jan 04

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça

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jan 04

É de uso que, nas sobremesas, se façam brindes em honra ao aniversariante, ao par que se casa, ao infante que recebeu as águas lustrais do batismo, conforme se tratar de um natalício, de um casamento ou batizado. Mas, como a sobremesa é a parte do jantar que predispõe os comensais a discussões filosóficas e morais, quase sempre, nos festins familiares, em vez de se trocarem idéias sobre a imortalidade da alma ou o adultério, como observam os Goncourts, ao primeiro brinde se segue outro em honra à mulher, à mulher brasileira.

Todos estão vendo um homenzinho de pince-nez, testa sungada, metido numas roupas de circunstâncias; levantar-se lá do fim da mesa; e, com uma mão ao cálice, meio suspenso, e a outra na borda do móvel, pesado de pratos sujos, compoteiras de doce, guardanapos, talheres e o resto - dizer: “Peço a palavra”; e começar logo: Minhas senhoras, meus senhores”. As conversas cessam; Dona Lili deixa de contar a Dona Vivi a história do seu último namoro; todos se aprumam nas cadeiras; o homem tosse e entra em matéria: “A mulher, esse ente sublime…” E vai por aí, escachoando imagens do Orador familiar, e fazendo citações de outros que nunca leu, exaltando as qualidades da mulher brasileira, quer como mãe, quer como esposa, quer como filha, quer como irmã.

A enumeração não foi completa; é que o meio não lhe permitia completá-la.

É uma cena que se repete em todos os festivos ágapes familiares, às vezes mesmo nos de alto bordo.

Haverá mesmo razão para tantos gabos? Os oradores terão razão? Vale a pena examinar.

Não direi. que, como mães, as nossas mulheres não mereçam esses gabos; mas isso não é propriedade exclusiva delas e todas as mulheres, desde as esquimós até às australianas, são merecedoras dele. Fora daí, o orador estará com a verdade?

Lendo há dias as Memórias, de Mine. d’Épinay, tive ocasião de mais de uma vez constatar a floração de mulheres superiores naquele extraordinário século XVIII francês.

Não é preciso ir além dele para verificar a grande influência que a mulher francesa tem tido na marcha das idéias de sua pátria.

Basta-nos, para isso, aquele maravilhoso século, onde não só há aquelas que se citam a cada passo, como essa Mine. d’Épinay, amiga de Grimm, de Diderot, protetora de Rousseau, a quem alojou na famosa “Ermitage”, para sempre célebre na história das letras; e Mine. du Deffant, que, se não me falha a memória, custeou a impressão do Espírito das leis. Não são unicamente essas. Há mesmo um pululamento de mulheres superiores que influem, animam, encaminham homens superiores do seu tempo. A todo o momento, nas memórias, correspondências e confissões, são apontadas; elas se misturam nas intrigas literárias, seguem os debates filosóficos.

É uma Mine. de Houdetot; é uma Marechala de Luxemburgo; e até, no fundo da Sabóia, na doce casa de campo de Charmettes, há uma Mine. de Warens que recebe, educa e ama um pobre rapaz maltrapilho, de quem ela faz mais tarde Jean-Jacques Rousseau.

E foi por ler Mine. d’Épinay e recordar outras leituras, que me veio pensar nos calorosos elogios dos oradores de sobremesas à mulher brasileira. Onde é que se viram no Brasil, essa influência, esse apoio, essa animação das mulheres aos seus homens superiores?

É raro; e todos que o foram, não tiveram com suas esposas, com suas irmãs, com suas mães, essa comunhão nas idéias e nos anseios, que tanto animam, que tantas vantagens trazem ao trabalho intelectual.

Por uma questão qualquer, Diderot escreve uma carta a Rousseau que o faz sofrer; e logo este se dirige a Mme. d’Épinay, dizendo: “Se eu vos pudesse ver um momento e chorar, como seria aliviado!” Onde é que se viu aqui esse amparo, esse domínio, esse ascendente de uma mulher; e, entretanto, ela não era nem sua esposa, nem sua mãe, nem sua irmã, nem mesmo sua amante!

Como que adoça, como que tira as asperezas e as brutalidades, próprias ao nosso sexo, essa influência feminina nas letras e nas artes.

Entre nós, ela não se verifica e parece que aquilo que os nossos trabalhos intelectuais têm de descompassado, de falta de progressão e harmonia, de pobreza de uma alta compreensão da vida, de revolta clara e latente, de falta de serenidade vem daí.

Não há num Raul Pompéia influência da mulher; e cito só esse exemplo que vale por legião. Se houvesse, quem sabe se as suas qualidades intrínsecas de pensador e de artista não nos poderia ter dado uma obra mais humana, mais ampla, menos atormentada, fluindo mais suavemente por entre as belezas da vida?

Como se sente bem a intimidade espiritual, perfeitamente espiritual, que há entre Balzac e a sua terna irmã, Laura Sanille, quando aquele lhe escreve, numa hora de dúvida angustiosa dos seus tenebrosos anos de aprendizagem: “Laura, Laura, meus dois únicos desejos, ’ser célebre e ser amado’, serão algum dia satisfeitos?” Há disso aqui?

Se nas obras dos nossos poetas e pensadores, passa uma alusão dessa ordem, sentimos que a coisa não é perfeitamente exata, e antes o poeta quer criar uma ilusão necessária do que exprimir uma convicção bem estabelecida. Seria melhor talvez dizer que a comunhão espiritual, que a penetração de idéias não se dá; o poeta força as entradas que resistem tenazmente.

É com desespero que verifico isso, mas que se há de fazer? É preciso ser honesto, pelo menos de pensamento…

É verdade que os homens de inteligência vivem separados do país; mas se há uma pequena minoria que os segue e acompanha, devia haver uma de mulheres que fizesse o mesmo.

Até como mães, a nossa não é assim tão digna dos elogios dos oradores inflamados. A sagacidade e agilidade de espírito fazem-lhes falta completamente para penetrar na alma dos filhos; as ternuras e os beijos são estranhos às almas de cada um. Sonho do filho não é percebido pela mãe; e ambos, separados, marcham no mundo ideal. Todas elas são como aquela de que fala Michelet: “Não se sabe o que tem esse menino. Minha Senhora, eu sei: ele nunca foi beijado”.

Basta observar a maneira de se tratarem. Em geral, há jeitos cerimoniosos, escolhas de frases, ocultações de pensamentos; o filho não se anima nunca a dizer francamente o que sofre ou o que deseja e a mãe não o provoca a dizer.

Sem sair daqui, na rua, no bonde, na barca, poderemos ver a maneira verdadeiramente familiar, íntima, sem morgue nem medo, com que as mães inglesas, francesas e portuguesas tratam os filhos e estes a elas. Não há sombra de timidez e de terror; não há o “senhora” respeitável; é “tu”, é “você”.

As vantagens disso são evidentes. A criança habitua-se àquela confidente; faz-se homem e, nas crises morais e de consciência, tem onde vazar com confiança as suas dores, diminuí-las, portanto, afastá-las muito, porque dor confessada é já meia dor e tortura menos. A alegria de viver vem e o sorumbatismo, o mazombo, a melancolia, o pessimismo e a fuga do real vão-se.

Repito: não há tenção de fazer uma mercurial desta crônica; estou a exprimir observações que julgo exatas e constato com raro desgosto. Antes, o meu maior desejo seria dizer das minhas patrícias, aquilo que Bourget disse da missão de Mme. Taine, junto a seu grande marido, isto é, que elas têm cercado e cercam o trabalho intelectual de seus maridos, filhos ou irmãos de uma atmosfera na qual eles se movem tão livremente como se estivessem sós, e onde não estão de fato sós.

Foi, portanto combinado a leitura de uma mulher ilustre com a recordação de um caso corriqueiro da nossa vida familiar que consegui escrever estas linhas. A associação é inesperada; mas não há do que nos surpreender com as associações de idéias.

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jan 04

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

— Se soubesse, não perguntava.

O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…

— A senhora o que quer é enfezar-me!

— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.

O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

— Mas se eu sei!

— Pois se sabe, diga!

— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário…

A menina toma a palavra:

— Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.

— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua num tom profundamente dogmático:

— Plebiscito…

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

— Ah! — suspiram todos, aliviados.

— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!…

Conto “Plebiscito” de Arthur Azevedo, interpretado por Antônio Abujamra:

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jan 04

Todos os dias a mesma lenga lenga

Todos os dias a mesma conversa

- Menina BRINCAR agora não…tens prioridades … brincar agora NÃO

- Anda rapariga, puxa…puxa esta CARROÇA que chamam de vida

- Vamos mulher, empurra…empurra tens o CARRINHO nas mãos por que esperas?

E eu EMPURRO

E eu PUXO

De voz gritada alucinantemente calada

Todos os dias me repito e digo

- Agora não tens tempo, para QUERERES

- Agora não tens tempo para CHORARES

- Depois…depois podes SONHAR

E o DEPOIS é sempre igual…ano após ano

Outra CARROÇA…nas mãos outro CARRINHO

E volto a TROCAR a minha prioridade

-Vamos faz força…dá-te toda…entrega-te até NADA mais SERES

E quando cansada, já sem forças rio… rio muito porque não tenho tempo para mais nada

Rio desavergonhadamente do meu ridículo

Rio tresloucada porque nada posso fazer

Rio de toda a – GENTES - que por mim são enganadas

E eu EMPURRO

E eu PUXO

E rio…rio muito

Gargalho até o peito doer

De CARROÇA em CARROÇA

De CARRINHO em CARRINHO

Foge o tempo pelas minhas mãos doridas

Tanta força fazem para suportar o esconder de tanta aflição

- Não pares, continua agora não tens tempo para LAMENTOS

- Vamos tens que acabar depois…depois já podes DESABAR

E como um ramo de árvore, minha alma estende-me a mão, e com um beijo em forma de sopro

- Procura descansar, não podes continuar assim até eu choro por ti

- Amiga agora não tenho tempo, não vês, tenho que continuar…amiga eu estou bem não te preocupes…só estou muito cansada…eu vou conseguir, eu vou vencer uma vez mais, agora tenho que continuar como sempre fiz

Afasto-me PUXANDO…devagar…EMPURRANDO e sigo gargalhando

Afasto-me devagar dos meus sonhos, dos meus quereres, dos meus desejos

E EMPURRO…e PUXO…e gargalho muito alto para não ouvir a minha alma chorar

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publicado por Elisabete Luis Fialho \\ tags:

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jan 04

Nina:

Fala-mole esmorecido
Caipora do quengo quente
Tu arrota de valente
Piririca mal aguado
Chapéu de touro contente
Bodejador de serpente
Fuça dum azoretado
Bacuri do rabo torto
Chei dos paus, zóio gordo
Estrupício de batente
Banguela de lado e frente
Seu sovina trumbicado
De hoje a oito arriado
No cargo de indigente
Vá no lasco solta a bifa
Que eu faço gosto na liça
Cão sarnento fio da gota
Tu carece é de uma ajuda
Lamba o calcanhar do Juda
Garapento assombração
Tu tem a boca da égua
Pegue o gole,cospe,esfrega
Pra eu não ter mais precisão
Dou lhe já pisa de prega
Tribufú de boi babão.

Pat:

Morrinha dos quarto rôto
Pantinzento das quebrada
Sovina venta enguiçada
Fomento trompa de esgoto
Lambú seco supricante
Queixada de ruminante
Teu juízo é o de uma vaca
Taboca de urucubaca
Na casa do cramulhão
Ossudo,tonto,bufante
Lazarento pé errante
Do cafundó dos grotão
Cubra a língua avariada
Calango da voz mirrada
Penacho de galo anão
Vá morar noutro chiqueiro
Cipó de malabarista
Remela de lagartixa
Que eu aqui sou derradeiro
Vou ficar nessa tapera
Lambacero dirlechado
Seque a tua churumela
Que eu sou a prima da Vera.

Nina:

Seu bocudo abutinado
Zombador, pêlo riscado
Versa molengo e cagado
Pensando que é bom de rima
Goelento sem estima
Dou-te uma chapuletada
Fio da peste anunciada
Parido duma tontice
Deu de ser pulha amestrado
Pirangueiro de burrice
Caximbo do fogo poento
Cabra da cara sem tento
Curupira bunda ao vento
Quando acorda é uma besta
Marimbondo de encher cesta
Filhote de gemedeira
Cinco dente em duas boca
Fucim duma porca rôuca
Renda errada de fiadeira
Sai daqui monte de asneira
Que eu corri sou o primeiro
Vá morar com o capeta
Seu caído das valeta.

Pat:

Perebeiro da moléstia
Amancebado co’a encrenca
Dentuço de pôça boca
De tanta bunda não senta
Farejador de catinga
Caraca cuspida na venta
Ajoelhado é um sapo
Figura troncha e horrenda
De pé é igual Belzebu
Rolha de poço, urutu
Preá do mato,banzé
Espanta burro e mulé
Onde cai o chão embica
Pinto ralo, tiririca
Jumento de duas raça
Cuia cheia de cachaça
Pau de sebo, cinta gasta
Arreda a fuça daqui
Bate a pata, segue a vida
Que eu cheguei nesta guarida
Trago trouxa certa e funda
Molambento das corcunda
Que a minha prosa é querida.

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jan 04

Rufle a soma do vento
E espalhe por lá calmaria
Que todo bom pensamento
Vença da artilharia
Haja crença que se ouça
Haja cuidado de fina louça
Na luta pelo entendimento.
Rufle a soma do vento
E espalhe por lá calmaria
Ah, se as bombas de tempo
Explodissem o ódio de tantos anos
E a criança tivesse planos
De que um dia envelheceria
Rufle a soma do vento
E espalhe por lá calmaria
Bombardeie a mente dos homens
Com o amor de boa autoria
Parem os estrondos hediondos
Para que alguém veja o dia
Para que alguém veja a noite
E possa fazer poesia.

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publicado por Nina Araújo \\ tags:

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jan 04

Mulheres e homem afeitos a um relacionamento a dois, antes de juntarem os trapos deem uma olhadinha no guarda-roupa do sujeito da paixão, antes mesmo de comerem sal juntos. Não caia nessa de que a “minha bagunça é organizada para mim”.

O exterior é um reflexo de nosso interior, por mais que o artista use de mil artimanhas, ele acaba a descoberto.

Assim que me casei, meu doce maridinho, proveniente de uma família de 8 irmãos, onde a mãe que não trabalhava fora, fazia às vezes de escrava, pensou que as coisas seriam as mesmas de antes.

Ainda em lua-de-mel, hoje em desuso, após o banho, jogou suas roupas sujas no chão. Tomei-o, carinhosamente pela mão, e o levei até o banheiro e lhe disse:

- Meu lindinho, eu não me casei para ser sua mãe ou sua escrava, mas sua companheira de vida. Pegue as suas roupas e as coloque no lugar de roupas sujas.

E para continuidade de nossa relação, assim ele o fez e faz até hoje.

Não sei, se você já reparou, que quando algo vai bem interiormente, mudanças também ocorrem na parte exterior, inclusive no seu ambiente? Isto porque o exterior é uma fotografia de nosso interior. Não há como mudar um sem mexer no outro.

Quantas pessoas existem com as casas cheias de entulho, sem perceberem o mal que a energia ruim ali acumulada lhes faz? O ambiente é péssimo.

Mês passado, trabalhando na Cruz Vermelha, uma prima pediu-me que fosse até a sua casa, pois ela ia doar umas coisas para os desabrigados. Fomos até o seu guarda-roupa entupido, com roupas saindo pelo ladrão.

Deitei-me em sua cama acompanhando a cena hilária que se seguiu.

Cada peça que ela pegava, havia um motivo para não doar: uma lembrava os seus 15 anos, outra fora presente de um namorado há 5 anos, a outra caía-lhe muito bem no corpo, essa lembrava-lhe um encontro muito feliz, aquela outra foi usada no dia em que comprara o carro novo…. no frigir dos ovos levei uma velha calça jeans e um tênis do tempo de Noé. E eu que poderia estar trabalhando!

Categorias de desordem, segundo o Feng Shui:

1- coisas que você não usa e de que não gosta (não precisa jogar o(a) companheiro(a) fora)

2- coisas que estão desarrumadas ou desorganizadas (como a sua mesa de trabalho)

3- muitas coisas num espaço muito pequeno (fico pensando nos japoneses)

4- qualquer coisa inacabada (aquele bordado de dois anos atrás)

Desfaça-se de tudo que for negligenciado, esquecido, não-amado, não-utilizado. Deixe a energia fluir. Coisas queridas trazem energias boas, coisas sem importância dragam a sua energia.

Mesmo que você reduza suas coisas, é também necessário que as mantenha em ordem, pois a desordem gera o caos. Há pessoas que nem sequer guardam as compras feitas.

A confusão que está do lado de fora, em nada difere da que está do lado de dentro.

O Feng Shui não defende uma casa extremamente organizada, onde ninguém pode tirar alguma coisa do lugar. Essa é também energicamente estéril e tão problemática como a bagunçada.

Não devemos abarrotar um espaço em demasia, pois é preciso que a energia movimente-se entre os objetos. E esse não é o caso da casa de uma amiga, que sempre me deixa com falta de ar. Sua sala mais parece um bazar oriental.

Certas pessoas tem o defeito de começar um monte de coisas ao mesmo tempo e não acabar. Acontece que ficam com a mente passando a ordem de que “é preciso” acabar isso e aquilo. A psique acaba por fundir-se. Em relação a livros, ainda estou neste estágio. Leio 3 ao mesmo tempo.

Evite deixar coisas estragadas em sua casa, tais como gavetas quebradas, torneiras pingando, jardins selvagens, tapetes rasgados, eletrodomésticos para serem consertados, roupas sujas amontoadas por muito tempo, roupas sem botões, etc.

E no campo mais pessoal, corte as amizades das quais necessita desfazer, ponha em ordem os e-mails, a conversa que precisa ter com alguém da família…

Quer queiramos ou não, tudo isso influi na nossa psique. E quanto mais ordem houver na nossa vida exterior, mais energia e vitalidade terá a nossa mente.

Fonte de pesquisa: Arrume a sua Bagunça com o FENG SHUI e Transforme Radicalmente a sua Vida/ Karen Kingston/ Editora Pensamento

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jan 04

“Este meu poema é uma homenagem a minha querida Celita Linda (Célia Lopes)”.

 

“Condena-se o pecado, não o pecador”,
dizia Frei Peregrino a nós, meninos, nas
suas aulas dominicais de catecismo; na
saída, havia a distribuição de santinhos.

E se o santo era repetido na coleção,
travávamos um troca-troca desenfreado:
Santo Ambrósio por São Sebastião, por
Santa Rita, São Damião ou São Lázaro.

E assim aprendemos a fazer escambo;
mal um santo deixava o nosso campo,
outro já se postava no aquecimento,
para entrar numa nova rodada de troca.

Mas como tudo na vida muda, a nossa
mercadoria de escambo também mudou;
em vez da coleção dos santinhos desejados,
passamos ao troca-troca de namorados.

E Frei Peregrino, com as ausências sentidas,
não se fez de rogado, mudando o catecismo:
Condenando o pecador - ao contar a nossos pais,
E perdoando seus pecados – as surras divididas.

 

Dias atrás recebi um Santo Expedito
Protetor das causas impossíveis, sem tino
Aí foi tudo girando, girando e eu caí
na aula de catescismo de Frei Peregrino.

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publicado por Lu Dias Bh \\ tags:

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jan 04

“Despetalando” está correto, tenho praticamente certeza. Não acredito que um filólogo desalmado tenha resolvido que aí vai hífen. Não, não vai, não é des-petalar. “Flor” e “Lácio” continuam, uma sem acento, outro com acento. Portanto, cem por cento de acerto em meu primeiro título na ortografia nova, brilhei mais uma vez. Isso, contudo, não me aplaca o nervosismo. Deve ser a idade, porque já encarei algumas reformas ortográficas nesta curta existência e me saí satisfatoriamente, mesmo no tempo em que a gente tinha que grafar “tôda” com circunflexo, para distinguir de “toda”, que ninguém sabia o que era, embora, no ver de alguns, fosse uma ave amazônica pouco sociável, ou, segundo outros, uma exortação obscena de origem xavante. Acho que esse ponto nunca será esclarecido (de qualquer forma, cartas de esclarecimento para o editor, por caridade) e constituirá mais uma das graves interrogações sem cujas respostas minha geração deixará este mundo.

Quando me peguei lendo, a maior parte da livrama de meu pai era na orthographia antiga e havia livros portugueses com suas próprias normas. Apesar de leitor fominha que, mesmo sem entender nada, traçava o que aparecesse, levei semanas para compreender que “augmentar” era “aumentar”. Mas me acostumei e sempre transitei bem nessa área, para alguma coisa eu tinha de levar jeito. Chefiei redação no tempo da abolição do acento diferencial e dedicava grande parte de meu tempo a explicar que, de então em diante, não se escreveria “voce”, mas “você” mesmo, como sempre. Foi difícil, muito mais difícil do que qualquer um imaginaria, tratando-se de gente instruída e, em muitos casos, talentosa.

Uma amiga minha sustenta que tudo vem de trauma da infância e eu tendo a concordar com ela. Sei de traumas profundos, carregados por amigos meus sob o jugo – o que, graças a Deus, não foi meu caso – de professores de português dogmáticos e caturras, que entupiam todos de regras quase im-penetráveis e só podiam com isso instilar ódio e temor pela língua e pelo que nela é escrito. Para muitos, os livros são dolorosas memórias de torturas.

E as reformas sempre levam alguma coisa com elas. Já haviam feito isso com o K, o W e o Y, agora reabilitados, se bem que nunca de fato o povo os haja banido, aí estando o Kilo, o Waldir e o Ruy, que não me deixam mentir e nem ao menos cairam na clandestinidade, mas continuaram a circular com grande liberdade. Levaram a indicação da subtônica também, aquela que, por exemplo, marcava com acento grave palavras como “precàriamente” e mostrava a existência da subtônica (”cà”). Mas, segundo eu soube, nem precisamos (precisamos, sim), nem temos condição de exigir que as subtônicas se pronunciem, tudo bem, não estamos à altura.

Por mim, tenho trauma do trema. Ontem me disseram que fui visto com o olhar distante, em frente a este monitor, sacudindo lentamente a cabeça e murmurando “não me conformo, não me conformo”. Não me recordo disso, pode perfeitamente ser uma invencionice, mais uma das anedotas apócrifas que contam sobre nós, celebridades internacionais. Mas a verdade é que não me conformo não somente com a saída do trema e suas temíveis consequências (em breve alguém lerá aí “consekências”, assim como chegará o dia em que um simpático alemão que veio morar no Brasil nos perguntará, com sotaque ainda carregado, onde poderá comprar “linghiças”, raio de língua difícil, depois reclamam do alemão). Não posso igualmente aceitar a maneira sem-cerimoniosa com que ele foi humilhantemente defenestrado, depois de tanto tempo de serviços prestados. Expulso sem nem um relógio folheado a ouro de lembrança, uma plaquinha sequer.

O volume principal de besteiras que vem aí, em nome dessas mudanças, embora esteja longe de restringir-se a ele, deverá ser o despejado pelo enlouquecido movimento do “fala-se como se escreve”, uma completa piração defendida exaltadamente por muita gente. Gente esquecida, é claro, de que a grafia é uma maneira sempre imperfeita, rudimentar mesmo (os textos gregos clássicos não costumavam ter intervalos entre as palavras e muito menos sinais de pontuação ou acentos, isso tudo veio muito depois), de se tentar congelar em símbolos toda a riqueza da fala, suas inflexões, os gestos, os timbres e os tons que a acompanham, enfim, um universo imensamente amplo para 26 letras e alguns sinais diacríticos. Então, “falar como se escreve” é uma inversão completa, que só pode ter efeitos grotescos, para não dizer maléficos. Al-guns já podem ser notados, em suas primeiras manifestações insidiosas. O que mais me mexe com os nervos é o umazero (1×0) ou umaum (1×1) de grande parte dos narradores esportivos. Não sei o que deu neles, praticando a forma mais execranda do “fala como escreve”. O eme do final de “um” está aí para nasalar a vogal, só para isso, tanto assim que, em português antigo, era comum escrever-se com til. Agora não, agora se pronuncia “como se escreve”, e o re-sultado é que, se deixarem a coisa correr solta, daqui a pouco ninguém distingue mais “um olho”, de “um molho”, “um achado” de “um machado”.

Ouço também, embora com muito menos frekência (esta palavra está errada, foi só vontade de usar o K) o M final de “com”, ser “misturado” à vogal inicial da palavra que a segue. “Com ida marcada para” seria “comida marcada para”, o que poderia render um mal-entendido ou outro. E por aí vai a língua, junto com a vida. Alguém já está ganhando dinheiro com isso. Não somos nós, como de hábito, mas nem por isso deixemos de nos alegrar. Combustível novo na combalida economia do livro. E que serve para mais uma vez mostrar aos eternos descontentes como este governo é reformista.

 

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jan 04

 

A educação ambiental é, em síntese, transformar, pois este é o seu objetivo. O tradicional ensinar e aprender simplesmente não traz grandes resultados se não ocorrer a metamorfose de nossa ética.

Acredito que a simples transmissão de conhecimentos ecológicos, mesmo que sejam bem compreendidos, não tem as condições necessárias para a obtenção dos resultados que se espera, ou seja, a mudança de nossa atitude em relação ao ambiente, ao espaço na terra que ocupamos.

Infelizmente, vejo com pessimismo o caminhar da humanidade em direção à extinção da vida. E não baixaram em mim os espíritos de Byron, Heine, De Musset ou mesmo do supremo representante do pessimismo, Arthur Schopenhauer.

É que não acredito em desenvolvimento sustentável com a continuidade do modelo econômico existente. O capitalismo vive do consumismo; é devorador e sua ambição não tem limites, destruindo toda confiança na conservação do ambiente.

No entanto, temos que nos apegar firmemente e sempre ao idealismo, pretender atingir a mais alta de nossas aspirações e tentar modificar o pensamento dominante.

Mesmo que o pessimismo nos deprima, não podemos deixar que venha destruir a nossa convicção de que podemos melhorar.

Esse devaneio remete-me à juventude e a me recordar do lema, muito bonito, da escola onde estudei e até cheguei a dar aulas; ele advertia, inscrito na sua entrada, em letras garrafais:”quem não for idealista, aqui não entre “.

Naquele tempo, era jovem e o mundo era mais romântico, menos trágico e cruel, e todos tínhamos a crença de que iríamos vencer as dificuldades, teimando em construir uma sociedade mais livre e avançada.

Parece que o tempo busca arrebatar todas as convicções, como as querendo reduzir a quimeras.

Todavia, lá no fundo de minha alma, como o encontrar-me e renascer, sinto que há um inabalável jovem sonhador, encantado pelo batalhar, sem esmorecer, por uma sociedade mais moderada, equânime, moralmente evoluída.

Com esse pensamento, acendem-me, novamente, o ânimo e o entusiasmo esperançosos de que possamos ter uma saída.

O trabalho incansável de idealistas, principalmente, os jovens, acreditando no que fazem, leva-me às minhas origens, às minhas aspirações da juventude, pois necessitamos ter a fé, encontrada, à saciedade, nos corações sonhadores.

Encanta-me ver, nos professores, jovens ou idosos, o transformar ou mesmo o tentar transformar a mentalidade moderna.

Talvez um tijolo aqui, outro acolá, no final, teremos uma bela casa construída, um mundo diferente, mais humano no sentido mais profundo da ética, já que o progresso, como leciona o filósofo inglês, John Gray, é uma ilusão.

Com todo o progresso científico e tecnológico do mundo, a humanidade pode acabar em uma guerra atômica, em um erro em um laboratório experimental ou na continuidade da mudança radical das condições biológicas na face da terra, em decorrência do consumismo desenfreado e da ineficiência no controle do crescimento populacional.

Assim, só a ética pode sustentar viva a humanidade. E vejo a ética transformadora em movimentos de ambientalistas e educadores, onde há o esforço para tentar apagar um grande incêndio que já começou e sabe Deus como terminará.

Dedicado aos espíritos mais avançados e que buscam a realização de seus desejos humanos mais sublimes, há um aviso, no templo eterno da esperança: quem não for idealista aqui não entre.

Dedicado à escritora Ana Lúcia Thimotheo da Costa

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publicado por GUTIERRITOS \\ tags:

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jan 03

Com mais de 1800 posts e dezenas de páginas, estava ficando difícil localizar algo no blog. A caixa de buscas, no alto à direita, ajuda bastante desde que saibamos o que procurar. Faltava um índice geral dos textos publicados.

Não falta mais.

Basta acessar o Mapa do Site e ter a relação completa das nossas publicações.

Espero que seja do agrado de todos.

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publicado por Paulo Afonso \\ tags:

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