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Frágil – Charles Silva

Por Charles Silva, 15 de fevereiro de 2010 19:12

todo coração sabe de cor
a dor espeta
veja a seta
com que ela se assemelha
eros com tudo combina
leia na tarja vermelha
este lado para cima

todo coração sabe de cor
a sua hora
bate agora
vai na valsa da abelha
zumbe quando alucina
arde na própria centelha
goza quando germina

ninguém paga pra ver
o que já conhece
aventura é viver
tudo o que enlouquece
como é que vai ser
quando é que acontece

não há quem manobre
amar é popular
todo amor é nobre

não há quem mensure
amar é flutuar
amor me segure

por isso eu quis pular
sem paraquedas
pra você

eu sei que é melhor
quebrar a perna
que sofrer

só quando senti o chão
costela por costela de adão
evaporei de vez
um gás na janela do talvez

todo tremor sacode as veias
escombro de amor sacaneia
às vezes derrubado no centro
eu choro com o richter por dentro

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Roberto, o rei, e a criança sem lei – IV – Charles Silva

Por Charles Silva, 14 de fevereiro de 2010 0:10

Roberto_I

Eu sempre quis ter um cachorro que sorrisse igual ao do Roberto Carlos: “Eu cheguei em frente ao portão/ Meu cachorro me sorriu latindo…” Por isso, aos onze anos de idade, sempre acompanhado pela sombra interplanetária da cabeça do meu vizinho, Paulo Planeta, lancei mão de um estratagema simples e funcional: adotei Felício, o dócil, um vira-lata que conhecia as ruas do bairro como as pulgas das próprias patas. De fato, Felício era muito esperto e amigo, mas era incapaz de sorrir.

Certa vez, eu e Paulo Planeta paramos as bicicletas diante do portão da minha casa e observamos Felício, o dócil, numa alegria sacolejante da orelha ao rabo. Notamos que apesar de todo esforço que o pobre cão fazia para nos saudar, sua felicidade era desprovida de sorriso. Paulo planeta, cuja cabeça não parava de crescer nem de criar, tirou do bolso um daqueles elásticos de prender dinheiro e disse que sabia como fazer Felício muito mais feliz. Prendemos o elástico entre a nuca e os lábios superiores daquele sujeito antipático e pronto, numa questão de segundos eu tinha a hiena mais feliz das Américas! Felício transformara-se numa espécie de esfinge mitológica a embutir uma dúvida torturante a quem o olhasse: aqueles dentes à mostra ladravam sorrisos ou rosnados?! Nem mesmo um Pit Bull teria coragem o bastante para desvendar a nova expressão que adquirira meu animal de estimação…

Transformar a expressão canina despertou em Paulo Planeta e, confesso, também em mim, uma curiosidade científica. E quando ouvimos Roberto Carlos cantar: “Sete vidas tenho para viver/ Sete chances tenho para vencer/ Mas se não comer acabo num buraco/ Eu sou o negro gato/ Eu sou o negro gato”, armamos um plano para estudarmos, cientificamente, os poderes do gato preto de Padre Miguel, que atendia pelo nome delicado de “Versículo”. Mais difícil do que sequestrar o gato foi ouvir o homem de Deus procurá-lo, numa cantoria triste e solitária durante toda noite: “Onde você estiver não se esqueça de mim/ Com quem você estiver não se esqueça de mim…”

Nada disso teria acontecido se nosso professor de História, durante uma aula inesquecível e inspiradora, não nos houvesse falado de Joseph-Ignace Guillotin, o médico que sugeriu o emprego da guilhotina, instrumento que tinha a função de verificar se os contra-revolucionários franceses tinham mais de uma vida.

Naquele mesmo dia passamos a tarde construindo o último pulo do gato. A trama sinistra consistia no emprego de duas tábuas, uma faca de cozinha e quatro tijolos. Embora rudimentar, colocamos nas mãos negras da noite o primeiro instrumento do nosso laboratório científico, registrando no caderno as particularidades de todo o mecanismo macabro, versículo por versículo…

Antes, porém, de realizarmos o sacrifício do bondoso animal, sentimos a necessidade de testar a engenhoca. Paulo Planeta, girando o eixo da cabeçorra sobre a órbita alheia, atravessou a rua, invadiu o pomar de dona Helena, a parteira da redondeza, e, à maneira dos elefantes, desferiu no caule do mamoeiro uma poderosa cabeçada. Uma chuva de mamão verde vitaminou-lhe ainda mais o cérebro. Com a mão no mamão, ele me explicava que a consistência de tal fruto serviria para por à prova nossa invenção. Então, depois de alguns ajustes milimétricos, puxamos a trava, a guilhotina desceu e… voilà! Era tudo ma-mão! Diante das duas metades, nosso sucesso Exultava. Brindamos com Nescau e bolacha as poucas horas que restavam ao Versículo e, motivados por Robespierre, estabeleceríamos o terror no morro! Estávamos aptos a instituir mais um grande massacre de gatos na história! Eba!!!

Temendo as garras afiadas do prisioneiro, desensacamos-lhe apenas a cabeça. E para que a lâmina decepasse com maior facilidade o pescoço da vítima, proporcionamos ao gato o milagre dos peixes, colocando à sua frente uma saborosa sardinha. Antes, porém, da última refeição do discípulo carinhoso de Padre Miguel, oramos com sinceridade e respeito: “Você foi toda a felicidade/ Você foi a maldade que só me fez bem/ Você foi o melhor dos meus planos…” Faltou-nos, todavia, a frieza dos carrascos para assistirmos a cena horrível da decapitação. Era muito provável que na primeira gota de sangue desmaiássemos, numa dor lancinante de culpa e arrependimento. Por isso, no exato instante em que a guilhotina desceu, impiedosa e decidida, fechamos os olhos, mas não podemos evitar de ouvir o baque da morte… Quando a coragem voltou, abrimos as pálpebras lentamente e… voilà! Era tudo sar- dinha!!! O gato, num miado desabalado, havia sumido com saco e tudo!

Decepcionados, mas completamente aliviados, começamos a culpar um ao outro pelo fracasso da experiência. Paulo Planeta me culpava, dizendo que eu não havia segurado o saco com força, que eu era um pamonha, um frouxo. Eu o acusava de abestalhado, porque o gato nem havia se aproximado da sardinha e ele foi destravando a guilhotina precipitadamente. “Você tem problemas de coordenação motora?!”, ele me perguntava zombeteiro. “E por que você não esmagou o gato com a sua cabecinha?!”, eu o provocava. O fato é que de tanto afirmarmos que o problema era do outro, voltamos para casa sorrindo mais que Felício, o dócil sorriso esfíngico, cantando a plenos pulmões mais um sucesso do rei: “Olha você tem todas as coisas/ que um dia eu sonhei pra mim/ A cabeça cheia de problemas/ não importa, eu gosto mesmo assim…” Repetíamos esses versos girando o dedo indicador ao lado do ouvido, gesto que até hoje significa que os miolos enrolaram, o cérebro enroscou e o sujeito está muito confuso ou louco mesmo.

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Papel crepom e celofane – Charles Silva

Por Charles Silva, 13 de fevereiro de 2010 16:27

se a vida fosse só de poesia
bastava alterar um verso
antes do meio-dia

se tudo fosse dado a previsão
bastava alterar o curso
desviar o coração

mas acontece que a lida
sempre foi imprevisível
nem toda bala perdida
abala a fé do cupido

a passista no carnaval
amarra o sonho no arame
oi abre alas pro real
papel crepom e celofane

por isso toda avenida
meu amor
convida o povo
seja lá para o que for

por isso eu vou no samba enredo
meu amor
sou da folia
hoje o sol não vai se opor!

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Consulta – Charles Silva

Por Charles Silva, 10 de fevereiro de 2010 18:11

ela perguntou o quanto sei de mim
eu disse: “sim, aceito bem a solidão”
meu coração tem sopro… falta um tamborim
mas o diploma diz: “neurocirurgião”

desconfiei da louca, deu aquele branco
quand’eu pego no tranco, vou contra a maré
pensei em dar no pé, dei um sorriso franco
e quis pagar pra ver, sabe como é que é?

da sua jardineira fiz um bem-me-quer
entrei na paranóia de me declarar:
“eu vou cobrir de jóia toda essa mulher!”
um padre e uma aliança, quero me casar!

ela se despiu: “relaxa, que eu encaro…”
eu fui perdendo o faro e mordi a raiz
arrisquei um caminho, ela disse: “é raro!”
eu fiquei me sentindo um cara mais feliz

depois da alegria, vestiu sua burca
será que é muçulmana essa loira maluca?!
azeitei o quadril pra ver se ela bifurca
o sexo e o talento por dentro da cuca

mais tarde, à vontade, com o analista,
dei pistas do episódio antes da consulta
assusta um manequim assim tão realista!
à vista, atrapalha, a prazo, dificulta…

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Roberto, o rei, e a criança sem lei – III – Charles Silva

Por Charles Silva, 7 de fevereiro de 2010 7:28

Roberto_I

Quando fiz oito anos, mamãe decidiu que eu deveria ir para a catequese. Aquilo soou como um sino gigante dentro de mim. Agora, toda hora cheia se esvaziava diante do padre. E quando soube sua idade, passei a suspeitar que ele fora guru espiritual dos primeiros terroristas do universo, os irmãos Big & Bang.

Padre Miguel acreditava falar várias línguas, embora estivesse longe de ser poliglota. A ilusão consistia apenas em aplicar um sotaque estrangeiro sobre a língua portuguesa. Tal habilidade resultava num fenômeno curioso aos olhos e ouvidos das crianças no início da catequização. Quando o padre “falava italiano”, por exemplo, em vez de acontecer a troca do idioma e a permanência do padre, acontecia, na verdade, um grande milagre: a permanência da velha língua portuguesa e a aparição de um novo padre, mas com sotaque estrangeiro. Dessa maneira, Padre Miguel se transformava num italiano alegre e falante, gesticulando em romano césares e cristos do mundo inteiro!

Meu amigo “global”, Paulo Planeta, cujo QI transformara-se em IP, foi catequizado comigo. Ele cometeu o sacrilégio de decorar os Dez Mandamentos em nove línguas, e aprendeu a rezar em latim não apenas as orações conhecidas, mas toda a missa! Quanto a mim, ao final da catequese, mal sabia balbuciar a primeira parte do Pai Nosso. Achava que reza deveria ser uma comunicação direta com Deus, só não sabia qual sotaque empregar. Indeciso e ardendo de vergonha, tendo o padre a minha frente, e ouvindo atrás de mim a turma sufocar o riso, eu me engasgava logo no início da oração: “Pai nosso que estou no céu, santificato (o padre franzia o cenho, pedindo para eu rezar em português mesmo)… santo fincado (ele fazia: hum-hum)… santo focado (o padre dizia: concentra!)… São Sufocado?! E ele interrompia impaciente: “No, no, no! Di inizio, pelo amor de Dio!” Nervoso, com a voz cada vez mais baixa e com o rosto coberto por um suor gelado, eu não fazia mais ideia do que estava rezando. Psicologicamente abalado, o recomeço era ainda mais trágico: “Dionísio que estais no céu, tão sufocado que está aqui”… E outra vez eu ouvia: “No, no, no! Di inizio, estúpido!”

Só consegui concluir a catequese graças à engenhosidade de Paulo Planeta, que sugeriu ao missionário formar um coral. Assim, na formatura, meu amigo fez parte do grupo das crianças que rezavam, enquanto eu fui para o pequeno chorus. Nasceria ali o Coral da Mocidade Independente de Padre Miguel, se o carnavalesco da época, Arlindo Rodrigues, com o enredo “A festa do Divino”, não tivesse tirado nota quatro em fantasia. A escola ficou em quinto lugar no carnaval, e durante meses não se falou mais de música lá no morro, nem de coral. E ai de quem mencionasse a palavra “fantasia”!

O problema era que o coral só cantava duas músicas, as únicas orações que aprendi. Em casa, eu era o responsável pela abertura das novenas que mamãe organizava. Com um discreto sinal de cabeça, mamãe ordenava que seu garnisé estridente se empoleirasse no encosto do sofá para anunciar o início das rezas: “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!” Vamos lá, todo mundo cantando bem alto, quero ouvir! “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!” Agora só as meninas, levantando as mãos pro céu! “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!” Quem gosta de carnaval canta comigo! “Jeeesus Cristo! Jeeesus Cristo!! Jeeesus Cristo?! Eu estou aqui!!!”

Era um sucesso estrondoso! As pessoas se empolgavam e eu me depenava por inteiro, engrossando as veias do pescoço numa explosão de glória e fé! A música terminava com uma revoada de palmas, como se o Espírito Santo batesse as brancas asas sobre os fiéis emocionados que ali se reuniam. A novena se desenrolava numa infinidade de Pai-nossos, Ave-marias e alguns avestruzes dos quais nunca supus que se prestassem a rezas.

Por morarmos na baixada, as pessoas tinham por costume dizer que “desciam à novena” sempre que se dirigiam até à nossa casa. Ora, como a grande maioria das religiosas morava no alto do morro, a música mais propícia para terminar a reza era outro sucesso de Roberto Carlos: “Eu vou seguir/ uma luz lá no alto/ eu vou ouvir/ uma voz que me chama/ eu vou subir/ a montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar!/ Mais uma vez/ obrigado senhor…”

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O tempo do artista – Charles Silva

Por Charles Silva, 5 de fevereiro de 2010 19:31

Contrariando o pensamento de muita gente, o tempo da História não é apenas o passado, mas também o presente. Historiadores partem com frequência de “problemas” atuais em direção ao passado, seguindo pequenas pistas que resistiram a toda sorte de intempéries. Assim, ao se eleger “família” como o problema a ser estudado, parte-se das várias formas de organização social existentes no “agora” em direção às famílias que existiram no “antes”. Tal comparação, “agora/antes”, é bom que se diga, é a varinha de condão da História, como ensina Eric Hobsbawm.

Por outro lado, a Futurologia vai adiante, numa especulação minuciosa, cujo objetivo é bastante pretensioso: a previsão do futuro. Trata-se de prever o futuro a partir do presente, não de artes divinatórias ou de crendices. Futurólogos não jogam búzios nem carta de tarô. Não consultam oráculos nem mostram o texto de suas mãos a ciganas. Nada disso! São cientistas que trabalham com uma margem muito boa de segurança sobre, por exemplo, a evolução tecnológica. Tal segurança deve-se ao fato de se tratar de uma ciência que leva as tendências do presente em consideração.

Temos, então, que historiadores e futurólogos trabalham nas extremidades da corda invisível do tempo. Isso não quer dizer que não dialoguem. Ao contrário, encontram-se com muita frequência no ponto equidistante entre suas incertezas: o presente. É nesse tempo que buscam inspiração e trocam informações acerca das luzes que costumam lançar sobre o rio azeviche de seus ofícios.

Não é difícil observar que, excetuando-se um par de íris aqui, outro acolá, a maioria dos olhos está focada no presente. Com ou sem óculos a sociedade vê e vive o presente. Ele é, por assim dizer, o príncipe dos tempos. É no seu imenso principado que tudo se realiza. Da oficina das dores às fábricas das mais extravagantes alegrias, nele tudo é consertado, tudo é produzido. Mais claro que o sol sobre a linha do equador, o presente evidencia a existência. Evidenciará também o artista?

Depois de retirar o pijama onírico de seda chinesa ou de algodão com bolinha, enfeitar de café a asa dos pulmões, dançar com o mamão a música do mel das manhãs, quando abre o portão e ganha as ruas, com que tempo se veste o artista? Calçou o passado? Vestirá o futuro? Quem sabe só agora, no gerúndio das horas, ele esteja se trocando?…

É claro que todos nós, artistas e não – artistas, cada um a seu modo, circulamos livremente pela ordenança de nossos imperativos, pela realidade de nossos indicativos e pela possibilidade de nossos subjuntivos. Sabemos que o tempo não existe de per si. A filosofia nos ensina que o tempo é uma admirável invenção. Contudo, se a língua é o tecido estampado com que vestimos nossos pensamentos, a escolha dos verbos é o estilo consagrado de nossa distinção. E mais: é a nossa conjugação no mundo!

Júlio Verne optou por um futuro brilhante, prata e fogo sugerindo velocidade. Ernest Hemingway tinha predileção pelo presente tanto quanto Sebastião Salgado. O filólogo alemão Werner Jaeger, autor de “Paideia”, viu no passado um elegante “quíton”, túnica de linho com a qual percorria as ruas da polis, calçando quase sempre as sandálias aladas roubadas de Hermes. À sua maneira, Jaeger foi um pesquisador cuja arte consistia em interpretar minuciosamente, à luz da ciência, a Grécia antiga.

A julgar pela indumentária desses senhores, o artista, também ele um pesquisador, aparenta ter um guarda-roupa eclético. Abramos, por um momento, seu misterioso closet… Uau! Que bagunça! Vestidos de cambraia, saias drapejadas, slack, terno de linho, ceroulas, meias, calcinhas, sutiãs, gravatas, tamancos, botas, corpete, capacete, escudo, espada, sandálias, cachecol, chapéus, jóias e bijuterias! A função de cada objeto é esculpir o tempo do artista, formando em cada combinação diferente momentos de calçar e vestir novas realidades.

O artista veste muitos tempos, o que não implica necessariamente confusão ou disfarce. Ele precisa experimentar o novo, testar novas possibilidades de ser e estar no mundo.  Quando o dia está amarrotado, ele “passa o tempo” que melhor satisfaça sua criatividade. Passa a ferro e água até que se estique diante de si a criação. Quando quer desenhar um futuro feliz para um passado triste, lança mão do futuro do pretérito. Esse tempo é muito estimulante à imaginação e oferece ao artista poderes divinos, como o de ressuscitar Shakespeare, lutar ao lado do rei Artur ou combater piratas no Atlântico Sul. Se tomássemos o futuro do pretérito por uma seda azul, costuraríamos o futuro por dentro do passado sempre que quiséssemos azulejar o sorriso de quem chorou. Além disso, não há melhor tempo para se pôr em curso ações irreais. De que outra forma manifestaríamos toda nossa polidez e elegância se não nos fosse permitido fazer uso das etiquetas do futuro do pretérito? De que maneira poderíamos, num ambiente onde não pudéssemos dizer tudo o que pensamos, espetar as farpas da nossa mais fina ironia em nossos desafetos?

Se tivéssemos assumido o futuro do pretérito como a fantasia de nossas vidas, na certa já teríamos reinventado nossos carnavais, aprimorando em tal tempo nossa arte. Recriar o futuro para um passado é, sem dúvida, uma postura criativa. Acontece que apenas a criação não justifica a vida. O que se pode fazer se apenas o presente é capaz de conjugar os secos e os molhados do amor? Sem o presente, seria impossível sorver o amor pelos cinco sentidos. Acreditaríamos num amor sem cheiro, gosto e calor? Amaríamos alguém que nos fosse invisível e silencioso? Decerto que não.

O coração é o estranho de cada um, quando ele se aproxima e quando ele vai embora. Por isso o chamam “selvagem”. Contudo, esse órgão agreste costuma ser gentil quando a concordância dos sentidos supera a discordância verbal. Pulsando devagar, os conflitos se dissipam e a paz se estabelece. Enamorados, os estranhos se apresentam e passam a bater juntos as palmas da intimidade.

O atelier da arte, por mais cigano que seja, está sempre dentro da vida, no presente. Mesmo que se gaste uma vida flanando pelos sóis poentes ou tateando céus que não amanheceram, apenas o amor pode situar o artista no tempo. É através do amor que se existe. E é este o tempo do artista.

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Game over – Charles Silva

Por Charles Silva, 4 de fevereiro de 2010 18:44

no traço elegante do arranha-céu
na moça da sombrinha
na poça que sustenta o barco de papel
no trem que faz a linha

no fim do mundo deslumbrante de ushuaia
no vento e na neblina
no azul profundo e flutuante do himalaia
na casa da esquina

eu sinto a força atrás de cada forma
eu vejo as digitais da mão que adorna
e torço para o mundo não perder a cor

em cada pôr-do-sol vai minha aposta
eu vibro com a lua na encosta
eu gosto da estrela e de supor

quem sabe você goze
com essas mensagens pra dois mil e doze
o medo e sua osmose
o mito e sua pose

eu disco para o disco voador
pergunto o que houve
imploro por favor

se tudo por aqui der game over
meu amor
voamos pra vancouver
num condor

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