Quantas cores tem o arco-íris? – Augusto Vilaça
Quantas cores tem o arco-íris?
Abel Brito Chaves. Nasceu predestinado a viver sob regras. Tudo precisava ser certinho e equilibrado. Até mesmo seu nome, escolhido cuidadosamente: três palavras, iniciadas com A, B e C, tal e qual o alfabeto, e organizadas em conjuntos de letras numa progressão aritmética de razão 1 (4, 5 e 6).
Desde pequeno, só usava tons sóbrios nas roupas, sempre combinando. Mamadeiras com horas marcadas, 200ml, nem uma gotinha a mais, não adiantava espernear.
Estudou em colégio de freiras e depois em uma escola militar. Nunca levou sequer uma reclamação por estar com o uniforme em desalinho ou com as botas mal polidas. Aliás, sofria mais nas mãos dos colegas de turma que eram obrigados a seguir seu exemplo, como gritava o Tenente na revista matinal: “- Todos os coturnos devem estar polidos e brilhando como o do Cadete Brito! Quero ver meu rosto refletido neles!”.
Mas ele não conseguia, por mais que quisesse, mudar seu jeito de ser. Ou melhor, ele não pensava em mudar, já que nunca conheceu uma vida diferente. Sempre fora programado a agir mecanicamente, quase como um robô.
O tempo foi passando, ele seguiu sua vida que nunca lhe trazia surpresas. Tudo parecia ser como uma daquelas apresentações de segurança em aviões: “Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão sobre suas cabeças…”, é sempre a mesma coisa, não importa se você está voando na primeira classe ou no compartimento de carga, numa empresa do Brasil ou dos Emirados Árabes.
Um dia, depois de ter acordado pontualmente às 06:00 da manhã, escovou os dentes com 20 movimentos da escova em cada direção, tomou seu café: duas fatias de presunto, duas de pão, 200ml de leite aquecido a 70ºC (conferido no termômetro culinário), uma colher de chá de café solúvel e seis gotas de adoçante. Cinco voltas, em sentido horário, com a colher e pronto. Como sempre, lia calmamente o jornal, dobrando e guardando cada caderno ao passo que ia terminando a leitura, quando, de repente, uma gritaria vinda do lado de fora do seu apartamento fez com que perdesse a concentração.
Tentou se fixar na leitura, mas não conseguia. Levantou, não sem antes guardar todo o jornal, e foi até a varanda. O barulho eram crianças que brincavam nas poças d’água que haviam ficado depois da chuva.
“Meu Deus, as crianças estão imundas. Isso é inconcebível! Os pais são uns irresponsáveis. Por isso eu nunca quis ter filhos.”, pensou consigo.
Ainda assim, sem saber por qual motivo, não conseguia abandonar a cena. Algo lhe chamava a atenção. Não eram as crianças, por certo, já havia visto crianças brincando antes. O que seria, então? Enquanto procurava o que tanto mexia com seu subconsciente, viu um semi-arco colorido e se lembrou, que em algum lugar no passado, alguém disse que aquilo se tratava de um arco-íris. Como, em trinta e tantos anos de vida, nunca tinha visto um daqueles? Era lindo e parecia ter muito mais cores do que as sete, como ensinavam.
Não sabe ao certo por quanto tempo ficou ali, olhando para aquela simples maravilha. Só se deu conta quando voltou a chover e pode observar que os moleques brincavam ainda mais animados. Não pareciam mais emporcalhados como antes, algo mudara.
Agora, como se agisse mecanicamente, saiu da varanda, fechou a porta de correr, foi até o elevador, desceu ao térreo, e, sem saber porque fazia aquilo, andou em direção à chuva, de roupa e tudo. Pouco a pouco foi lhe batendo um sentimento que ele desconhecia, chegou perto dos garotos que chutavam a água do chão uns nos outros, um desses jatos o atingiu e, antes mesmo que pensasse em se queixar, como seria o esperado, entrou na brincadeira.
Parecia que ele tinha a idade das crianças.
Quando a chuva parou, viu novamente o arco-íris, que parecia ainda mais brilhante e colorido. Voltou para casa, com as roupas ensopadas e gotejando todo o chão. Ainda molhado, deitou no tapete e se sentiu leve, quase flutuando.
Desde então, viu que as regras e protocolos que seguia o privavam de ver coisas simples que apareciam em sua frente, como um mero arco-íris. Passou a olhar mais para o mundo, como se tivesse saído de dentro de uma bolha ou, de uma caverna, onde só se enxergam as sombras do que está do lado de fora.
Descobriu que as rosas têm cheiro, que é bom tomar banho de chuva, que os pássaros cantam e até que aquela praça que está sempre parada, em frente ao seu prédio, já não é a mesma a cada novo olhar seu.
Passou a usar roupas mais alegres e a comer porcarias, de vez em quando, afinal, nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Porém, o mais importante de tudo, é que sentiu algo que nunca tinha sentido antes e que em sua vida programada parecia não ter espaço, e a isso ele deu um nome: felicidade.
Saibam ser felizes! Feliz Natal e um próspero ano novo a todos!
Do Timor, com carinho,
Augusto Vilaça
Díli, 20/12/09
Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com
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Vila
O ABC, na verdade, nasceu robotizado.
Assim como o Pinóquio, certo dia, virou gente.
Ser gente não é coisa fácil.
Mas, por menor que seja a felicidade, sempre vale a pena.
Quero destacar a maravilha da mão com o arco-íris.
Muito lindos: mão e arco-íris.
Abraços,
lu
Augusto Vilaça respondeu:
dezembro 22nd, 2009 at 21:45
@Lu Dias BH, Oi Lu,
Pois é, ser gente não é nada fácil! E o pior é quando nos regulamos por critérios alheios, aí se torna mais complicado ainda…
Neste fim de ano, mudei um pouco o tom dos meus textos para lhes deixar essa mensagem de Natal: sejam felizes!
Obrigado pelo comentário.
Do Timor, com carinho,
Augusto Vilaça.
GUS
Excelente teu texto.
É verdade: não digo que todos somos robotizados, mas há muita gente que nasce programada para isto, para aquilo, não tem a liberdade para fazer o que gosta e nem tempo para prestar a atenção nas coisas maravilhosas na natureza e que Deus nos deu de graça.
Teu texto é magnífico, trazendo-nos uma imagem muito bem trabalhada, mostrando que temos que aproveitar a vida, esse dom divino e curtir todos os nossos momentos mesmo os mais simples, pois neles, é verdade, está os instantes de felicidade.
Parabés.
Agora, estás dando um duro a esta hora, aí no Timor Leste.
Mas logo, daqui a duas horas aproximadamente, chegará a hora de entrar novamente no almoço, quase de natal. Vai ser bom demais.
Vou falar baixo, pois a Lu Dias é vegetariana: uma leitoinha assada, com limão, salada de palmito com tomate, arroz a grega, e um pouco de cerveja.
Deve estar gostoso demais.
Pede para a cozinheira guardar um pedaço para mim. O cheiro está demais.
Quero que a paz do Natal e a singeleza que representa o nascimento de nosso Criador esteja forte batendo em seu coração, mesmo tão longe da nossa pátria e cheio de saudade, mas que tenha fé e esperança, pois teu retorno será breve, e acredito, no seio de sua família, muito festivo e muito alegre.
Abraços e um feliz natal e um próspero ano novo.
Augusto Vilaça respondeu:
dezembro 23rd, 2009 at 3:21
@GUTIE, Gutie,
Obrigado pelas palavras. Bom, como deu pra perceber, fugi bastante do meu estilo cotidiano nesse texto, acho que fui tocado pelo espírito do Natal e escrevi isso aí. Foi quase inconsciente, mas acabou que, quando eu li, vi que tinham muitas verdades nele, especialmente quando me lembro que muitas vezes deixei passar momentos simples que poderiam ter sido de pura felicidade.
Que legal que gostaram do texto, é minha mensagem de fim de ano para todos.
Quanto ao jantar natalino, você quase acerta o cardápio.
Abraços e tudo de bom pra você (cuja identidade secreta eu já sei, ehehehe) e para a grande Cidinha Mix.
Do Timor, com carinho,
Augusto Vilaça