Refúgio dos ausentes – Paulo Valença
1
O chefe da Produção, seu Gilberto, atrás do birô fitando o encarregado da Clicheria, diz, sério, o rosto pálido, o olhar tristonho:
- Pedro estamos para fechar.
O funcionário nada responde, esperando… O superior continua falando:
- A fábrica está numa situação nunca vista! Mas, sabe o que é isso? Má administração. A indústria cresceu muito e com essa diretoria que só pensa em gastar, esnobar…O resultado é o que a gente percebe: os pedidos caem, os clientes se afastam. Os fornecedores reclamam do atraso do pagamento. Nossos salários sem reajuste…Sei não, sei não.
Silencia. O rosto mais pálido, a testa porejando pelo suor nervoso. A tristeza maior nos olhos grandes, castanhos, enquanto imitando-o, Pedro permanece calado. Entregues a realidade imprevisível que os ameaça com horas angustiantes, dias…
- Bom, Pedro, você pode voltar pra o seu setor. Afinal, ainda estamos trabalhando, temos de cumprir com nossas obrigações. E vamos rezar para que haja um milagre, quando então tudo mudará. Pode ir.
- Com licença.
Aquiescendo em gesto de cabeça, seu Gilberto segue com atenção a figura baixa, gorda se erguer da cadeira alta e em passos lentos cruzar a sala, abrir a portar e passar. A porta é fechada por fora e ele fica ouvindo o ar-condicionado. Precisa mandar limpá-lo, este barulhinho não é normal.
Suspira como em desabafo e quisesse expulsar as reflexões.
A Indústria está “ameaçada”… Os próximos dias revelarão a verdadeira situação da Empresa, contudo, pode ocorrer uma reviravolta, um empréstimo que a Empresa contraia e salve tudo. Sim, pode suceder um milagre.
Sorri, zombando-se: desde quando acredita em milagres? É um sujeito calejado pela vida, tem a experiência amarga do quanto é difícil a luta pela sobrevivência. O passado lhe ensinou, educou-o com os próprios exemplos. Bom… A luta continua apesar de tudo e, resoluto, retira o fone do gancho e disca, reentregando-se à função administrativa:
- Àngela dê um pulinho aqui. Tudo bem, espero.
Repóe o fone e arruma os papéis esparsos sobre o birô, tentando se ocupar, enganar o próprio espírito.
Sem tardar, ouve as pancadinhas na porta, anunciando a entrada de alguém.
A porta se abre e a figura morena, esguia, graciosa de Ângela se apresenta.
- Bom dia.
- Bom dia, Ângela.
A moça passa, fecha a porta e em passos rápidos achega-se à caddira a frente do birô e senta-se, cruzando as pernas longas, bem-feitas. E, sorrindo, espera.
Então seu Gilberto:
- Como é, tudo bem com você?
Mantendo o sorriso de covinhas no rosto bonito, ela responde:
- Tudo “certinho”.
- Ótimo, ótimo.
Com discrição então ele fixa as pernas expostas pela minissaia e, de repente excitado, pensa no programa amoroso que curtirá após o expediente com a secretária.
Inteligente, a jovem entende-o e, conservando o sorriso, aguarda…
- Que tal a gente dar umas voltinhas hoje?
- Pra mim, tudo bem.
- Ótimo, ótimo.
Encaram-se, entendendo-se, na linguagem onde as palavras são desnecessárias.
Retirando o lenço do bolso da calça, seu Gilberto passa-o na testa, e faces.
Ângela descansa a perna esquerda sobre a coxa direita, substituindo a posição anterior com a direita, no jogo sensual, provocativo ao prazer que os aguarda.
Malicioso, o chefe sorri, compreendendo-a.
2
O portão largo da entrada e saída dos operários fechado.O estreito e longo bueiro um pouco afastrado, à esquerda da Portaria, sem expelir a fumaça da madeira queimada por as caldeiras. O silêncio pesado que envolve o prédio de seções conjugadas, sem ninguém. Onde estão os caminhões transportando as caixas ou conduzindo o material para a confecção do papel? Onde estão os tratores gigantes, amarelos, que recolhem e conduz o bagaço de cana para a esteira, que por sua vez o leva às cozinhadeiras, no primeiro andar? Tudo parado. Apenas um ou outro vigilante zelando o patrimônio da Empresa.
- Estamos falido.
Diz seu Gilberto em desabafo baixinho, realista, após a rápida análise ao que presencia e, buzina, anunciando-se.
O portão é aberto e o automóvel entra devagar, macio, como se temesse ferir as pedras esbranquiçadas pelo tempo, e que já se encontram sujas por papéis que voam, dançando ao vento da manhã. Sim, entra no grande e quieto pátio.
O guarda fecha o portão.
No céu o sol cintila com maior força, anunciando o verão, pois afinal de contas, nada pára, tudo segue ao comando de uma Grande Força.
Saltando do carro, seu Glberto encaminha-se ao seu gabinete, no primeiro andar, onde apenas encontrar-se-á sozinho, no refúgio dos ausentes. Incontáveis fantasmas.
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Paulo Valença
Estava lastimando a sua ausência e aqui está você com mais um dos seus instigantes textos.
Não me passa desapercebida a sua preocupação para com o ser humano.
Em todos os seus textos ela está visível.
Você é um humanista.
Ter que fechar um negócio e despedir os empregados deve ser um ato por demais dilacerante.
O patrão humanista sabe, que no fundo, é responsável por muitas famílias, por muitas boquinhas famintas.
Não é fácil saber-se sem emprego e sem nenhuma possibilidade visível de voltar a trabalhar.
É preciso muita força para continuar lutando.
Parabéns pelo seu belo texto.
Está proibido de sumir.
Abraços,
lu
Lu,
Você sempre com os inteligentes comentários que em poucas frases diz tudo, demonstrando o quanto ser digna dos nossos aplausos e gratidão.
É mesmo como já afirmei, escrever para depois receber a acolhidas iguais a sua, vale a pena, é o maior dos incentivos. Obrigado!
Sim, andei “sumido” porque a própria internet me tirou do ar, com um defeito na “discagem”, contudo, graças ao meu amigo Eduardo, voltei a me conectar com os colegas, e espero continuar.
Abraço carinhoso,
Paulo.
Paulo querido,
Que bom que você está de volta sempre trazendo textos que falam do cotidiano da vida, suas alegrias e sofrimentos. Abraço. Ana
PAULO
Muito bom teu texto, com ótima descrição e diálogos, mostrando o drama de patrão e empregados, no dia-a-dia, em plena crise e com problemas que as empresas enfrentam.
Parabéns.
Ana,
Suas palavras incentivam-me a continuar escrevendo, daí sensibilizado lhe agradecer de coração.
Abraços,
Paulo.
GUTIERRITOS,
O colega em rápido e inteligente comentário define o drama das empresas e funcionários ante a crise atual.
Você sabe escrever e ser fraternal, portanto, aceite minha admiração, agradecimento e abraços,
Paulo.