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Um caleidoscópio urbano – J. Carino

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Por J. Carino, 12 de novembro de 2009 0:10

A Praça Tiradentes está quase deserta, enquanto a noite avança. O comércio, de portas cerradas, e os pontos de ônibus sem filas contrastam com o burburinho do dia. Na esquina, defronte ao tradicional e antigo café, prostitutas, também já antigas, e travestis novos empenham-se numa concorrência brutal.

Fecho os olhos do corpo e apuro os ouvidos da alma. Posso escutar sons longínquos, vindos de um passado remoto: são as orquestras dos teatros de revista, alma e colorido de um Rio musical, farrista – celeiro artístico do Brasil. É possível vislumbrar, por entre a névoa do tempo, as esculturais vedetes descendo, majestosas, imensas escadarias dos shows de Carlos Machado.

Indo pela a Rua da Carioca, vindo pela Sete de Setembro, a alma passeia debaixo de sobrados centenários, sentindo o pulsar de uma cidade que guarda, em seu corpo de hoje, um coração de passado grandioso.

Chegar à Ouvidor é mergulhar num Rio chique, elegante, em que ainda se pode reviver momentos inesquecíveis, tomando ali perto um chá com biscoitos na Colombo, tendo a saudade sentada ao lado.

Quando o dia amanhece, o Largo da Carioca vai crescendo em trepidação: é um grande palco popular, onde extravagantes artistas do povo, eméritos tapeadores e hábeis prestidigitadores vendem bugigangas e sonhos. Tudo isso ao pé do Convento de Santo Antônio, que, condescendente, fecha os olhos complacentes, enquanto se entrega à sua missão de santo casamenteiro.

Bem pertinho, pelo menos na lembrança, está a Galeria Cruzeiro, onde muito talento nasceu para a fama no rádio e no disco, onde muitas músicas hoje consagradas foram trocadas por uns cobres.

Ali, logo ali, o Tabuleiro da Baiana era um ponto central de parada dos bondes, que rangiam nos trilhos enquanto prosseguiam na sua lenta e civilizada marcha por entre transeuntes não tão apressados como os de hoje.

A Rio Branco fervilha: é uma das artérias mais importantes por onde corre o sangue carioca no coração da cidade empreendedora. Andando por aqui, neste caleidoscópio urbano, podemos nos sentir cosmopolitas, mesmo sem arredar pé de nossa terra. Nos rostos suados, nos olhos vivos, no falar com múltiplos sotaques, reconhecemos gente de todo esse Brasilzão, e do mundo inteiro, acolhida nos braços da Cidade Maravilhosa.

Meio dia. Sol a pino. É hora de parar e fazer descer pela garganta seca por causa do calor e da poluição uma cerveja gelada.

Em momentos como esse vejo que tenho tudo aqui: nos ouvidos, o barulhão do centro da cidade; nos olhos, a imagem da beldade que passa; no coração, o orgulho de ser carioca.

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Prazer, cultura e beleza – J. Carino

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Por J. Carino, 11 de novembro de 2009 0:10

Estou na Praça XV. Em meio à confusão de gente e de coisas, ponho-me a pensar e a sentir. Sinto o cheiro de mar e de peixe. Talvez ainda seja a memória do Mercado de Peixes, hoje apenas uma lembrança olfativa dos tempos em que aqui havia um paraíso para os amantes dos frutos do mar, feito de corvinas, robalos, namorados, anchovas – de todas as delícias tiradas por pescadores do seio do mundo de Netuno.

Vejo gente, muita gente, chegando nas barcas, vinda de Niterói, a Cidade Sorriso. São cariocas-fluminenses que, duas vezes por dia, cruzam a baía – talvez a mais linda do mundo -, refazendo num mínimo percurso a viagem dos intrépidos navegadores, cujos olhos e almas prostrados, caíram de amores por essa cidade, que é um verdadeiro poema visual no encontro entre céu, mar e montanha.

Cruzo a praça, e o Paço Imperial leva-me em memória ao passado remoto: combatentes da nacionalidade, heróis da liberdade, brasileiros de antanho fazem ecoar seus passos nas taboas corridas dos casarões. Na Primeiro de Março, vejo a estátua de um Tiradentes idealizado, mas cuja alma, feita de uma brasilidade profunda e corajosa, paira sobre todo o corre-corre das ruas em torno.

Passo por igrejas. Além de templos da fé, são oásis num cotidiano cáustico. A paz, que ultrapassa quaisquer crenças institucionalizadas, mora aí, entre sombras e silêncios. Só volto a mim quando o sineiro da Igreja de São José – já morando entre os sons celestiais de seus sinos tão musicais – faz ecoar o blim-blom que mora no fundo mais recôndito da memória.

Passeando, posso chegar perto do Albamar e olhar de longe o Museu Histórico, com suas carruagens, que parecem, ainda hoje, esperar, com os escravos ao lado, algum grão-senhor perdido no tempo e no espaço.

Lá por detrás, está a Santa Casa de Misericórdia, ancestral reduto do eterno combate entre a vida e a morte.

Há muito de memória importante aqui perto: o Museu da Imagem e do Som guarda os registros, visuais e sonoros, sobretudo da Era de Ouro do rádio, um tempo relativamente recente em que qualidade e quantidade quase se podiam confundir.

Sigo, passando pelo Fórum e vendo a multidão entrando e saindo nesse lugar da prática forense. Vejo de advogados e advogadas, sobraçando pastas com processos, a rostos humildes de gente pobre e anônima, esperançosa de que a venda nos olhos da Justiça ainda garanta imparcialidade e decisões justas num contexto social e econômico onde as injustiças grassam e se perpetuam.

Na Rio Branco com São José, paro e sinto em volta o pulsar desse centro nervoso da cidade. Se dá vontade, posso voltar e entrar no Lidador, onde a vida tem chance de se humanizar e refinar gastronomicamente.

Vou indo na direção da Praça Pio X. Entro no Centro Cultural dos Correios; passo pela bonita Casa França-Brasil; depois, vou terminar meu passeio no Centro Cultural do Banco do Brasil. Porque o Rio é assim: prazer, beleza, brasilidade, cultura e a decantada carioquice, tudo isso banhado pelo sol num paraíso com floresta, mar e céu.

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Na Glória – J. Carino

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Por J. Carino, 10 de novembro de 2009 0:10

Ninguém passa impunemente pelo bairro da Glória.

Alguma força, a um tempo suave e poderosa, imanta aquelas ruas, as casas antigas, os prédios novos, o calçamento de paralelepípedos, que é resquício do ontem e irrompe no asfalto de hoje.

Cruzando o bairro da Glória, entramos em outro mundo, porém mantendo-nos neste, que nos obriga a correr, suar, lutar, na azáfama do cotidiano.

Basta olhar aquele famoso relógio para sermos contaminados pela magia de um tempo passado em que a Glória pontificava em elegância; em que carruagens lentas conduziam aristocratas lançando um olhar blasé em direção a passantes humildes e perplexos diante de tanta ostentação; e, depois, bem depois, quando as Grandes Sociedades carnavalescas desfilavam pelo bairro sustentando batalhas cordiais de confete e serpentina, que se entranhavam no cabelo de donzelas travestidas de melindrosas – pingentes coloridos da alegria -, como se entranhou na saudade dos velhos foliões o refrão imortalizado na letra de um chorinho: “Na Glória!”.

Quer ver um Rio lindo, caro leitor? Vá à Glória e suba ao adro da igrejinha. Olhar lá de cima é ver um mar ainda contendo no seu seio espumoso a nostalgia dos tempos em que marolas suaves chegavam até abaixo do relógio, transformando-se em testemunhas de amores pudicos, quando as ousadias chegavam no máximo… ao passeio de mãos dadas.

Olhamos do alto e podemos ver um casario hoje maltratado pelo tempo, um não acabar mais de telhados, com sua cor ocre enegrecida pelo passar dos anos, nos quais, aqui e ali, a sementinha deixada cair por algum pássaro com coração de poeta, brota e se torna uma plantinha alimentada pelo musgo de um verde austero, escuro, profundo. Mas, em contrastes abusados, florezinhas amarelas irrompem entre essas telhas vãs. Tão vãs quanto a maioria das esperanças…

Glória da Taberna… Quanta mágoa afogada em chope! Quanta desilusão curtida em porres homéricos! Taberna que sempre foi o protótipo de todas as tabernas do mundo: oásis no cáustico deserto de laços desfeitos, braços sem abraços; parada obrigatória dos que trilham os descaminhos dos amores não correspondidos, ou de outros, plenos enquanto duraram e depois incinerados no fogo da paixão.

Glória do famoso hotel, fausto do passado, sala de visitas sofisticadíssima em que a cidade recebia hóspedes ilustres e turistas abonados. Nas salas espelhadas, fantasmas vaidosos talvez ainda passeiem seu narcisismo, abrindo e fechando portas com maçanetas douradas.

Passando pelo Aterro, no trânsito enlouquecedor, motoristas têm, de um lado, a visão paradisíaca do Pão de Açúcar, eterno cartão postal; de outro, vêem, daqui de baixo, a igrejinha de um branco tão imaculado como as almas lavadas de todos os pecados. Nela, Nossa Senhora da Glória vela por todos.

Na pracinha da Glória, São Sebastião, amado santo patrono crivado de flechas, parece atrair para si todas as dores, todos os sofrimentos de nossa mui leal e heróica cidade.

E, ainda que ateus sejamos, o espírito parece elevar-se em prece pela vida, pela cidade, por um Rio tão lindo.

Como bons cariocas, a irreverência circulando no sangue nos tira da contrição para o inevitável gracejo do jogo de palavras:

- Glória à Glória, para sempre!

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A seta e o futuro – J. Carino

Por J. Carino, 9 de novembro de 2009 0:10

A Barra da Tijuca vive tinindo de nova. Lugar das “emergentes”, ela mesma emerge, a cada dia: um condomínio novo aqui, outro shopping ali, um novo point acolá, nos surpreendem a toda hora, fazendo do imenso areal do início do século um mundão pós-moderno, que encanta pela pujança e assusta por fugir ao romântico porém racional traçado original do gênio Lucio Costa.

Menina quase transviada, a Barra força uma fuga pelos baixios de Jacarepaguá e corre, lépida e faceira, na direção de Guaratiba, Sepetiba e de outras lonjuras. De vez em quanto, vaidosa, sobe num contraforte de pequenas serras e se olha nos espelhos das lagoas, mirando satisfeita sua juventude, sua carinha de amanhã, seu jeitinho de esperança que aposta no moderno.

A Barra é mal contida pelo Rio. Ela, na verdade, contém o Rio. Sim, porque estamos todos lá: tijucanos nostálgicos; gente saudosa do Méier; ipanemenses que abandonaram sua Garota; traidores da Princesinha do Mar; e outros, muitos outros, dos subúrbios do Rio, da Baixada, do interior do Estado e do Brasil. Todos atraídos por esse eldorado urbanístico, decantado e vendido para povoar os sonhos da classe média.

Gosto de olhar a Barra. Mas uma Barra de fim do dia. Naquela hora em que os onipresentes automóveis trazem de volta uma multidão que aos poucos se encerra na almejada segurança de seus condomínios, gente que vai olhar a vida dos varandões, relaxando enquanto a última dose de uísque âmbar funde, aos poucos, o cristal líquido dos cubos de gelo. Nesse momento solene, um espetáculo me encanta os olhos. Pássaros cruzam em bandos o céu de um azul acinzentado, na direção do mar. Voam rápido, numa tarde silenciosa, em que uma Barra fervilhante, barulhenta, parece conceder um tributo diário à paz contida no silêncio. E esses pássaros voam numa formação singular: a forma de uma seta.Podemos pensar que essa seta aponta o futuro.

Alguém consegue imaginar um símbolo melhor para a Barra?

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Polonaise tropical – J. Carino

Por J. Carino, 8 de novembro de 2009 0:10

A gente não sabe quanta calma pode estar contida num fim de tarde até chegar à Praia Vermelha, um recanto especial na Urca. É chegar e deixar-se ficar, com um gostoso fazer nada inundando o corpo e a mente, jogando um olhar descomprometido na direção do mar.

Em volta, duas vidas diferentes. Dentro de prédios que intimidam nossa modéstia intelectual e nossa irreverância civil, pesquisadores e militares travam duas guerras: a do conhecimento, dos cientistas, e a guerra dos guerreiros modernos, aprumados em suas fardas mas discursando pela segurança, a favor da paz armada. Pertinho, outra vida. Nesta, o “uniforme” das camisas coloridas e as potentes “armas” que são as máquinas fotográficas e as filmadoras. Turistas mil, como crianças eufóricas, antecipam a visão paradisíaca que terão de cima, do Pão de Açúcar – programa tão óbvio quanto obrigatório para os que visitam nossa cidade.

Mas, deste cantinho, nosso olhar que descortina o mar se depara com uma singularíssima figura. Magro a não mais poder, roupa cintada, mão no queixo e olhar absorto, Chopin, encarnado em sua estátua, cisma mirando aquele ponto no infinito, entre as ondas e o céu, que atrai e sempre atrairá o olhar dos seres apaixonados, torturados e consumidos pelo fogo da criação. Nesse teatro onde entramos dóceis, conduzidos por nossa imaginação, já podemos ouvir, em meio ao marulhar das ondas, uma polonaise, ora suave, ora vibrante.

A tarde da Urca, senhora de rara beleza, se recusa a morrer, embevecida; o sol resiste muito, nesse momento comovente, antes de mergulhar no mar. Turistas maravilhados voltam, saindo do bondinho com um festival de luz, cores, imagens de inaudita beleza, impregnando seu olhar. Eles sabem que não tem jeito: foram, para sempre, contaminados pela visão do Rio de Janeiro, do paraíso tropical de que sempre ouviram falar.

Nós, cariocas, podemos ficar ali, até que Chopin vá-se embora, envolto nas brumas da noite, mas nos deixando enlevados a ouvir uma improvável porém muito real Polonaise Tropical.

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Oásis com espelho azul – J. Carino

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Por J. Carino, 7 de novembro de 2009 0:10

A Lagoa não é simplesmente um bairro; é um oásis em cujo centro um espelho azul se mostra iridescente ao sol da manhã, tornando-se um apelo irresistível, tanto para o repouso dos olhos quanto para a movimentação do corpo.

Desembocar do túnel e olhar a Lagoa é penetrar num mundo novo, que se abre numa paisagem única, entre a imensidão ondeante do mar, com suas areias escaldantes, e as caprichosas e verdejantes curvas da montanha.

Pode-se seguir pela esquerda ou pela direita; a beleza do espetáculo resiste ao ângulo pelo qual se olha. Por um lado, circunda-se passando ao largo do acesso à Princesinha do Mar, o Corte do Cantagalo, chegando-se a Ipanema; pelo outro, segue-se pelas mesmas curvas de graciosidade na paisagem, até ganhar-se saídas para o Leblon ou para as lonjuras de São Conrado, Barra e por aí afora.

A Lagoa acorda cedinho. Ou melhor: nem dorme. Aos primeiros albores da manhã, ainda com gosto de madrugada, os primeiros remadores cruzam as águas em seus barcos afilados, canoas modernas onde corações e músculos se exercitam e parecem, ao mesmo tempo, homenagear os índios que outrora eram os donos deste paraíso tropical. Ao longo do dia, intensa vida, movimentação constante – gente e automóveis a não mais poder. Quando a tarde ameaça morrer, caminhantes, muitos caminhantes circundam essa jóia feita de água e luz, juntando o prazer da visão paradisíaca às necessidades impostas pelas coronárias ou ao desejo de manter uma esbelta silhueta. Quando a noite vem, e seguindo pela madrugada, os quiosques ficam apinhados de gente que vai curtindo o prazer de uma bebida gelada e de um jantar diferente, enquanto se extasia com a vista e recebe o carinho da brisa resultante da mistura de ventos vindos do mar e da montanha.

Eternamente ancorados à margem da Lagoa, dois clubes – Caiçaras e Piraquê – guardam um charme festeiro misturado a elegância que somente no Rio se pode encontrar.

Sinuosas, as pistas para carros em torno da Lagoa são veias por onde corre a energia automobilística da cidade. A Curva do Calombo assusta e nos exibe suas inquestionáveis vitórias sobre o bom senso, em que ceifa vidas de imprudentes “ases do volante”, muitos deles jovens que regressam de alegres noitadas e só conseguem chegar ao silêncio e à imobilidade do nunca mais. Porém, perto da Lagoa, ou um pouquinho mais longe dela, no Hospital da Lagoa ou no Miguel Couto, anjos de branco lutam pela saúde, combatem o sofrimento e, muitas vezes, conseguem vencer a batalha contra a morte.

E se a Lagoa é movimento, ginástica, exercício – beneficiando o corpo – o espírito também não fica esquecido, cuidado pelas igrejas de Santa Margarida Maria e de São José. O alto campanário de uma aponta para o céu, atraindo bênçãos; as paredes de vidro da outra foram feitas para que a beleza da paisagem se fundisse com o ambiente onde a fé surge e se fortalece. O Clube de Regatas do Flamengo, essa paixão nacional rubra e negra, finca suas raízes centenárias próximo à Lagoa, como se desafiasse o rival, Vasco da Gama, com sua ousadia de também ter perto dessas águas mansas e ideais sua sede náutica.

Lá estão, com vigor e rapidez, os belos cavalos do Jóquei Clube! Atravessam céleres as pistas do hipódromo, carregando na garupa os sonhos de riqueza de centenas de aficcionados. Nas arquibancadas, homens nervosos torcem e nem reparam nas roupas das mulheres, discretas umas, exageradas outras, muitas delas ainda garantindo a elegância sofisticada dos chapelões que, quando se afastam, no frenesi de acompanhar a reta de chegada, ainda nos permitem ter uma bela vista da Lagoa.

A Lagoa é única e representa como poucos lugares o espírito de nossa cidade. Seu charme resiste até à mortandade dos peixes – morte anunciada pela incúria e pela lerdeza das ações e ineficácia das mirabolantes soluções apresentadas ao longo de tantas décadas.

A tarde cai e a Lagoa vai lentamente deixando de refletir a beleza do entorno em suas águas tranqüilas. Mas, com um finzinho milagroso de luz, ainda é possível ver refletida em suas águas a imagem de uma gaivota que voa, majestosa e livre na direção do mar, satisfeita por viver no Rio e poder pescar em sua águas e pousar às margens da Lagoa.

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Lapa, amor e malandragem – J. Carino

Por J. Carino, 6 de novembro de 2009 0:10

arcos_lapa (1) Feijão com arroz, goiabada com queijo, Lapa com… boemia. Impossível pensar uma coisa sem a outra. A noite bem vivida, o pecado rasgado, a malemolência do samba, a síntese perfeita da carioquice – está tudo ali, na Lapa, ao alcance até dos engravatados e das enfatuadas, que cruzam o bairro durante o dia, no azáfama do cotidiano.

Lapa da malandragem, criminalidade inocente se comparada com a guerra urbana vivida nos dias de hoje; dos becos e ladeiras, onde se guardam todas as preciosas histórias de um Rio boêmio e de bem com a vida e seus prazeres.

Lapa dos Arcos, pondo diante dos nossos olhos a densidade do passado ido e vivido porém presente; dos bares onde a saideira é eterna; dos conflitos envolvendo quem não leva desaforo pra casa.

Lapa de Miguelzinho, Meia-Noite, Edgar – malandros históricos; de Madame Satã, contraditória mistura de macheza valente com sensibilidade homossexual; da igreja de uma torre só, vítima inocente na briga de Floriano.

Ah, Lapa de todos os amores! Lapa da linda visão oferecida aos que passeiam suas saudades descendo no bondinho de Santa Tereza.

A Lapa é o coração do Rio, onde se encontram, sentimental e democraticamente, os que vêm da zona sul com os que vêm da zona norte.

Todos nós, cariocas, amamos a Lapa, somos a Lapa, com seus contrastes, lugar especial que o espírito do Rio sobrevoa, livre, leve, solto, bem-humorado, sentindo-se bem nessa zona livre de todas as censuras.

A Lapa, sedutora e matreira, se renova, convivendo numa boa com as novidades da cidade. Mas não tem jeito: no fim de cada madrugada, quando os albores da manhã dissolvem as trevas e trazem o imperioso chamado do trabalho, os mais sensíveis ainda podem ter uma visão do malandro entrando por um dos becos, com seu chapéu de lado, a mulata pendurada no braço e a eterna navalha no bolso.

Antes de sumir na bruma, o malandro parece nos acenar, demonstrando o orgulho de ser carioca… e de ser da Lapa.

 

Arcos da Lapa – OSL 40x70cm – João Barcelos

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A Ilha encantada – J. Carino

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Por J. Carino, 5 de novembro de 2009 0:10

Terra cercada de mar. Não nos confins de um oceano qualquer; em plena cidade; vizinha de todo o burburinho, mas tranqüila, acariciada pela brisa, cheirando sempre a maresia.

Gosto de pensar na Ilha assim: um bairro que navega ao lado da cidade; um barco feito de ruas, casas, árvores, antigas lembranças e coisas modernas.

Ilha do Governador. Um mundo de lugares bonitos e acolhedores: Portuguesa, Jardim Guanabara, Cocotá, Cacuia, Ribeira e tantos outros recantos. Cidade flutuante ao lado da cidade.

A Ilha sempre foi um paraíso, de onde se partia jovem, curioso de ver a cidade grande, em que se trabalhava e buscava condições de construir a vida. E oásis, para o qual se voltava, adultos, engravatados os homens, elegantérrimas as mulheres. Lugar para onde se volta ainda hoje ao final do dia, arrancando a gravata, jogando longe as saias de linho – entregando-se, homens e mulheres, à carícia do vento, ao prazer dos pés molhados pela água.

Ilha do Governador. Da barcaça afundada, das pontes novas e velhas, mas de um só acesso, circunstância que ainda preserva um pouco esse lugar especial.

Ilha do samba, da União da Ilha, segunda escola no coração de qualquer sambista do Rio e primeiríssima no coração de todos os seus moradores.

Ilha da cultura, com o Fundão e a diária e esperançosa miríade de jovens universitários estudando, pesquisando e – por que não? – se amando nas salas de aulas, nos desvãos de escadas, nos jardins onde persistem generosas visões da baía ao pôr-do-sol.

Além de tudo, a Ilha arranjou um jeito carinhoso de ligar-se também ao mundo inteiro. Tornou-se o chão acolhedor de muitos pássaros de prata que aterrissam em seus aeroportos. Com isso, a Ilha se fez abraço amigo, primeiro contato com o Rio, tanto de estrangeiros quanto dos filhos cujas almas cantam quando voltam à amada terra.

Ilha de trabalho e descanso. Ilha encantada que, todo dia, acolhe os náufragos do mar encapelado da cidade grande, os heróicos sobreviventes do cotidiano.

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São Cristóvão, Carioca, Aristocrático e Plebeu – J. Carino

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Por J. Carino, 4 de novembro de 2009 0:10

quinta_museu São Cristóvão é um bairro com alma imperial. Aqui, pode-se sentir hoje esse espírito de ontem, de passado grandioso e aristocrático. Em largas avenidas, casarões parecem abrir-se para que entrem carruagens com damas empoadas que voltam de seu passeio matinal.

O imenso gramado verde que cerca o palácio, hoje mal cuidado como um tapete castigado pelo tempo, já não acolhe famílias com seus farnéis de piquenique, prática comum há algumas décadas; porém, as árvores centenárias lá estão, como testemunhas mudas que agitam sua imensa galharia ao vento, o mesmo vento que arrancou perucas de duques e marqueses, quando chegavam para as confabulações e encontros conspiratórios da elite imperial, donde emanava o poder de vida e de morte num imenso e belo país dividido em províncias, quase sempre em mão de áulicos seguidores do imperador.

Passado, tradição, aristocracia, mas nunca o imobilismo retrógrado. Neste bairro de contrastes, é possível ver dali mesmo, da janela do palácio, hoje museu, a casa do Barão de Mauá, símbolo da ousadia empresarial, em que as práticas da burguesia capitalista iam corroendo, com o ácido dos interesses financeiros e comerciais, a estrutura de poder escravagista e assentada nos monopólios.

Ah, e a paixão? A Casa da Marquesa de Santos aí está, evocando o romantismo libertino do Primeiro Pedro, amor proibido afrontando o convencionalismos hipócritas…

Mas, São Cristóvão oferece-nos no presente um impressionante contraste com seu aristocratismo passado. Basta lembrar, do outro lado, a Feira de São Cristóvão. Esse enclave cultural nordestino exibe- nos toda a riqueza multicultural do Brasil.

Feira das delícias regionais: carne-de-sol, queijo de coalho, boas pingas, rapadura; feira do chamego ritualizado no forró, que se dança agarradinho, no “bate-coxas” mais discreto ou na umbigada mais chegada ao despudor; feira da saudade da terra tão árida, inóspita mas presente cotidianamente, e relembrada, depois de uma semana de árdua labuta, neste improvisado pedaço simbolizado da terra natal. Nada menos aristocrático e mais plebeu; nada mais povo, mais gostoso.

São Cristóvão tem mais ainda. Andando pelo comércio, algo me surpreende e intriga: São Cristóvão, sabemos, é o padroeiro dos motoristas; pois bem, exatamente aí, nesse bairro, se concentra uma imensa quantidade de lojas de autopeças, a maior do Rio. Donde terá surgido essa aproximação teológico-comercial? Pura coincidência?

O sol pleno do meio-dia ilumina a peça de automóvel cromada dependurada na porta da loja. Refletido nela, vejo o prédio do antigo Colégio Pedro II: eis o Bairro de São Cristóvão dos contrastes e convergências!

Outra surpresa: o bairro de São Cristóvão nos aproxima do infinito, das estrelas. Sim, lá no alto fica o Observatório Nacional, de onde se pode observar o maravilhoso e inigualável céu do Brasil. Sem andar muito podemos, pois, passar da velha Rua Bela à própria Via Láctea!

À nossa porção criança – que os mais inteligentes e sensíveis procuram preservar a qualquer preço – São Cristóvão ainda reserva o Jardim Zoológico. Andando por essas alamedas, comendo o mesmo algodão-doce, real ou o imaginário, da nossa infância, entramos num mundo diferente de cheiros e sons: os indóceis leões e leopardos, o majestoso elefante, a gentil e grandona girafa, os macacos cheios de sem-vergonhice, os lindos pássaros multicoloridos – tudo nos evoca, pelo olfato, pela audição, tempos idos, de excursões com a turma do colégio, ou de passeios com aqueles parentes do interior, entre os quais a priminha bonita e graciosamente caipira merecia olhares e leves toques de mão especiais.

São Cristóvão: imperial e plebeu; comercial e puramente romântico; histórico e vivo no presente. Não há outro bairro assim no Rio, tão de extremos, tão expressivo de nossa carioquice antiga, de hoje e de sempre.

 

Quinta e Museu – Pintura de João Barcelos – osl 46x61cm

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Penha, Samba e Devoção

Por J. Carino, 3 de novembro de 2009 0:10

Lá do alto, Nossa Senhora abençoa seus romeiros. O bairro da Penha usou essa benção para expressar, como poucos, as virtudes suburbanas contidas na fé e na festa.

Pela longa escadaria – que dizem ter 365 degraus – a devoção subia, subia, escalavrando joelhos, pagando promessas, resgatando pecados, salvando almas. Lá embaixo, a festa coloria a praça com suas barraquinhas; a música enchia de alegria os corações e envolvia os corpos na malemolência da dança.

Sempre foi bonito subir ao adro da igreja no meio da tarde. Olhar de cima o bairro calmo. Ouvir ao longe os latidos de vira-latas, mesclados ao apito do Curtume Carioca, que chamava à obrigação do trabalho.

Tinha o bonde. Ah, o bonde, expressão bonita de transporte encarnada em trilhos, balaústres, motorneiros e cobradores portugueses bigodudos, rápidos e gentis, inacreditavelmente equilibrados nos estribos com o bonde na velocidade máxima, uma “vertiginosa” corrida tão lerda se comparada à dos bólidos de hoje.

Penha das peladas na “Boiada”, vastíssimo espaço resgatado a um matadouro pelos meninos craques, os pelés e garrinchas jamais descobertos pelo olheiro um tanto zarolha, chamado Destino, nesses campos de várzea de nossa terra.

“Por isso, agora, lá na Penha vou mandar, minha morena pra sambar…”. Estes versos de Noel imortalizaram o bairro da Penha e sua festa famosa, onde por décadas e décadas pontificaram os maiores sambistas do Rio.

Por onde andará essa morena, linda, faceira, sestrosa que encantou tantos corações? Por onde andarão o bonde, as peladas, o apito da fábrica e aquele irresistível pôr de sol? Terão ficado no passado ou estão para sempre em nossos corações meninos?

A Penha continua aí. E lá no alto, fortalecida pela fé e embalada pelo samba que é devoção, Nossa Senhora da Penha vela por todos nós.

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Jacarepaguá, de jacas e quintais – J. Carino

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Por J. Carino, 2 de novembro de 2009 0:05

Ja-ca-re-pa-guá. O som desse nome associa-se, em minha mente saudosa, ao matraquear das rodas do bonde que me conduzia, menino, à casa distante de parentes. Enquanto um vento gostoso me agitava os cabelos, eu via passar as hortas plantadas debaixo das imensas torres da antiga Light. Portugueses – iguais aos dos meus parentescos avoengos – estavam por ali: casais que cuidavam das verduras e homens gordinhos vestidos de azul, o motorneiro e o cobrador, este ágil, saltitante nos estribos.

Um cheirinho de mato, trazido pelo ar límpido da manhã, me entrava pelas narinas e eu via desfilar as casas simples em ruas tranqüilas. Iam passando locais de nomes belos e sonoros, como os dos Largos: Freguesia, Tanque, Taquara… Um lugar chamado Anil me lembrava o céu azul visto numa gravura em meu livro de curso primário.

Saibam que Jacarepaguá fez muito pela arte: seu clima ideal operou milagres, salvando da tuberculose inúmeros escritores, poetas e pintores desenganados pela medicina. Mas, também, em seus sanatórios muitos artistas viram finar sua vida com a criatividade confundida com loucura.

A natureza e a liberdade – muito verde e a amplidão – sempre se mostraram em Jacarepaguá. Chácaras antigas, imensas, foram cedendo suas terras, aos poucos retalhadas em nome da urbanização. Era lá, talvez, que ficava o maior paraíso de quintais. Neles, a delícia celestial das frutas.

jacare02 Lembro-me muito das jaqueiras, árvores imensas, de troncos fortes e galhos compridos que ofertavam a generosidade da sombra. Do chão coalhado de folhas, caídas no capim úmido até receber a visita do sol, era olhar para cima, usar a intuição quase infalível das crianças e escolher a jaca ambicionada. Depois, com a invejável destreza da meninice, encarapitar-se lá em cima e futucar a fruta mais madura até que caísse, se abrisse e oferecesse à nossa gulodice a doçura daquelas delícias amarelinhas.

O Jacarepaguá de hoje é um bairro que está ali pertinho, juntando-se ao Grajaú por aqui e à Barra por lá. As casas sobrevivem dentro de condomínios bonitos, onde a classe média habita olhando os morros para onde subiram os pobres, tangidos pela necessidade.

A cidade moderna chegou a Jacarepaguá, mas não matou desse bairro lindo e amigo o espírito que saboreia as frutas e passeia nos quintais.

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