Tarde cinzenta – J. Carino

Por J. Carino, 3 de julho de 2009 6:32

tarde cinzenta

A tarde de inverno é perfeita. O tempo nublado acinzenta tudo. Mesmo os mais empedernidos cultores da agitação, do barulho, das cores, hoje se rendem a uma certa passividade e melancolia. Os espíritos ensimesmados reinam; os ativos pagam tributo à reflexão. Sem o sol, que provoca a rudeza dos contrastes, tudo é sutil, tudo é suave.

Tardes assim nos reconciliam com o efêmero. Longe das certezas substanciais, ficamos flutuando entre as névoas da dúvida. A superficialidade, que aparentemente plenifica, dissolve-se; acabamos ancorados no porto das insatisfações. E, ao invés de nos perenizarmos como singularidade, desejamos subsumir na névoa… como a montanha e a tarde.

A vida sempre pára numa tarde assim. É como se tudo congelasse. Moléculas, músculos, máquinas e espíritos interrompem seu furor produtivo e se rendem, estáticos, à magia da tarde cinzenta.

Numa tarde assim, não há senão uma coisa a fazer: contemplar. O espírito, carregando consigo um corpo por vezes contrariado, aquieta-se e divaga; torna-se receptivo a tudo: aos mínimos sons, às réstias de luz que atravessam a névoa, ao lento e pesado progresso que tudo conduz para o fim do dia, para o mergulho nas brumas da noite. As narinas absorvem com prazer um odor que parece carregado de umidade; a pele sente o toque enérgico do frio. O langor impõe-se e comanda esse estar-no-mundo como que suspenso por um tênue fio que nos liga, timidamente, à vida ativa.

Nas tardes cinzentas o coração balança entre a paz e a inquietação, porque a calma e o silêncio inquietam. O azáfama anestesia; o não-fazer deixa o espírito alerta – como um nervo exposto a qualquer acontecer.

Não há jamais nada de espetacular nas tardes cinzentas, a não ser o espetáculo da própria tarde. E este é grandiosamente simples: ar friorento, claridade difusa que se perde no cinza, contemplação, inatividade e o contraditório do espírito aguçado e acuado por esse acontecer minimalista da vida.

Na tarde fria e cinzenta, corpos se rendem ao aconchego de roupas macias ou de braços macios em abraços suaves. Somente olhares e corações conservam o fogo das paixões. As vozes agudas e imperativas transformam-se em sons baixos, quase guturais, que muitas vezes convertem-se em sussurros, como temendo quebrar a magia da tarde.

Não nos iludamos com as aparências: não há necessariamente tristeza nas tardes cinzentas. Mas também não existe aquela alegria inconseqüente dos dias cálidos e dourados pelo sol. Existe, sim, um equilíbrio perfeito, numa eqüidistância entre o tédio e a euforia, fazendo-nos caminhar sobre um tênue fio distendido entre o amargor e a satisfação, entre o entusiasmo e o tédio. Tudo isso, porém, só se mostra aqui e ali, em meio à bruma difusa, ao cinza que permeia tudo.

Uma simples tarde cinzenta pode parar o mundo, pode deter a vida. Somente por um instante. Mas talvez apenas nos corações sensíveis.

 

Ouça “Tarde cinzenta” na voz do autor, J. Carino:

 

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7 comentários para “Tarde cinzenta – J. Carino”

  1. Paulo Afonso disse:

    Feita sob medida para o dia que teremos hoje no Rio.

    Outra crônica magnífica!

    Paulo

  2. Terezinha disse:

    Carino,

    “Numa tarde assim, não há senão uma coisa a fazer: contemplar.’ Amei!

    Os mais belos espetáculos que já presenciei, foram-me dados de graça. Pela natureza.

    Abraços,
    TT

  3. Paulo Afonso disse:

    Na verdade, numa tarde como a de hoje, o bom é almoçar, beber um vinho e cair numa cama bem quentinha, coberto até o pescoço.

    É o que vou fazer daqui a pouco.

  4. Hila Flávia disse:

    Dia cinzento, como dizia minha amada e saudosa mãe, é dia embruzinado, ideal para tomar cafezinho de tarde, arrumar gavetas, colocar correspondência em dia e, maior dos prazeres, se enrolar numa coberta fofinha de retalhos, deitar na rede da varanda, e ver o lago pegar a chuvinha fina e fria. Ah! me esqueci, colocar também uns sapatinhos de tricô, que é para os pés não esfriarem. Quando o café estiver sendo passado, sentir o cheiro dele se espalhando pela casa toda, quem sabe acompanhado de uns pães de queijo. Tá bom ou quer mais? Talvez um livro, como o mais recente do Saramago, que está na fila para ser lido. Tem tempo ruim não.

  5. GUTIERRITOS disse:

    J. CARINO

    Magnífica crônica, com impecável português.

    Eu me senti todinho encapuzado, morrendo de frio, triste com o céu cinzento.

    Mas logo fiquei com vontade de ficar em casa, comendo um bolinhos, tomando um café forte e quente, ouvindo a boa música e lendo coisas maravilhosas, como esse seu texto.

    Parabéns.

  6. Jovimari disse:

    Carino,

    As tardes cinzentas me deixam preguiçosa e um tanto melancólica na maioria das vezes.

    Mas essa visão que o texto mostra, de paz e reflexão, de amor e inquietação, de contrastes e superficialidades, de movimento e tédio que apenas os “corações sensíveis” podem perceber é muito intrigante.

    Vou pensar nisso na próxima tarde cinzenta, e assim sentirei o colorido da vida num movimento tranquilo, mas vivo e emocionante.

    Beijo!

  7. J.Carino disse:

    Caros Paulo Afonso, Terezinha, Hila, Gutierritos e Jovimari:

    Obrigado pelos carinhosos comentários. Gente como vocês tem a destinação de transformar mesmo as tardes cinzentas de um autor num dia ensolarado.
    E olha que eu amo as tardes, mesmo quando cinzentas!
    Cordiais abraços.



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