dez 31

1
O espelho reflete o rosto do seu pai: a testa larga, cortada por rugas, os olhos grandes, tristonhos, o nariz adunco, os lábios finos, com o vinco que os repuxam…
- Estou ficando muito parecido.
Conclui sorrindo. Penteia a cabeleira ondulada, cheia, grisalha, igual… Ainda mantendo o sorriso, deixa o quarto, entrando na salinha.
- Vai sair?
Indaga-lhe a mulher morena, na cadeira de rodas.
Responde já em direção do terracinho que o conduzirá após cruzar o jardinzinho, ao portão e daí, à rua estreita.
- Vou fazer a visita.
- Sim.
Ela com o olhar analítico segue-lhe a figura se afastando. O Tadeu está mais gordo? O que é a nossa vida, de repente, nos deparamos velhos, mudados pela metamorfose do tempo. Somos outros seres. Mas assim é a lei natural de tudo. Deus sabe o que faz… Cadencia-se. E o amanhã o que nos reservará?
- Como saber?
Indaga-se, em voz baixinha, libertando o que pensa. E continua refletindo. De três em três meses o Tadeu faz a visita ao jazido, na fiscalização de zelar o que resta do pai… Mas, o que ainda restará do outrora senhor cheio de corpo, forte?
- A lembrança que não morre.
Novamente se resume, na voz sussurrada.
Sim, cada um com seu mundo, sua criação, conduta de vida. Balança-se. Mais tarde, o marido regressará. Silencioso. O rosto fechado, mais tristonho ao encarar a realidade de novamente se deparar com a ausência querida. Cerra os olhos e, sem tardar, adormece.

2
Transpõe o largo portão e caminha entre jazidos. Homens envergados cuidam de aparar ou aguar a grama. Quanta vez já fez esse percurso doloroso, na obrigação de dizer à memória que não esqueceu o pai, que ele o sente presente, na força do parentesco que os une?
Agora parado, de pé, observa o caminho traçado por formigas sobre o verde da grama. Ah, reclamará de Seu Toinho esse descuido, a falta de zelo com o túmulo!
- Bom dia.
Então, reconhecendo a voz de Seu Toinho e se voltando:
- Mas, Seu Toinho, o senhor não tem cuidado do túmulo: as formigas fizeram caminho na grama. O senhor não recebe todo mês para cuidar do túmulo?
Gaguejando, o zelador busca se justificar:
- É que com o verão, as formigas sempre aparecem… Mas, eu vou colocar areia preta no buraco e vou mudar essa grama.
- Espero. Espero Seu Toinho.
Silenciam, enquanto em volta a tarde vai morendo. O céu escurece, as primeiras luzes se acendem na avenida à esquerda. O vento circula mais frio? Alguém grita, chamando um dos operários:
- Samuel!
Então Tadeu e Seu Toinho se afastam, em direções opostas. Calados. Entregues aos próprios silêncios.
- Samuel!
- Já tou indo, cara!
Responde o rapazote próximo e vai saber o que o outro deseja.
O portão. Cruza-o. Adiante, está a parada dos coletivos. Atravessa a avenida, em direção deste. E, de repente, à semelhança das visitas anteriores, sente-se envolvido pela paz. A paz…
Sorri, entendendo. Tudo entendendo.

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dez 24

1
Estou velho, e como sempre acontece com os idosos, chega-me às lembranças.
Achava-me desempregado, e como a agência de propaganda falira, encontrava-me sem saber quando receberia a indenização.
Entrando na sala, minha mulher viu-me no sofá, cabisbaixo, pensativo. Então, inquiriu:
- Seu Rossini disse quando ia pagar sua indenização?
Nervoso, fui lacônico:
- Disse nada. Ele está até viajando.
- E, como a gente fica?
- Ah, quisera eu saber!
Ela, com a voz trêmula:
- O que temos está se acabando.
Não lhe respondi. Contrariado, buscava encontrar uma solução para o nosso problema. Devagar, ela retrocedeu ao quarto. Conservei-me sentado. E ouvi-lhe o choro baixinho. Há quanto tempo que não me deparava sem emprego, e o que era pior, praticamente sem dinheiro… Saber que no dia seguintte seria Natal!
- Ah, meu Pai, me ajude.
Desabafei-me, com os olhos fixos no crucifixo na paredce. Quantos segundos assim fiquei sob uma força que, aos poucos, me dominava? Aline não mais chorava, e deixando o quarto, começou a arrumar a mesa, na sala conjugada.
Vendo-a querendo se prender ao que fazia, sensibilizado, fugi a vista.
De repente, como se soubesse da presença de alguém me procurando, levantei-me para abrir a porta ao homem baixote, gordo que me vendo, indagou:
- É o senhor Ismael?
Quem seria aquele senhor? Rspondi:
- Sim. Mas, entre.
Sorrindo, simpático, ele atendeu.
- O nome do senhor?
- Vieira. Com licença.
Passando, sentou-se no sofá próximo, e foi direto ao assunto que o trazia: Seu Fernabdo Aragão o mandara convidar-me para trabalhar em sua firma de serigrafia, localizada ao centro da cidade. E me estendeu o cartão.
- Amanhã cedinho, compareça nesse endereço.
Emocionado, mal consegui falar:
- Obrigado.
Erguendo-se, ele apertou-me a mão, e saiu. Ganhando a rua, logo se diluiu na noite.
Não havia ainda fechado a porta, quando Aline retornou.
- Quer jantar agora?
- Quero.
Vendo-me sorrindo, ela:
- Por que o sorriso?
Agora, a perplexidade era minha:
- Mas… Você não me escutou falando com um homem?
- Não escutei nada. Só se é porque eu estava na outra sala…
Retirou-se, sorrindo. Ligeiro, olhei para a minha mão, que sustinha o cartão, e prometi-me de que no dia seguinte, iria falar com Seu Fernando.
Então, na repentina certeza de que retornaria a trabalhar, ao contrário das noites passadas, aquela noite dormia-a sossegado.
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dez 18

1
A operária negra, gorda, pequena, para a colega ao lado, enquanto fazem o serviço de contar e amarrar caixas em volumes:
- Depois da morte da filha, Ivoneide anda meio alesada. Mal fala, pensando. Parece que está noutro mundo.
A outra, que é magra, alta, e brancosa:
- Também, Pretinha, com o que a coitada sofreu… Qual a mãe que não fica assim? Uma menina tão engraçada parecendo um manequim, e ser violentada, e encontrada morta num saco plástico? Parece cena de filme de terror.
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dez 11

1
Após ele assinar o recibo da semana trabalhada, a secretária fitou-o e, muito séria, com a voz baixinha:
- Seu Sávio disse que o senhor não precisa mais vir.
Perplexo, ele guardou o envelope no bolso da calça, e esperou que a moça prosseguisse falando, esclarecendo a resolução do patrão. E ela, cabisbaixa, solidária à sua dor:
- O homem avisou que o senhor venha depois, pra falar com ele.
- Tudo bem.
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dez 02

1
O velho estaciona o carro e, como se medisse o gesto, devagar saltando, fecha a porta e adentra no bar.
Sentado no tamborete, o rapaz fitando-o, indaga:
- Tudo certo, seu Gilson? Continuar lendo »

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nov 25

1
Deixa o hospital com a sensação de vazio dominando-o. A que ponto a gente pode chegar! O irmão no leito, amarelo, magro, sombra do que foi: forte, corado, alegre…
- Doença miserável!
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nov 19

- A gente sempre vai ficar assim?
- Não. Um dia, a gente se junta outra vez.
Nos olhos dela, a tristeza se findava, sendo substituída pelo brilho alegre dos olhos pretos. A voz (a voz!) tornava-se outra. Não mais tímida:
- Espero tanto esse dia chegar…
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nov 10

1
Revezava-se com o irmão: trabalhando pela manhã e ele à tarde. No período da noite, o Josuel enfrentava o expediente até as primeiras horas do dia seguinte, enquanto o pai descansava um pouco para também trabalhar, despachando no balcão.
- Que vai querer Negrão?
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nov 04

1
Antunes dorme. A boca meio-aberta, os roncos altos, a respiração pesada, compassada.
Nete observa-o, a porta do pequeno quarto. Aí está o seu companheiro entregue ao repouso, após chegar mais uma vez embriagado da rua. Em que bar (ou bares) bebeu, com os amigos, sorridente, conversador, descontraído, alegre com a vida, enquanto ela, Nete, permanercia em casa, esperando-o, imaginando coisas que poderiam lhe suceder, na preocupação de mulher responsável, sempre lhe zelando em tudo? E depois, ele chegando, o rosto mais moreno, suado, a voz grossa, mudada pelo álcool:
- Nete vamos dar “uma?”.
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out 24

- Senta aí.
Ele atende, ocupando o sofá. E espera. Os passos lentos, pesados da senhora grande avizinham-se. Baixa a cabeça, humilde, obediente.
A voz da mulher então cresce, contrariada, revelando-lhe o estado de espírito:
- Você não devia bater de novo na Maria.
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out 16

1
Ah, precisa conseguir outro emprego. Está ganhando pouco, com a mulher adoentada, o filho para nascer… Sobe a escadaria de degraus estreitos, longa. Uma vez os contou: 110 para chegar à casinha! A noite adianta-se. Das residências laterais praticamente não se ouve sons. Apenas uma ou outra voz mais alta, no diálogo doméstico. Continuar lendo »

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out 04

1
Valdir para o vigilante:
- Vou dar uns “giros”, só por curiosidade… Chego já. Obrigado cara!
O negro sorrindo:
- O senhor é quem sabe. Mas, Seu Valdir, não demore.
- Tá, deixe comigo: volto logo.
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