— Mãe, vou matar a senhora. Recebi um aviso de Deus. O mundo não demora pra acabar. O pai já está com o Pai do Céu há muito tempo, a senhora não diz? Agora mesmo, Deus, num clarão, me avisou que o pai quer a senhora junto dele. Fui o escolhido para lhe encaminhar ao Pai do Céu.. Então, logo depois que senhora for, vou para o paraíso também.
A mãe, que cuidava da lida da cozinha, olhou fundo nos olhos do filho de trinta anos, que desde menino cuidara da roça com o maior zelo e que, de supetão, acabava de entrar em casa. Há dez dias, ele estava desaparecido. Por esse tempo, padrasto e vizinhança toda andara léguas e léguas à caça de Tizé, moço que até então havia sido bom de fazer gosto. Desse jeito, sem mais nem menos, surge ele a brandir uma faca com a mão esquerda, a dizer que estava ali para matar a mãe. Na direita, retinha o chapéu de feltro herdado do pai, que não largava em momento algum.
Uma escuridão no céu e um vento forte anunciavam uma tempestade prestes a cair. A mãe havia acabado de juntar os gravetos que secavam no terreiro, que na manhã seguinte bem cedo, teria que atiçar o fogo do forno para assar os biscoitos. Era o seu labor diário, o que dava a toda a família o ganhame para o de comer, que seu segundo marido, pai de suas cinco filhas, punha no jogo tudo o que produzia no mês.
Nesses dias todos, passara ela angustiada, agoniada, aflita, atormentada. Era o único filho homem que morava em casa, que o outro fora buscar a vida na capital. E sumir de casa? Assim… Sem noticiar. Nada dissera a ela, nem ao padrasto, nem às irmãs e nem mesmo aos companheiros de cuidar da roça. E vai que nessa hora, ele chega num repente, falando aquela absurdeza.
Como mãe costuma ser advinha…. A mãe de Tizé passara aqueles dias pensando. O Tizé não estava lá no seu estado normal. Andava falando coisas sem sentido. Acendendo um cigarro de palha no toco do outro. Às vezes, ele chegava até a boca do forno de assar quitanda e acendia dois cigarros de uma só vez. Outras, fazia um cigarro com uma palha de milho inteira e fumava aquele canudo comprido, até queimar os dedos. As crises de riso. Ela percebera. Ficava ele olhando para o céu e rindo. Do nada. Ria sem parar.
Não se sabe se foi devido ao temporal que ameaçava desabar… Entretanto, a mãe sempre dissera que fora a mando de Deus, pois ela passara todos aqueles dias a conversar com seu Pai do Céu. Nesse quase anoitecer, no instante mesmo que Tizé lhe dava aviso de morte, na rua de chão batido de frente da casa, passava uma boiada. Cabeças pra mais de cem. Na mesma horinha, um raio clareou a casa por inteiro. O estrondo de trovão que logo chegou, sacolejou as louças da cristaleira da sala. A boiada debandou-se. Disseram que bois, vacas e bezerros pegaram uma carreira desembestada. Muitos saíram da trilha e foram entrando casas a dentro, que nesse tempo ainda não era preciso de muralhas nem portões para cercar as casas.
Questão de segundos, de minuto durou a cena da entrada do filho com a faca na mão, a dizer que cumpria o destino de tirar a vida da mãe; o súbito clarão de um raio; o retumbar anormal de um trovão, o estouro da boiada. E… o entrar de um bezerro amarronzado na cozinha da casa, olhos de fogo, a encarar Tizé. A mãe, desolada, benzeu-se. Fez o nome do pai, o sinal da cruz. O filho, frente a frente com o bezerro deixou cair a faca e desapareceu.
Algumas pessoas viram Tizé sair da casa na disparada e sumir no pasto perto do ribeirão. Aqueles que estiveram à sua procura, uns homens da vizinhança, alguns até treinados a agarrar garrote dos bravos a unha, não conseguiram agarrá-lo quando ele saía de casa.
A mãe sobrevivera. No seu dia-a-dia, até o dia de seu encontro com o Pai do Céu, quando já passava dos oitenta, ela fazia suas orações a Deus para dizer-Lhe de sua gratidão por haver preservado sua vida naquele dia de único trovão e estouro de boiada. Também era-Lhe grata pela vida de Tizé, que não morrera de fome, nem de frio, naqueles dias de chuva constante que caíra a partir daquela cena de horror. Imaginava o que ele passara, até ser encontrado, um caco de gente, numa loca de um sítio de mata espessa……. Apesar das tantas visitas que passara a fazer ao filho em hospitais psiquiátricos. Porém……… Isso é uma outra história.
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11 de agosto de 2008 at 15:30
Terezinha, é um prazer imenso ler sua narrativa tão envolvente, eu confesso que fiquei gelada,e atenta até a última linha. Maravilha! Agradeço imensamente o seu comentário para Os causos, aquele jeito nordestino de ser, o seu jeito mineiro e tantos outros jeitos,traduzem o orgulho de ser brasileiro, né não?Obrigada mesmo. Beijos poéticos,Nina.
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26 de agosto de 2008 at 14:04
Terezinha,
Tizé pode render muito mais. As visitas da mãe pelos hospitais…
Este é um bom conto. Gostoso. Cativante. Fiquei lembrando da minha última visita ao Museu da Loucura, em Barbacena. É uma lugar muito intrigante, o dia que tiver oportunidade e ânimo, vá até lá.
As vezes que estive lá, ao sair fiquei muito grato pela saúde, pela razão, pela dignidade, pela família, pela casa, por tanta coisa….
Abraço amigo, Luiz Cruz
[Resposta]
26 de agosto de 2008 at 14:16
Terezinha,
Você recebeu meu comentário?
Abraço,
Luiz Cruz
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