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A bolsa vermelha da Maria Fernanda – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 23 de junho de 2010 20:37

Pode até parecer absurdo, mas a história que vou contar aconteceu há poucos dias e está fresquinha na memória de muita gente. E é uma história tão, mas tão absurda, que até hoje tem gente que ainda duvida que ela realmente tenha acontecido.

Foi assim… A noite tinha chegado tão rapidinho que o dia nem percebeu quando tudo virou breu. Uma meia dúzia de estrelas apareceu na imensidão escura – o que para muitos já era sinal de que algo estranho poderia acontecer, porque o céu por aqui está sempre cheio de estrelas. O vento que costuma soprar no início da noite também não apareceu, deixando tudo parado, aumentando ainda mais a expectativa de que algo realmente estava prestes a acontecer, e isso soou como um aviso bem dado…

Esses acontecimentos estranhos ocorreram quando um grupo de pessoas se dirigia para uma exposição na escola municipal de artes… O grupo de pessoas entrou na escola para ver as novidades em pintura em tela. Estavam todos os presentes reunidos em torno dos quadros (conto isso para que saibam que testemunhas presenciaram toda a história absurda) quando ela surgiu no meio do breu da noite e foi subindo as escadarias da escola de artes… Quem?? Uma menina tão branquinha, mas tão branquinha que parecia ser mais branca que a neve que cai lá no Japão. Alguém a cumprimentou dizendo seu nome: Maria Fernanda. Ela entrou sorrateira com seu vestidinho de flores. Calçava uma sandalhinha ou botinha, não me lembro, e tinha no cabelo algo que lembrava um arquinho. Trazia uma enorme bolsa vermelha pendurada no ombro esquerdo. Houve pessoas ali que não acreditaram que aquela bolsa era realmente dela, porque o tal acessório era exagerado e tinha algo incomum e ainda indecifrável. A bolsa, de tão vermelha e de tão grande, parecia um baú vermelho de alguma gueixa, se é que gueixa tem baú vermelho, mas digo isso para tentar descrever o quanto as pessoas ficaram admiradas com a bolsa vermelha. A tal menina, cujo nome alguém já tinha dito, Maria Fernanda, andava de um lado para outro por entre os convidados e os quadros de artes. Acredito que ela nem percebia o quanto a bolsa chamava a atenção.

Até aí, nada de estranho havia acontecido… Algum leitor atento deve estar pensando que o absurdo é este escritor contar esta história aparentemente normal. Porém, contudo, todavia… Tudo transcorria bem quando a menina Maria Fernanda chegou perto da mesa de guloseimas que eram servidas aos convidados. Nesse momento, a bolsa vermelha começou a se mexer…. Simultaneamente, o céu (lembra lá no início da nossa história?) se encheu de milhares de estrelas, o vento soprou ligeiro e o breu da noite clareou um pouquinho com a chegada a lua. E foi nesse exato momento que a bolsa começou a se mexer sozinha!!!! Digo: a bolsa começou a se mexer sozinha!!! Começou a se mexer sozinha!!! Se mexer sozinha! Sozinha!!! A bolsa!!!! Pode uma coisa dessas???

Alguns convidados que estavam próximos à mesa saíram “à francesa”, temendo que algo horripilante pudesse acontecer; outros permaneceram para presenciar o fato incomum. Eu, que estava ali com um olho na bolsa e o outro num delicioso pão de queijo, tive dúvida se saía de fininho ou se ficava ali presenciando aquela situação de outro mundo. Em meio ao pânico que se abateu sobre mim e sobre algumas pessoas que ainda estavam por ali, comi o pão de queijo. Peguei outro e mais outro e mais outro e já estava com a boca entupida de pão de queijo quando, calmamente, Maria Fernanda olhou para a bolsa vermelha e disse (digo e repito, ela conversou com bolsa vermelha):

_ O que é? O que você quer? Ou melhor, o que vocês querem? – disse, em tom maternal.

De dentro da bolsa saíram muitas vozes reclamando de algumas coisas que não estavam bem ali dentro. Nesse momento, algumas pessoas que tinham se afastado voltaram para perto de onde acontecia aquela situação absurda, várias vozes saindo de dentro da bolsa. E, para espanto de todos, a tal menina branquinha, cujo nome já disse três vezes, começou a tirar coisas da bolsa. Por incrível que pareça, essas coisas estavam falando, reclamando uns direitos e deveres e não sei mais o quê! Cada uma tentava falar à dona da bolsa qual era sua indignação…

Um brilho para lábios estava reclamando que, desde quando saíram de casa, a menina não tinha retocado a maquiagem. Um grupo de presilhas de cabelo queria sair da escuridão da bolsa e prender os fios loiros do cabelo de sua dona e, assim, tomar ar fresco. Umas pastilhas de cimento que tinham se soltado de uma conhecida praça da cidade e que foram recolhidas pela dona da bolsa e estavam num compartimento reservado do artefato, queriam voltar para a tal praça, de qualquer maneira, naquela hora avançada da noite. Uns grampos de cabelos queriam ser usados, estavam tão novinhos que dava até gosto ver. Umas gominhas de prender dinheiro queriam segurar uns dólares que tinham sido prometidos a elas (até aquele momento, nenhuma verdinha tinha aparecido). Um espelhinho bonitinho era o mais calminho, mas, a todo o momento que a mão de Maria Fernanda esbarrava nele, o danado soltava uma gargalhada seguida de um “pum”, deixando o ambiente da bolsa intragável, e esse fato atiçava ainda mais o protesto dos pertences da menina branquinha. A filha da bolsa vermelha, uma bolsinha com mais de cem bolinhas, estava chorando como uma criança porque até aquele momento a pobre bolsinha de bolinhas não tinha sido usada para guardar nem um batom sequer. A inacreditável bolsa vermelha, que até então se mantinha calada, começou a falar também, reclamava que não estava sendo bem apreciada pela sua exuberante beleza. O caso se arrastou um pouco mais e, a cada minuto que passava, deixava os convidados da exposição boquiabertos e perplexos. Uma situação daquela, ninguém tinha visto e muito menos ouvido falar.

A bolsa vermelha, com seus pertences dentro, estava incontrolável quando a dona dela elevou a voz e disse, em tom de ameaça:

_ Ou vocês se comportam ou saio da próxima vez com uma bolsa mais educada, mais ajuizada e totalmente vazia!

Não houve nem um pio mais dali para frente. A exposição prosseguiu, e os convidados tentaram manter a normalidade, mas, aonde a Maria Fernanda chegava, um grande vácuo se formava. Não sei dizer se era por receio, se era por medo da bolsa vermelha ou ainda por não quererem ficar perto de uma bolsa tão mal educada.

Acredite quem quiser, mas esse episódio deixou a escritora Terezinha Pereira de cabelo em pé, e até hoje ela luta para o cabelo voltar ao lugar. A Ana Luísa, irmã da Maria Fernanda, ficou três noites e três dias sem dormir, acho que foi por medo. Já os outros convidados da exposição juraram nunca mais, nunca mais chegar perto de uma bolsa de cor tão vermelha que mais lembrava um baú de gueixa, se é que gueixa tem baú vermelho.

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Lodo na janela – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 4 de maio de 2010 7:38

Abriram primeiro o portão, que estava emperrado. Entraram a passos lentos e cautelosos e se dirigiram à porta da entrada principal da casa. Olharam o grande acúmulo de lixo, de entulho e folhas secas espalhadas pelo chão. Um a um, dos que entravam naquela propriedade, cerca de três pessoas, uma mulher e dois homens vestidos de branco, demonstravam medo e repulsa a cada passo dado. Caso tivesse passado pela cabeça de algum deles a ideia de dar meia volta e atravessar o portão de entrada às pressas, talvez esse ato se concretizasse sem aviso aos companheiros de missão, mas por sorte ou infelicidade ninguém teve essa brilhante ideia. Continuamente caminhavam, ainda mais cautelosos.

Aproximaram-se da porta da entrada principal da casa. A madeira que compunha o modelo da porta estava tão suja quanto o chão que eles pisavam. Um dos homens de branco fez vômito e, por pouco, não concretizou o ato de vomitar ali mesmo. Conseguiu se conter. Respirou fundo, com os olhos cheios d’água. O outro, um pouco mais centrado, tapou o nariz e a boca para amenizar o odor que vinha de algum lugar. Olhou em várias direções, porém não conseguiu ver de onde vinha tão forte cheiro que lembrava um cadáver em decomposição. A mulher mantinha-se firme na missão que a movera até ali. Pela determinação que demonstrava, parecia não sentir aquele odor que tanto incomodava seus companheiros.

Por fim, tocaram na porta. Mexeram na maçaneta. Estava trancada ou emperrada como o portão de entrada da casa. Forçaram sua abertura, mas não obtiveram êxito. Entreolharam-se. O grupo parecia sem norte… Então o homem que tapou o nariz com a mão dirigiu-se para o lado esquerdo da casa, seguido de seus dois companheiros, que lhe serviam de retaguarda. Andavam mais cautelosos que antes, como se pressentissem algo trágico prestes a acontecer… Chegaram aos fundos da casa e nenhuma novidade se apresentou no cenário do grupo, exceto certo enfraquecimento do mau cheiro (porém sem deixar de se manter presente). Olharam umas tábuas pregadas no lugar onde deveria ser a porta da cozinha. As tábuas e os pregos eram tão resistentes que o pequeno grupo desistiu de entrar por ali. A decisão foi acatada sem que ninguém usasse de palavras, a imagem das tábuas e pregos já traduzia os requintes de resistência da fortaleza abandonada.

Silenciosos, exploraram o outro lado da casa. O aspecto do lugar descia, a cada olhar, ao nível mais baixo de insalubridade, o que fazia com o pequeno grupo se unisse cada vez mais a cada passo dado. Chegaram novamente à porta de entrada da parte da frente da casa. Nada de novo se apresentou, nenhum barulho, nenhuma janela aberta, nenhuma fresta, nenhuma possibilidade de entrar na casa, apenas o mau cheiro que lembrava um cadáver em decomposição se intensificou novamente. Entreolharam-se no mesmo lugar em que momentos antes tinham sentido o mesmo sentimento de impotência. Por um instante, tiveram receio de que não poderiam ter êxito naquela missão. Uma nuvem de desânimo pairou sobre o grupo. O mau cheiro ficou mais forte, como se o vento tivesse soprado, atiçando ainda mais o odor. A mulher aproximou-se da janela de vidro do lado esquerdo da porta e tentou, sem sucesso, ver a casa por dentro. Não viu nada além da sujeira que consumia o vidro por dentro e por fora da janela. Olhou para os dois homens de branco, olhou para o portão de entrada. O mau cheiro tornou-se insuportável. O homem do vômito, que até então tinha se controlado, não se conteve, curvou-se para facilitar a saída do que ele não conseguia impedir mais; jorravam no lixo espalhado pelo chão golfadas generosas do que fora momentos antes uma saborosa refeição. A mulher olhou a janela e, num repente sem explicação e como se já soubesse que teria de ser assim, elevou o braço com toda força que tinha e pôs abaixo os vidros da janela. O homem que tapava o nariz, rapidamente, aproximou-se da janela e conseguiu finalmente abri-la, concluindo o que a mulher havia começado. Em seguida, saltou para dentro da casa e sumiu por entre seus cômodos escurecidos pela ausência da luz do dia. A mulher ficou ansiosa e apreensiva; o pulso esquerdo sangrava devido a um corte profundo provocado pelos estilhaços… O homem do vômito continuava curvado, sem conseguir se mexer para ajudar o companheiro que havia sido sucumbido pela escuridão da casa. Alguns minutos intermináveis se passaram quando subitamente o homem de branco que tinha entrado na escuridão da casa apareceu acompanhado de uma jovem visivelmente abalada e desnorteada; ela tinha um aspecto sujo, usava um vestido velho e rasgado, os cabelos eram grandes e estavam desgrenhados. Parecia mais um bicho que gente. Os dois pularam a janela com habilidades incomuns e correram em direção ao portão de entrada. A mulher e o homem que vomitava correram também e alcançaram a jovem e o outro homem de branco. A jovem corria tão atrapalhadamente que a mulher teve certeza de que era a primeira vez que ela via o mundo de fora da janela. À medida que a jovem corria, seus cabelos acentuavam-se jeitosamente na cabeça, dando-lhe uma aparência de gente, mostrando sua beleza aprisionada há anos no mundo injusto da loucura.

Ao virarem a esquina, os dois homens de branco e a mulher foram surpreendidos pela alegria da jovem, que começou a rir do mundo vivo que via. Sua risada intensificou-se de tal maneira que sua alegria contagiou os dois homens de branco e, por último, a mulher, que também se entregou ao prazer das gargalhadas. Por fim, todos riam e corriam em direção ao incerto.

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A injeção, o braço e as nádegas – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 28 de abril de 2010 6:31

— Bom dia, dona Neusa! Tudo bem?

— Ah, sim! Tudo bem.

— Em que posso ajudá-la?

— Bem, vim por causa de uma injeção.

— Ah, sim. A senhora anda sumida!

— Graças a Deus, meu filho. A gente vai ao médico ou procura uma farmácia quando se está doente. E, louvada seja Nossa Senhora da Guia, há tempos não preciso procurar nenhum dos dois…

— Quem?

— O médico e a farmácia.

— A senhora pode me mostrar a receita?

— Para quê?

— Para ver qual vacina a senhora vai tomar.

— Não tenho receita. Vim tomar vacina contra gripe. Não quero passar o inverno gripada. Deus me livre de ficar enrolada numa coberta, ainda mais sentindo-me solitária como tenho me sentido. Se fosse em outros tempos… Bons tempos aqueles…

— A senhora é viúva, dona Neusa?

— Não.

— Já sei. Não mora mais com o esposo.

— Moro.

— Ah, claro, não dormem mais na mesma cama…

— Dormimos.

— Então…

— Não acontece mais nada, meu filho. No máximo uma sinfonia de roncos e lamentações todas as noites. Bem, vamos à injeção.

— Me acompanhe, por favor.

— Não vai me dar a mão? Tenho oitenta anos, meu filho. Andar por estes corredores da farmácia é como andar num labirinto. Ainda mais que tenho labirintite. Se me der tonteira, saberei que posso contar com seus braços…

— Pode, sim, dona Neusa.

— Ah, mas fique tranquilo. A danada da labirintite não me daria esse gostinho.

— Que gostinho?

— De cair em seus braços.

— Bom, chegamos.

— Tão rápido? Como as coisas boas da vida acabam rápido! Adorei passar por entre essas prateleiras com você, vendo e revendo alguns companheiros.

— Que companheiros?

— Ora, esses companheiros aí enfileirados: Lexotan, Cosopt, Lumigan, Crestor, Corus… aqueles outros de cima… aqueles outros de baixo… Já tive todos eles na cabeceira da minha cama. De alguns deles, já não preciso mais, mas vez ou outra alguns ainda me visitam. A velhice é assim, ficamos abandonados pelos filhos, netos, amigos, aí a gente começa a ter os remédios como amigos. Quem nunca me abandonou foi aquele ali, bem no cantinho da prateira, o Dramin. Um grande amigo que tenho. Mas ando querendo me livrar dele. Tem hora que até de amigo a gente se enfara.

— Bem, aqui a está a injeção. A senhora pode levantar a manga do vestido?

— Ah, não. No braço não, meu filho. Só tem osso.

— Mas é no braço que se aplica injeção.

— Mas, é? E a bunda?

— Que bunda?

— A minha bunda! Você não pode aplicar a injeção na minha bunda?

— Não, dona Neusa.

— Mas por quê? Ela é tão simpática! E tenho certeza de ela que não irá reclamar de levar uma agulhada. Não vá me dizer que você quer que eu me refira à minha bunda como nádegas? Tenha santa paciência!

— Não. Não é isso. Pode dizer bunda mesmo. É que… Eu nunca apliquei injeção na bunda de um adulto, ainda mais de uma senhora! Esse procedimento é habitual em crianças, porque elas têm os braços magrinhos. É por isso que nós, profissionais da saúde, usamos o bumbum delas.

— Olha, meu filho! Se eu tivesse um bumbum, você certamente iria aplicar a injeção nele, mas como tenho é uma bunda… Ah, mas vai ser nela mesmo!

— Dona Neusa! Não!!! Não!!

— Aplique, antes que eu pegue um resfriado!!!

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Viagem ao centro da memória – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 23 de março de 2010 6:48

Devo, antes de tudo, agradecer a Deus por algumas oportunidades que me surgem. Talvez a que mais tem me proporcionado momentos inesquecíveis é a de poder visitar lugares para discutir literatura. Tenho conhecido cidades, povoados e pessoas maravilhosas. E, por mais que essas visitas se tornem corriqueiras, elas são sempre surpreendentes, tal qual uma revelação.

Outro dia, precisamente 3 de março, voltei ao município de minhas origens, Onça de Pitangui. Agora, porém, pela primeira vez como ator/escritor. O evento, chamado de “Encontro com o Escritor”, foi mais que um bate-papo sobre literatura, teatro e contação de histórias. Foi para mim um mergulho nas minhas próprias memórias. O que pareceria ser mais uma atividade rotineira tornou-se, durante o encontro, um reencontro com minha própria identidade. Abri o diálogo invocando a bandeira do município, que possui em sua composição galhos de café (meu primeiro emprego, aos seis ou sete anos de idade, foi de apanhador de café nos cafezais que circundavam boa parte de Jaguara, lugar que nasci). O símbolo religioso presente na bandeira trouxe-me à memória as ações de minha avó Adelina, que tinha muito explicitadamente declarada fé em Deus. A cornucópia simbolizando a abundância de ouro, ali, naquele momento, com todo respeito à bandeira, traduzia a generosidade e o carinho dos presentes: “um ouro de plateia!”.

Após dialogar mais sobre um dos símbolos máximos que tremula imponente, abençoando todo o município de Onça de Pintagui, entrei, por meio das palavras que compõem minhas histórias, no campo mágico dos sonhos – tão parte de nós quanto algo palpável. Então, indo encontro adentro, entre histórias contadas e interpretadas, fui tomado por uma nostalgia gostosa vinda lá do centro da memória – se é que se pode dizer que memória tem centro. Se não tem, deve ao menos ter raízes, porque reconheci, em meio à plateia, duas pessoas que contribuíram na minha infância, na formação de minha base: duas das minhas primeiras professoras − Luiza (morena) e Elaine. Quando eu começava a fincar minhas raízes neste chão de incertezas que é a vida, eu poderia dizer, respeitada a metáfora de ser planta, que delas vieram muito dos nutrientes necessários para que eu pudesse chegar à fase adulta e assim gerar meus frutos. Partindo do princípio de que quem planta colhe, não seria exagero da minha parte metaforizar que aquelas professoras estavam ali colhendo o que num passado distante tinham plantado. Daí a importância dos professores em nossa vida. Só não sei dizer qual sabor tive para elas, levando em consideração que sou fruta gerada por planta entregue aos cuidados delas. Do tempo que fiquei sob suas custódias, só tenho a agradecer o carinho, a dedicação e os ensinamentos.

Outra surpresa aconteceu no dia 12 de março, quando, em contato com a comunidade de Brumado, em Pitangui, fui tomando por vários níveis de emoções ao participar de um encontro maravilhoso no Centro Cultural “Afonso Arinos Rocha Pena”, mais conhecido como Prédio da Estação. O lugar que um dia foi ponto de partida e chegada, de encontros e despedidas, de encanto e desencanto no século passado, agora está totalmente recuperado, a serviço da comunidade, com todo charme e imponência do seu passado de glória. A comunidade se organizou e devolveu para si mesma sua casa de memórias. O que nos meados do século passado servia também como ponto de encontro da comunidade de Brumado, agora é usado como ponto de alcance e ampliação do conhecimento. Lá é sede de um programa de inclusão digital, funciona uma pequena biblioteca, tem espaço para socialização e atividades diversas para a toda a gente de Brumado. É um local onde uma energia viva emerge dos antepassados e respinga nos usuários do presente. A comunidade reconhece e preserva o prédio da estação transformado em centro de cultura, numa notável atitude de preservação das memórias do lugar. Foi uma das apresentações em que mais me desliguei do mundo real, sucumbindo às magníficas concentrações do universo artístico. Saí de mim quando comecei a contar as histórias que tinha programado contar; talvez pela simplicidade e singeleza do lugar e de sua gente, talvez pela composição cênica à qual fui presenteado: eu estava na antiga plataforma de desembarque (da época em que funcionava o trem), as pessoas da comunidade estavam abaixo, no lugar onde passavam os trilhos, sentadas em cadeiras, tendo aos pés um gramado de uma tonalidade verde típica das Minas Gerais. Pus a contar as histórias tal qual os atores da comédia dell’arte faziam lá nos primórdios de umas das fases de ouro do teatro e hipnotizado me vi diante da plateia, que ouvia atenta o desenrolar das histórias contadas. Por um momento, senti que ali estavam também todos aqueles que um dia esperaram na plataforma pelo trem que ligava um lugarejo ao outro pelos trilhos incrustados no chão. Absorvi, inconscientemente, dezenas de histórias que agora ruminam no centro da minha memória para depois ganhar as páginas de um papel qualquer. Só voltei a mim quando terminei e ouvi as palmas da educadíssima plateia.

Dona Nilza, uma simpaticíssima senhora, saiu da plateia e veio até mim relatar que se lembrava de mim quando eu era criança. Veio abraçar em mim um passado vivo em sua memória e de que ela se recordava tão bem: do tempo em que ela abandonava a casa materna e adentrava os serrados que engoliam os municípios para alfabetizar os meninos na comunidade de Jaguara e Barreiro. Tão logo a vi, lembrei-me dela. Não cheguei a ser seu aluno, mas me lembrava muito bem de sua fama de brava e de seus inseparáveis rolinhos presos aos cabelos, discretamente tampados por lenços florais.

Já dona Alice, a secretária de Educação de Onça de Pitagui, assistia a tudo com olhos de uma mãe, atenta ao seu filho… E olhando-a naquele momento, percebi que a comunidade de Brumado é o reflexo dessa sua moradora tão ilustre. Alice – dona Alice: calma, generosa, educada, prestativa, competentíssima e de ações amorosamente explícitas.

Deixei a plataforma do prédio da estação de Brumado, hoje Centro Cultural de Brumado, querendo ficar. Como lá também é um lugar de chegada e partida e como forasteiro que sou, fui em busca de outras estações para nas suas plataformas aportar… (A próxima parada será em Contagem, dia 26, próximo).

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A inacreditável reação de Sílvia Nogueira – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 15 de março de 2010 21:32

Dizem que a fome é capaz de nos fazer praticar atos impensáveis. Acredito cegamente nessa afirmação. A fome é a única capaz de me tirar do sério, me deixa mal humorado, triste, sem paciência, entre outras coisas. Sempre ando com um pacotinho de qualquer coisa para comer dentro da minha mochila.

Outro dia tive uma experiência diga de ser narrada. Tenho duas horas de horário de almoço, que uso para fazer minha refeição, descansar um pouquinho e repor as energias para ficar bem até o fim da tarde. Porém, quase nunca consigo ter as duas horas inteiras para isso. Primeiro porque sempre tem uma situação de trabalho para ser revolvida e acabo resolvendo-a dentro desse tempo; segundo porque resolvo tudo – de pessoal – nesse horário. Acho que todo o mundo faz isso, deixa uma porção de contas, compras, visitas, consultas entre outras necessidades para serem resolvidas na hora do almoço. Eu, em particular, me desdobro para cumprir meus compromissos literários, teatrais, educacionais, pessoais, emocionais etc.

Num desses dias, saí para o horário de almoço e me dirigi às pressas a um banco no centro da cidade. Lá resolvi algumas pendências que se arrastavam há meses. Para ganhar tempo, decidi não improvisar um almoço com a reduzida variedade alimentícia da minha cozinha. De posse desse desejo, fui até um restaurante próximo ao banco, peguei um minimarmitex, escolhi tudo que era possível colocar dentro dele: arroz, feijão, abobrinha verde bem picadinha, salada de tomate, alface e dois pedaços de carne cozida. Estava “varado” de fome.

Saí do restaurante com o minimarmitex dentro de uma sacolinnha de plástico. Peguei minha motinha e fui ligeiro para minha casa. Afastei-me do centro da cidade, cortando um e outro retardatário pelo caminho, entrei na avenida Ovídio de Abreu e acelerei ainda mais a minha motinha possante. A sacolinha, com o minimarmitex dentro, balançava presa no meu braço esquerdo como uma bandeira branca da paz. Parecia que ela tremulava tentando avisar ao meu estômago que o fim da fome estava próximo. Acelerei um pouco mais. Abusei, na verdade, mas foi justificável, pois a fome estava como uma ferrugem dentro de mim, corroendo. Eu ia de encontro ao vento… Mas, eis que, pouco depois do meio da avenida, senti a sacolinha de plástico muito leve. Olhei pelo retrovisor e não acreditei no que vi. Que castigo, meu Deus! Jamais vou andar assim no trânsito outra vez. Foi um aviso, eu sei. A cena é até difícil de descrever: a pobre sacolinha de plástico não suportou a pressão do vento e abriu seu fundo, sem dó nem piedade. Enquanto eu diminuía a velocidade da moto, eu via, pelo retrovisor, dois pedaços deliciosos de carne cozida rolando em direção ao meio-fio. A abobrinha verde picadinha, talvez por se sentir ofendida, ficou onde tinha caído, junto com o feijão. O arroz parecia uma bateria de escola de samba; seus grãos soltinhos quicavam frenéticos pela avenida Ovídio de Abreu. Se estivesse na Sapucaí, tiraria nota dez no quesito animação. Eu olhava a cena, não querendo acreditar nela. A sacolinha de plástico se debatia violentamente no meu braço. Quando dei por mim, eu… eu.. eu quase chorei. (A fome é doída demais, gente!!!) Mas caí mesmo na real quando ouvi a buzina incitante de um carro. O motorista fazia sinal, tentando me dizer alguma coisa. Não quis nem saber. Me livrei da sacolinha de plástico – que me desculpem os ambientalistas – e sambei rumo a minha casa, sem nem olhar no retrovisor. Quando parei no portão de casa, lembrei que não tinha feito compras para repor minhas necessidades alimentícias. Fiz um pensamento positivo e mentalizei uma marmitinha de comida caseira, vinda lá da casa da minha mãe, na roça, me esperando dentro da geladeira – surpresa que vez ou outra acontece quando meu pai vem a Pará de Minas fazer compras. Movido pela fome, entrei em casa igual a um foguete e abri a geladeira. Nada. Nada. Nada. Só um vaporzinho frio pairava dentro dela. Abri o armário, e lá estava um miserável punhadinho de macarrão. Não perdi tempo, hora de almoço passa sempre muito rápido. Coloquei a água para ferver com óleo, sal, um tablete de caldo de galinha e finalmente o macarrão. Tentei não pensar na abobrinha verde para não encher a boca d’água. Mas foi em vão. Enquanto meu “menu” cozinhava, fui ler uns e-mails e respondê-los para distrair o pensamento.

Findado o tempo do cozimento, destampei a panela, e de lá saiu um cheirinho delicioso. Olhei bem para a sopinha de macarrão. A fome aumentou ainda mais. Olhei a sopa novamente, parecia deliciosa, mas estava tão magrinha! Fui até a geladeira e lá encontrei um único ovo. Resolvi quebrá-lo no caldo ainda fervendo para dar àquela sopa um pouco de sustância e dignidade. Feliz por ter contornado todos os imprevistos, quebrei o ovo direto na panela para ganhar tempo. Que arrependimento! Como pude fazer isso? Eu, que sou um cozinheiro de mão cheia!!! Céus, que ato impensado! Oh, destino cruel!!! O ovo − não sei dizer há quanto tempo estava na geladeira − estava estragado. Um odor insuportável impregnou a cozinha e contaminou minha refeição. A sopinha de macarrão transformou-se subitamente numa água de esgoto. Tapei o nariz e olhei para a panela, acariciando meu estômago. A fome apoderou-se de mim de vez, sem clemência. Eu não acreditava no que tinha feito! Esbocei um choro, mas abandonei a ideia do pranto porque não havia ninguém ali para me consolar. Ah, que dó que tive de mim mesmo!!! Jogado à minha própria sorte em companhia da fome. Tomei um copo d’água, enganei a severa e, ali, tendo como testemunhas as trempes do fogão, fiz uma promessa a São Benedito: a de jamais deixar as latas da minha cozinha vazias daquele jeito.

Peguei minha motinha e voltei, mais prudente no trânsito, para o meu trabalho. Cheguei abatido e sem forças. Olhei para minha amiga de trabalho, Silvia Nogueira, e implorei a ela umas bolachinhas que ela guarda na gaveta. Ela prontamente me atendeu. Enquanto saciava meu estômago, eu narrava a ela o acontecido… Quase não acreditei na sua reação: ria da situação como se fosse uma anedota engraçadíssima. Não a recriminei pela reação inesperada. Calei-me diante da visão estupenda de mais um pacotinho de bolacha em sua gaveta…

Mais tarde, pude ouvi-la reproduzir minha tragédia alimentícia a um notável ator/comediante da cidade, Rony Morais. Os dois riram fartamente do acontecido. E eu – pobre de mim – acuado, só pensava no sabor abobrinha verde atirada no asfalto da avenida Ovídio de Abreu.

Ai, que dó que tive de mim!!!

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Meus pés, a cadeira de rodas e a quarta rua – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 25 de fevereiro de 2010 23:29

Há meses abandonei a academia de ginástica, por falta de tempo. E para dar ao corpo a vitalidade necessária oriunda dos exercícios físicos, comecei a fazer cooper quase todo início de noite. Chego do trabalho, faço uma refeição leve, visto uma bermuda, às vezes uma camiseta. Saio pelo portão da minha casa, caminho uns dez metros à minha esquerda, viro à direita e vou em direção ao Patronato, lugar onde se situa uma aconchegante estradinha que ainda preserva áreas verdes.

Atravesso uma, duas, três ruas ladeira abaixo. E é na quarta rua que uma situação, que se repete ao longo desses meses, vem me deixando intrigado e reflexivo. Tão logo termino a parte mais expressiva da ladeira e me aproximo do cruzamento da quarta rua, dou de cara com um senhor cadeirante, com idade para ser meu avô, me aguardado como uma sentinela, pronto para me passar em revista todas as vezes que por lá passo. O que mais me intriga é a maneira como a cena se repete todos os dias, invariavelmente: a composição da rua com suas casas e árvores faz com que eu surja à frente do senhor como uma aparição. Ele, sentado em sua cadeira de rodas, com toda a sua expressão facial marcada pelos anos vividos, concentra sua energia nos olhos, fazendo que com eles se fixem nos meus, intensamente, sem desviá-los. Creio que ele tenta me dizer algo durante o tempo em que meus passos caminham tentando vencer o curto trajeto da quarta rua. Ele imobiliza todos os seus gestos e concentra-se somente no olhar, como um leão à espreita de sua presa. Então termino de subir a parte mais forte da ladeira, ando tentando não olhar para ele, tento manter o ritmo dos passos, atravessando a quarta rua. A situação me gera certo desconforto e não resisto, sou traído pelo meu próprio olhar que, inevitavelmente, desvia-se do olhar dele e caminha pelas rodas da cadeira à procura de sua perna esquerda, violentada por uma amputação à altura do joelho. Olho novamente seu olhar, que ainda não se desviou do meu nem por um instante. A travessia da quarta rua ainda está no meio e, por mais que tento apressar meus pés, tenho a sensação de que eles não me obedecem. Estão visivelmente lentos. A quarta rua é a mais extensa para atravessar no meu trajeto até o Patronato. Então meus olhos desviam-se novamente dos dele e vão em direção à sua perna direita que − dia sim, dia não, dia sim, dia sim, dia sim − aparece enfaixada, anunciando claramente por meio dos panos amarrados que ela também caminha para o mesmo destino da perna esquerda. Não expresso nenhum sentimento no olhar, me neutralizo, para não expressar meu lamento. Olho novamente seu olhar, que continua intenso à procura da essência do meu. Nesse momento, a quarta rua começa a ser vencida e finalmente começo a cumprir meu desejo de atravessá-la. O que para mim desperta alívio, para ele, percebe-se pelo olhar, acentua-se com uma sensação de angústia. À medida que meus pés vão me tirando de seu campo de visão, ele vai se encurvando, tentando me manter preso ao campo de visão dele. Desapareço da mesma forma que apareci para ele: caminhando rumo à minha meta. Atravesso por completo a quarta rua e, em seguida, rompo mais cinco ruas para finalmente ganhar a estradinha que conduz ao imponente prédio do Patronato. Ao entrar nela, tenho a sensação de ter sido transportado para outro lugar, geograficamente falando, pelo clima, pela vegetação, pela arquitetura romântica do enorme prédio do Patronato, cheio de charme.

Corro por um bom tempo, fazendo minhas atividades físicas, e depois refaço o caminho de volta. Atravesso as cinco ruas até chegar novamente à quarta rua que antecede minha casa, aos pés da ladeira.

A cadeira de rodas ainda está lá, imponente, sustentando o velho senhor. Ele está da mesma maneira que o deixei.

A cena novamente se repete como uma cena bem ensaiada de peça de teatro em que, todos os dias, numa temporada, são revividas as mesmas vivências cênicas; porém, ali, nós dois vivemos um drama da vida real, com um final imprevisível.

Às vezes, tenho vontade de parar e conversar. Já ensaiei até um “Boa noite!”, “Olá!”, “Bão?”, mas não sei o que impede a voz de sair; possivelmente é a intensidade do olhar daquele homem que tenta penetrar nos meus para descobrir os lugares onde meus pés me levam. Também tenho receio de possíveis perguntas que ele possa me fazer. A julgar pela maneira com que nós nos comunicamos pela janela da alma, tenho certeza de que ele irá me perguntar sobre a saúde de meus pés. Receio que ele queira tocá-los, não num sentimento de cobiça ou inveja, mas, talvez, por reconhecer neles seus próprios pés que em outros tempos corriam como os meus, hoje, correm. Receio, também, da possibilidade de ter que responder verbalmente a perguntas, de ter que descrever para ele, fidedignamente, o encantamento dos olhos descobrindo paisagens a cada passo que os pés dão, de ter que descrever a sensação maravilhosa do corpo se relaxando durante a atividade física. Ainda em posse da verdade, não poderei omitir a sensação do suor brotando pelos poros da pele, formando gotas que deslizam suavemente pelo corpo até caírem abatidas pelo baque dos pés no chão. Terei que descrever também o vento fresco de início de noite acariciando o corpo quente, os insetos voadores que vêm de encontro ao rosto, braços e pernas, a beleza indescritível da tarde virando noite nas montanhas e vales que dão charme à estradinha do Patronato. Seria cruel da minha parte fazê-lo relembrar a sensação dos pés tocando o chão freneticamente durante a corrida. É provável que eu ouça sua voz pela primeira vez, me falando sobre os benefícios físicos, mentais e espirituais das atividades físicas. É provável, ainda, que ele comente sobre os maus hábitos de inúmeras pessoas que têm pés para caminhar, saúde para praticar esportes, mas, por sedentarismo, preguiça, não o fazem. Terei de falar de liberdade com quem está, irremediavelmente, preso…

Talvez tudo isso que descrevi seja uma alegação sem fundamento, a meu favor, por eu não estabelecer com ele um simples cumprimento. Talvez, honestamente, seja covardia da minha parte. E somente o destino poderá revelar o que nos espera nesta caminhada. E continuamos, ainda, sem nos apresentar um ao outro.

Continuarei a caminhar todo fim de tarde, certo de que, a qualquer momento, no início da noite, descobrirei o segredo que habita a longa travessia da quarta rua.

Paz e bem a todos.

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A atendente e o bom marido – José Roberto Pereira

Por José Roberto Pereira, 30 de novembro de 2009 7:28

− Bom dia! Em que posso ajudar?

− Quero um bom creme para cabelo.

− Para qual tipo de cabelo, meu senhor?

− Tipo?

− Sim, qual tipo de cabelo? Temos aqui na loja uma grande variedade de cremes para diversos tipos de cabelos.

− Ah, sim. Bom, quero creme para os cabelos da cabeça.

− Meu senhor, esta loja vende apenas cremes e shampoos para cabelos da cabeça.

− Ah, eu tinha entendido que era para qualquer lugar que tivesse cabelos…

− Não precisa completar a frase. Queira por gentileza se aproximar da prateleira e escolher qual creme o senhor deseja levar. Temos mais de 600 marcas disponíveis.

− Qual a senhora me indica?

− Qual tipo de cabelo o senhor possui?
− Ah, sim. O meu? Não sei…

− Mas assim fica difícil atender bem o senhor. O senhor não sabe que tipo de cabelo o senhor tem?

− Sei, sim, senhora.

− Então faça-me a fineza de me dizer qual é o tipo de cabelo que o senhor tem.

− Ondulados e bastante volumosos.

− Sim. Claro que são ondulados e bastante volumosos. Dá para ver a olho nu. Mas refiro-me a qual tipo de cabelo o senhor tem. E, se me permite o comentário, percebo que começam a aparecer uns fios brancos aqui e acolá.

− A senhora deve estar enganada! Não tenho nenhum fio branco.

− Aproxime-se do espelho, meu senhor, e confira você mesmo.

− Meu Deus! Não tinha reparado. O que devo fazer, minha senhora?

− Queira por gentileza se dirigir àquela outra prateleira. Ali temos quase todos os tipos de tinturas disponíveis no mercado nacional e internacional. Qual é a cor do seu cabelo, meu senhor?

− Sempre foram pretos, acho. E agora parece que estão querendo ficar brancos.

− Qual número de coloração o senhor tem hábito de usar?

− O quê?

− Percebo que o senhor nunca pintou os cabelos. E acredito que nunca foi ao salão também.

− Salão?

− Olha, meu senhor, temos aqui mais de trinta tonalidades da cor preta. Qual é o preto do seu cabelo?

− Preto.

− Assim fica praticamente impossível ajudar o senhor a se decidir. O senhor pode ser menos evasivo nas suas respostas, por favor?

− Sim. Com todo prazer, minha senhora.

− Qual tom de preto é o do seu cabelo? Preto claro? Preto escuro? Preto médio? Preto azul?

− Minha senhora, me dê a que mais se aproxima do tom do meu cabelo.

− Castanho médio, então. Está bem?

− Sim. Acho que castanho médio vai ficar bom.

− Está levando um excelente produto, meu senhor. Vai cobrir todos os fios brancos. Não sobrará um em toda a sua cabeça. Depois é só retocar de tempos em tempos.

− Cobrir todos os fios brancos?

− Sim. O senhor não quer se livrar deles?

− Não.

− Como assim? O senhor não quer se livrar dos fios brancos?

− Não.

− O senhor está fazendo hora com a minha cara?

− De maneira alguma, minha senhora. Eu jamais faria isso com uma senhora.

− Então vai levar a tinta para tingir os cabelos brancos ou não?

− Não. Não vim aqui comprar tinta para tingir meus cabelos brancos. Eu nem sabia que os tinha. Vim comprar um creme para os cabelos.

− Certo. Deixe a tinta para outra ocasião. Vamos então aos cremes. Qual creme de cabelo o senhor vai querer levar?

− Um que seja muito bom.

− Tome este. Tenho absoluta certeza que este vai atender o senhor.

− Ah, sim. Quanto é?

− O preço está na embalagem, meu senhor. É só passar no caixa.

− Ah, sim. O preço está bom.

− Pois bem. Volte sempre!

− Obrigado, minha senhora.

− Seus cabelos ficarão macios quando o senhor aplicar este creme sobre eles. É bom enxaguar bem após a aplicação.

− Oh, não. O creme não é para os meus cabelos. É para os cabelos da minha esposa, que precisam de um bom creme, porque são bem crespos os cabelos dela. Passar bem, minha senhora.

− Mas esse creme não é…

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Bom gosto – José Roberto Pereira

Por Editor, 25 de outubro de 2009 22:00

Dias desses aconteceu uma discussão aparentemente improvável na cozinha de uma famosa quitandeira. A farinha de trigo, depois de ter sido depositada no tabuleiro de cobre, disse ao açúcar, que descansava numa lata displicentemente destampada:

− Enfim, fora do plástico! E veja você, açúcar, como sou desejada. Sem mim não haveria essa enorme variedade de quitutes que se comem por aí. Tenho certeza de que sou o ingrediente mais importante, uma necessidade básica de qualquer quitandeira.

O açúcar, que despertava de um sono tranquilo, respondeu prontamente, como se já estive há horas acordado:

− Pode até ser, mas sem mim você não teria sabor adocicado, desejado, cobiçado… Sou muito potente, nenhum diabético resiste a uma pequena porção do meu ser. Tenho absoluta convicção de que adoço qualquer ingrediente, dos mais sem graça, como você, até os mais azedos…

− Você não é nada doce com as palavras; ao contrário, acordou amargo! – triturou, letra por letra, a farinha de trigo.

Estavam nisso quando a quitandeira uniu no tabuleiro de cobre o açúcar e a farinha de trigo. E, como uma maestrina digna de quem há anos faz com afinco a mesma tarefa, foi misturando farinha, açúcar; açúcar, farinha… sem se importar se os ingredientes realmente queriam se misturar uns aos outros. A farinha, agora adocicada, perdeu a oportunidade de ficar calada e foi logo destilando sua poeira branca de palavras impensadas:

− Você pode até contribuir, determinando o sabor das guloseimas, no caso, a-do-ci-can-do-as, mas sou sempre a primeira a cair como neve leve no tabuleiro de cobre da quitandeira. E isso certamente me torna um pouco mais importante.

Não houve nem tempo de o açúcar responder; quatro gemas de ovos, rodeadas com suas gosmentas claras, caíram em meio à discussão. E, como uma bomba devastadora soltando estilhaço para todos os lados, as gemas, em coro, foram logo soltando o verbo afiado:

− Estávamos há um bom tempo ouvindo esta lenga-lenga sem limites, essa ladainha sem tamanho de vocês. Esquecem-se de que sem nós não existe meio de tornar as guloseimas mais apetitosas, com cores mais agradáveis aos olhos? Vejam como nós, itens de suma importância numa cozinha, depois der sermos misturadas a vocês, elevamos essa fusão ridícula de farinha e açúcar à condição de massa…

Boquiabertos, o açúcar e a farinha estavam cada vez mais unidos um ao outro e tentavam desesperadamente encontrar o que provavelmente jamais encontrariam: uma resposta à altura daquele insulto gigantesco. A farinha de trigo e o açúcar grudavam-se cada vez mais um no outro sem obter êxito na busca da resposta. Tiveram as cabeças esfriadas − se é que naquela altura tinham cabeça − quando o leite frio caiu como cachoeira da leiteira presa à mão da quitandeira, amenizando o clima e dando seu depoimento, ressaltando, logicamente, sua condição de realeza:

− Meus caros e minhas caras, estamos unidos em prol de uma causa nobre: a da alimentação saudável. Reservo-me o direito de explicitar meu desejo de que restabeleça aqui, no tabuleiro de cobre, a paz. Já é sabido que sou, talvez, não sei ao certo, o mais perecível de todos os ingredientes. Por qualquer coisa, azedo. Uma palavra mal colocada já basta: azedei. E acredito que não vão querer uma massa azedada.

Diante de tal pronunciamento da realeza, nenhum ingrediente disse uma só palavra. A quitandeira, certeira no que faz como o sol que nasce e se põe todos os dias, acrescentou ainda uma pitada de sal à massa, um punhado de fermento e umas gotinhas de óleo de girassol. Depois ligou o forno. Em seguida, untou uma fôrma com manteiga e despejou toda a massa do tabuleiro de cobre sobre a fina camada do derivado do leite espalhado pelos seus dedos calejados de beira de fogão. Essa ação corriqueira da quitandeira reacendeu toda a discussão entre os ingredientes. A manteiga quis impor, usando palavras de baixo calão, sua importância na qualidade final do produto. Gritava, esbravejava absurdos dizendo que, sem ela, qualquer guloseima no fogo se queimaria rapidamente, igualando-se a carvão. Cada vez mais o tumulto tomava proporções sem precedentes. A fôrma, já em vias de entrar no forno aquecido, parecia um mercado livre onde cada ingrediente vendia ou defendia, com unhas e dentes, caso os tivessem, seu grau de importância na receita da quitandeira. A habilidosa senhora, que nem em sonhos imaginava a praça de guerra que se estabelecia ali, pegou docilmente a fôrma com a massa dentro e colocou-a no forno aquecido. Depois de fechar a tampa do forno, saiu cantarolando uma antiga cantiga de ninar e pôs-se a lavar a louça que havia sujado.

Dentro do forno quente, um silêncio absurdo fez-se presente. Cada ingrediente calou-se diante da autoridade do fogo. Tinham certeza de que, se o fogo abrisse a boca para proferir alguma palavra ou para demonstrar alguma posição hierárquica, exibiria sua ira incontrolável, fazendo daquele espaço um inferno de chamas incandescentes. Um a um, cada ingrediente, humildemente, foi dando sua importante contribuição à massa que começava a tomar formas e cores. E o que se via pelo vidro da tampa do forno quente era a materialização da união de cada um.

Passado algum tempo, a quitandeira abriu a porta de vidro do forno e enfiou a ponta do garfo no meio do bolo. Em seguida, elevou-a até bem próximo aos olhos para se certificar do que já sabia: o bolo estava pronto. Pareceu-lhe bom, muito bom, por sinal. O bolo ficou na medida do que a quitandeira apreciava: bem assado e deliciosamente cheiroso.

De posse deste caso absurdo, estava eu saboreando uma generosa fatia de bolo de farinha de trigo em casa materna, pensando comigo mesmo, diante da xícara cheia de leite com café, se tenho agido como ingrediente de guloseima, ultimamente.

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A moça que aprendeu a assar – final – José Roberto Pereira

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Por Editor, 14 de outubro de 2009 6:55

Que cheiro delicioso se espalhou pelo ar. Ela fez tudo sozinha, sem a ajuda da mãe, muitos biscoitos… A pequenina cidade estava em delírio para saciar o desejo de devorar as delícias. A igrejinha fora ornamentada com rodelas de biscoitos coloridos do teto ao chão, nas portas, janelas, torres e bancos. Tudo comestível. A noiva surpreendeu a todos pela originalidade do vestido, causando uma inveja mesquinha nos convidados e na própria mãe. O vestido, de um branco que doía as vistas, continha várias rosquinhas de nata cobertas de açúcar, penduradas. A tiara era uma brevidade com pequenos amanteigados colados, imitando margaridas de cores amarelas e brancas. Sua grinalda chamava a atenção pelo tamanho e pelo cheiro dos biscoitinhos de farinha de trigo e mel, presos em toda a sua extensão, de dar água na boca e de chegar a transbordar, a afogar nos desejos da gula… A matriarca olhava o noivo nos olhos numa demonstração explícita de cumplicidade pervertida. Toda a cidade foi ao casamento, inclusive as formigas, que atormentaram durante toda celebração, causando um grande embaraço no momento do “sim”, quando a noiva gritou, sem querer, um “ai, ai!”. Constrangido, o vigário prosseguiu, acelerando o casamento, não dando a devida importância aos monossílabos da noiva. Estava tomado pelo pecado da gula, estava com uma vontade louca de se fechar dentro da igreja para devorar a ornamentação. Naquela altura, a igreja inteira estava tomada pelas malditas formicídeas. Todos, sem exceção, remexiam-se ao som de: “ui! ai!uiui!” Parecia música ruim em início de quermesse.

Na hora do beijo ─ o primeiro na vida da noiva ─ o inesperado aconteceu: seu batom brilhante, com um resto de caramelo, grudou no bigode do noivo que acabara de virar marido. Ninguém entendia a cena que os noivos encenavam. Lembrava um ritual de acasalamento de tribo indígena. Mas, na realidade, havia no altar uma luta desenfreada na tentativa de desgrudarem-se. Alguns convidados acharam graça. Outros pensaram ser o desejo do marido pelo vestido. O padre estava perplexo, de boca aberta com aquele escândalo em pleno altar. Aos seus olhos, estavam mordendo-se, enroscando-se um no outro. Foi quando a tia quarentona, percebendo o que estava se passando devido à experiência com culinária excêntrica, pegou a bacia com água em que o padre tinha lavado as mãos, correu até o altar e despejou-a, sem miséria nem piedade, nos lábios dos nubentes, desgrudando-os instantaneamente, para alívio dos convidados. A mãe estava com o vestido levantado até a altura da cabeça para abrandar o calor provocado pela cena, talvez pela menopausa.

O tumulto na porta da igrejinha foi inevitável. Todos os convidados saíram correndo igreja afora em meio a picadas, mordidas, gritos, empurrões. A multidão espremeu a noiva de tal jeito que seu vestido volumoso virou uma camisola colada. Os mais espertos aproveitaram a situação para arrancar as delícias pregadas nele. Um assalto coletivo. Nem mesmo o delicioso buquê de tarequinho com cobertura de coco pôde prever quem seria a próxima a subir ao altar. As damas de honra perderam a compostura e tentavam tirar a qualquer custo as malditas formigas que grudavam cada vez mais no cobiçado buquê, que foi completamente devorado. Parecia que o formigueiro inteiro estava ali, para alegria da mãe, que também lutava contra as picadas. As belas perderam a guerra para as feras. As formigas se agruparam na pequena escadaria da igrejinha e se prepararam para correr atrás da charrete dos recém-casados, enfeitada de deliciosos biscoitos de canjica e de tarequinhos com cobertura de chocolate e coco. A igreja foi fechada às pressas. Os convidados disparam praça abaixo à procura de um lugar mais seguro… Bem mais tarde, correu a notícia de que o vigário teve febre de quarenta graus devido às várias picadas recebidas quando ele tentava devorar a ornamentação.

A festa foi cancelada. As danadas das formigas chegaram antes que todos ao salão ornamentado de delícias e devoraram tudo. Todo o acontecido ficou registrado no único jornal da cidade de cento e oitenta e sete habitantes. A noite ficou conhecida como “A noite das egoístas”. Uma matéria de capa criticava duramente as formigas por não dividirem “o pão” e ainda pedia providências judiciais pelo ato egocêntrico. Outro artigo, com uma manchete menor, noticiava que a mãe da noiva havia desaparecido após o casamento e pedia notícias a quem soubesse o paradeiro dela. O fato é que ninguém nunca mais a viu. Atribuíram às formigas o desaparecimento.

A noiva, exímia biscoiteira, ganhou um marido, mas perdeu a mãe. Ao menos chorou pela perda. Sentidamente, chorou.

Depois do tumulto, as núpcias. Ao chegar em casa, ela demorou para tirar o que tinha sobrado do vestido. Sentia medo, ansiedade diante da iminência da sua noite de núpcias. Ficou encostada na janela da cozinha à espera de um chamado, um sinal. Tudo dentro dela agitava-se como uma gema de ovo saindo por entre as cascas após o ovo ter sido quebrado. Apoiada ao umbral da janela, ela olhava longe sem conseguir distinguir nada no vasto terreiro engolido pela noite. Distinguia na escuridão somente o grande pé de tamarindo que se retorcia ao abraço do vento. O céu estava muito escuro. Parecia que seus medos íntimos tinham saído e se alastrado na imensidão. O breu apagara todas as estrelas, a lua. A terra parecia não respirar, como se tivesse sido tragada por inteira e sido aprisionada numa bolha. Depois de abrandar a ansiedade, caminhou em direção ao quarto onde seu marido a aguardava. A escuridão também se alastrou por toda a casa… Caminhava, trêmula, quando foi atirada violentamente sobre o cobre-leito de renda… Tentou passar mentalmente em revista as receitas para distrair as dores que deveras sentia.

Acordou cheia de sono. Não se lembrava de nada que havia acontecido a partir do instante em que ultrapassara o portal de madeira do quarto. Percebeu que estava suja de sangue. Sentia dores por todo o corpo. As pernas não reagiam. Estavam cobertas de hematomas. Lembrou da escuridão da noite. Chorou. Cobriu-se com a renda nova rasgada. Vários biscoitos pesavam sobre sua cabeça. Ficou ali com o corpo inerte por um longo período. Sentiu que não dominaria a revolta que crescia dentro de si. Mais tarde, levantou-se e procurou pelo marido. Bem mais tarde, a cidade contabilizou mais um desaparecimento… E mais uma viúva também.

A lembrança daquele episódio trouxe-a novamente à realidade de seus 85 anos de idade. Apoiada à tramela, desviou os olhos que liam sua história pelas paredes da casa. Respirou fundo, buscando serenidade. Juntou forças para consumar o ato de abrir a janela. Sua mão trêmula, coberta por uma grossa camada de rugas, rompeu a tramela da janela, deixando escapar um ruído seco. Abriu-a muito devagar. Talvez, por ansiedade. Talvez, por medo. Talvez, por falta de destreza. Certamente pelo desejo que a moveu até aquele ponto da casa. A luz começou a entrar timidamente, ferindo seus olhos. Precisou defender-se com a outra mão para se acostumar com a claridade. A emoção que sentiu, quando seus olhos firmaram-se, era tão forte que teve medo de não conseguir enxergar a grande árvore − o tamarindo, tão velho quanto ela, seu mausoléu de íntimos segredos espalhados por entre raízes confiáveis. Soprou um beijo demoradamente ao vento. Sentia-se naquele início de tarde de inverno como uma bandeira branca hasteada em sinal de constante paz e vitória. Viveu entre o céu e o inferno, mas viveu. Naquele momento, gozava de um tempo de paz.

A luz tornou-se intensa. Ela esticou as mãos, tentando se proteger. Queria tocar as raízes da sepultura de folhas verdes e de frutos amargos que mantinha no quintal… Queria perdão. Não conseguiu elevar mais as mãos. Olhou através da janela pela última vez… Depois entrou definitivamente na escuridão que consumia a claridade…

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A moça que aprendeu a assar – 2ª parte – José Roberto Pereira

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Por Editor, 8 de outubro de 2009 5:17

Certo dia ela estava debruçada na janela que dava para a rua, absorta em seus pensamentos de adolescente, olhando o horizonte sem conseguir realmente vê-lo. Estava tão nervosa pelo problema que a consumia que suas mãos suavam em bicas, quando se acalmou subitamente ao se lembrar de uma tia quarentona que certa vez lhe dissera que fazer biscoito era tão fácil quanto fazer uma simpatia. A tal tia gabava-se de que conseguira todos os homens que havia desejado usando as infalíveis receitas que desenvolvera. Acreditava piamente que uma boa combinação de ingredientes produzia biscoitos capazes de enfeitiçar qualquer pessoa, e disso ninguém duvidava – pelo menos aqueles que tinham experimentado suas delícias.

Em posse dessa lembrança, convenceu a si mesma de que também acreditaria nos efeitos alucinógenos que uma perfeita combinação de ingredientes provocavam. Saiu de si, meio que hipnotizada com a solução para seu drama culinário pessoal, e começou a falar os nomes de vários tipos de biscoitos. A voz subia com a mesma rapidez que crescia a empolgação do corpo, que explodia em gestos. Parecia que ela estava quebrando ovos, colocando farinha, amassando massa de biscoito em um tabuleiro… O chão sumiu de repente. As vistas ficaram embaçadas. Perdeu o controle da situação. Berrava nomes de biscoitos e doces. Delirava. Começou a falar com a língua enrolando-se. A cor morena de sua pele faltou-lhe repentinamente. O suor escorria pela face pálida. Caiu, tonta, com um monte de biscoitos voando sobre sua cabeça. Um grupo de cachorros formou-se debaixo da janela. Certamente, atraídos pelos nomes deliciosos das guloseimas que ela pronunciara enquanto delirava. Acordou na sua cama com a mãe toda descabelada e cheirando a coalhada, chamando pelo seu nome. Zombava da filha. Provocava-a. Ria.

Os dias sucederam-se normais, porém cheios de ingredientes, quilos, gramas, ovos, açúcar, leite, farinha, fubá, óleo, gordura, manteiga… Ela enfurnou-se na cozinha da tia quarentona, que atendeu ao pedido da sobrinha e repassava-lhe tudo que sabia sobre a arte de fazer guloseimas. A cada hora passada, ela tornava-se a discípula e se fortalecia com os conhecimentos da mestra, no caso, uma tia de primeiro grau. E, como tinha excelente memória, não anotava uma só receita, guardava tudo na cabeça, receita por receita. Foi juntando em sua memória milhares delas. Virou uma aficionada. Nem parecia que até pouco tempo antes ela não tinha habilidade alguma com quitandas. Fazia biscoitos todos os dias para ela e para a mãe. Depois começou a receber encomenda dos vizinhos; em seguida, da cidadezinha inteira. Sua fama se espalhou, era conhecida como “mãos divinas” e, ao longo de sua vida, venceu vários concursos na paróquia com seus quitutes inigualáveis. Foi aclamada a biscoiteira do ano. Mais tarde, da década. Ganhou fama e prestígio. O vigário não fazia qualquer celebração sem a igreja estar munida de rodelas de biscoitos de polvilho doce; lógico, numa mesa nos fundos da sacristia. Houve um prefeito que andou sempre com um biscoito de banha pendurado em seu pescoço para dar sorte durante todo o seu mandato. Não cansava de repetir sua famosa frase conjugada erradamente: “Foi as mãozinhas da divina que fez”. Não desgrudava de um desses biscoitos nem para tomar banho. Os famosos biscoitos venceram aquelas eleições. Ao final de cada discurso do tal prefeito, milhares de biscoitos eram distribuídos ao povo. Nunca fora cogitada a expressão “voto comprado”. Ninguém queria deixar de comer aquelas delícias de graça. Nem mesmo o rival do político, que aparecia em todos os “colmelícios” , aplaudindo a iniciativa da mesa farta.

Enfim, o alívio! Com a ajuda da tia, não lhe preocupava mais o casamento arranjado pela mãe. Ela nutria o pensamento de que os filhos devem obediência aos pais e, por isso, não se rebelaria contra sua mãe. Já tinha se acostumado com ideia de se casar, planejou que passaria o tempo de sua vida de casada na boca de um forno assando seus biscoitos e certamente seria feliz. Tinha certeza de que “bicoitaria” a vida toda.

Para amenizar a ansiedade dos últimos dias de solteira, começou a fazer várias combinações com os ingredientes. Os resultados aumentaram em dobro sua clientela. Ninguém superava “as mãos divinas”, e tudo transcorreu sem maiores incidentes até seu casamento. Ah, o casamento! Que dia! (continua)

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A moça que aprendeu a assar – José Roberto Pereira

Por Editor, 6 de outubro de 2009 19:35

A moça que aprendeu a assar…

1ª Parte

Ela quis abrir a janela como se quisesse abrir as pernas para dar a luz. Abrir com tanto cuidado, com tanto carinho, que parecia que a janela, rude no seu um século de vida, era o que de mais precioso ela possuía.

Levantou-se da cama com o peso de seus 85 anos de idade com a intenção de caminhar até a janela… Os móveis gastos, que a acompanharam a vida inteira, estavam no lugar de sempre, como humildes servos de longa convivência, e ela sentia uma força emanando deles, impulsionando-a no percurso até a janela para escancará-la como uma boca banguela. Sentia-se gloriosa intimamente. Poderia voar horas seguidas sem se cansar, caso tivesse asas. Porém, estava fraca. Debilitada fisicamente. Poderia cair a qualquer instante. Apoiava-se na madeira lustrada da cômoda para chegar à janela.

O sol já tinha atingido o meio do céu e avançava no seu declínio rotineiro tarde adentro.

Seu desejo em abrir a janela era tanto que trocaria qualquer coisa que lhe fosse possível trocar só para olhar através dela. Quando conseguiu alcançá-la, tocou-a timidamente e acariciou-a por um longo tempo. Tateou a tramela que a mantinha fechada. O pensamento divagou quando sentiu a aspereza da madeira. Reviveu sua biografia escrita nas paredes daquela casa. Pensou em sua filha que não chegou a nascer, na mãe e no esposo, todos falecidos. Onde estariam àquela hora? O pai, ela não conheceu e duvidada se ele realmente existira. Ela olhou a cama e relembrou quando fora brutalmente desposada pelo marido e como seu corpo, sua personalidade, suas receitas, mudaram a partir daquele instante, e como sua filha fora crescendo dentro de si: era como se tivesse recebido um punhado caprichado de fermento…

Sentiu novamente as dores do aborto ocorrido no sexto mês de gestação, muitos anos atrás.

Sua mãe, que Deus a tenha e segure-a por lá para sempre, nunca fora uma mãe zelosa, comprometida com os laços familiares. Nunca conversou com a filha decentemente sobre a vida de uma mulher casada e, nas ocasiões em que tentou conversar, não conseguiu. Às vezes sua fisionomia de mulher vivida mudava rapidamente. Sua respiração ficava ofegante. Ria maliciosamente. Abanava-se como uma biscoiteira em boca do forno a lenha, de tanto calor. Ficava sem ar. Sentia um fogo muito forte tomar-lhe corpo. Corria para o quarto. Fechava-se dentro dele e por lá ficava durante horas. Vindos do quarto, ouviam-se alguns gemidos…

A filha tinha, algumas vezes, vontade de sumir de casa, de abandonar sua genitora… Mãe e filha sempre tiveram problemas de relacionamento. E naquele tempo de menina ingênua, pensava constantemente no casamento, arranjado pela mãe, que não tardaria. No momento era apenas noiva cheia de conflitos que tentava sem sucesso construir um plano de fuga; uma noiva sem conhecimento e sem vontade para o matrimônio, mas era uma noiva. Foi em meio a uma das tentativas de arquitetar sua fuga que um pensamento apossou-se dela por completo, tirando-lhe o sorriso curto: os maridos gostam de mulheres prendadas, e ela era um desastre na cozinha. Num impulso, quis confidenciar à matriarca seu trágico problema doméstico, mas foi impedida pelos gritinhos que ainda vazavam das frestas da porta do quarto materno.

A falta de talento para a culinária causou-lhe um pavor que chegava a sufocar. Ela nunca fora uma boa cozinheira, uma boa quitandeira. E se perdesse o marido por isso? Se fosse abandonada sem ao menos subir no altar? Pois na primeira oportunidade que tivesse iria pedir à mãe para lhe ensinar, principalmente, sobre biscoitos. A mãe tinha mão boa para a cozinha…

Encontrava-se submersa em pensamento quando a mãe abriu a porta do quarto e saiu de lá desfigurada, rindo maliciosamente. A filha, pega de surpresa, decidiu fazer o pedido naquele momento e não esperar pelo depois. A matriarca, ao ouvir aquelas súplicas, riu cinicamente e, num ato calculado, negou ajuda à filha.

(…Continua.)

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