Posso ficar devendo dez centavos? – Daniel Serrano
A cena é mais comum do que possa parecer. A loja oferece uma promoção de um produto qualquer a R$ 9,90. O consumidor aproveita a oportunidade e adquire o produto. Ao chegar ao caixa, paga a mercadoria com uma nota de 10 Reais. O caixa não tem troco. A operadora de caixa, com uma calma e tranqüilidade de quem já decorou a frase, dispara a pergunta já formulada milhares de vezes: “Posso ficar devendo 10 centavos?”. O consumidor com a mesma calma e tranqüilidade de quem já recebeu essa proposta, também, inúmeras vezes se conforma e, invariavelmente, aceita que a poderosa loja de departamentos fique lhe devendo dez centavos.
Imaginemos, no entanto, uma outra cena: O produto custa R$ 10,10 e na hora de pagar o consumidor entrega uma nota de dez ao caixa e pergunta a mesma coisa: “Posso ficar devendo 10 centavos?”. Com certeza, a resposta vai ser não. Isso se o consumidor fizer a pergunta, porque na maioria dos casos, se uma pessoa não tem dinheiro suficiente para efetuar uma compra, nem pensa em adquirir o produto e propor ao varejista a dívida do dinheiro que falta.
Por que então o varejista se propõe a isso? Por que não arredondar o preço do produto?
Existem diversas razões:
a) Poucas pessoas pagam com dinheiro e a maioria das vendas é feita com cheques, cartões da própria loja ou cartões de débito e crédito.
b) Dez Reais podem ser matematicamente 10 centavos a mais do que 9,90, mas na cabeça do consumidor, “9 Reais e alguma coisa” é quase um real a menos de economia (que na verdade se perde quando o caixa não devolve o troco: neste caso, 9,90 é igual a 10…)
c) “Ficar devendo 10 centavos” é uma atitude do caixa. Normalmente um profissional que opera com milhares de Reais por dia. Neste caso o que são 10 centavos?…
d) O Varejista, em si muitas vezes não fica sabendo dos incidentes no caixa. Quando não há troco, o operador de caixa, para evitar problemas, abre a sua própria carteira e entrega o troco ao consumidor do seu próprio bolso, não sem antes fazer uma cara de “tome seus dez centavos, seu mesquinho”.
e) Desde a época em que a hiper-inflação foi banida do Brasil, fomos acostumados a pensar que as moedinhas têm muito valor. Talvez por isso, guardemos as ditas em casa, e sempre falte troco nos Caixas.
Hoje eu fui tomar um café. Custava R$ 1,20. Paguei com uma moeda de R$1,00 e outra de R$ 0,25. A caixa não tinha os cinco centavos para me devolver. Quando eu já estava esperando a fatídica pergunta: posso ficar devendo… A caixa me tirou dos meus devaneios, devolvendo-me a moeda de 0,25 e dizendo: “Não tenho troco. Depois o senhor me dá os vinte centavos”. Sem saber como agir e perplexo pela atitude da atendente eu disse: “Não. Fique com a moeda e você fica me devendo cinco centavos”.
Saí do café com a auto-estima em alta, mas com uma leve sensação de já ter visto essa cena antes.
Daniel Portillo Serrano é graduado em Marketing e pós graduado em Administração de Empresas. É consultor de Marketing e Vendas e editor do site Portal do Marketing. Tem atuado como principal executivo de Vendas e Marketing em diversas empresas do ramo Eletroeletrônico, Telecomunicações e Informática. Ministra aulas de Marketing, Administração e Planejamento em cursos de graduação e pós graduação.
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Você disse tudo! Quem cobra sempre pode ficar devendo o troco, mas quem deve tem que pagar a qualquer custo! (meio redundante isso), mas na prática é o que acontece mesmo!
Daniel
Existem coisas que de tão repetitivas passam a fazer parte do cotidiano. Vira uma lei, sem que jamais tenha sido aprovada.
E essa é uma delas. Poderia acrescentar também a balinha que substitui os centavos. O vidro (ou a caixinha) já fica ali todo gabola ao lado do operador do caixa:
- Leve uma balinha de troco!
Pode-se até escolher o sabor: limão, hortelã, menta, abacaxi…
Certa vez presenciei um rapaz pagar R$175,00 em moedas de um centavo.
O rapazinho do caixa contando o bronze… risos… e a fila duplicando.
No final da cena atípica, ele nos explicou que era uma desforra, pelas inúmeras vezes em que lhe surrupiaram um centavo, vinte e cinco centavos, etc.
Abraços!
Até as balinhas e os chicletes estão “rareando” como moeda de troca (ou de troco). Um Mentos que custava alguns tostões há algum tempo, hoje tem embalagens de R$ 7,00. Não dá para dar de troco…..rsrsrsrs
Daniel
As pessoas realmente não valorizam o dinheiro mesmo sabendo que é para o bem do bolso delas ainda sou do tempo que se dizia e se fazia :_de grão em grão a galinha enche o papo. As pessoas deveríam reagir assim também porque afinal de contas o consumidor somos todos nós…