Um brasileiro no Zimbábue – 17 mai 2008 – Felipe Balotin

Por Jovimari Balotin, 24 de agosto de 2008 0:10

 

17 maio 2008

Estou aqui na internet do colégio mais uma vez, mas não vou ficar muito. Só pra dizer que a viagem pra Zambia – conferência foi muito legal. Acabei de voltar do acampamento, estou acabado, também foi muito massa.

26 maio 2008

Tudo certinho pelo Brasil? Zim está tudo certo. Ou pelo menos caminhando em direção a isso. Quero dizer, comigo está tudo certo, o que está pra mudar é a situação política e bla, bla. Deram os resultados ontem, oposição fez 47%, Mugabe 43%. Significa que haverá 2° turno, dia 27 de junho. É um ótimo sinal que a oposicão ganhou a primeira parte, tem que ganhar de novo. As ruas vão ficar cheias de cartazes e tudo mais novamente, mo legal. Hehe. Ainda sobre Zim: os preços e o Dollar continuam subindo, agora US$1 esta perto de Z$300 milhões! Lançaram nota de 100, 250 e 500 milhões! (Vi a última hoje, fiquei rindo sozinho, é muito engracado! Você se perde contando os zeros.) É lindo de ver tanto número em uma só nota, muito bacana – pra mim. As notas são tão altas que, por exemplo, a de 500 mil tem a mesma cor e desenho que a de 100 milhões. A de 10 milhões é igual que a de 500 milhões. Eles não tem mais criatividade pra criar novos desenhos, hehe. Em breve haverá notas ainda mais altas, já divulgaram. Agora eu entendi o motivo de dinheiro ‘tão grande’. Explicando: há uns 5, 6 anos o banco fez ‘cheques barrados’ (como o dinheiro é chamado agora), com valores tipo 1000, teóricamente pra ser usado por estrangeiros que viessem passear ou coisa assim, não precisariam andar com tanto ‘dinheiro’ e teria o mesmo valor. Mas aos poucos esse ‘dinheiro’ caiu na mão da população, que começou a usá-lo. Como todos tinham ‘mais dinheiro’ os preços foram aumentando aos poucos, com isso as notas. Por não ser dinheiro real são mais baratas de fabricar. E por esse motivo não usamos ‘dinheiro’, mas ‘cheques’. E temos as notas mais massa do mundo! Ao caminho dos bilhões…

Sobre a minha linda pessoa. Fui resolver sobre minha permissão de residencia, descobri que estava ilegal no país havia mais de 1 mês. Rotary pagou US$100 de multa, agora tenho mais um mês pra pegar o visto de estudante. Ao menos não serei deportado, hehe.

Não sei se havia falado, mas teve um super festival chamado HIFA – Harare International Festival of Arts, uns dos maiores do mundo. Alguns pintores e coisas do gênero, mas principalmente cantores de todo mundo. Também vem gente de todo mundo assistir, muito massa. Havia 2 grupos brasileiros: Trio 202 – 3 caras. Violão, piano e acordeom. Pense nuns caras bons! Tocando ‘jazz brasileiro’ como chamavam aqui. Música popular instrumental. E Andre Abujamra, cantor que faz uma novela agora, e a banda. Ele tem meio cara de louco, toca um tipo de música estranha, mas é inteligente e muito engracado, pelamor! Eu não consegui ingresso pro show deles, estavam esgotados. Aí lá fui eu no hotel, bem ‘super fã’, pedir pra assistir o show. Cheguei falando que era brasileiro, intercambiário, queria assistir mas estavam esgotados. Os caras acharam muito engracado, acharam o máximo eu morando ‘sozinho’ na Africa, nessa idade, com essa lábia de brasileiro. Cheguei com o problema e com a solução, hehe. No final eu entrei no primeiro show como se fosse da equipe, assisti a passagem de som e tudo mais. Pro segundo eles me deram um ingresso. O André estava louco por chocolate, falou que não conseguia achar. Eu tinha metade de um (bem barato, hehe) na mochila. Ele disse que se eu desse pra ele, ele me dava um cd. No final do dia acabei com 2 cds novinhos, autografados, hehe.

Ah, durante Hifa estava trocando de casa. Não mudando de familia, só de casa. O dono queria ela de volta e bla, bla. Eles acharam uma casa um dia antes da mudança! Eu fiquei triste. Primeira vez que me mudo na vida, a casa era tão legal, literalmente me sentia em casa. Agora estamos morando perto de Madagascar, perto de lá longe! Mais de 10km do centro. Kombis são demoradas. Água vem a cada 3, 4 dias. Energia ‘falha’ todo dia, normalmente à noite. Bem ruim. Meu armário não é tão grande, não tenho gavetas, algumas coisas deixo na mala. E ambos meus colégios, normal ou de esporte são longe e fora do caminho, então tenho que pegar kombis. Falei que está dificil pra meu conselheiro, já completei 3 meses, provavelmente trocarei de casa em breve. Falando tanta coisa parece que é o pior lugar do mundo, mas não é thaaat bad. A verdade é que eu dormi lá 3 ou 4 noites, sendo que faz 2 semanas da mudança. Porque estava viajando, Hifa e tudo mais. Enfim, eles continuam legais, Kumbi até me cumprimenta de manhã, coisa fofa. Mas a situacão está dificil, gasolina e tudo mais. Nao gosto de ‘pressionar’, mas não gosto de pegar tantas kombis, também cansa. Mas tudo se resolve, hakuna matata!

Após Hifa e mudança, dia 6 de maio (terça) viajei para Lusaka (capital da Zambia) para conferência distrital do Rotary. Viagem tudo paga, mo burocracia na divisa pra atravessar, eu tava mal e vomitando exatamente na aduana, mas foi legal. Viajar de carro pelo Zimbabue é o que há! Paisagem linda! No Brasil a gente vê plantações em geral. Aqui se vê montanhas, pedras, vegetação africana. A terra está ‘descansando’, hehe. É bonito mesmo… Durante a conferência fiquei ‘passeando’ com duas intercambiárias, do Eua e Canadá que estão em Zambia e voltam pra casa daqui 2 meses. Foi bacana, fiquei indo nos shoppings (tem dois, por sorte perto do lugar da conferência), comprei um boné, fui pela primeira vez no cinema na África, entupi-me de refrigerante, chocolate (Kit Kat, Kinder bueno) e coisas que não são tão fáceis de ver em Zim. Lá me senti em uma cidade grande, verdadeira capital. Harare é grande mas com espírito de cidade pequena. Não sei como explicar. Em Zambia se acha tudo, mas tudo é caro! Caro, caro!! Gastei em 3 dias o que gastaria em 3 semanas. (Claro que não comprei, mas 1 litro de gasolina é US$2 por lá!) Isso porque tudo vem da África do Sul, mesmo frutas e pa. Lá percebi quão longe de casa eu vivo em Zim, mas não via a hora de ‘voltar pra casa’. Legal que meu clube ganhou prêmio de melhor clube do distrito e outro prêmio. Eu conheci uns moçambicanos. Tambem conheci um cara da África do Sul, cujo distrito tem conferência em setembro. Entrarei em contato com ele, quem sabe ir pra lá, viajar com intercambistas do distrito e tudo mais. Farei um plano! Tô louco pra conhecer. Ah, meu Rotary começou a me pagar pocket money. US$50 por mês. Cobre as kombis e alguns chocolates, hehe, é suficiente.

Voltei de viagem no domingo. No sábado ainda estava melhorando, domingo 100%. Azar porque na conferência tinha comida boa, mas eu não conseguia comer tanto. Na segunda fui pro acampamento, 1h30min de Harare. Não foi realmente acampamento, são alojamentos (normalmente pra ‘camps’ de escolas), dormir no chão com colchãozinho e saco de dormir. Mas banheiro normal, comida normal de alojamento, mas lugar muito bom. Meio que me sentia em evento do Interact, bateu saudade.

Era acampamento de liderança. Nos primeiros dias estava ‘away’. Fomos divididos em grupos, gritos de guerras e provas pra trabalhar em equipe e coisas do gênero. No começo estava quieto, achando as coisas meio besta, depois entrei no clima. Fiz nosso time cantar músicas brasileiras, inventei uma versão de ‘Macarena’ com o nome do grupo, pessoal ficou louco. Acharam o máximo. (Sem me ‘achar’, mas todo mundo me conhece. Quando estava caminhando pelo colégio sexta após voltar, todo mundo me cumprimentava pelo nome e eu nem conheco! Perguntando se vou estudar lá e talz.) Havia um lago (gelado pra c!#?@!) com trampolim e escorregador. Nadei uns 3 dias. Um dia de madrugada nos fizeram acordar 1 AM, correr pela ‘mata’ fazendo provas, chato mas bacana. Sempre dormíamos antes das 10 e acordávamos às 6. Quinta-feira, último dia, teve disputa entre os grupos. Umas provas que havíamos feito e subir umas árvores, rolar na lama, bem bacana. (Meu grupo ficou em último lugar, mas isso não conta. Era um bom grupo). Na última noite eu toquei uma música brasileira pra todo mundo no violão que eles usavam pra músicas de igreja. (É um colegio católico. Sempre tinha orações de manhã e antes das refeições.) Também recebi varios ‘parabéns’ pela apresentacação.

Voltei na sexta. Vi professor de música do colégio, antes de viajar fui aceito na Jazz Band. Tenho ensaio na quinta, professor ficou muito contente porque estava precisando de ‘guitarrista’. Quer que eu ensine 2 músicas brasileiras. Também perguntou se posso ensinar alunos mais novos (12, 13 anos) pra mais tarde formarem a banda do colégio. Eles pagam US$110 pelos 3 meses do ‘termo’. 1 hora por semana, não vejo porque não tentar, hehe. Isso tudo no ‘colégio de esportes’. Eles me receberam super bem, disse que posso me mudar e estudar lá, mas como faço aula de shona no outro não faz sentido mudar agora. Provavelmente mudarei para último termo (de setembro a novembro). A parte ruim: esse colegio é mais ‘regrado’, uniforme e terno, gravata, sapato. E todos os meninos têm cabelo curto! Headmaster disse no acampamento que se eu for ‘usar o colégio’, mesmo que pra esportes, tenho que cortá-lo! Fiquei triste, vou pedir pra abrir uma exceção ao lindo brasileiro. Mas se preciso cortarei, sem problemas.

Essa semana voltarei a treinar futebol e rugby, jogos na sexta e sábado. Tour de rugby pra África do Sul foi adiado pra julho. Não tenho mais detalhes. Semana que vem irei ao Prom da Harare International School, funciona como escola americana. Baile de formatura é mo chique, roupa, lugar e tudo mais. 15 dollares, mas formatura é só uma vez por ano, né? Hehe. Não vejo a hora de me vestir formalzinho de novo. Presidente do Rotary me chamou pra uma viagem no começo de junho. Não lembro o nome do lugar, mas é onde ela considera lugar mais bonito do Zimbabue. Tipo acampamento, ir pescar, sem energia, animais em volta, paisagem bonita. Ela vai com a familia, mas achará lugar pra mim, hehe.

Bom, é isso. Espero não ter esquecido de nada ‘importante’, mas todo dia tenho coisas novas. É legal viver em um lugar diferente. Um dos músicos brasileiros disse que viver fora ‘de casa’ é essencial. E intercambiária do Canada disse que leu não sei onde que Zambia e Zimbabwe são os dois lugares mais difíceis de se adaptar. Achei legal, mas nem foi tão dificil assim.

01 junho 2008

Passei a manhã inteira mandando email para amigos, procurando contatos na África do Sul – estou encarando essa tarefa como prioridade. Há um tour em Cape Town, só intercambiários em novembro! Fiquei muito contente. 15 dias, um monte de coisa massa pra fazer. Mandei email pra organizadora, não sei se aceitam intercambiários de outros distritos, mas quem sabe. O preço é assunto para outro email, hehe… E esse mesmo distrito tem conferência em setembro, eles falaram que sem problema de eu ir.

Após uma semana cansativa, muito colégio, muitas kombis, venho descansar, hehe. Olhem meu almoço de hoje: arroz, frango e batata, bem no estilo que você faz, vó!

Vou explicar meu grande feito. Estava eu entrando na kombi a caminho de casa quando todos resolveram sair da kombi. Pensei – vão pegar carona. Acho que não expliquei, se expliquei farei de novo. Nos horários de pico (manhã – indo para trabalho e tarde – voltando pra casa) dar carona para estranhos é normal. Seja na caçamba, seja dentro do carro. Porque de manhã todos vão para Town (centro) e à tarde o cara que quer dar carona vai para determinado local. Exemplo: eu pego a kombi para o aeroporto, desço no caminho. Se o cara vai para perto do aeroporto ele oferece carona. Fui claro? Se não fui, paciência. Carona é bom porque é metade do preco da kombi, e tambem ajuda o motorista porque é um dinheiro extra, sendo que ele não alterou sua rota. (Não sei quem começou com essa, mas funciona bem! Bem interessante).

Voltando a historia, todos estavam descendo da kombi e indo em direcao à traseira do caminhão. (Caminhão tipo do exército, deveria ter tirado uma foto.) O negócio é que branco em kombi é raro, em caminhão: nunca vi! Mas pensei: que mal tem, né? Fui falar com o motorista (com roupa do exército): vai pra onde? – Airport. – Eu paro um pouco antes do Aeroporto, Falcon golf course. – Jump in! E lá fui eu na traseira do caminhao. Feliz da vida, hehe. Único branco, cabelos compridos ao vento. Na caminhada de onde eu desci até em casa fui cantando Sabão Cra-cra – pra vocês verem a alegria do garoto, hehe!

Cheguei em casa, perguntei pra Grace se era seguro fazer isso. Ela disse que é mais seguro Kombis e bla, bla. Mas era caminhão do exército, não tinha erro. Lawson disse que sempre pega, que não faz muito mal não.  Enfim, tinha que contar, foi bacana.

Cortei meu cabelo pra ser aceito na ‘escola de esportes’. O problema é que ainda não fui aceito, hehe. Meu conselheiro deve ler a carta lá na segunda, mas acho que não tem erro – espero. Até que gostei do meu cabelo, bem mais facil de cuidar…

Estava a falar com Lawson, perguntei se eu era branco ou colorido. Ele disse que não sabia como me ‘descrever’, mas o padrinho de casamento dele estava lá, e me descreveu assim (depois Lawson concordou): Olhando meu braço, eu sou colorido – porque não sou branco, nem negro, mas encardido. Mas olhando meu rosto dá pra ver que sou latino. E minha vida continuou a mesma. Só pra contar..  :-)

Que mais? Ontem fui ao cavalódromo – não lembro o nome do negócio! Ver corridas de cavalo. Primeira vez, mo legal. Parece filme, nos 400m finais o volume aumenta, aquela tensão no ar e bla, bla. Bem bacana. O pai dela trabalha la, disse que o cavalo vencedor da 2ª corrida seria tal porque ele é o melhor. Apostei 2 bilhões! Ele ganhou, peguei 3 bilhões de volta! Acreditam? (Agora 1 bilhão é mais ou menos 2 reais… Haha.) Tenho que mandar uma foto das notas ‘proceis’, sao coisa linda!

Bla, bla, bla… Acho que e isso.

Até a próxima pessoal.

 

 

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Um comentário para “Um brasileiro no Zimbábue – 17 mai 2008 – Felipe Balotin”

  1. César Augusto Pereira dos Santos disse:

    Olá amigo,
    Achei muito interessante sua viagem por Zimbábue.
    Sou brasileiro, tenho 29 anos e gostaria de estudar inglês e francês na África, mas sem ir para aquelas escolas convencionais. Você acha isso possível?
    Grande abraço,
    César



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