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Carta a Papai Noel – J. Carino

Por Carino, 19 de dezembro de 2009 13:12

Prezado Papai Noel:

Sou uma alma carioca. E, como todo mundo – crianças e adultos – desejo fazer ao senhor meus pedidos de presentes. Por isto, lhe mando esta cartinha.

Como alma carioca, sou alegre, e faço do bom-humor a da descontração meu modo de viver. Onde está a alegria de minha cidade, Papai Noel? Gostaria de tê-la de volta, garantindo aquele clima de eterna satisfação que tínhamos aqui e que contagiava todos os que vinham visitar a Cidade Maravilhosa.

Faz parte da alma carioca, Papai Noel, a beleza estonteante da nossa cidade, considerada quase com unanimidade a mais linda do mundo. Nossos verdes estão cedendo lugar ao cinza desumano da voracidade imposta pela especulação imobiliária, que aterra as lagoas, que devasta a vegetação, que derruba árvores centenárias. Espigões horrorosos, painéis e placas de péssimo gosto enfeiam nossa paisagem e dificultam nossa visão da maravilha que é o encontro de céu, mar e montanha. Além, disso, meu caro e bom velhinho, as construções irregulares – motivadas quase sempre pela necessidade dos pobres a quem não resta alternativa senão a construção de barracos encarapitados nos morros – se espalham de forma alarmante, ampliando o eterno problema das favelas.

Ah, Papai Noel, o senhor sabe que não há coisa melhor do que curtir nossas praias, que nos oferecem a combinação irresistível de mar, areia, sol e mulheres e homens bonitos. Elas sempre nos proporcionaram o lazer mais democrático oferecido em quilômetros e quilômetros de um palco dourado pelo sol e beijado pelas ondas. A poluição das águas e o inferno da violência deixam qualquer alma carioca sobressaltada onde antes só havia a cervejinha, o vôlei, o surfe, o bronzeado e a “azaração”.

Como toda alma carioca, Papai Noel, sou um amante da liberdade, inclusive da liberdade de ir e vir. Mas como ir e vir, bom velhinho, num trânsito caótico como esse, onde milhares de automóveis tomam de assalto até as calçadas e praças? Antigamente, as idas para o trabalho e a volta para casa eram um grande passeio, desde os tempos do bonde. Mover-se pela cidade era ver milhares de cartões postais com paisagens e construções que nos permitiam esquecer os deveres e as preocupações. Hoje, isso significa a condenação ao engarrafamento, além do medo dos assaltos, que faz de cada carro uma prisão que se move, com gente amedrontada dentro, olhando a cidade através das películas escuras de proteção. Isto sem pensar na afronta dos “flanelinhas”, que contribuem para que os cariocas renunciem ao antigo prazer de sair de casa, conjugado em nossa Cidade Maravilhosa por um amor imenso pelas atividades culturais.

Nossas esquinas e praças, Papai Noel, sempre foram lugares de lazer e gentileza. Nos dias que correm, são vitrines para exibição da pobreza mais lamentável. Impossível passar por elas sem que a alma carioca se entristeça, sobretudo com a visão de crianças e velhos que tentam a sobrevivência como pedintes, muitas vezes agora disfarçada de malabarismo, ou expressa na forma mais ostensiva dos que penduram balas nos espelhos retrovisores ou limpam pára-brisas à força.

Sou uma alma carioca que tem medo de ficar doente, caro e saudável bom velhinho. Antes, nossos hospitais, especialmente os públicos, eram referência de bom atendimento. Agora, entupidos de pacientes, com profissionais mal pagos – que não obstante fazem das tripas coração para salvar vidas -, com equipamentos obsoletos e sucateados, com falta de material e tudo o mais, nossos hospitais são tristes exemplos de como se pode sofrer mais do que o necessário e com menos esperança.

Ah, meu caro Papai Noel, é tanta coisa para pedir que esta carta ficaria imensa, além de amarga. Mais emprego, segurança, limpeza, atenção para com os portadores de deficiências, mais e melhores escolas públicas, mais praças, a volta dos bons cinemas de bairros, o retorno do carnaval de rua, autêntico e espontâneo… Tudo isto e muito mais, meu bom velhinho.

Mas não pense que esta alma carioca vai cair na depressão, na revolta ou virar uma alma penada que choraminga. Não. De jeito nenhum. Apesar das mentiras, das promessas vãs e das roubalheiras dos políticos, ainda estamos na melhor cidade do mundo. Apesar de tudo, o sol brilha aqui como em nenhum lugar; o pôr-do-sol tem uma vermelhidão incomparável; as cervejinhas e o chope continuam estupidamente gelados; as mulheres de corpo dourado e curvas inigualáveis e os jovens esculpidos pela malhação continuam fazendo de nossa cidade o lugar da gente mais bonita do mundo.

Apesar de tudo, a alma carioca continua alegre; o samba continua agitando os fundos de quintais; shoppings e ruas de comércio continuam como passarelas em que vale a pena desfilar; o Maracanã permanece como um templo inigualável do futebol.

Por favor, Papai Noel, quero isso tudo de volta. Sei que é difícil, mas tente atender estes meus pedidos. E quando sobrevoar nossa cidade em seu trenó de sonho, puxado pelas renas da esperança veja se eu não tenho razão de me orgulhar de ser, para sempre, uma alma carioca.

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O barquinho vai… – J. Carino

Por Carino, 28 de novembro de 2009 17:50

                                                                                    Barquinho

Sereno, o barquinho singra as águas azuis da Baía de Guanabara, onde a brisa é cálida, o sol mais brilhante; onde o paraíso bíblico parece ter sido reeditado em seu aspecto natural – pelo menos antes da queda do homem, com sua poluição que conspurca, sua violência que mata, sua miséria que assusta e envergonha.

O barquinho de minh’alma vai. Navega por um Rio encantador. Das boates, onde a gente enfumaçava os pulmões depois de oxigená-los nas praias; onde se ouvia Dolores, Dick, Leny, Angela, Elizeth, Miltinho – sons bem-vindos pras dores de cotovelo… Do Beco das Garrafas, onde tudo começou e não se sabia que ia chegar tão longe, com a bossa-nova ganhando mundo até chegar a Tom com Sinatra.

O barquinho vai. E passa ao longo das praias, onde as garotas de Ipanema de agora relembram a de outrora – moças de corpo dourado que nos fazem buscar a libido antiga, também lembrando a sensualidade de uma Leila Diniz, de todas as mulheres do mundo.

O barquinho de nossa imaginação vai. E ancoramos, para andar pelas ruas e praças do Rio amado. Entrando pela Praça Mauá, o edifício de A Noite nos atrai. Lá está, na lembrança, a glória da Rádio Nacional, com seus programas de auditório – César de Alencar, Manoel Barcelos, Paulo Gracindo –, a fabricada rivalidade entre as rainhas do rádio, Emilinha e Marlene. Com as novelas, que levavam Brasil a dentro os suspiros e os beijos feitos pelos sonoplastas para “mocinhas” como Dayse Lúcidi e galãs como Roberto Faissal, rádio-atrizes e rádio-atores, perfeitos sempre, porque completados com a imaginação onde só se tinha a voz.

A Presidente Vargas se abre a nossa passagem, porque ainda ecoam em nossos ouvidos os desfiles que ali havia antes do Sambódromo, quando os sambas-enredo ainda não eram marchas…

A Rio Branco deste nosso passeio imaginário ainda tem árvores e prédios centenários, que cederão seu espaço para espigões modernosos.

E lá vem o bonde apinhado. Viajando no estribo, com os lotações passando rente, podemos saltar no Largo de São Francisco, diante da antiga Politécnica. Ou podemos ir até ao Tabuleiro da Baiana, bem pertinho da Galeria Cruzeiro, onde Noel, Chico Alves, Aracy de Almeida, Pixinguinha, Silvio Caldas, Ary Barroso, Lamartine Babo e tantos outros tecem a rede de belas canções que ficarão para sempre em nossos ouvidos por gerações e gerações.

Num passeio mágico é assim: podemos voltar ao nosso barquinho, que vai… vai… e chega a Copacabana, ainda Princesinha do Mar, onde o luxo do Copacabana Palace recebe beldades como Ava Gardner, que caem nos braços de charmosos play-boys, como Jorginho Guinle.

Podemos saltar na Urca, onde o Cassino fervilha. Até Carmem Miranda está ali, com seus balangandãs e o Bando da Lua, antes de se tornar uma pequena notável universal…

Num salto no tempo e no espaço, podemos fazer uma pausa para uma cerveja na Taberna da Glória ou para um bife no Lamas.

O barquinho vai… E chegamos a Ipanema de sol, mar, charme do Rio, que ainda não é a “Ipaniimaa” dos turistas encantados.

Ah, quando a tarde cai, é hora de um chope num bar do Leblon, talvez o bairro mais cosmopolita e intectualizado do Brasil.

Em muitos lugares deste nosso passeio podemos olhar para cima e ver as favelas – pobreza de barracos iluminados pelo sol nas encostas – que então eram apenas o berço de maravilhosos sambas-de-raiz.

O barquinho vai… vai… vai… Há muito que passear pelo Rio, fazendo viver e reviver esta nossa eterna alma carioca.

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Da benção à “Bruxaria” – J. Carino

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Por Carino, 17 de novembro de 2009 0:10

A manhã ainda não dissolveu a bruma na copa das árvores; espera o brilho e o calor do sol para isso. O bairro acorda devagar, modorrento. E eu me encanto com esta calma; respiro a plenos pulmões este ar de serras e florestas. Estou no Cosme Velho, mas sinto-me também em outro lugar, que é o mesmo de um passado aristocrático ainda impregnado nos casarões.

O Largo do Boticário – esse bibelô arquitetônico sem igual – atrai minha visão saudosista. Enquanto o bairro desperta para gente, carros, ruídos, mergulho em devaneios que tentam decifrar a alma deste lugar singular.

Inevitavelmente, o olhar se ergue e lá está: o Cristo Redentor reina imponente sobre o bairro, sobre a cidade.

Porém, aqui, estão absolutamente próximos esses eflúvios, como se bênçãos descessem do céu como a bruma desce do contraforte da serra.

Ladeiras, muitas: do Ascurra, do Cerro Corá, dos Guararapes. Desenhadas caprichosa e tortuosamente pelas encostas, como muitas ruas, permitem tanto descer quanto subir, numa metáfora da vida apresentada na geografia singular desse bairro tão especial.

A Estrada de Ferro do Corcovado lança seu apelo irresistível, e lá vou eu em meio a turistas boquiabertos, cujas indefectíveis máquinas e filmadoras vão registrando a exuberância de um verde aqui, um ângulo belíssimo do Cristo acolá. Um miquinho assustado vira atração enquanto foge para seu sossego encarapitado na árvore imponente de folhas verde-musgo, uma entre muitas que ainda formam esse cinturão verdejante que resiste bravamente às agressões do bicho-homem, ser incomparável quando se trata de substituir a brisa fresca pelo ar pesado e poluído ou a exuberância do verde pelo triste cinza do concreto.

Dia bonito. Gente demais aos pés do Cristo. Retempero-me olhando minha querida cidade, como faço de vez em quando subindo a este mirante privilegiado, e desço logo, deixando para trás o vozerio de Babel, as poses e as exclamações óbvias dos turistas estrangeiros ou mesmo de brasileiros justificadamente encantados.

Vou descendo e chego à praça que se chama São Judas Tadeu. Mais abaixo, em sua igreja, esse santo trabalha aos pés do Cristo, como se houvesse escolhido essa posição reverencial ao Pai maior.

O bairro já se movimenta em sua dinâmica cotidiana – lugar moderno, bem servido de tudo, bom para morar – porém guardando uma atmosfera de calma e serenidade, sentida nas ruas arborizadas, em muitos prédios pequenos e antigos, que guardam um Rio que combinava o cosmopolitismo do centro com o provincianismo de muitos de seus bairros.

Estou na Rua Cosme Velho. Ando próximo ao antigo número 18. Silêncio, agora. As musas e todos os anjos inspiradores vagam por estas ruas, como a guardar um santuário imaginário: o lugar onde morou Machado de Assis.

O menino mulato, pobre, doentio cumpriu uma trajetória inigualável desde o Morro do Livramento até este lugar, onde, num palacete assobradado, terminou seus dias em glória, mercê de seu talento imenso, até hoje incontestado.

Bentinho, talvez roído em ciúmes ainda anda por aqui; Capitu desfila sua exuberante beleza instigando nossa imaginação; Quincas Borba, Brás Cubas e tantos outros personagens caminham por tramas bem urdidas pelo bruxo – o “Bruxo do Cosme Velho”.

As palavras e frases genialmente encadeadas; as cenas magistralmente construídas; as situações de vida, muitas delas mantendo sua atualidade, nos rondam e acompanham nesse passeio pelo Cosme Velho, bairro que acolheu o gênio, que parece nos olhar de algum lugar – uma janela de casa antiga, uma porta entreaberta, um muro parcialmente coberto pela generosa folhagem -, fazendo seu olhar penetrante, por detrás do pince nez, penetrar até o fundo de nossa alma, desvendando-a por inteiro.

Perto, muito perto, a doce Carolina, sua amantíssima esposa, ainda vela por seu amado, cercando-o dos cuidados do amor de uma vida inteira.

Cosme Velho: um bairro abençoado e inspirador, recanto admirável em nosso inigualável Rio de Janeiro.

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Passarela da vida – J. Carino

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Por Carino, 16 de novembro de 2009 0:14

Madureira repinica de vida como bate um coração no samba.

Menino, eu chegava a Madureira de bonde, e sempre me encantava com esse bairro pleno de vida: olhando de cima, do velho viaduto, observava as ruas fervilhantes de gente, o que sempre deu ao bairro lugar de destaque como um dos melhores no comércio do Rio. Todo mundo dizia, tendo certeza: “Para comprar, vá a Madureira. Lá tem tudo. E é mais barato”.

Mas não somente por isso Madureira sempre foi singular, diferente. Culturalmente, o bairro também marcou presença. Basta lembrar que o teatro, quando resolveu abandonar um falso elitismo Zona Sul, foi parar em Madureira, corajosa e pioneiramente. A responsável foi a grande estrela Zaquia Jorge, artista sensível, que percebeu que a verdadeira arte atravessa, necessariamente, as fronteiras de classe; repudia rótulos e rechaça “donos”; desde que oferecida com dedicação e qualidade, ultrapassa intelectos e penetra diretamente nos corações.

Zaquia viu isso e levou a arte a Madureira. E Madureira correspondeu, recebendo seu teatro de braços abertos. Com isso, mostrou-se um bairro especialíssimo, capaz de situar-se na fronteira entre o popular e o erudito, entre o “chique” e o popular e aparentemente simples e modesto.

A estrela Zaquia, oculta por detrás de seu corpo escultural de vedete, mostrou a arte temerária, que defronta preconceitos: nos anos 50, era preciso muita coragem para expor-se em biquinis – sumários para a época, situação hoje risível – mantendo sua dignidade de mulher. Coragem de quem ousou até ser empresária, dona de seu próprio Teatro de Revista, ignorando dificuldades e “machões”.

A grande vedete só não conseguiu vencer o mar encapelado da Barra da Tijuca, numa segunda-feira fatídica, em abril de 1957…

Foi-se a estrela, imortalizada em vários sucessos de carnaval e num antológico samba-enredo da Escola de Samba Império Serrano, em 1975. E Madureira chorou. Coisa do grande coração que tem Madureira.

Madureira é assim. Amor, atividade intensa, vida vivida com orgulho suburbano, lugar de morada da altiva nobreza popular.

Madureira é samba, claro. A Serrinha paira altaneira sobre o bairro, dando o tom e completando o compasso. Num ritmo frenético, Madureira moderniza-se sem perder sua singular carioquice.

Muito lembrada no Carnaval, essa verdadeira cidade-bairro é o orgulho de quem mora por lá. Madureira continua, cada vez mais, tendo tudo: bom comércio, bons colégios e faculdades; clubes de primeira; shoppings – os novos templos do consumo – e ruas com casas antigas, de onde ainda se pode lançar um olhar nostálgico e imaginar o velho bonde rangendo nos trilhos que cruzavam as ruas do bairro.

Quando o sol se põe e o trem suburbano chega trazendo de volta do trabalho o povo operoso e digno de Madureira, o bairro magicamente transforma gente comum em artistas da grande passarela da vida.

Madureira: orgulho de um Rio cheio de beleza, ritmo, som e amizade.

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Samba e feitiço – J. Carino

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Por Carino, 15 de novembro de 2009 0:10

Talvez mais do que olhada, Vila Isabel é para ser escutada. Basta apurar os ouvidos da alma, afinando a sensibilidade, e fazer do corpo unido ao espírito um receptor de beleza. Pronto. De repente, bordões se fazem ouvir na noite calma; violões derramam sonoridades pelas ruas tranqüilas; melodias invadem as vilas antigas, de casas geminadas, onde ainda se põem cadeiras do lado de fora, como se fazia em todo o Rio antigamente.

Nesses momentos de pura magia, é possível ouvir música brasileira pura, profunda e bela em sua aparente singeleza. Pode-se ver com os olhos do espírito o bar, o garçom, a mesa pequena e redonda, com tampo de mármore e pés de ferro formando desenhos rebuscados.

O som vai ficando mais próximo, reverberando dentro do peito. Entre cordas dedilhadas de pinhos plangentes, pede-se outra cerveja – mais uma que é posta, geladinha, sobre a mesa entre tantas garrafas já esvaziadas com prazer.

De repente, uma voz um tanto fina porém sentimentalíssima se destaca: é ele mesmo, Noel, que encadeia versos da mais linda poesia envoltos em harmonias sedutoras e formando melodias geniais.

Vila Isabel pára e ouve. Vila Isabel é a própria alma musical do Rio. Pelas calçadas do Boulevard, o coração passeia embalado pelos sons; dores de amor magoado se misturam com a irreverência bem carioca ante as desgraças da vida. A Escola de Samba Vila Isabel é uma universidade, nesse mundo cultural do verdadeiro samba, que se mostra tanto no sorriso branquinho contra a pele negra do velho sambista, com pés ainda muito ágeis para a cadência, quanto no requebrado ondulante e sensual das mulatas-meninas, garantindo o futuro radioso da malemolência.

Indo até a praça, lembramos o Barão de Drummond, esse nobre meio louco e muito criativo que inventou o mais brasileiro dos jogos: o jogo do bicho. O lugar do antigo zoológico ainda está lá, como a testemunhar um tempo em que a fezinha inocente fazia parte da rotina de quase todas as famílias.

Teodoro da Silva, Souza Franco, Felipe Camarão, Jorge Rudge, Pereira Nunes, nomes de gente há muito ida e vivida, imortalizada em muitas ruas da Vila. Ruas que parecem afluentes a trazer para a 28 de Setembro um cotidiano gostoso e singular vivenciado pelos filhos do bairro e por outros vila isabelenses que adotaram o bairro com paixão eterna.

Com atenção e os ouvidos da alma sensível, ainda é possível escutar o ruído do velho bonde cruzando as ruas do bairro querido.

A velha Vila se moderniza e aceita o sacrifício de ceder terrenos e derrubar casas antigas para construir shoppings, onde jovens moradores passeiam e compram coisas modernas, mas carregando no coração a centelha poética da Vila Isabel de sempre. E mesmo aí a força milagrosa da poesia se impõe, quando a gente lembra que num dos lugares onde hoje se compra, ontem eram emitidos os três apitos da fábrica de tecidos…

No bar da imaginação, alguém ainda pede ao garçom que traga, por favor, uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça… Isso tudo enquanto fala num antigo telefone negro cujo número é 34-4333.

Na pracinha que hoje leva seu imortal nome, Noel em estátua ganha vida, lança no copo sua cerveja, enquanto reafirma, do fundo do mais carioca dos corações, que a Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também.

Enquanto houver amor, poesia, sambas dolentes, paixões magoadas e bares onde afogar essas mágoas, haverá o feitiço da Vila.

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Um lugar acolhedor – J. Carino

Por Carino, 14 de novembro de 2009 0:10

Ando pelo Méier e me impressiono mais uma vez com a pujança do bairro. Em plena Dias da Cruz, o movimento intenso não convida à reflexão; ao contrário, é contagiante a operosidade mostrada por essa gente que passa apressada e, no entanto, muita vez ainda se cumprimenta, revelando uma cumplicidade de raízes difícil de encontrar em outros lugares.

Um amigo, filho do bairro, me disse certa vez: “O Méier é uma cidade!”. Queria dizer que aí tinha tudo: trabalho, lazer, beleza. E seus olhos entusiasmados ainda diziam, com seu brilho, que o Méier sempre teve em seus filhos cariocas autênticos, “da gema”; gente que ama a cidade e nasceu, ou apenas mora, num bairro que é uma singular encruzilhada onde se encontram todos os destinos, onde a alma carioca se exibe em passado e se realiza no presente.

Chego ao Jardim do Méier e quase ouço o pulsar do coração do bairro. Estar aqui é como estar numa síntese dos bairros do Rio – com suas grandezas e suas mazelas.

O Méier – muitos já notaram – é perto de tudo. E parece estar ali para receber os que passam demandando outros bairros; mas receber com um abraço amigo, com a atenção carinhosa de quem estende a mão.

Há alguns anos, uma casa de espetáculos – que não resistiu à falta de perenidade inerente à vida de hoje – fez com que muita gente atravessasse a cidade, vinda de seus quatro cantos, e chegasse ao Méier. Saindo de sua modéstia que não prescinde da altivez, o Méier mostrou-se como é: simpático no sorriso do pipoqueiro; gostosamente malandro nos gestos do “flanelinha”; elegante no trajar das senhoras; atento e eficiente no trabalho de todos. E esse Méier a todos conquistou.

O comércio do Méier é dos melhores do Rio, sabemos todos. Quase tudo se acha nesse mercado rico e plural, numa espécie de celebração à condição de “mão aberta” atribuída aos moradores desse bairro singular.

Bons colégios, belas igrejas e grandes templos, clubes ainda famosos – isso também dá ao bairro a condição de um bom lugar para se viver, criar os filhos e vê-los seguir vida afora, porém mantendo para sempre o orgulho de terem nascido no Méier.

Olhando daqui, da Arquias Cordeiro, vejo o trem cruzando o Méier. Esse longo bicho de aço parece um viajante cansado que, depois da longa travessia, chega ao meio da viagem como se chegasse a um oásis.

Há um Méier especial também nessas ruazinhas ainda relativamente tranqüilas – veiazinhas que cortam esse grande bairro-coração. Num dia como o de hoje, no intenso calor do Rio, entro numa delas e paro à sombra generosa de um flamboyant. A vermelhidão das flores se harmoniza, lá no alto, com galhos cuja forma chamam a atenção deste peito poético: parecem os braços acolhedores do Méier de hoje e de sempre.

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Onde mora o coração – J. Carino

Por Carino, 13 de novembro de 2009 0:10

Você já reparou, caro leitor, como a Tijuca é grande? Mas não por conta dos limites geográficos, que são consideráveis. É grande, imensa, em virtude do que representa no coração dos cariocas, e, claro, no deliciosamente tendencioso e bairrista coração dos tijucanos.

A Tijuca ultrapassa, de muito, as dimensões do bairro. Há uma “alma tijucana” que sobrepaira em muitos lugares do Rio; que sai lá de cima, espiando de pertinho o Alto da Boa Vista, desce pela Conde de Bonfim e Hadock Lobo e chega à fronteira do Maracanã, além de subir verdejante pela floresta de mata atlântica e descer vertiginosamente até ruas tranqüilas já nas cercanias de Vila Isabel.

Mas a verdadeira Tijuca também anda por nossa cidade, bela e faceira, no coração dos tijucanos, um coração orgulhoso, eternamente tijucano, mesmo quando o peito em que bate esteja fisicamente longe do bairro querido.

A alma tijucana é, a um tempo, aristocrática e popular; conservadora e progressista. Contradição, isso? Não. Temos aí, em verdade, uma dialética bairrística e existencial difícil de entender pelos não-tijucanos. Até as favelas encarapitadas nos morros da Tijuca têm esse espírito mais sofisticado, de um bairro que conserva a classe sem esquecer a ginga nas quadras de escola de samba; que se faz elegância sem deixar de lado a descontração dos bares nas esquinas de ruas ensombradas por velhas amendoeiras, ruas por onde o tijucano de hoje ainda passeia sobre um tapete de folhas caídas em inesquecíveis tarde de outono.

Tijuca dos clubes, redutos de lazer que marcaram gerações. Tijuca dos jovens cabeludos andando de lambreta muito antes dos rivais da zona sul, para se mostrar às namoradas. Tijuca dos bons colégios – sejam austeros educandários ou escolas modernas liberais.

Tijuca que nos traz, do passado, o sabor do cafezinho aromático, quente, gostoso, sorvido na porta do Café Palheta da Saens Peña.

Tijuca do comércio ativo, sofisticado, lançando moda vestida por lindas tijucanas – moças bem cariocas, expressões de uma classe média cuidada, inteligente, charmosa.

A Tijuca sempre esteve adiante de seu tempo. Onde, caro leitor, você pensa que se firmaram tanto a bossa nova quanto a jovem guarda? Sim, em garagens e apartamentos tijucanos, de onde rapazes e moças, inovadores e iconoclastas, saíram para conquistar o lado sul da cidade.

Tijuca de ontem, de hoje, de sempre, onde o Rio mostra também seu lado família, em casas alinhadas em vilas aconchegantes e floridas.

Tijuca, um grande bairro, um dos lugares onde mora, mais carioca e mais feliz, o coração do Rio.

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