Refúgio dos ausentes – Paulo Valença

Por Paulo Valença, 24 de agosto de 2009 16:11

1
O chefe da Produção, seu Gilberto, atrás do birô fitando o encarregado da Clicheria, diz, sério, o rosto pálido, o olhar tristonho:
- Pedro estamos para fechar.
O funcionário nada responde, esperando… O superior continua falando:
- A fábrica está numa situação nunca vista! Mas, sabe o que é isso? Má administração. A indústria cresceu muito e com essa diretoria que só pensa em gastar, esnobar…O resultado é o que a gente percebe: os pedidos caem, os clientes se afastam. Os fornecedores reclamam do atraso do pagamento. Nossos salários sem reajuste…Sei não, sei não.
Silencia. O rosto mais pálido, a testa porejando pelo suor nervoso. A tristeza maior nos olhos grandes, castanhos, enquanto imitando-o, Pedro permanece calado. Entregues a realidade imprevisível que os ameaça com horas angustiantes, dias…
- Bom, Pedro, você pode voltar pra o seu setor. Afinal, ainda estamos trabalhando, temos de cumprir com nossas obrigações. E vamos rezar para que haja um milagre, quando então tudo mudará. Pode ir.
- Com licença.
Aquiescendo em gesto de cabeça, seu Gilberto segue com atenção a figura baixa, gorda se erguer da cadeira alta e em passos lentos cruzar a sala, abrir a portar e passar. A porta é fechada por fora e ele fica ouvindo o ar-condicionado. Precisa mandar limpá-lo, este barulhinho não é normal.
Suspira como em desabafo e quisesse expulsar as reflexões.
A Indústria está “ameaçada”… Os próximos dias revelarão a verdadeira situação da Empresa, contudo, pode ocorrer uma reviravolta, um empréstimo que a Empresa contraia e salve tudo. Sim, pode suceder um milagre.
Sorri, zombando-se: desde quando acredita em milagres? É um sujeito calejado pela vida, tem a experiência amarga do quanto é difícil a luta pela sobrevivência. O passado lhe ensinou, educou-o com os próprios exemplos. Bom… A luta continua apesar de tudo e, resoluto, retira o fone do gancho e disca, reentregando-se à função administrativa:
- Àngela dê um pulinho aqui. Tudo bem, espero.
Repóe o fone e arruma os papéis esparsos sobre o birô, tentando se ocupar, enganar o próprio espírito.
Sem tardar, ouve as pancadinhas na porta, anunciando a entrada de alguém.
A porta se abre e a figura morena, esguia, graciosa de Ângela se apresenta.
- Bom dia.
- Bom dia, Ângela.
A moça passa, fecha a porta e em passos rápidos achega-se à caddira a frente do birô e senta-se, cruzando as pernas longas, bem-feitas. E, sorrindo, espera.
Então seu Gilberto:
- Como é, tudo bem com você?
Mantendo o sorriso de covinhas no rosto bonito, ela responde:
- Tudo “certinho”.
- Ótimo, ótimo.
Com discrição então ele fixa as pernas expostas pela minissaia e, de repente excitado, pensa no programa amoroso que curtirá após o expediente com a secretária.
Inteligente, a jovem entende-o e, conservando o sorriso, aguarda…
- Que tal a gente dar umas voltinhas hoje?
- Pra mim, tudo bem.
- Ótimo, ótimo.
Encaram-se, entendendo-se, na linguagem onde as palavras são desnecessárias.
Retirando o lenço do bolso da calça, seu Gilberto passa-o na testa, e faces.
Ângela descansa a perna esquerda sobre a coxa direita, substituindo a posição anterior com a direita, no jogo sensual, provocativo ao prazer que os aguarda.
Malicioso, o chefe sorri, compreendendo-a.

2
O portão largo da entrada e saída dos operários fechado.O estreito e longo bueiro um pouco afastrado, à esquerda da Portaria, sem expelir a fumaça da madeira queimada por as caldeiras. O silêncio pesado que envolve o prédio de seções conjugadas, sem ninguém. Onde estão os caminhões transportando as caixas ou conduzindo o material para a confecção do papel? Onde estão os tratores gigantes, amarelos, que recolhem e conduz o bagaço de cana para a esteira, que por sua vez o leva às cozinhadeiras, no primeiro andar? Tudo parado. Apenas um ou outro vigilante zelando o patrimônio da Empresa.
- Estamos falido.
Diz seu Gilberto em desabafo baixinho, realista, após a rápida análise ao que presencia e, buzina, anunciando-se.
O portão é aberto e o automóvel entra devagar, macio, como se temesse ferir as pedras esbranquiçadas pelo tempo, e que já se encontram sujas por papéis que voam, dançando ao vento da manhã. Sim, entra no grande e quieto pátio.
O guarda fecha o portão.
No céu o sol cintila com maior força, anunciando o verão, pois afinal de contas, nada pára, tudo segue ao comando de uma Grande Força.
Saltando do carro, seu Glberto encaminha-se ao seu gabinete, no primeiro andar, onde apenas encontrar-se-á sozinho, no refúgio dos ausentes. Incontáveis fantasmas.

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6 comentários para “Refúgio dos ausentes – Paulo Valença”

  1. Lu Dias BH disse:

    Paulo Valença

    Estava lastimando a sua ausência e aqui está você com mais um dos seus instigantes textos.
    Não me passa desapercebida a sua preocupação para com o ser humano.
    Em todos os seus textos ela está visível.
    Você é um humanista.

    Ter que fechar um negócio e despedir os empregados deve ser um ato por demais dilacerante.
    O patrão humanista sabe, que no fundo, é responsável por muitas famílias, por muitas boquinhas famintas.

    Não é fácil saber-se sem emprego e sem nenhuma possibilidade visível de voltar a trabalhar.
    É preciso muita força para continuar lutando.

    Parabéns pelo seu belo texto.
    Está proibido de sumir.

    Abraços,

    lu

  2. Paulo Valença disse:

    Lu,
    Você sempre com os inteligentes comentários que em poucas frases diz tudo, demonstrando o quanto ser digna dos nossos aplausos e gratidão.
    É mesmo como já afirmei, escrever para depois receber a acolhidas iguais a sua, vale a pena, é o maior dos incentivos. Obrigado!
    Sim, andei “sumido” porque a própria internet me tirou do ar, com um defeito na “discagem”, contudo, graças ao meu amigo Eduardo, voltei a me conectar com os colegas, e espero continuar.
    Abraço carinhoso,
    Paulo.

  3. Ana Lucia disse:

    Paulo querido,
    Que bom que você está de volta sempre trazendo textos que falam do cotidiano da vida, suas alegrias e sofrimentos. Abraço. Ana

  4. GUTIERRITOS disse:

    PAULO

    Muito bom teu texto, com ótima descrição e diálogos, mostrando o drama de patrão e empregados, no dia-a-dia, em plena crise e com problemas que as empresas enfrentam.

    Parabéns.

  5. Paulo Valença disse:

    Ana,
    Suas palavras incentivam-me a continuar escrevendo, daí sensibilizado lhe agradecer de coração.
    Abraços,
    Paulo.

  6. Paulo Valença disse:

    GUTIERRITOS,
    O colega em rápido e inteligente comentário define o drama das empresas e funcionários ante a crise atual.
    Você sabe escrever e ser fraternal, portanto, aceite minha admiração, agradecimento e abraços,
    Paulo.



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