Pensamento do dia - 25 ago 2008 As amizades - Nina Araújo



ago 26

Era de se esperar que aquele amor sucumbisse. Os danos haviam sido administrados a tempo pela costureira que a esta altura limpava as lágrimas grossas da separação tão necessária.

Carminha tinha consultado a amiga duas vezes na sua falsa bola de cristal, aquela mesma que lhe rendia uns caraminguás no fim do mês.

A “vidente” era uma boa opção para as mulheres amarguradas da rua, como era leitora assídua dos livros de auto ajuda, e tinha feito um curso de astrologia pelo correio, falava com muita autoridade e dava certo alento por ali. Ademais, o vasto conhecimento como telespectadora de filmes estrangeiros ajudava também. Afinal, sempre citava um ou outro clássico no meio dos conselhos durante a consulta.

Foi exatamente assim que justificou para Simplicia aquele fim iminente – eu te avisei que ele era doido, e tinha a vida marcada, por isso só podia ser perigoso…

Simplicia fora avisada pela amiga logo que esta viu o olhar do homem e quando soube detalhes que a outra contou de sua vida, foi a primeira a alertar, lembrando da cena que vira no filme inglês –“tenha cuidado com as pessoas que foram muito danificadas pela vida, pois elas sabem que podem sobreviver” – dizia com a entonação quase francesa da Juliete Binoche, atriz da película famosa.

O fato era que Carminha esteve certa o tempo todo.O rapaz era bem complicado, filho de uma família difícil, muitas perdas desde menino, agressões em casa, descambaram para muito cinismo e uma conquista predatória, agarrou-se à alma sensível de Simplicia até mais não poder, até a pobre mulher ter apanhado toda surra que podia, vítima do ciúme infundado do homem. E isso sem contar as traições que ele a submetia debaixo do nariz. E quando a amante ameaçava encerrar o romance ele se tornava o mais sedutor e iluminado dos parceiros, usando e abusando de um carisma nato.

Enfim, depois de muito penar a mulher pode ficar livre daquele romance equivocado.

Mas será que saberia tirar dali as lições necessárias para a vida? Carminha estava ao seu lado disposta a defendê-la e claro, citar sempre novas frases do cinema, porque estava convencida de que a vida era um filme, atrás de personagens reais… Pelo menos naquele momento, Simplicia concordou.

Bookmark e Compartilhe

Share/Save

Publicado por Nina Araújo \\ tags:

Imprimir Imprimir


Um comentário para “Simplícia e a falsa vidente - Nina Araújo”

  1. lu dias Bh disse: Reply to this comment

    Nina Araújo

    O importante é que saibamos tirar proveito de nossas desditas.
    Belo texto.
    Grande beijo!

Escreva um Comentário


Dicas do Timoneiro

Pesquisa personalizada