dez 20
Nina:
Ô carcunda peçonhento,
Catinguento, tripa enchida
Bafo de cobra encardida,
Tu tem parte lá c’os burros
Molengo do caxaprego
Zarolho rabo de porca
Focieiro de uma foca,
Troncho, banda de cambito
Mói de palha calculista
Pensando que é repentista
Tu é calo de punguista
É pulga em riba de paca,
Pintou a pinta da vaca
Acocorado das vista
Tem leseira o teu batuque
Pão dormido, pé de estuque,
Vai-te embora , dê sumiço
Eu assumo o compromisso,
Pois sou guieiro de onça
Amanso o cavalo chucro
Dou braço na ligeireza, bom de grito
Sem bambeza e eficiente nos lucro.
Vera:
Ô pingunço duma figa
Tu é cova de defunto
Feiúra que varre o mundo
Chapéu de boi engalhado
Entojo sapo avexado
Varapau dos óio fundo
Coisa ruim que dá no brejo
Tua venta é o sacrilégio
Caninana morimbundo
Língua roxa pau de cana
Fio do cão que se arreganha
Trouxa de buxo de banha
Sem futuro pra rimar
Caritó beiço de imbirra
A desgraça é tua filha
Vai-te embora e eu fico cá
Que eu sou rabeca de xote
Sou mungunzá lá do norte
No forró melhor não há
Dê partida velho bode
Aqui só fica quem pode
Vê se arranja o teu lugar.
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dez 19
Meu São Tulú das Tabocas
Que eu tenha u’a vida torta
Se a boca se acovardar
Mataram mais um anjinho
“Fio “ de pobre, três aninhos
Na esquina ali do bar
Veio tanto tiro rouco
Que caiu poste e reboco
E a rua danou-se a zunir
Onde é que já se viu…
Chover tanta bala errante
Ziguezagueando o passante
Que de susto desmilingüiu
Cheguei a uma conclusão, moço
Eis que estão roubando o morro!
Porque toda criança é um tesouro
Seu futuro é o maior bem que há
Se elas cruzam a violência
É que o homem tem demência
Vive a guerra, o vício, a dormência
Sem ter gosto de acordar!
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dez 19
Ai que me deu nos versos
Parar de interpor o poema
E mais um dilema se anuncia
Quando quero que ele dê cria
Ele pousa de estéril
Tendo ares de alforria
Já foi o dia em que contrariei o poema
Que fique ali pelas praças
Tomando coco, olhando a via
Que discuta com o guarda sua autonomia
Mas saiba que um mote brioso
Carece da luz de uma guia
Ainda que amanheça tonto
De versar entre a rima e a boêmia.
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dez 18
Quando a pupila abre
E o corpo infla de sanha
É que já arde a manha
Daquele andar de sabre
Inerte, simula em mímicas
Poliglota, fia-se em falas
Calhorda, faz tiradas cínicas
Presume-se cheio de marras
Brioso, discursa em rimas
Galante, adeja as falhas
Bajula sem ver que esnoba
Com ares viris se espalha
Leiloa os amores, valores
Na altura dos lumiares
Dança como um predador
Espreita os novos lugares
E tome polca os seus olhares…
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dez 18
O rio lambeu a terra de Adélia Prado
Ali onde havia ponte a água subiu
Sem precisar de escadas
A rua virou um oceano
Coberta de casas naufragadas
Ó Divinópolis, o quer fazer de ti?
Que falarão os teus poetas?
Se os semáforos já não funcionam
E os ônibus insistem em afundar?
O vermelho do sinal não faz este rio parar
Águas de Itapecerica, Águas do rio Pará.
Nhanderú Etê , faça este curso acalmar!
Na escola do menino, na fábrica, na igreja
Que cada olhar nos hospitais te veja
E invoque o teu poder de Deus
Para que essas correntes tinhosas
Virem um canto de passagem
Que o homen retorne à rua
Que o rio encontre a margem.
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dez 17
(à poeta querida Lu Dias)
Casse a empáfia dessa farsa
Casse o olho que te pune
Casse o olor da fala rude
Casse a doce carapaça
Casse o passional ciúme
Casse o despeito presente
Casse o que desoriente
Casse o surto irreverente
De aspereza em pedra ume
Ponha um brilho nessa tez
Ponha desdém no queixume
Extraia da tua honradez
O mais intrépido perfume
E verás de uma só vez
Que a palavra que o mal fez
Não alcançará revés
Porque o teu coração TEM LUME!
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dez 16
Cai o fruto da braúna
Cá no lombo desse boi
Boi de sombra boi malhado
Boi baboso e condutor
Só não sai puxando o carro
Porque a rapadura acabou
Na caatinga roda o mato
Só de prosa co’as fulô
Sem porteira é boi danado
Sem capim é boi ladrão
De Juazeiro é boi santo
De um Beato do sertão
Sendo muito é boi manada
Capataz, cavalo e peão
Vaqueiro tocando a boiada
Tirando voz de um berrante
Sem que a cacimba dê água
E aplaque o sol delirante
Sendo pouco é boi de roça
Que come a palha dos milhos
Alimentando os dez filhos
Do forte sertanejo errante
Que na sequidão garante
Um quinhão de sua sorte
Vendo a terra esturricada
E o boi na peleja da morte.
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dez 15
Mais uma vez Flávio acordou antes do despertador tocar, levantou da cama estendeu as mãos para o céu e disse em voz alta; - Bom Dia Pai de cima peço-te que o Bem me cubra e destrua todo o mal e desde já te agradeço!
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dez 14
O livre arbítrio
Da boca é o beijo
Do desejo a realização
Da tensão é a calma
Da cólera é a contenção
Da balbúrdia é o silêncio
E da inércia é a ação
Mas onde a alma fala ao coração?
No rasqueado do bumbo
Na gira duma catira
Na âncora que finca o fundo
Na corda que vibra a lira
No canto de Maria Callas
Ou na dualidade clara
Das pétalas da margarida
E vão-se os lombos e os seixos
E os quadris e as curvas
E as vontades e os beiços
E os parreirais e as uvas
E as procissões e os beatos
E as avestruzes e os gatos
E as verbenas e os lírios
Enquanto os olhos e os cílios
Disputam o canto da ema
Se pede pausa ao poema
Que anda rimando sem pena
Coisas da vida em delírios
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dez 13
Ainda era uma mulher forte, tinha setenta e três e ninguém dizia. Naquela manhã ia voltar a uma rotina que lhe dava os rendimentos para comprar as coisinhas supérfluas como ela costumava dizer. Por volta das sete chegava à portaria do prédio da patroa de tantos anos, cumprimentava o antigo porteiro e subia para sua jornada de trabalho. Dona Cida era a diarista querida de Noêmia há muitos anos, sua faxina era muito cuidadosa e já que tinha saúde e ânimo persistiam juntas.
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dez 12
Ai que me deu nos versos
Uma copa de umburana
Um naco doce da cana
O jirimum com jabá
E brincar de ter leseira
Da lonjura desta beira
Avistando um teco-teco
Que arrodeia o sabiá
Ai que me deu nos versos
Uma pinga estupenda
O vento cheio de renda
Lambendo o sol no juá
A dor quebrando a tramela
O xote num cimo da serra
Ciscando de madrugada
Sem ver acauã* agourar
Ai que me deu nos versos
Pajear os passarinhos
Num pé de pau de ribeira
Olhando toda estradeira
Vendo o barreiro afogar
E aboiar o gado gordo
Dá guarida a juriti
Que canta em cima das palmas
Até o gavião desistir…
* pássaro do sertão considerado de mau-agouro por atrair a seca.
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dez 11
Iolanda no fundo esperava que amanhecesse num dia assim. O telefone tocou alto tirando-a daquela leseira boa do sono .
Aconteceu de ser naquele sábado de primavera. Atendeu a chamada sonolenta e do outro lado da linha o homem choroso dizia algo já conhecido,ouviu por uns segundos e imediatamente reagiu:
-Como ousa me acordar a essa hora com uma conversa tão velha ? Vá procurar um sabão para lamber, cão contumaz!!!
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