A bolsa vermelha da Maria Fernanda – José Roberto Pereira
Pode até parecer absurdo, mas a história que vou contar aconteceu há poucos dias e está fresquinha na memória de muita gente. E é uma história tão, mas tão absurda, que até hoje tem gente que ainda duvida que ela realmente tenha acontecido.
Foi assim… A noite tinha chegado tão rapidinho que o dia nem percebeu quando tudo virou breu. Uma meia dúzia de estrelas apareceu na imensidão escura – o que para muitos já era sinal de que algo estranho poderia acontecer, porque o céu por aqui está sempre cheio de estrelas. O vento que costuma soprar no início da noite também não apareceu, deixando tudo parado, aumentando ainda mais a expectativa de que algo realmente estava prestes a acontecer, e isso soou como um aviso bem dado…
Esses acontecimentos estranhos ocorreram quando um grupo de pessoas se dirigia para uma exposição na escola municipal de artes… O grupo de pessoas entrou na escola para ver as novidades em pintura em tela. Estavam todos os presentes reunidos em torno dos quadros (conto isso para que saibam que testemunhas presenciaram toda a história absurda) quando ela surgiu no meio do breu da noite e foi subindo as escadarias da escola de artes… Quem?? Uma menina tão branquinha, mas tão branquinha que parecia ser mais branca que a neve que cai lá no Japão. Alguém a cumprimentou dizendo seu nome: Maria Fernanda. Ela entrou sorrateira com seu vestidinho de flores. Calçava uma sandalhinha ou botinha, não me lembro, e tinha no cabelo algo que lembrava um arquinho. Trazia uma enorme bolsa vermelha pendurada no ombro esquerdo. Houve pessoas ali que não acreditaram que aquela bolsa era realmente dela, porque o tal acessório era exagerado e tinha algo incomum e ainda indecifrável. A bolsa, de tão vermelha e de tão grande, parecia um baú vermelho de alguma gueixa, se é que gueixa tem baú vermelho, mas digo isso para tentar descrever o quanto as pessoas ficaram admiradas com a bolsa vermelha. A tal menina, cujo nome alguém já tinha dito, Maria Fernanda, andava de um lado para outro por entre os convidados e os quadros de artes. Acredito que ela nem percebia o quanto a bolsa chamava a atenção.
Até aí, nada de estranho havia acontecido… Algum leitor atento deve estar pensando que o absurdo é este escritor contar esta história aparentemente normal. Porém, contudo, todavia… Tudo transcorria bem quando a menina Maria Fernanda chegou perto da mesa de guloseimas que eram servidas aos convidados. Nesse momento, a bolsa vermelha começou a se mexer…. Simultaneamente, o céu (lembra lá no início da nossa história?) se encheu de milhares de estrelas, o vento soprou ligeiro e o breu da noite clareou um pouquinho com a chegada a lua. E foi nesse exato momento que a bolsa começou a se mexer sozinha!!!! Digo: a bolsa começou a se mexer sozinha!!! Começou a se mexer sozinha!!! Se mexer sozinha! Sozinha!!! A bolsa!!!! Pode uma coisa dessas???
Alguns convidados que estavam próximos à mesa saíram “à francesa”, temendo que algo horripilante pudesse acontecer; outros permaneceram para presenciar o fato incomum. Eu, que estava ali com um olho na bolsa e o outro num delicioso pão de queijo, tive dúvida se saía de fininho ou se ficava ali presenciando aquela situação de outro mundo. Em meio ao pânico que se abateu sobre mim e sobre algumas pessoas que ainda estavam por ali, comi o pão de queijo. Peguei outro e mais outro e mais outro e já estava com a boca entupida de pão de queijo quando, calmamente, Maria Fernanda olhou para a bolsa vermelha e disse (digo e repito, ela conversou com bolsa vermelha):
_ O que é? O que você quer? Ou melhor, o que vocês querem? – disse, em tom maternal.
De dentro da bolsa saíram muitas vozes reclamando de algumas coisas que não estavam bem ali dentro. Nesse momento, algumas pessoas que tinham se afastado voltaram para perto de onde acontecia aquela situação absurda, várias vozes saindo de dentro da bolsa. E, para espanto de todos, a tal menina branquinha, cujo nome já disse três vezes, começou a tirar coisas da bolsa. Por incrível que pareça, essas coisas estavam falando, reclamando uns direitos e deveres e não sei mais o quê! Cada uma tentava falar à dona da bolsa qual era sua indignação…
Um brilho para lábios estava reclamando que, desde quando saíram de casa, a menina não tinha retocado a maquiagem. Um grupo de presilhas de cabelo queria sair da escuridão da bolsa e prender os fios loiros do cabelo de sua dona e, assim, tomar ar fresco. Umas pastilhas de cimento que tinham se soltado de uma conhecida praça da cidade e que foram recolhidas pela dona da bolsa e estavam num compartimento reservado do artefato, queriam voltar para a tal praça, de qualquer maneira, naquela hora avançada da noite. Uns grampos de cabelos queriam ser usados, estavam tão novinhos que dava até gosto ver. Umas gominhas de prender dinheiro queriam segurar uns dólares que tinham sido prometidos a elas (até aquele momento, nenhuma verdinha tinha aparecido). Um espelhinho bonitinho era o mais calminho, mas, a todo o momento que a mão de Maria Fernanda esbarrava nele, o danado soltava uma gargalhada seguida de um “pum”, deixando o ambiente da bolsa intragável, e esse fato atiçava ainda mais o protesto dos pertences da menina branquinha. A filha da bolsa vermelha, uma bolsinha com mais de cem bolinhas, estava chorando como uma criança porque até aquele momento a pobre bolsinha de bolinhas não tinha sido usada para guardar nem um batom sequer. A inacreditável bolsa vermelha, que até então se mantinha calada, começou a falar também, reclamava que não estava sendo bem apreciada pela sua exuberante beleza. O caso se arrastou um pouco mais e, a cada minuto que passava, deixava os convidados da exposição boquiabertos e perplexos. Uma situação daquela, ninguém tinha visto e muito menos ouvido falar.
A bolsa vermelha, com seus pertences dentro, estava incontrolável quando a dona dela elevou a voz e disse, em tom de ameaça:
_ Ou vocês se comportam ou saio da próxima vez com uma bolsa mais educada, mais ajuizada e totalmente vazia!
Não houve nem um pio mais dali para frente. A exposição prosseguiu, e os convidados tentaram manter a normalidade, mas, aonde a Maria Fernanda chegava, um grande vácuo se formava. Não sei dizer se era por receio, se era por medo da bolsa vermelha ou ainda por não quererem ficar perto de uma bolsa tão mal educada.
Acredite quem quiser, mas esse episódio deixou a escritora Terezinha Pereira de cabelo em pé, e até hoje ela luta para o cabelo voltar ao lugar. A Ana Luísa, irmã da Maria Fernanda, ficou três noites e três dias sem dormir, acho que foi por medo. Já os outros convidados da exposição juraram nunca mais, nunca mais chegar perto de uma bolsa de cor tão vermelha que mais lembrava um baú de gueixa, se é que gueixa tem baú vermelho.










