Boas Auroras - Nina Araújo Devaneios - Sonia Quartin



nov 29

Eu simplesmente escrevo
Soltando palavras ao léu
Como o garotinho, na praça
Esparge bolhas de sabão pelo céu.

Vão se juntando umas às outras
Conforme o vento ou estação
E somente depois de unidas
Consigo dar nome à criação.

Umas são bem campestres
Buscam o cheiro acre da terra
Trepam nas árvores mais altas
Ou partem em busca das serras.

Outras, extremamente urbanas,
Voam em direção aos outdoors
Salpicam as costas dos transeuntes
Visitam arranha-céus em derredor.

As românticas sempre me encantam
Vivem em busca dos enamorados
Caem, no meio de um beijo ardente
Ou de dois pares de braços afogueados.

As populares jamais usam de distinção
Por isso possuem uma beleza de corcel
Tanto despencam no estofado de um BMW
Quanto no carrinho do catador de papel.

Mas existem as mal-humoradas e ácidas
Eu as acolho tal e qual os filhos são
Mal levantam vôo e estouram, de pirraça,
Tão diferentes quanto os dedos da mão.

Outras são vibrantes, fogosas e lampeiras
Cheias de sensualidade e muito calor
Já saem do canudinho acasaladas
Numa inconfundível efusão de amor.

As eruditas são um horror
Julgam-se as princesas da praça
E nada mais no mundo tem valor
A não ser o ego que as abraça.

As iconoclastas chegam em bando
Na mais polvorosa anarquia
Nada no planeta tem dono
Abaixo os ícones de cada dia.

E ao vê-las tão soltas, livres
Da placenta que lhes deu vida
Sinto a mesma leveza da mãe
Que carregou o filho na barriga.

Então eu as perco de vista
Dando-lhes a liberdade sonhada
Se o ato de parir foi somente meu
O de viver pertence às danadas,

Por um tempo me descanso
Até que sobrevém outro cio
E mal completa a gestação
Coloco na vida outro filho.

Apenas me consome
Um doloroso martírio
Que a mente vire um útero
Murcho, ressecado e vazio.

Incapaz de transformar
Em linfa os meus óvulos
Asfixiando minha prole
Em frios e inertes casulos.

Como o triste garoto na praça
Que tenta e torna a tentar,
Com seu canudinho mágico,
Fazer suas bolhinhas voar.

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Publicado por Lu Dias Bh \\ tags:

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27 comentários para “Palavras x bolhas de sabão - Lu Dias”

  1. messias disse: Reply to this comment

    Lu,

    Adorei a leveza do poema, sabes dosar e brincar com as palavras, daí a força dos seus poemas em cada tema que abraças.

    Abc
    Messias

    [Resposta]

  2. Sonia Quartin disse: Reply to this comment

    amiga Lu
    Como você encontrou tantas espécies de bolhas- palavras para definí-las? E como essas bolhas -palavras nos dão trabalho, não é? Sua poesia é leve como essas bolhas, mas seu útero- cérebro- coração nunca ficará estério isso eu garanto!
    Beijos Sonia Quartin

    [Resposta]

  3. Mário Mendonça disse: Reply to this comment

    Querida Lu Dias

    Para uma artista que brinca com as palavras, uma simples colaboração.

    MERAS PALAVRAS.

    AMOR, palavra que inspira
    A mente dos mais desesperados
    A pensar em alguém
    Alguém à quem ama e espera

    POESIA, palavra que diz
    Amor de uma forma indefinida
    De um modo indeterminado
    Mas que na verdade, sempre morta
    Como você ama a pessoa amada

    FELICIDADE, algo que poderíamos
    Dizer que não se explica, se sente
    Mas como tudo na vida, tem explicação
    Simplesmente, digo que felicidade
    É algo que se sente no coração

    ADEUS, a mais triste palavra ouvida
    Dos lábios de uma pessoa amada
    Nos machuca por fora
    E nos mata por dentro.

    Abraços.

    [Resposta]

  4. Ana Lucia Timotheo da Costa disse: Reply to this comment

    Lu,
    Mestra no jogo das palavras! Você as junta e separa quando quer. Suaviza e fortalece. Bendito seja o seu dom! Beijo. Ana

    [Resposta]

  5. aline disse: Reply to this comment

    Lu, é muito gostoso curtir estas lindas e coloridas bolhas que de modo tão simples consegues sorprar prá todos nós. Achei lindo e divertido!

    bjos

    Aline

    [Resposta]

  6. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    @messias:

    Messias

    Está parecendo um poema de “brincadeiras na praça”.
    Como a semana foi muito puxada, tentei aliviar nas palavras, ou seja, brincar com elas.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  7. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    @Sonia Quartin:

    Sônia

    Estive numa praça, perto de onde moro e fiquei observando as crianças soltando bolhas de sabão.
    Cheguei em casa e num piscar de olhos montei o poema.
    Fiquei até com medo de o meu notebook sair pela janela, junto a elas… risos.
    Que bom que tenha gostado.
    Obrigada pelo carinho.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  8. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    @Mário Mendonça:

    Mário

    E quem disse que você não sabe brincar com as palavras, também?
    A colaboração está linda e enriquecedora.
    Apenas não acho que o sentimento do amor seja eterno.
    A gente é que aprende a amar ou a desgostar dela.
    A força motriz está em nós.
    Basta desligar a chavinha.
    Grande beijo, meu amigo querido.

    lu dias

    [Resposta]

  9. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    @Ana Lucia Timotheo da Costa:

    Aninha

    Considero as palavras como um jogo de lego.
    Tanto levanto castelos, quanto calabouços com elas.
    Obrigada pelo carinho.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  10. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    @aline:

    Aline

    Espero que muitas destas bolhas cheguem até aí repletas de carinho, para você.
    Obrigada pela visita.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  11. Mário Mendonça disse: Reply to this comment

    Querida Lu Dias

    Como o amor não é eterno ???
    Acho que o ser humano, só ama uma vez.

    ” um simples gostar, no meu entendimento, já é suficiente para jamais esquecermos de nossos semelhantes ”

    Abraços

    [Resposta]

  12. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    @Mário Mendonça:

    Mário

    O amor não é eterno, mesmo.
    Ninguém o define melhor que o Vinicius de Moraes.
    O amor é como uma planta que precisa ser regada, adubada, desejada, acariciada e respeitada.

    Amar uma só vez???
    Você mais que ninguém, sabe que não. Quer que eu lhe prove … risos?
    Podemos amar “n” vezes e até mesmo mais de uma pessoa concomitantemente, pois são várias as formas de amar.
    A menos que você esteja falando de sexo. Que é um outro assunto.

    Quantos amores você já teve em sua vida de solteiro ou…?
    Eu já tive muitos!
    E hoje não representam nada para mim, porque não os cultivei.

    Uma viúva ou divorciada não tem chance de amar, até mais, o novo companheiro e vice versa?

    Acredito que a capacidade de amar é nata nos humanos (e animais também).
    Ela não morre nunca, sejam lá quais forem os nossos percalços.
    Mas amar unzinho…. seria triste demais.

    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  13. Sissi disse: Reply to this comment

    Luluzinha,
    este seu poema me deixou de queixo caído. Mas eu sei que tudo que cai em sua mão vira arte. Sou sua maior fã.
    Beijinhos e beijocas,

    Si

    [Resposta]

  14. Thatiana disse: Reply to this comment

    Oi Lu,

    Adorei seu poema feito de bolhas com palavras, leve e sensível!

    beijos
    Thaty

    [Resposta]

  15. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Thatiana:

    Tati

    Estava com saudades de você.
    Estou lhe mandando umas bolhas com as palavras: amor, carinho e afeto.
    Pegue aí.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  16. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Sissi:

    Sissi

    Obrigada, minha lindinha.
    Você é sempre meiga e carinhosa.
    Mas… só se esquece de mudar o cabeçalho… risos.

    Beijos dobrados

    [Resposta]

  17. Lilian Sinfronio disse: Reply to this comment

    Oi Lu,

    Fui apresentada aos seus poemas e contos por acaso… mas me encantei com este. De verdade!
    Espero poder viajar um pouco mais por outros como experimentei com esse.

    Lembrei de quando soprava bolhas quando criança… e até mesmo agora quando tento (quando adulta, mas nem tanto). As vezes de forma errada, mas sempre tentando.

    Muito bom…

    Abçs

    Lilian Sinfronio

    [Resposta]

  18. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Lilian Sinfronio:

    Lilian Sinfrônio

    Que prazer acolhê-la em meu post.
    Vou até fazer um cafezinho para tomarmos com pão de queijo… risos.

    Este poema está bem moleque, não é mesmo?
    Tenho uma boa safra de poemas e causos no blog.
    Basta ir no índice, clicar em autores e depois em meu nome.
    Vou ficar feliz em saber que tenho uma nova amiguinha lendo os meus poemas de pés quebrados.
    Obrigada pela visita.
    Volte sempre.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  19. Greice da Costa disse: Reply to this comment

    Lu Dias,
    Palavras x bolhas de sabão é mais que uma comparação, é uma mistura de poesia, brincadeira com as palavras, pontos de vista sobre os diversos estilos poéticos. Enfim… é isto e muito mais, pois a poesia vai além destas minhas explicações.

    [Resposta]

  20. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @Greice da Costa:

    Gracie

    Realmente esta poesia é uma brincadeira com as bolhas e as palavras.
    Meus poemas são sempre muito carregados de emoção.
    Hoje resolvi postar um mais ameno.
    Fico feliz com a sua visita.
    Obrigada pelo carinho.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  21. GUTIERRITOS disse: Reply to this comment

    Puxa, Lu Dias, foi difícil chegar até aqui.

    Você está dando um Ibope que o Paulo está rindo à toa.

    Saiu até do sério, catando lindos animais abandonados, criando gatinhos e parecendo até flutuar sobre a sua cachoeira.

    Gostei muito quando você disse:

    “As românticas sempre me encantam
    Vivem em busca dos enamorados
    Caem, no meio de um beijo ardente
    Ou de dois pares de braços afogueados.”

    Essa coisa toda de pensamentos ruins rondeando minha cabeça, caio fora.

    Chamo a Cidinha Dix e declamo a ela, e ao vivo, esses seus versos maravilhosos, que repeti aqui no meu comentário ( para não fazer confusão com algum outro que deles saí correndo ).

    O resto eu deixo para os outros.

    Bonsoir.

    [Resposta]

  22. Mário Mendonça disse: Reply to this comment

    Querida Lu

    Acho que me expressei errado. Não quis dizer que não podemos voltar a amar, o que tentei passar, é que se o amor foi intenso, ficará marcado para sempre.

    Abraços

    [Resposta]

  23. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @GUTIERRITOS:

    GUTIE

    Você não é a favor da diversidade?
    Nunca fui tão democrática num poema.
    Escrevi para gregos e troianos.
    E lá estava a sua estrofe.
    hahahahahahahahahahahahahahahaha

    Hoje dei uma de moleca com as minhas bolhinhas de sabão.
    Cidinha, aproveite as bolhinhas românticas que caíram entre você e o Gutie.
    Acabe com todo o sabão que há na casa.

    Beijos aos dois,

    lu

    [Resposta]

  24. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @lu dias/bh:

    Mário

    Agora sim, posso concordar.
    Mas, se por acaso houver qualquer tipo de desligamento é porque ele não foi suficientemente intenso, mas apenas utópico.

    Beijos,

    lu

    [Resposta]

  25. GUTIERRITOS disse: Reply to this comment

    LU DIAS

    Estou retornando.

    É que escrevi, lá nos ” Gatos” do Paulo Afonso e acho que exagerei.

    Mil perdões.

    Apenas, como você sabe, quis brincar um pouco, ao meio de tantos problemas e dissabores do dia a dia.

    Se você deixasse eu brincaria até mais.

    Tem uma música maravilhosa que aprendi e cuja letra estaria lhe oferecendo.

    Mas se você não gostar?

    Ah, que dilema terrível !

    To be or not to be !

    [Resposta]

  26. GUTIERRITOS disse: Reply to this comment

    LU DIAS

    Errei ao falar sobre o artigo do Paulo.

    Foi lá nos mistérios da vida.

    Se você der uma espiada, pode.

    Até amanhã.

    [Resposta]

  27. lu dias/bh disse: Reply to this comment

    @GUTIERRITOS:

    Gutie

    Bote a música para rodar.
    Ou então peça ao Paulo para postá-la.

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHA

    Já li o seu comentário falando de sua filha e de pessoas apaixonadas por bicho.
    Achei lindo.
    Gutie, você é incapaz de maltratar uma mosca… risos.
    O Moá diz a mesma coisa, que se um mais um gato entrar aqui no ap. ele sai de casa.
    Mas, ano passado ajudou-me a pegar uma gatinha, que estava miando há dois dias no quintal de uma casa abandonada. Era uma filhotinha de angorá.
    Viveu conosco quase um ano. E doentinha não resistiu. Choramos os três: Sissi, ele e eu.
    Ainda sinto a falta dela.

    Veja o meu recado lá.
    Beijos,

    lu

    [Resposta]

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