Se todos fossem iguais… – Paulo Afonso
Imagine um mundo sem fronteiras, onde todos vivam felizes, como irmãos. Com esse sonho viveu John Lennon e milhões de pessoas, anônimas na maioria.
Com esse mesmo sonho, outras tantas vivem em prisões, em pleno terceiro milênio, pagando pelo crime de pensar diferente e desejar um mundo melhor.
Há dez anos vivemos em um novo século, em um novo milênio, na tão esperada Era de Aquário. Mas as coisas não mudaram. Antes de melhorar o planeta é preciso acabar com o lixo, que está em toda parte. Esse lixo, que estava escondido, começa a aparecer, na medida em que a faxina começa. E os vermes, baratas e ratos enlouquecem, pois não gostam de ambientes limpos. Vivem na imundície, na podridão.
Nós, humanos, habitantes desse pequeno planeta perdido no Universo, temos uma casa perfeita, em ambiente de luxo, onde tudo foi preparado para nos fazer feliz. Mas vivemos em constante luta, como acontece no Big Brother, onde uma dúzia de escolhidos poderia viver, por três meses, num verdadeiro paraíso, mas não fazem nada além de se devorar pelo dinheiro. Tal lá, como cá.
No nosso planeta ainda há fronteiras. Algumas delas abrigam países governados com mão de ferro por ditadores, eternos no poder, onde as prisões acolhem aqueles que pensam diferente dos governantes e acreditam que o mundo pode, e deve, crescer e evoluir em liberdade. Seu povo, atrasado, tristonho e oprimido, não experimenta as facilidades do mundo moderno. Parou no tempo, na época em que a ditadura começou. Não há democracia e o poder é transferido aos parentes próximos. Os que governam são os donos do país, tendo o povo como escravos. E quem desobedece passa 30 anos na cadeia, se conseguir sobreviver.
Há muitas nações nessas condições, mas todos já sabem que falo de Cuba, o centro das atenções dos noticiários atuais. As prisões estão cheias de condenados, cujo crime foi discordar do governo e pensar. Pensar! Essa é a diferença. É proibido pensar em Cuba. Pensar? Só para concordar!
O Brasil, que tem procurado impor-se ao mundo, rompendo fronteiras e se fazendo presente em outros países, poderia ter aproveitado a oportunidade de mostrar seu apreço pela liberdade. Por uma feliz coincidência, estávamos em Cuba quando aconteceu a primeira morte de um preso, em greve de fome. O que fez o nosso presidente? Condenou o prisioneiro Zapata por haver praticado tamanha tolice. Não caberia ao Brasil se intrometer em problemas internos de Cuba, mas o mesmo não se aplicou a Honduras, onde até a casa da Embaixada foi cedida ao ex-presidente Zelaya, deposto ao tentar dar o golpe da perpetuação no poder.
Nossos atuais governantes sabem, ou deveriam saber, o que é ter idéias diferentes dos ditadores e lutar pela liberdade. Afinal, o sucesso de todos eles nasceu no combate ao regime militar. Essa luta rendeu dividendos políticos e, até mesmo, ou principalmente, indenizações milionárias, muitas até sem merecimento. Há casos de guerrilheiros que, hoje recebendo indenizações, mataram ou mutilaram inocentes, que sobrevivem na miséria, sem qualquer ajuda do Estado.
Enfim, este é o mundo dos humanos, onde a escravidão não acabou e está mais viva do que nunca. Somos escravos do dinheiro, dos impostos, do que fazemos e, principalmente, do que pensamos. Um planeta onde o maior crime é ter idéias. Muitos já morreram por elas e continuarão morrendo.
Este artigo poderá desagradar a muitos. Pensei até em não escrevê-lo para evitar aborrecimentos. Se me calasse, seria menos uma voz na luta contra governos tiranos. Estaria contribuindo para a perpetuação da escravidão humana. Chegou a hora de protestarmos contra isso e condenarmos aqueles que apóiam esses ditadores.
Ou o Brasil toma, perante o mundo, uma posição que coincida com os anseios de liberdade de seu povo, ou estará sendo conivente com o que de pior ainda sobrevive no planeta. Saiamos de perto do lixo. Se ainda for possível.














