Sonho impossível – Sonia Quartin

Por Sonia Quartin, 26 de julho de 2008 16:59

Conheci Cleison através de sua mãe, Maria, minha diarista.

Moravam numa comunidade pobre. Ou melhor, numa favela da periferia, paupérrima. Ele, mãe e quatro irmãos, uma menina e três meninos, cada um de um pai, viviam em um casebre de quarto e sala sem nenhum conforto. Cleison tinha, então treze anos. Garoto mirrado, mulato claro, grandes olhos tristes, como muitos meninos desse lugar. Seria igual a tantos outros que se conhece, salvo por um detalhe que o fazia ser completamente diferente. Um dia me contou, meio encabulado, que tinha um grande sonho. Sonho esse que, a todos parecia e talvez fosse mesmo impossível. Não gostava de jogar bola com os moleques da favela. Nunca tinha fumado maconha, nem experimentado qualquer tipo de droga, como muitos amigos seus. Não saía em grupos para baladas de funk, como todos faziam. A galera da redondeza, aos poucos, foi se afastando dele, pondo apelidos os mais variados: “esquisito”, “fresco”, “viadinho” e tal. Ele não se incomodava mais. Seguia seu sonho. A mãe balançava a cabeça: “Esse, não vai dar pra nada!” Cleison ria.

E qual seria esse sonho que espantava todo mundo? Cleison, favelado, mulato e pobre queria ser bailarino clássico. Desde que tinha visto na televisão um casal dançando o “Lago dos Cisnes”, ficou obcecado com a idéia de aprender ballet clássico. Esse sonho começou quando tinha nove anos. No princípio sua mãe nem ligou, pensando: com o tempo… Mas, ele não desistia. Graças ao dinheirinho que conseguiu carregando sacolas na feira, tinha comprado um par de sapatilhas vagabundas e um disco de música clássica que botava na sua vitrola e ficava, horas a fio, trancado no quarto tentando imitar a coreografia que havia visto na TV. Era só o que fazia, depois da escola. Um dia descobriu onde era o Teatro Municipal e costumava ficar sentado nos degraus, observando os bailarinos que entravam e saiam, olhos cheios e inveja e admiração. Mas, ninguém prestava atenção no garoto ali, sentado na escadaria do teatro atento a tudo e a todos.

Até que um dia… Cleison seguia com os olhos aquela menina, chegando apressada, atrasada na certa, quando viu que ela tropeçou e ia caindo. Mais que depressa, segurou seu braço, impedindo sua queda. Ela sorriu e agradeceu. Cleison, então ficou ali, a espera de sua saída. Parecia uma miragem: tão bonitinha, com sua malha colorida, caminhando elegante como uma fada. Fluida e etérea. Passou a ir, todos os dias, para a porta do Teatro a espera de sua princesa, como chamava. Às vezes, ela aparecia, sempre apressada, mas sorria para ele e era então como um presente. Com o tempo, passaram a conversar antes do horário da aula e Cleison contou à sua amiguinha a imensa paixão que tinha pela dança. Um dia ela falou: “Quer assistir à minha aula?” “E pode?” “Bem, poder não pode. Mas eu te levo escondido”.

E assim fizeram. Daquele dia em diante, os dois se esgueiravam por entre outros alunos e entravam escondidos. Cleison procurava um local bem discreto e ali permanecia, olhos arregalados, coração batendo forte, respiração presa, acompanhando cada movimento de sua princesa. Já sabia toda a coreografia da dança e, fechando os olhos pensava ser ele o parteneur de sua amiguinha. Um dia, entrando ambos mais cedo e como não havia nenhum outro aluno no salão, Cleison, num momento de coragem e audácia, pegou sua amiga pela mão e, levou-a até o meio do palco. Com a elegância de um verdadeiro bailarino, cingiu-a pela cintura e, ambos começaram a dançar. Ah! Como Cleison era feliz naquele momento! Esqueceu do tempo e do lugar. Até que uma voz ecoou no salão: “O que é isso?” A professora, sem nada entender, exigindo uma explicação. Cleison, de início ficou paralisado. Depois saiu a correr pela porta, ganhando a rua, desorientado e confuso.

O caso me foi contado pela mãe: “Imagina a senhora! Meu Cleison dançando no meio do teatro. E dançou bem, o danado! A professora me disse que ele tem futuro! Me procurou. Me pediu permissão pra ele estudar com ela. De graça! Deixei né? Ballet? Gosto não! Não é coisa de homem. Mas que fazer? Ele quer!”

Seu irmão, ouvindo o que dizia a mãe, sacudia a cabeça, às suas costas. E, quando Maria saiu, cochichou: “Foi isso não! Cleison ficou envergonhado. Fugiu de casa! Pra “boca”, moça! Metido com besteira! Mãe não conta! Taá com os home!”

Será? – pensei. A figura do garoto tão cheio de sonhos não me saiu da cabeça por muito tempo. Quando sabia de batida policial na comunidade procurava, instintivamente, o nome do Cleison entre mortos e presos. Respirava. Nada! Maria já não era minha faxineira. Tinha partido para viver no interior com sua família. Fugindo do tráfico.

“Filhos… a senhora sabe!” Do Cleison, nem ela tinha notícia, me disse antes de partir.

Até que um dia, anos depois, abro o jornal e leio:

“Novo fenômeno da dança contemporânea, Clay Jacson, deslumbra platéias em Paris.” Lá, nas páginas do Jornal, a foto do meu amiguinho: os mesmos olhos fortes. O sorriso não! Agora um sorriso de vencedor! Cleison! Cleison da Silva, (hoje Clay Jacson), ex-favelado, mulato e pobre. Primeiro bailarino em Paris! Sonho impossível? Não! Todo sonho pode ser realizado. Basta saber sonhar. E lutar por ele

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2 comentários para “Sonho impossível – Sonia Quartin”

  1. Maria Augusta disse:

    Eu amei! Não sei se a estória é verídica. Mas gostaria que fosse. Gostaria que mais e mais crianças carentes pudessem realizar seus sonhos. Aliás, gostaria mesmo é que mais crianças, de todas as classes sociais, sonhassem e se esforçassem como o Cleyson para transformar o sonho em realidade.

  2. Terezinha Pereira disse:

    Sônia,

    felizes do que ousam sonhar, de olhos abertos, vendo-se no amanhã! Esses são os grandes vencedores.
    Linda história.
    Abraços,
    Terezinha Pereira



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