Roberto, o rei, e a criança sem lei – III – Charles Silva
Quando fiz oito anos, mamãe decidiu que eu deveria ir para a catequese. Aquilo soou como um sino gigante dentro de mim. Agora, toda hora cheia se esvaziava diante do padre. E quando soube sua idade, passei a suspeitar que ele fora guru espiritual dos primeiros terroristas do universo, os irmãos Big & Bang.
Padre Miguel acreditava falar várias línguas, embora estivesse longe de ser poliglota. A ilusão consistia apenas em aplicar um sotaque estrangeiro sobre a língua portuguesa. Tal habilidade resultava num fenômeno curioso aos olhos e ouvidos das crianças no início da catequização. Quando o padre “falava italiano”, por exemplo, em vez de acontecer a troca do idioma e a permanência do padre, acontecia, na verdade, um grande milagre: a permanência da velha língua portuguesa e a aparição de um novo padre, mas com sotaque estrangeiro. Dessa maneira, Padre Miguel se transformava num italiano alegre e falante, gesticulando em romano césares e cristos do mundo inteiro!
Meu amigo “global”, Paulo Planeta, cujo QI transformara-se em IP, foi catequizado comigo. Ele cometeu o sacrilégio de decorar os Dez Mandamentos em nove línguas, e aprendeu a rezar em latim não apenas as orações conhecidas, mas toda a missa! Quanto a mim, ao final da catequese, mal sabia balbuciar a primeira parte do Pai Nosso. Achava que reza deveria ser uma comunicação direta com Deus, só não sabia qual sotaque empregar. Indeciso e ardendo de vergonha, tendo o padre a minha frente, e ouvindo atrás de mim a turma sufocar o riso, eu me engasgava logo no início da oração: “Pai nosso que estou no céu, santificato (o padre franzia o cenho, pedindo para eu rezar em português mesmo)… santo fincado (ele fazia: hum-hum)… santo focado (o padre dizia: concentra!)… São Sufocado?! E ele interrompia impaciente: “No, no, no! Di inizio, pelo amor de Dio!” Nervoso, com a voz cada vez mais baixa e com o rosto coberto por um suor gelado, eu não fazia mais ideia do que estava rezando. Psicologicamente abalado, o recomeço era ainda mais trágico: “Dionísio que estais no céu, tão sufocado que está aqui”… E outra vez eu ouvia: “No, no, no! Di inizio, estúpido!”
Só consegui concluir a catequese graças à engenhosidade de Paulo Planeta, que sugeriu ao missionário formar um coral. Assim, na formatura, meu amigo fez parte do grupo das crianças que rezavam, enquanto eu fui para o pequeno chorus. Nasceria ali o Coral da Mocidade Independente de Padre Miguel, se o carnavalesco da época, Arlindo Rodrigues, com o enredo “A festa do Divino”, não tivesse tirado nota quatro em fantasia. A escola ficou em quinto lugar no carnaval, e durante meses não se falou mais de música lá no morro, nem de coral. E ai de quem mencionasse a palavra “fantasia”!
O problema era que o coral só cantava duas músicas, as únicas orações que aprendi. Em casa, eu era o responsável pela abertura das novenas que mamãe organizava. Com um discreto sinal de cabeça, mamãe ordenava que seu garnisé estridente se empoleirasse no encosto do sofá para anunciar o início das rezas: “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!” Vamos lá, todo mundo cantando bem alto, quero ouvir! “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!” Agora só as meninas, levantando as mãos pro céu! “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!” Quem gosta de carnaval canta comigo! “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!”
Era um sucesso estrondoso! As pessoas se empolgavam e eu me depenava por inteiro, engrossando as veias do pescoço numa explosão de glória e fé! A música terminava com uma revoada de palmas, como se o Espírito Santo batesse as brancas asas sobre os fiéis emocionados que ali se reuniam. A novena se desenrolava numa infinidade de Pai-nossos, Ave-marias e alguns avestruzes dos quais nunca supus que se prestassem a rezas.
Por morarmos na baixada, as pessoas tinham por costume dizer que “desciam à novena” sempre que se dirigiam até à nossa casa. Ora, como a grande maioria das religiosas morava no alto do morro, a música mais propícia para terminar a reza era outro sucesso de Roberto Carlos: “Eu vou seguir/ uma luz lá no alto/ eu vou ouvir/ uma voz que me chama/ eu vou subir/ a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar!/ Mais uma vez/ obrigado senhor…”
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Ah, Charles… este texto está muito hilário… ri com vontade e sua descrição e aflição, me deixaram com dó daquele menino, esforçado, porém tãolonge de seu interesse.
Beijo!
Charles Silva respondeu:
fevereiro 9th, 2010 at 16:04
@Jovimari,
Jovimari, que bom saber que você riu com vontade o que escrevi morrendo de rir também! A Tetê Espíndola certa vez disse ter aprendido cantar com os pássaros… eu tive por referência apenas um garnisé, por isso minha carreira não decolou…
Abraços!
Charles.
Charles querido,
Boa saída bolada pelo P. Planeta. Troca excelente. Afinal ‘quem canta seus males espanta!’. Beijo, querido.
Charles Silva respondeu:
fevereiro 9th, 2010 at 16:05
@Ana Lucia,
“Amigo de fé, irmão camarada”, lembrava o rei…
Abração!
Charles
Oi, Charles
Como sempre, uma beleza de texto, este carregado de humor e ironia fina.
Mocidade Independente de (do) Padre Miguel? Essa é boa!
Abraços
Manoel
Charles Silva respondeu:
fevereiro 9th, 2010 at 16:11
@manoel rodrigues,
Manoel, você sabia que foi mesmo verdade que o carnavalesco da época, Arlindo Rodrigues, com o enredo “A festa do Divino”, tirou nota quatro em fantasia? Dizem que houve fraude, pois ele era altamente conceituado. Mas o coral da paróquia não existiu, foi apenas a tal da liberdaade poética me atacando…rs
Abraço.
Charles.
manoel.rodrigues respondeu:
fevereiro 9th, 2010 at 17:11
@Charles Silva,
Oi, Charles
Eu imaginei que ele não existiu, eu ri foi do noome que você deu ao padre para ligá-lo à escola de samba.
Quanto á nota, não estou lembrado.
Antigamente, as escolas de samba ficava expostas a uns ataques de loucura de alguns jurados. Com o sistema atual (4 ou 5 jurados por quesito), quaisquer desvios são amainados pelas notas dos demais julgadores.
Abraços
Manoel
Charles Silva respondeu:
fevereiro 9th, 2010 at 23:18
@manoel.rodrigues,
É verdade, melhorou bastante! A ligação do nome do padre com a escola surgiu ao digitar a crônica. Eu gosto de escrever primeiro no caderno, sinto-me menos solitário… Sei que é estranho, mas é verdade.
Amigo Charles,
Comento aqui a I e II partes de sua história sobre as músicas do Rei. Infelizmente, o Paulo está, não sei porque, fechando muito cedo o acesso direto aos comentários.
Sua paixão pela Iara era realmente louca, como a amizade desse outro Paulo que não perdia chances de entrar numa confusão. Estudar é muito gostoso, mas certas matérias tiram a gente do sério e, muitas vezes, da sala de aula antes da hora – ou depois dela.
O mesmo se pode dizer da religião. Nem todos têm a mesma crença e isso precisa ser respeitado. Só mesmo acrescentando as imortais melodias do Roberto podemos conviver com isso tudo.
Valeu pela dose de humor e criatividade,
E.S.
Correção,
Refiro-me às II e III partes.