Dick Farney - “Alguém como tu” Sou o Cosmo, sou o Todo - Lu Dias



nov 21

Por causa de um trem, acabamos pegando uma estrada diferente.

Pois foi isso mesmo que aconteceu comigo, ao receber uma mensagem pelo computador, mostrando uns automóveis do tempo de mil novecentos e melindrosas. O título da mensagem era Glamour e o mensageiro foi o Cláudio Augusto. Gostei, mas… me deu uma saudade do carro de boi que só vendo! Ninguém me pergunte qual foi a associação que fiz, porque não sei mesmo. Fui olhando os automóveis e me lembrando do chiado maravilhoso que encantou minha infância e até hoje me encanta. Neste ano mesmo houve um encontro de carros de boi perto do povoado de Furnastur que foi um sucesso. Vieram de todo canto, uns enfeitados, outros mais simples, uns com a roda apertada, outros tendo pena dos bois. A poeira cantou solta também, mas ninguém reclamou. Adultos e crianças fitavam os carros e os bois com admiração. Os velhos com uma saudade de dar lágrimas nos olhos.

E as parelhas, que coisa mais linda. Que garbo e que disciplina. Carros grandes com até quatro parelhas e os menores com uma apenas. A única coisa que ficou faltando foi um caderninho para anotar os nomes dos bois, mas no próximo evento não deixarei de levar. O que não impede, de maneira alguma, que eu comente alguns nomes. Canto, por exemplo, uma toada gaúcha muito linda, que fala da carreta que roda e roda até o fim do mundo, e ela tem três parelhas de bois. Os dois da frente são o Destino e o Esperança. Depois vêm o Desejo e o Coração. Por último, bem perto do boiadeiro, estão o Desengano e o Ilusão.

Até nem sei se todo mundo sabe que gado tem nome. Cavalo também. Assim como gato e cachorro. Costuma-se até nomear outros bichos e aves, como galinhas de estimação e porcos estimados. Mas o normal é boi, vaca, cavalo, gato e cachorro serem nomeados e pelos nomes serem chamados ou tangidos. Quando a imaginação vai escasseando ou a quantidade é muita, o primeiro substantivo comum que aparece na frente do criador vira logo substantivo próprio que é sapecado no animal. O seu Gilberto, lá de Iguatama, tinha até uma vaca chamada Bacia, que foi o que ele viu quando a bezerrinha nasceu. Os nomes são uma delícia. Tem Tabuleta, Porteirinha, Marrom, Pretinha, Brioso, Beleza, Luz, Lua, Estrela, Vento, Ventania, Furacão, Mimosa, Dengosa, Pirraça, isso quando não são dados nomes de gente mesmo, como o cavalo do Brechó, de Furnastur, que se chamava Azencreve, em homenagem ao nosso amigo Hasenclever, que trabalha no Náutico e é conhecido por Joca.

Poderia escrever até um livro inteiro, dando nomes aos bois, mas vou me ater a formar umas parelhas de carro de boi que um dia ainda poderei ter, para chamá-lo de meu. Rodas chiadeiras, carro enfeitado de fitas e chita, laterais de esteiras tecidas com palha de milho, parelhas variadas que poderia trocar conforme meu estado de espírito. Um dia, sairia chiando pelos caminhos com a dupla Amor e Carinho. Que trem chique! Mas pode ser que também saia com Trovoada e Raio. Saiam da frente que a roda vai chiar pouco e a poeira vai espalhar! Sonhadoramente posso colocar bem juntos Noite Estrelada e Manhã de Sol. Que paz na terra! Caminhando e cantando e seguindo a canção. Em dias de eleição, nada como Companheiro e Camarada. Depois da apuração, Derrota e Recomeço.

Para encurtar o lero-lero, que ninguém é de ferro, poderia, em homenagem aos meus leitores, batizar uma parelha de Paciência e Amizade, que é o que espero que exista sempre.

E, para terminar, que tal Adeusinho e Atebreve?

 

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3 comentários para “Parelhas de boi - Hila Flávia”

  1. Sonia Quartin disse: Reply to this comment

    amiga Hila
    Você me lembrou um primo que morava em Minas Gerais e tinha um sítio onde criava algumas cabeças de gado; batizava, bois e vacas com nomes de pessoas conhecidas, geralmente de sua família. Assim ele tinha a vaca Amélia( nome de sua mulher) a bezerrinha Maninha( apelido de sua filha). E assim ele fazia com cada um que nascia. Todos riam muito dessa mania que ele tinha.
    Seu texto me divertiu e me deu saudade.
    Abraços Sonia Quartin

    [Resposta]

  2. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    Hila

    Permita-me dizer a Sonia, no seu post, que em Minas ainda continuam a nomear o gado.
    Não há fazenda que se chegue e não encontre Margarida, Rosinha, Rompe-Cerca, Mimosa, Atrevida, Preguiçoso, Precioso…
    E todos atendem prontamente pelo nome.

    Este seu texto está com um cheirinho gostoso de curral, onde sempre gostei de beber leite cru espumante. As contaminações vinham como anticorpos… risos.
    Eu amava aquele bigodinho de espuma que ficava.

    Seu texto está lindo e me fez voltar aos dias de criança, quando queria por que queria tirar leite numa vaca.
    Mas tudo tem a sua ciência…
    Grande beijo,

    lu

    [Resposta]

  3. Haydée Colussi disse: Reply to this comment

    Hila Flávia,

    Hila Flavia,
    Que coisa boa terem pegado uma estrada diferentepor causa de um trem.
    Estas lindas parelhas de nomes tão gostosos de lembrar povoam a infância da gente.
    Nunca tinha me dado conta de que é o aperto das rodas que dificulta a vida dos pobres viventes.
    Muito gostoso este texto.
    Adorei,
    Um beijo
    Haydée

    [Resposta]

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