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A Ruiva – Nina Araújo
Celeste pôs-se a calcular as vezes que fizera aquilo. Mas seria diferente agora, dizia para si mesma.
Um moço sensível assim nunca havia visto, e aceitou de pronto, a opção de não ligar a webcam durante as conversas, isso era uma prova de honradez, pensou certa de ter a razão. A prima estava de rabugice como sempre, mas divertia-se diante do relato.
-Celeste, tu ainda vai se decepcionar muito com esses caras! Em site de relacionamento só tem doido! E é claro, tem uma doida também, como tu!
-Ele é pianista Dorinha, combinamos o “date” naquele supermercado que tem a praça de alimentação com o piano.
-Ah é? E como farão?
-Ele estará lá às seis da tarde e tocará Lamento de Lupicinio Rodrigues, veja que tem bom gosto!
A prima soltou a risada frenética, já estava acostumada a ter dessas emoções com a Celeste.
-Sei que não vale a pena dizer, mas já lhe ocorreu que ele pode ser careca, gordo e feio?
-Eu já vi a foto, boba! Ele é lindo! Combinei que vou de azul com uma echarpe bem vistosa.
-Sei…
Naquele começo de noite Celeste sorriu diante do espelho, estava bela. Olhou de cima a baixo e não viu nada que lhe desagradasse. Ia de novo tentar ser feliz, e por que não?
O ambiente estava repleto, era sábado e as familias faziam as compras. Lá da lanchonete ela ouviu o acorde bonito do piano, o homem tocava divinamente as músicas de Milton Nascimento, Roberto Carlos e, quando tocou Lupicinio Rodrigues já uma grande roda de gente havia por perto para apreciar aquela figura tão agradável. O pianista era bonito, usava um terno bege bem cortado, uma gravata borboleta vinho impecável, sapato italiano, lenço na lapela, o cabelo alvo bem ralo, porém, bem cuidado, devia ter uns setenta anos. Tocava compenetrado mas sempre olhava ao redor procurando por alguém, passou os olhos seguidamente em Celeste mas não a reconheceria, ela estava de vermelho, sem echarpe e com a velha peruca ruiva.
Conectada – LuDiasBH e Nina Araújo
Meu corpo traz filões,
onde correm rios de rubis,
cortando planícies e serras,
alma do corpo, psique da terra.
Vou onde vejo o mundo
as casas estão espalhadas
viajo através de mim
poeira de estrela intergaláctica
Sou mina de emoções diversas:
de manhã sou ametisata,
à tarde sou opala ou granada,
ao anoitecer sou turmalina.
Faço abrigo nos veios
anima porção desta estada.
energia emprestada
de cada Luz matutina.
A Borboleta – Nina Araújo
Óh menino, o descampado
Onde pousa a borboleta
Foi frutuoso e encorpado
Enfeitava este planeta
Hoje sem o viço dos rios
Que rodeava os cantos
Parece um escuro manto
À sombra dos desvarios!
Ai de mim, que fui criança
Tão feliz como a borboleta
Ia às margens de barqueta
A confabular com o sol
Via as copas nas matas
Cantava com as andorinhas
E era o amigo dos peixes
Sem fome e nenhum anzol.












