Sobrevoo – J. Carino
Ouça Sobrevoo na voz do autor:
Olho do alto a grande cidade. Essa imensa maquete nem parece prenhe de vida. A esta distância, em sobrevôo, não me chegam as verdadeiras proporções das coisas: ruídos, cheiros, texturas não existem.
Demiurgo, posso criar minha própria cidade imaginária.
Desenho ruas com caprichosas sinuosidades de rios: nada me impõe as angulosidades funcionais.
Crio praças, muitas praças – círculos para encontros, espaços para o povo.
Semeio verdes generosamente: tapetes e mais tapetes de grama; árvores grandes e pequenas, antecipando-as pejadas de flores e frutas, pouso certo dos passarinhos.
Construo prédios, uns grandes outros pequenos. Neles, sem pressão e azáfama, há gente que faz coisas não esperadas: recita poesia pelas salas; dança pelos corredores; faz dos elevadores câmaras de eco ideais para os assovios…
Ergo casas pequenas em terrenos grandes, cercando-as de jardins. Trepadeiras firmam-se nos beirais e sobem aos telhados; samambaias curiosas se metem pelas janelas, num doce voyeurismo em verde; flores saturam o interior das moradas com infinitas variedades de perfumes.
Ao invés de veículos que atravancam, há gente nas ruas; gente que passeia com total liberdade. Há crianças despreocupadas brincando sob as árvores. Ninguém se sufoca nas casas sob o jugo hipnótico da parafernália eletrônica.
Daqui de cima, em meu sobrevôo, não distingo o que dizem, mas sei que se conversa muito nesta minha cidade imaginária. Fala-se livremente: de amor, de solidariedade, de cooperação. As palavras são as únicas armas — para convencer, nunca para impor, humilhar, ordenar. Ri-se muito; o humor perpassa os contatos humanos, dando à vida um sabor inigualável.
Ah, como se canta nessa cidade! Melodias e harmonias embalam o cotidiano. Cantos singulares e cantos conjuntos fazem-se ouvir todo o tempo; todos amam a música que, em seu milagre sonoro, suaviza o viver e destrói a rudeza, penetrando pelos ouvidos e chegando às almas.
Ama-se total e exuberantemente nessa cidade: do amor carnal, físico, sensual, ao amor platônico, tímido ou incapaz de declarar-se. Mãos, lábios, corpos inteiros aproximam-se, tocam-se, entrelaçam-se.
Labora-se muito na minha cidade imaginária. Trabalho e lazer são quase indistinguíveis, dado que cada um faz o que lhe cabe com prazer, exercitando, de modo feliz, um labutar que resulta no benefício de todos.
Daqui desta altura, posso sentir a paz que reina em minha cidade. Uma paz que penetra em tudo, que a tudo e a todos envolve. Pacíficos são os objetivos, os empreendimentos e os modos suaves embora determinados de alcançá-los. Não há guerras em andamento ou em perspectiva: sejam as grandes carnificinas que lançam a raça humana no lodaçal da indignidade, sejam as pequeninas guerras do dia a dia – as disputas miúdas pelo poder, os embates para sobrepujar o outro, os duelos de prestígio, as brigas em torno de questiúnculas que tanto tempo roubam à possibilidade da vivência plena da vida.
Sobrevôo minha cidade. É linda, me faz feliz e… melancólico, por sabê-la tão bela; por vê-la como um fruto perfeito da engenharia imaginária de que nosso espírito é capaz; por contemplá-la em sua singeleza e felicidade; mas igualmente por sabê-la utópica e irrealizável.
Realizador fracassado diante da impraticabilidade do que foi concebido, sinto-me, porém, eufórico com a dimensão poética de meu sonho. Lanço mais um olhar à minha querida cidade, lá embaixo. Cubro-a de nuvens brancas, com as quais desenho caprichosamente carneirinhos, buquês de intensa alvura, flocos de brancura imaculada e outras formas comuns ou estranhas, ao sabor de meu delírio.
Sigo voando, célere, pelo céu quase absurdamente azul, em cujo horizonte vislumbro a vermelhidão de um intenso pôr-de-sol. Quem sabe, lá longe, no infinito, existirá, nalgum lugar, nalgum tempo, uma cidade assim!
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Carino,
o sonhar nos leva a realizar!
Lindo!
Abraços,
TT
” Vista assim do alto, mais parece o céu no chão”. Os poetas estão certos. Sempre.
Prezadas Terezinha e Hila:
Obrigado, mais uma vez, pelo carinho da leitura.
Sonhar pairando assim sobre tudo acho que nos aproxima de todos os céus: o exterior e o interior.
Cordiais abraços.
Zuenir Ventura já escreveu que o Rio é uma cidade para ser vista do alto. E não é que ele estava certo?
Como seria bom se tivéssemos asas. Pelo menos temos as asas da imaginação.
E você, Carino, nos ajuda a voar e a sonhar.
Parabéns pela crônica, enriquecida pela narrativa.
Tomara que muitos professores de português descubram que seus textos podem ajudar bastante os alunos, principalmente estrangeiros, a aprender a nossa língua – tanto pelo português impecável, quanto pelo áudio, complemento fundamental.
J.Carino respondeu:
junho 26th, 2009 at 20:37
@Paulo Afonso,
Caro Paulo Afonso:
Obrigado pelas gentis palavras, que têm ainda mais valor vindas de você que (muitos não reparam, vendo apenas o editor da Alma Carioca) tem escrita criativa e impecável.
Sobre a narração, acabo de receber, de alunos do Curso de Comunicação de uma faculdade aqui de Niterói, covite para palestrar sobre redação, narração e inflexão. Isto é encorajador, dado que anda sendo feito por aí com a “última flor do Lácio…”.
Cordial abraço.
Carino,
Uma beleza de texto. Realmente através do sonho libertamos a imaginação para o realizar. Um abraço. Ana
J.Carino respondeu:
junho 26th, 2009 at 20:38
@Ana Lucia Timotheo da Costa,
Muito obrigado, Ana, por ler e sonhar junto.
Cordial abraço.
Lindo!!!!
“Ao invés de veículos que atravancam, há gente nas ruas; gente que passeia com total liberdade. Há crianças despreocupadas brincando sob as árvores.”
Que paraíso… lembrei de quando eu era criança o único motivo de não brincar na rua era se minha mãe não deixasse… mas ela sempre deixava!! Que sorte eu tive.
Delícia de voz, de entonação… muito bom ouvir o bonito, sentir a delicadeza, a paz…
Beijo!
J.Carino respondeu:
junho 26th, 2009 at 22:55
@Jovimari,
Obrigado, Jovimari.
Eu, também em criança, brinquei assim, na rua. Pobres crianças de hoje, cada vez mais confinadas…
Cordial abraço.
J. CARINO
Gostaria e muito de morar nessa sua cidade imaginária.
Mas acredite, eu já residi em lugares como este, ou pelo menos bem parecidos, pequena cidade, cheia de árvores, pássaros, poucos carros, praças maravilhosas, muita gente nas ruas, dizendo ” como vai ?” Crianças brincando, correndo, gritando, levados ou mais quietos, alegres, pulando. Namorados e casais se abraçando, beijando-se, dizendo uns aos outros ” eu te amo “…
Seu texto é maravilhoso e deve ser lido como um ideal possível, mesmo que seja pelo menos parecido, pois só depende do crescimento do amor no ser humano.
J.Carino respondeu:
junho 26th, 2009 at 22:58
@GUTIERRITOS,
Para vir morar nessa minha cidade, Gutierritos, basta usar a chave da sensibilidade e entrar no espaço da memória. Seja, então bem chegado!
Não residi, mas, quando criança, passei férias em cidades interioranas que eram assim.
Cordial abraço.