A Cultura Somali e a Clitorectomia – LuDiasBH
O território, que hoje constitui a Somália, era repartido entre ingleses e italianos. Mas, em 1960, os colonizadores partiram, houve a unificação dos dois territórios e nasceu um país independente. Poucos anos depois, a corrupção e a luta entre os clãs, esfacelaram o país, que hoje é um dos mais pobres do continente africano.
As crianças somalis precisam saber de cor toda a genealogia de seu clã. Embora os filhos pertençam ao clã do pai, é importante conhecerem, a linhagem da mãe. Nas guerras civis, o clã a que pertence o indivíduo pode significar vida ou morte.
A linhagem funciona como uma espécie de casta, que é rigorosamente respeitada. Existem clãs superiores e aqueles considerados inferiores, que precisam se afastar para dar passagem a outros. As características físicas e os laços de sangue são levados a extremos. E a intolerância é escancarada. Na Somália, os indivíduos que pertencem ao clã sab, são tratados como párias (os dalits indianos).
Quando dois somalis encontram-se, passam a desfiar toda a genealogia. Se descobrirem que tiveram um antepassado em comum, mesmo que na nona geração, sentem-se ligados como primos. E passam a se ajudar mutuamente.
Na Somália, a educação das meninas é toda voltada para a honra. Elas devem ser fortes, espertas e desconfiadas e, sobretudo, acatar as normas do clã. A desconfiança, ensinam os mais velhos, impede que elas sejam roubadas ou possam se perder. Pois, quem perde a virgindade mancha não a própria honra, mas a do pai, dos tios, dos irmãos e dos primos. Ao desonrar pai, mãe ou irmão, a mulher estará desonrando toda a sua estirpe. O castigo é a morte ou sua proscrição.
Antes de escolher uma esposa, o homem primeiro escolhe o pai da noiva, que deve ter boa reputação dentro do clã. Da moça é exigido que seja jovem, perfeita fisicamente, pura, forte e trabalhadora. A sogra é responsável por inspecionar sua virgindade.
Um casamento não pode se efetuar sem a presença de um guardião da moça: pai ou irmão. E, na falta desses, o parente masculino mais próximo do lado paterno. O casamento consangüíneo na Somália, parte do Oriente Próximo e da África é o mais desejado pelos pais, pois: conserva o patrimônio da família, faz crescer os clãs e os conflitos são logo resolvidos com facilidade.
Uma boa esposa tem que ser uma baari, ou seja, uma escrava devotadíssima, que honra a família do marido e a alimenta sem questionar e nem se queixar. Nunca chora ou faz qualquer exigência. É forte no serviço e traz a cabeça sempre baixa. Mesmo que o marido seja cruel, estuprando-a ou espancando-a, ela deve abaixar os olhos e ocultar as lágrimas. Deve dizer para si mesma que Deus é justo e onisciente e vai recompensá-la no além. De modo que todos ficarão conhecendo a sua paciência e força e haverão de cumprimentar seu pai e sua mãe pela maravilhosa educação que lhe deram. Também estará honrando seus irmãos, tios e primos. Pois uma mulher deve falar com orgulho sobre a sua submissão, para outras famílias, de modo que a família do marido possa apreciar a sua obediência e vir a gostar dela.
Na Somália, assim como em alguns outros países africanos e do Oriente Médio, as meninas são purificadas mediante uma prática considerada abominável no mundo civilizado: a ablação da genitália. Tal procedimento normalmente ocorre, quando a garota completa quatro a cinco anos de idade.
O clitóris e os pequenos lábios são cortados ou extraídos e toda a região é costurada, formando um cinto de castidade, mas de carne. Apenas um pequeno orifício permite a saída da urina. Ao se casar, tal costura é rasgada, brutalmente, para o coito, muitas vezes e cortada à faca pelo esposo.
A mutilação dos órgãos genitais da criança é anterior ao Islã, de modo que não são todos os muçulmanos que adotam tal procedimento. Assim como existem povos que o adotam, mas não são islâmicos.
Na Somália, tal prática é muito usada, de modo que quase todas as meninas são submetidas à clitorectomia. Ali, usam o Islã como desculpa. Mas os imames não desencorajavam tal prática.
As garotas incircuncisas (que não foram infibuladas) são discriminadas e tidas como prostituas, possuídas pelo diabo. A maioria dos homens não se casa com garotas que não foram circundadas. Grande parte das moças solteiras que se engravidam, acabam se suicidando, por não aguentarem a humilhação e os castigos. Muitas se queimam vivas, antes que sejam mortas por pais ou irmãos. Uma criança, filha de mãe solteira, é tratada como pária. Sofre toda sorte de abusos e maus-tratos.
É grande o número de crianças, que morrem durante ou após a operação, de dor e infecção. Outras complicações dolorosas acompanham as futuras mulheres pelo resto da vida, depois de serem expurgadas.
A clitorectomia é feita por pessoas comuns, açougueiros, parteiras, avós, etc, sem conhecimento algum de medicina. Não é usado nenhum tipo de anestésico e as crianças são instadas a não chorar, para não mancharem a honra da mãe.
Após a sutura das partes sangrando, a garota tem as pernas amarradas para facilitar a cicatrização, impedindo-a de andar. Urinar passa a ser outra tortura. As pernas são desamarradas e amarradas de novo, até que os pontos sejam tirados, com a mesma brutalidade, muitas vezes com o tecido ainda inchado ou cheio de pus.
A clitorectomia tem por objetivo impedir que as mulheres sintam desejos sexuais. Mas, segundo informações de mulheres que já passaram por isso, e vivem agora no Ocidente, tal procedimento não elimina o apetite sexual e nem a capacidade de ter prazer. Ou seja, não possui nenhuma outra eficácia, que não seja a de mutilar fisicamente o corpo e levar sofrimento à mulher.
O que vemos na Somália é uma mentalidade feudal, alavancada por conceitos tribais de honra e vergonha, onde as mulheres são literalmente mutiladas, em nome da moral.
Mesmo homens somalis, moradores em países liberais, voltam para a Somália, para buscar uma esposa, sob a alegação de que as somalis de fora do país de origem, são muito ocidentalizadas (vestem de modo indecente, desobedecem aos maridos e se misturam livremente com homens, em suma, não são baarris).
Fonte de Pesquisa:
Reconciliação (Benezir Bhuto)
Infiel (Ayaan Hirsi Ali)
Nove Partes do Desejo (Geraldine Brooks)











