Queria ser o Capitão Nemo – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 5 de dezembro de 2009 7:00

Agora é sério! Decidi que quero morar no mar. Mas não é no sentido de ter uma casa na beira da praia, é lá no fundo, junto com os corais, algas, peixes, plânctons e tudo o mais que ali existe. A ideia pode parecer meio maluca, mas ouvi dizer que um tal de Julio Verne já pensava em algo parecido cento e tantos anos atrás.

Outra das atividades que eu só vim descobrir aqui do outro lado do mundo foi o mergulho e, pela forma como coisa está caminhando, sei que é paixão para o resto da vida.

Quem tem a chance de conhecer o fundo do mar se encanta com a beleza e a vida que lá se encontram. Plantas e animais que se relacionam perfeitamente, das mais diversas formas: se ajudando, aproveitando-se uns dos outros ou ainda cumprindo seus papéis de predador e presa. Não que isso a gente não veja em terra firme, especialmente os dois últimos casos, mas posso garantir que o equilíbrio é muito maior no ambiente subaquático, além do que, no caso de aproveitadores e predadores, não é opção deles ser assim, isso faz parte de sua natureza, já no caso dos seres humanos…

Se isso não bastasse, lá embaixo não temos rádio, televisão, internet nem qualquer outro meio capaz de nos conectar com a realidade que deixamos do lado de fora. Como é bom curtir alguns momentos sem termos notícias de: mensalões, golpes de Estado, atentados terroristas, assaltos, guerras, ou mesmo problemas com micro-vestidos. Enfim, nos desligamos de toda uma sorte de coisas que circundam as nossas vidas e enchem as nossas mentes de preocupações.

Minha vontade era de poder abrir a janela do quarto e, ao invés de ver uma nuvem cinzenta de poluição, observar um cardume errante de peixes multicoloridos nadando em busca de comida. Muito melhor do que ter de enfrentar um engarrafamento seria sair nadando lentamente e apreciando a vista.

Queria que a coisa funcionasse como na imaginação do Capitão Nemo, que pudéssemos construir uma base submersa e lá tocássemos nossas vidas, vez ou outra saindo de nossos casulos e interagindo com a vida marinha, ainda que sem necessidade de qualquer capacidade especial ou mutação genética, vivendo como somos. Afinal, que graça tem em ter os poderes do Aquaman? Só porque respira debaixo d’água e conversa como peixes? Grande coisa, isso o Bob Esponja também faz.

No mar a calma toma conta do ambiente. Tudo é motivo de contemplação e ainda que sejam os mesmos lugares, os cenários se mostram diferentes a cada olhar. Até mesmo aquela correria a que estamos acostumados no dia-a-dia dá lugar a movimentos lentos e harmoniosos, como se quiséssemos nos misturar com os seres marinhos. Sem pressa nem compromissos, apenas atentos ao nosso suprimento de ar, pois ainda dependemos dele.

Por essas e outras que eu decidi. Deixa só começarem a lotear o fundo do mar (e eu não duvido que demore muito tempo…) que eu entro num financiamento e reservo o meu lote. Quem quiser me acompanhar eu asseguro que não vai se arrepender.

Por ora eu já vou.
Colete;
Cinto de lastro;
Presilhas;
Ar.
Tudo ok e checkado! Vamos descer!
Até mais, a gente se vê por lá.

Do Timor, com carinho,
Augusto Vilaça
Díli, 03/12/09

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com

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10 comentários para “Queria ser o Capitão Nemo – Augusto Vilaça”

  1. GUTIERRITOS disse:

    GUS

    Excelente teu texto.

    Acredito – perdoa-me pelo entusiasmo – o melhor de todos eles.

    Uma visão profunda do desequilíbrio ecológico que a nossa civilização está projetando para o mundo, que o levará certamente à destruição.

    E lá, no fundo do mar, mostras o equilíbrio ecológico, uma sabedoria eterna, praticada por seres que entendemos não terem inteligência e não serem evoluídos.

    Será, Gus, que não há aí um inversão ?

    Não serão eles – os seres aquáticos – os mais evoluídos do planeta ?

    Agora, Gus, como capitão Nemo, por favor, não procures ensinar nada lá embaixo, continua aprendendo e conte tudo para nós.

    Ei, Gus, acorda, estou-o ouvindo roncar.

    Olha que é longe.

    Precisamos atravessar oceanos para chegar até aí no Timor.

    Está bem.

    Amanhã, acorda e leia o que escrevi.

    Boa noite, aí no Timor.

    Boa tarde, aqui no Brasil.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @GUTIERRITOS, Grande amigo Guti,

    Como sempre, presente nos comentários. Rapaz, preciso te dizer: o mar daqui é encantador. Hoje mesmo eu fui mergulhar em dois lugares que não conhecia. Milhares de peixes passando por nós, até mesmo uma dupla de tartarugas resolveu dar o ar da graça.

    É muito bonito ver a forma como interagem, como vivem e sobrevivem. Pena que nós tenhamos que estragar tudo: mudando o clima, derretendo geleiras, mudando mares e desequilibrando tudo…

    Mas, quem sabe um dia, a gente não aprende um pouco com eles? Eu, particularmente, e já rebatendo a sua dúvida, pretendo ser para sempre um aprendiz.

    Ah, fala sério, nem ronco tanto assim!

    Abraço.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

    GUTIERRITOS respondeu:

    @Augusto Vilaça,

    GUS

    A sorte nossa é que teu ronco chega quando estamos acordado.

    HAHAHAHAHAHHAHAHA!

    Agora, tua crônica ficou muito boa mesmo e veio muito a propósito, no momento em que temos, novamente, notícia de nova seca no Amazonas.

    Não chove por lá há algum tempo e a região está pegando fogo. Manaus está respirando fumaça.

    Aqui em S.Paulo estamos, em dezembro, com uma onda forte de frio.

    Ah, não poderemos todos nós mergulhar até o fundo do mar.

    Mas os ensinamentos de quem chega até lá são excelentes.

    O que será de nosso futuro?

    Agora, por favor, pare de roncar.

    Acho que estás aí no quarto estágio do sono, onde o ronco é mais forte do que a passagem de um boeing por cima de nossa nariz.

    Dou um conselho: procure dormir de lado e não com a barriga virada para cima.

    Melhora bem.

    Meu Deus do céu, vou reclamar para o Paulo.

    Quem sabe ele tem algum jeito de abaixar o som que vem daí do Timor.

    De Dous Corgos, com carinho.

    Gutie.

  2. manoel rodrigues disse:

    Pô, Augusto Caymmi

    O fundo do mar é belo, cheio de vida colorida, mas você não preferia trazê-lo para um grande aquário? Se ainda fosse verdade aquelas histórias sobre sereias, daria para pensar no assunto.
    Isso está me cheirando a interesse no pré-sal. Tô sabendo de um embate entre o Rio e Pernambuco sobre o assunto.
    Brincadeira. Eu gosto muito de mar. Se eu tivesse fôlego suficiente e soubesse flutuar, tenho a certeza que desenvolveria muitas das minhas ideias, boiando na sua superfície. Eu falei superfície, viu?
    Abraços
    Manoel

    Augusto Vilaça respondeu:

    @manoel rodrigues, Teu conterrâneo, ou melhor, teu patrício, o tal do Fernando Pessoa bem que escreveu sobre o tema: o mar.

    Quanto às sereias, eu nem tinha pensado nisso, mas acho que no Brasil, seria mais fácil encontrá-las nos rios, com o nome de Iara, se eu achar alguma te aviso.

    A respeito do pré-sal, ainda não me “aprofundei” no assunto, as notícias que chegam aqui não são tão completas assim. Só sei que tá um rolo desgraçado por causa da divisão dos royalties, né isso? Como não vai entrar nada no meu bolso, nem fui atrás.

    Obrigado pelo comentário e vamos lá, começa pela superfície e depois… quem sabe?

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  3. Jovimari disse:

    Eta, Gus… você sempre inventando moda!!!

    Agora me dizendo que vai morar no mar… não vai dar… como levar a cervejinha, o churrasco, o seu fogão… esqueça!!

    Desça e volte logo… você não iria aguentar. Há muitas coisas aqui na terra que precisarão ficar para trás. Lembre-se que a cada escolha há uma ou várias descartadas. ;)

    Beijos!

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Jovimari, O mundo não para, nem eu, sou quase um Billy Idol, “o camaleão”. Porém, te garanto que quando a coisa engrenar mesmo, dou um jeitinho para levar tudo isso lá pra baixo. Só ainda não sei como vou fazer para manter o fogo acesso e para que o churrasco não vire um “cozido”.

    Hoje eu estive lá, não deu vontade de voltar, mas, infelizmente, ainda não consigo respirar igual ao Bob Esponja, quando o ponteiro começou a alertar que estava acabando o ar, eu precisei subir.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  4. Ana Lucia disse:

    Oi, Augusto
    Eu já tive o prazer de fazer mergulhos. Fiquei apaixonada como você. Tive um namorado que praticava pesca submarina(tenho histórias, hein?).Visitamos o fundo várias vezes. Trago Arraial do Cabo, com suas águas tão límpidas que pareciam de um roxo claro – (tipo olhos de Elizabeth Taylor) ainda em algum compartimento cerebral. Lembro-me de que uma vez quase me afoguei porque deparei-me com um polvo. Vc já deve ter notado que as coisas no fundo parecem mais próximas. H. calmamente virou-o do avesso e permitiu que ele, com suas ventosas, se agarrasse ao seu braço. Tempo bom você e seu texto permitiram recordar… Beijo.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Ana Lucia, O fundo do mar é impressionante mesmo e o melhor da vida é saber que temos histórias, ainda que nem todas possamos contar. A vida é uma só e devemos vivê-las sem arrependimentos.

    Vi um polvo, mas era muito pequeno. Também já vi outros bichos (alguns que não existem no Brasil), entretanto ainda espero a oportunidade de ver um tubarão.

    Que bom que eu consegui te trazer boas recordações. Se quiser se sentir novamente no fundo do mar, dá uma passada no meu flickr e olha as fotos: http://www.flickr.com/photos/aavs1976/

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  5. Ana Lucia disse:

    Augusto,
    Fui ver suas fotos – geniais! A gente fica tão impressionada com os peixes e a vegetação que até nos distraímos. Cuidado, sempre! Beijo.

    

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