Quando o sinal fecha – Paulo Valença
1
A chuva cai grossa.
O sinal fecha.
Dentro do automóvel Miguel espera e, virando-se de lado, vê os dois
adolescentes defronte do armazém de construção (esperando que a chuva
pare) com as mãos segurando a madeira de cada lateral da faixa de
propaganda, provavelmente, do mesmo estabelecimento.
Então Miguel de repente se lembra de que no passado fora um rapazinho
pobre que para ganhar uns “trocados” agia à semelhança daqueles dois
ali. Até na cor há a semelhança, negro, magro, esguio… Por que essa
recordação? Tantos anos decorridos. Tudo agora se lhe apresenta como
se não tivesse existido, fosse-lhe uma ilusão, uma mentira. Contudo,
sofreu, curtiu a realidade amarga.
O sinal abre. A chuva está fininha. Os adolescentes aguardam que o
sinal feche para lado a lado, defronte aos veículos parados,
retornarem a expor a faixa com a propaganda.
Miguel acelera, aproveitando o pouco cruzar dos carros e motos.
O que sofreu para chegar à posição atual. A “garra” com que lutou, as
humilhações que teve de enfrentar a fim de ser alguém na vida…
- Besteira minha ficar me lembrando. Tou mesmo envelhecendo!
Sorri com a própria definição e outra vez acelera. Prático.
Reentregando-se ao presente de sujeito realizado, diretor de firma
conceituada no mercado.
Pressiona o botão ao lado da direção e vai ouvindo a música
orquestrada de um filme romântico, daquela época.
Cantarolando baixinho, distancia-se.
2
- Esse serviço da gente é mesmo pra quem não tem outro jeito de ganhar
dinheiro: ficar sustentando uma faixa à frente dos carros, enquanto o
sinal tá fechado!
O outro que é negro, tristonho, aquiesce:
- Pois é, colega. Mas, um dia a coisa melhora.
- Tomara!
Sorriem. O sinal fecha e se apressam para se por defronte dos
veículos, com a faixa estirada, sustentada nas laterais por eles, com
os dizeres em letras vermelhas e azuis.
O céu se escurece, no prenúncio do retorno da chuva.
3
Por que o Miguel está assim tão calado? Algo o preocupa, conhece-o
bem. Será algum problema lá na firma? E, criando coragem avizinha-se
da cadeira onde o marido está se cadenciando, pensativo.
- Tás com algum problema Miguel?
Ele se volta e, fitando-a, muito sério:
- Sabe Mariana? Hoje me lembrei da época em que para ganhar uns
“trocados” ficava com um colega segurando uma faixa de propaganda de
uma locadora, defronte dos carros, enquanto durava o sinal fechado…
Em silêncio ela ocupa a outra cadeira de balanço defronte. E espera.
O marido continua, sem mais a encarar, a atenção voltada aos prédios
defrontes, além da avenida embaixo, que se interpõe entre o terraço
daqui e as construções:
- Me lembrei. Foi quando o sinal fechou que vi os dois rapazotes
segurando a faixa, na calçada próxima, esperando que a chuva passasse
e o sinal outra vez fechasse para eles tornar lado a lado à avenida…
Mariana entende. Também foi pobre, conhece bem a luta para se manter
de pé, não se deixar cair, enfrentar o mundo.
- A vida é muito dura para uns! Mas, hoje tudo está mudado. Sou outro.
Aquiescendo em gesto com a cabeça e desejando libertá-lo do passado,
reentregando-o ao presente, então Mariana responde:
- Miguel tudo passou. Morreu. Quem vive de passado é museu.
De repente, como se obedecessem a uma ordem da qual não pode fugir,
então silenciam.
Assim calados se entreolham.
4
O homem lhe indagou, após estacionar o carro próximo ao armazém, na
calçada em que ele se encontrava com o amigo, o Toinho:
- Quanto vocês ganham por dia nesse serviço?
Ele ficou sem jeito. Perplexo. Desconfiado. Quem danado seria esse
cara? Mas, ante o rosto moreno fechado, igual ao seu, sorrindo…
- Dez reais por dia.
O amigo calado seguia a cena. Então o homem bem vestido, ainda
sorrindo tornou a falar:
- Apareçam nesse endereço.
Passou-lhe o cartãozinho. Segurou-o. Mas…
- Sou um dos chefes da firma aí. Tenho um trabalho pra vocês faturarem
muito mais.
- Obrigado.
O desconhecido então retrocedeu ao carro vermelho, importado e, sem se
voltar partiu.
Na mão o papelzinho. No rosto tristonho então o sorriso se abriu, na
esperança que de repente despontava.
- É cada uma que acontece com a gente!
Falou o colega e ele, já sorrindo:
- É Toinho, vamos lá!
5
Agora, ambos “marcam” os cartões e repondo-os no quadro ao lado do
relógio na parede, dirigem-se à seção para o trabalho de embalar
caixas. Sim, quem sabe se um dia, não estarão “noutra?”.
- Tudo pode acontecer.
- Falou Pretinho?
- Pensando, Toinho. Pensando.
Calados adentram no grande salão barulhento, de máquinas funcionando e
vozes que se comunicam na agitação nervosa de mais um dia de produção,
de trabalho.
Adiantam-se.
Leia também...
Imprimir
Enviar a um amigo
74 views












Paulo Valença
Fico sempre muito feliz, quando o encontro por aqui.
Imaginando qual será o tema do caso.
Hoje, você retorna com um dos seus temas universais: a vida dos adolescentes pobres, espalhados em derredor do mundo, com poucas chances de conseguirem ultrapassar a mediocridade em que vivem.
São tantas as barreiras!
O mais interessante é que você usa o personagem principal do conto para levar mais a fundo o problema.
Ele fora um deles.
Mas, vencera!
Embora as marcas ainda continuem vívidas em sua memória.
Enquanto as cicatrizes de nossa vida, ainda se inflamarem diante de algo que nos machucou um dia, significa que ainda não fomos capazes de superar, aquele momento, na sua totalidade.
E você finda o seu contado, dando um banho de esperança no leitor, de modo a acreditar, que ainda existem pessoas que veem o outro como um segmento de si mesmas.
Termina com uma lição de esperança!
Lindíssimo!
Meus mais sinceros parabéns!
Abraços,
lu
Paulo Valença,
Estava com saudades dos seus escritos. Têm sempre um teor de humanidade. Mas como resultante uma saída. Adoro os seus links. Parabéns! Um abraço.
Oi Paulo.. que lindo conto…
Lembrei-me desses vendedores de bala que entram nas lotações em BH (das quais faço uso de algumas) e uma coisa interessante já observei: os vendedores que mais vendem são os que conversam com os passageiros, contando um pouco de suas vidas .. os que só entregam o papelzinho com dizeres bonitos, pedindo uma oportunidade de vender as balas, não vendem tanto.. está aí a importância da comunicação… eu mesma tenho às vezes resistência em comprar desses vendedores que só entregam os papeis e não conversam com os passageiros, mas lendo o seu conto eu passei a entender que nem todos têm o dom da palavra e eles devem ser muito tímidos, afinal, não é tão fácil se equilibrar dentro do ônibus em movimento segurando a caixa pesada, cheia de balas, pirulitos e outras guloseimas e vencendo preconceitos, até de si próprios.
Seu conto me ajudou a ver com outros olhos essas pessoas, que honestamente estão buscando seu sustento e que estão na mesma situação/posição dos garotos do sinal do seu conto..
Obrigada! Amadureci mais um ponto…
Cris Panterinha
Lu,
Agradeço-lhe as palavras ao meu texto.
Você com a simplicidade e a inteligência de sempre, logo tudo diz, sensibilizando-me a alma.
Que a Força Maior assim a conserve: inteligente analista e fraternal colega!
Abraço afetuoso,
Paulo.
Ana,
É como já disse outras vezes: escrever e depois receber a acolhida do leitor inteligente, à sua semelhança, se constitui para mim no maior dos incentivos, na maior das premiações.
Obrigado!
Abraço carinhoso,
Paulo.
Cris,
Também já observei os vendedores nos ônibus que buscam vender confeitos, pirulitos, canetas e, você está certa: aqueles que conversam com os passageiros, narram o drama de estar passando fome, de a família curtir privações, o pai desempregado ou enfermo… São os que mais vendem.
A solidariedade humana existe e existirá, enquanto houver mundo, estivermos vivos.
O ser humano sofre e a própria dor une as criaturas.
Gostei muito de sua análise e, de coração aberto lhe agradeço.
Abraço fraternal.
Paulo.
Oi, Paulo
E bom nós nos defrontarmos com esses textos que vão buscar na dureza da vida a realidade de uma grande parte da população. Serve para que reflitamos. Serve para que nós entendamos que podemos participar, de algum modo, do processo de melhoria das condições de vida de quem, de fato, deseja melhorar.
Quanto tempo demora essa conscientização eu não sei. Aliás, essa incerteza foi bem colocada no seu texto, no diálogo entre marido e mulher. Mas sempre remanesce algum sentimento a respeito, guardado em algum canto do escaninho da memória irremovível.
Parabéns pela humanidade do texto.
Abraços
Manoel
PAULO
Sempre com tuas maravilhas para contar.
Semear esperanças e apostar em nosso semelhante é realmente tudo que devemos ter, mesmo nos momentos mais difíceis.
Parabéns.
Manoel,
Você diz o que eu, como autor, concordo: “… vão buscar na dureza da vida a realidade de uma grande parte da população”.
Sim, meu texto é sempre voltado ao que conheço, presencio e sinto. As desigualdades sociais do nosso país são terríveis, desumanas demais e, quando as descrevo, tento também despertar a esperança no amanhã.
Muito bom o seu comentário. Sensibilizado, lhe agradeço.
Abraços.
Paulo.
GUTIERRITOS,
Sim, amigo, “mesmo nos momentos mais difíceis” devemos ter esperança e crê no nosso semelhante.”
Você em poucas palavras disse tudo. Deu o seu recado de ótimo analisador.
Obrigado!
Abraço.
Paulo.