentidão e ao mesmo tempo com ritmo, uma das mais belas obras de arte da literatura de todos os tempos.

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Palavras e Preconceitos – Rosali Amaral

Por Rosali Amaral, 12 de março de 2010 17:26

É claro que devemos ter o cuidado com o que pronunciamos. Afinal, a boca fala aquilo de que o coração está cheio.

Mas proibir a pronúncia de certas palavras só aumenta o foco do preconceito, que existe nas pessoas, e não nas palavras em si.

Existem algumas palavras politicamente corretas, na cartilha Cartilha do Politicamente Correto, que fazem com que ela fique mais parecida com uma cartilha de piadas.

Vejam se não tenho razão:

- Anão: (serve também para “baixinho” ou “tampinha”): Dizer pessoa verticalmente prejudicada ou pessoa verticalmente desavantajada ou verticalmente comprimida.

- Careca: dizer pessoa capilarmente desavantajada ou portador de um tipo especial de organização capilar. Aí, ao invés de cantar “é dos carecas que elas gostam mais”,é melhor cantar: “é dos que têm proposta capilar alternativa que  elas gostam mais”.

- Cabeça-de-vento: dizer indivíduo cérebro-atmosférico.

- CD Pirata: substituir por genérico da música (custa mais barato e tem o mesmo efeito).

- Desempregado: não-assalariado, pessoa que goza de lazer involuntário, indefinidamente inativo, temporariamente deslocado do mercado de trabalho, privado de vocação, em transição entre carreiras.

- Feio: dizer(para preservar a auto-estima dos assim designados)cosmeticamente diferentes. Na versão politicamente correta, a estória infantil ” O Patinho Feio” deveria ser “O Patinho Cosmeticamente Diferente”.

- Mudo: indivíduo vocalmente desafortunado ou oralmente prejudicado.

- Morto: pessoa terminalmente prejudicada ou pessoa não-vi va.

- Pesca: atividade criminosa que resulta na opressão e/ouextinção genocida das criaturas ictio-americanas (vulgos peixes).

- Suruba: poligamia consensual.

- Velho: maduro, experiente, cronologicamente abastado.

Fala sério!

Isso parece brincadeira, mas infelizmente não é!

Felizmente a sensatez falou mais alto e a SecretariaEspecial dos Direitos Humanos retirou de circulação e engavetou esta cartilha.

O policiamento da linguagem deve ser uma atitude ética, advinda da educação e do caráter.

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Cada um com suas dores – Jovimari Balotin

Por Jovimari Balotin, 12 de março de 2010 6:46

Viver é doído. Triste constatação, mas real e verdadeira. E com tão fortes aflições presentes no mundo, vou me acostumando. E me acostumando vou tentando descobrir uma forma de proteção. E penso, aceito e também sofro em dizer “cada um com suas dores”, mas é a única forma que encontro para seguir forte em meio a pequenas e grandes fraquezas, minhas e de tantos.

Sinto que me acostumo com inúmeras dores em minha volta e fico triste, mesmo sabendo que apenas sou mais uma nesta estrada de múltiplas facetas.

Há tristeza em me acostumar com o pedinte que me emocionava ao dizer em agradecimento, uma poesia simples, mas cheia de ternura. Há tristeza em me acostumar a ouvir os lamentos de amigos com dores da alma, do coração, da solidão. Há tristeza em me acostumar com ausências de importantes amores, de queridos amigos, de inesquecíveis paixões, de eternas lembranças. Há tristeza em me acostumar a não ter lágrimas na calada do abandono. Há tristeza em não doar aconchego num momento de carência. Há tristeza em sentir o incômodo silêncio e o seu barulho ensurdecedor, e nada fazer.

Os dias se consagram na pureza de cada manhã, mas logo acompanha o caminhar. E cada passo leva à direções indefinidas, mas impostas. Sigo meu destino. Ou ele me segue? O sofrimento do próximo, fica mais próximo. Está em mim.

Ouso imaginar palavras de conforto. Até as pronuncio, discreta em meu mundo. Reflito, procuro consolo no outro, e então, sou capaz de sugerir, de insistir, de persistir. Mas nada é capaz de mudar aquele pequeno universo, repleto de vozes internas e traumas marcantes. Eles não me ouvem, eles não se ouvem. É mais fácil apenas continuar. Renovar nem sempre traz conforto inicial. Há o medo que apavora, me mascara, que impede.

Não posso ajudar. De coração atado a fios invisíveis, perco meu sono, que tanto me alivia, e escrevo o que não digo. Escrevo na procura do som que a minha voz não emite. Eu quero, na verdade, encontrar nem que seja um murmúrio, mas que tenha intensidade suficiente e uma possibilidade clara que acalme, que alivie, que traga mudança, esperança, vida.

Confusa, cansada, deixo que meus sussurros me calem.

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Sinais modernos – Manoel Rodrigues

Por Manoel Rodrigues, 11 de março de 2010 17:52

Saio do trabalho por volta de oito horas da noite. Havia sido um dia calmo, nenhum acontecimento me deixou irritado ou nervoso, quase todas as tarefas que se me apresentaram eram rotineiras.

Entro no carro, boto o disco da banda mexicana Maná para tocar pela ducentésima trigésima vez e fico pensando na inutilidade do dia que está terminando: nada aconteceu de destacável, para o bem ou para o mal, e quando a meia-noite chegar ele será apenas mais um risco no calendário.

O carro desliza lentamente pela Praia de Icaraí, em Niterói, e o meu olhar distraído se alterna: ora passeia pelas pessoas que se exercitam no calçadão, ora se deslumbra com a imagem da cidade do Rio de Janeiro à minha direita. As luzes da “cidade maravilhosa”, as silhuetas dos seus prédios e o contorno de suas montanhas, são repousantes.

Subo a Estrada Froes. À minha esquerda, o morro do Cavalão, com uma ou outra mansão encarapitada, não me prende muito a atenção, até o aparecimento de uma lua cheia, completamente redonda, saída repentinamente de detrás dele, como se resolvesse espiar a minha passagem, logo eu, um mortal quase invisível. E, entre sumidas e ressurgimentos do nosso satélite, conforme se desenvolvem as curvas da estrada, percorro aquela via e chego à Praia de São Francisco.

Dobro para entrar na Avenida Presidente Roosevelt em direção à Estrada da Cachoeira. A lua agora se desprendeu do morro deixado para trás e, à minha frente, parece pedir que eu a siga, como se indicando que Alguém importante acabasse de re-encarnar e, em algum lugar adiante, necessitasse da minha presença; ou como se houvesse um pote de dólares a me esperar no fundo de alguma reentrância do morro do Maceió.

– É uma lua, seu idiota! – comento para mim mesmo. Não é uma estrela, nem um arco-iris!

Pense bem, você nem é tão religioso! Além do mais, você deixou de ser criança há mais

de meio século, fica até ridículo relembrar historinha infantil. – continuo falando, aos

murmúrios.

Termino de subir a Estrada da Cachoeira, passo pelo Largo da Batalha e dobro à direita, em direção às praias oceânicas. Em seguida, dois ou três quilômetros percorridos, ela aparece outra vez, por sobre o Morro do Cantagalo, bem acima do Cemitério Parque da Colina. Finjo que nem a vejo, cemitérios não são meus lugares favoritos para olhar ou explorar, mesmo que me tenham convidado a somente conhecê-los, e mesmo que sejam do estilo de campos floridos, tipo área de lazer.

Contudo, continuo a pensar por qual motivo ela vem se mostrar a mim, a todo momento, exuberante e majestosa, em diversos trechos do percurso. Será que deseja me atrair para alguma “furada”, como vingança por eu ter esnobado alguma dragoa a ela simpática, que tenha topado comigo ao longo da vida, depois de ter sido expulsa da superfície lunar pelo seu guardião, o valente São Jorge guerreiro? Ou, simplesmente vaidosa, faz questão de se mostrar bela para que eu, pobre misturador de letras, a homenageie com um texto definitivo? Ou tenta provar ser ainda possuidora do glamour e mistério com que enfeitiçava namorados e artistas sonhadores, antes de ser reduzida a uma simples cobaia sideral por cientistas e navegantes espaciais?

Dobro à direita para descer a serra em direção às praias, depois à esquerda, direita, esquerda, etc. E nessa sucessão de guinadas chego à minha rua, justo quanto o solo do guitarrista do Maná dá a introdução para iniciar a música em homenagem ao nosso herói ambientalista, Chico Mendes. Embico o carro para entrar na garagem, desligo o motor, porém permaneço sentado, de olhos fechados, curtindo as variações das notas musicais e a harmonia existente entre os instrumentos, formando um som impressionante, que se amplia no ambiente fechado e silencioso. Há uma paz dentro e em torno de mim, uma paz semelhante à que se obtém após se conseguir a resolução de algum problema meio insolúvel, ou após se concluir uma tarefa que se demonstrava extremamente complicada, ou, definindo mais adequadamente, uma paz semelhante à sensação de dever cumprido.

Desço do carro, abro o portão de casa e olho para cima. Lá está ela, exatamente em cima da casa, roçando as telhas, formando um círculo plenamente preenchido e com um halo em volta, parecendo uma hóstia meio prateada, meio dourada, como se estivesse abençoando aquele espaço, como se querendo dizer aquilo que eu já sei.

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Esporádica visita – Ana Lucia Timotheo da Costa

Por Ana Lucia Timotheo da Costa, 11 de março de 2010 17:50

Quando ele
Aparece
Volta
A reconhecer
Algumas coisas
Mínimas
Íntimas.
Percebo que
Seu chão
É outro.
Lutamos
Contra a estranheza.
Há novo
Andamento
Na emoção.
Mas se está
Feliz
Apenas isto basta.

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Os grandes intérpretes da música brasileira – Gutierritos-SP

Por Gutierritos-SP, 11 de março de 2010 6:56

FRANCISCO ALVES

Parte I

Francisco Alves morreu em 27 de setembro de 2009, vitimado por um acidente de carro, na via Dutra. Foi uma tristeza de norte a sul.

Ao tomar conhecimento, a Rádio Nacional parou todas as suas programações e passou a comentar o seu falecimento. A primeira gravação que essa emissora colocou, no ar, penso que até propositadamente, foi o “Adeus ”, composição de Silvino Neto, gravada por Francisco Alves, comovendo ainda mais o povo brasileiro.

Imaginem o povo ouvindo a música, com letras que pareciam ser uma carta de despedida do Rei da Voz:

Adeus, adeus, adeus,
Cinco letras que choram,
Num soluço de dor..
Adeus, adeus, adeus,
É como o fim de uma estrada,
Cortando a encruzilhada,
Ponto final de um romance de amor.

Quem parte tem os olhos rasos d’água,
Sentindo a grande mágoa,
Por se despedir de alguém.
Quem fica, também fica chorando,
Com um coração penando,
Querendo partir também.

Adeus, adeus, adeus.

Vejam a magnífica interpretação de Eduardo Cabus e Nancy Monçores em Francisco Alves “O Rei da Voz” – São Paulo – SP – Teatro Bibi Ferreira:

Francisco Alves era contratado da Rádio Nacional e a emissora, depois de algumas horas, decretou luto e encerrou suas transmissões no dia.

Foi uma das ocasiões que o País parou e para chorar. Ele não era apenas um cantor, mas um ídolo nacional.

O Brasil todo conhecia as músicas do Rei da Voz, também apelidado de Chico Viola, que se fazia acompanhar sempre de um violão. Foi um dos maiores intérpretes, chegando até a fazer composições, ao lado de Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo, em todos os tempos, de canções, serestas, valsas – estas que foram as grandes músicas populares até a metade do século passado.

Vale a pena acompanhar este vídeo do programa Ensaio da Tv Cultura, feito em 1995, que mostra o grande cantor popular que foi o nosso Chico Viola.

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Saudades – Haydée Colussi

Por Haydée Colussi, 11 de março de 2010 6:51

O mar me embala
O mar me nina
­─ Engano seu,
dizia meu amor.
─ Eu é que te embalo menina!!!

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