Um breve estudo hipocorístico – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 7 de dezembro de 2009 6:47

Um breve estudo hipocorístico*

Não adianta! Apelido é algo que não consegue me tirar do sério. Desde quando eu era criança, passando pela crítica época da Academia Militar, de onde quase ninguém saiu ileso, que tentam. Dos mais idiotas aos mais criativos, nunca conseguiram colocar um que “assentasse” bem em mim. Já tentaram: Dandão (meu irmão, que tem síndrome de Down, quando era mais novo e tentava me chamar de grandão), alma branca, Zé Gotinha, criado com vó, Tricogaster* e até Papai Noel.
Na minha pouca experiência eu posso dizer que só há duas maneiras de rebatizar alguém, em definitivo, com uma alcunha: ou você olha para o indivíduo e não enxerga outra coisa senão aquela característica ressaltada no apelido, ou tem que contar com a indignação do sujeito que, como se diz lá nas bandas do nordeste, “pega ar” e quer partir pra briga. Como ainda não descobriram um que me fosse inegável, nem eu me irrito com a brincadeira, vou seguindo incólume.
Sei que também há o caso dos apelidos que são diminutivos do próprio nome da pessoa: Zé, Dani, Ju, Gui, e por aí vai… mas isso já faz parte do pacote original escolhido pelos pais na hora do registro e não conta para os propósitos deste texto.
Assim como o Mário Prata em seu livro: “Minhas mulheres e meus homens”, observei que também tenho uma lista de conhecidos com nomes e cognomes, se bem que não me recordo de nenhum tão fantástico quanto o que ele mencionou: “açucareiro”, o coitado tinha a cabeça grande e redonda e ainda adornada por grandes orelhas de abano. Assim fica difícil, não tem nem como contra-argumentar, tá na cara (e nas orelhas) que a coisa vai pegar.
Mas, voltando à minha lista, posso dizer que, fazendo um breve estudo hipocorístico, achei exemplos bem interessantes:
Baré: para quem não se recorda, a “Baré Cola” era um refrigerante vendido em garrafas daquelas de cerveja (600ml), pela metade do preço de um convencional. Feita a introdução, vamos à história: quando eu era mais novo, todas as vezes que terminávamos uma pelada, tinha um amigo que só tomava Baré Cola, e ainda zombava de nós dizendo que tomava mais e pagava menos (até daria uma boa campanha publicitária). De tanto tomar a tal da Baré Cola, ganhou o apelido de “Baré”. Com o passar do tempo, só o chamávamos assim. Um dia fomos à casa dele, para convidá-lo para a pelada e, depois de tocar a campainha, a mãe dele nos atendeu. Eu e os colegas olhamos para ela e começamos a frase: “- A gente veio aqui pra chamar err… eeerrr…”, parecia que estávamos com amnésia, o nome não saía e não tínhamos a coragem de perguntar pelo “Baré” para a mãe dele. O impasse continuou por algum tempo (uma eternidade para nós), até que ela perguntou: “- Vocês querem falar com Baré?”. Com um sorriso amarelo de alívio, dissemos que sim. Ela se voltou pra o interior da casa e disse: “- Igor! Tem uns amigos teus aqui”. Nesse exato momento, um olhou pra cara do outro como se quisesse perguntar: “- Vocês sabiam que o nome dele era Igor?”
Outra figurinha carimbada na relação é o Chico Singular: o cara faltou às aulas sobre o plural na escola e, ainda por cima, desenvolveu uma certa alergia ao “s”. Num de seus famosos discursos ele saiu com esta: “- Estimaria, inicialmente, dar os parabém aos cadete, por ter representado bem o nosso estado nos jogo acadêmico”. Será que ainda precisa explicar alguma coisa?
Também não ficaria de fora o Rarrô, eletricista de confiança da família há anos. Tudo começou quando ele era criança e tinha problema de dicção. Sempre que ele estava brincando na rua e a mãe dele o chamava, ele respondia: “Rarrô, mãe!”. Ficou assim, até hoje, mesmo depois de ter resolvido o problema fonoaudiológico. Ah, fui descobrir o nome dele não faz muito tempo.
Mais um que não pode ser esquecido: Alice. Alice é o apelido de um policial que trabalhava comigo, de quase dois metros de altura e pesando uns 130kg. Há controvérsias sobre a origem do apelido, entretanto, o fato é que ele, simplesmente, sai do sério quando o chamam, carinhosamente, dessa forma e responde: “- Alice é a mãe!”. A hipótese amplamente disseminada, e que ele insiste em dizer que não passa de “intriga da oposição” é a de que seria o nome de uma mulher que o traíra, mas que ele teimava em não acreditar na suposta infidelidade. Na contramão da história, tenho de admitir que ele era um dos melhores apelidadores que eu já conheci, autor de pérolas como: Leão Tosado. O apelido foi tão perfeito que embora nunca tivéssemos visto um leão tosado, era só olhar para o infeliz que teve o azar de receber a alcunha e visualizar a imagem.
A lista é enorme e daria um livro, igual ao do Pratinha, mas como eu ainda não estou com essa bola toda para escrever um livro, tenho que encurtar o texto para caber numa simples crônica.
Uma possibilidade seria escrever periodicamente outros capítulos sobre o mesmo tema, afinal, é injusto não falar sobre o Rato de Laboratório, o Zé Pinguim, o Kalunga, o Nananinha, o Sahara, o Chuck, o Pimpolho, o Cara de Cavalo, o Tatu, o Kiko, o Tchank, o Mulungu, o Boca de Véia, a Queixo de Tamanco, o Zé Mentirinha, o Sabiá Ranzinza, o Filé, o Marinara, o Tabaquinha… E aí? Se achou na lista? Se não, não se desespere, só tenha um pouco de paciência e espere os próximos fascículos.
Do Timor, com carinho,
Gus,
Díli, 05/12/09

* Tricogaster – peixe também conhecido como: Gourami ou Trichogaster. Predominantemente branco, o corpo costuma ser oval e alongado
* Hipocorístico – Qualquer palavra de valor afetivo, usada no trato familiar, pela qual se designa carinhosamente a pessoa na intimidade e que representa uma simplificação ou modificação do nome, espécie de apelido ou alcunha.

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?
Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com

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12 comentários para “Um breve estudo hipocorístico – Augusto Vilaça”

  1. manoel.rodrigues disse:

    Oi, Augusto

    Muito bom seu texto.
    Ao longo da vida, eu tive alguns colegas cujo nome eu não sabia, só o apelido, recordo-me agora de um que chamávamos de Pezão (não me pergunte por quê, eu não tenho a mínima ideia), outro que chamávamos de Robocop ( o cara era motoqueiro, tomou um tombo e teve que colocar pinos pelo corpo inteiro), outro de Sapão (também não sei o motivo), etc.
    Na crônica deste domingo, o João Ubaldo, numa de suas geniais crônicas sobre a Ilha de Itaparica, falou num tal de Zé Merdinha. Eu ri muito.
    Abraços
    Manoel

    Augusto Vilaça respondeu:

    @manoel.rodrigues, Isso é mais normal do que a gente pensa e não tem nada a ver com a idade e essas coisas, é o costume mesmo. Sem entrar em detalhes, temos apelidados famosos que acabam, em algumas circunstâncias, até mesmo inserindo o apelido no nome.

    Ah, só pra constar, também conheço um Robocop.

    Vou lá conferir o texto do Ubaldo RIbeiro.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  2. Terezinha disse:

    Oi, Augusto,

    Não sei se estava sumida eu ou sumido estava você.
    Tudo bem aí no Timor?

    Acabo de consultar o compadre Aurélio. Ele me deu direitinho o significado do tema de seu texto. Hipocorístico é vocábulo que acaba de surgir no meu glossário mental.

    Interessante um leão tosado. Logo me vieram perguntas. Quem tosou o leão? Foi quando o leão dormia?

    Quanto à sua lista: não me achei nela. e se diz para esperar, espero.
    Curioso: alcunhas para indivíduos do sexo feminino são mais raras. Será que mulheres tem o estopim mais curto?
    Abraços,
    TT

    Lu Dias BH respondeu:

    @Terezinha,

    Vilaça

    Tenho uma maneira muito peculiar de chamar as pessoas pelo nome que julgo parecer mais adequado, para mim, eu acho.

    Você, por exemplo, é Vilaça (ou Vila).
    Aqui temos Gutie, RoseRubi, Cris, Cris Panterinha, TT, Nel, MaTê, PA, Aninha, Rapunzel, Pat….

    Penso que o brasileiro seja o povo mais criativo em relação aos apelidos.

    No interior mineiro, ninguém tem sobrenome, mas pertence a outro.
    Maria de Zé Coco, Joaquim de Lucila, Cione de Augusto, Lúcio de D. Mariquinha, Ana de Zé Pega… e por aí vai.

    Na escola, no trabalho, nos folguedos, ninguém passa impune.
    A melhor coisa a fazer é não ligar.
    Pois, quem liga fica rotulado pelo resto da vida.

    Há menos de 15 dias atrás, trabalhei no Bazar Griffe (todo ano é realizado em BH), em que todos tinham apelido.
    O mais engraçado era o dado a um rapaz: BAGUNÇA.
    Havia também outros bem mais tenebrosos.

    Concordo com a TT

    Muito boa a sua crônica.

    Abraços,

    lu

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Lu Dias BH, P.S.: Prezada TT, ehehehe desculpe a falha…

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Lu Dias BH, Vixe, tô confundindo tudo e nem bebi nada…

    Os apelidos carinhosos são sempre bem vindos, é difícil alguém se chatear com eles. Já os que fazem uma caricatura do indivíduo, ihhh… se bem que, nessa vida, devemos sempre procurar razões para sermos felizes, não para nos estressarmos, não é mesmo? Quanto a mim, como disse (e parafraseando a Kelly Key): “Tô nem aí!”

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Terezinha, Prezada Lu,

    Eu dei uma diminuída na produção de textos, que passaram a ser semanais. Também calhou de haver as férias do Paulo e pronto! Mas estou de volta, devagar e sempre (igual ao Rubinho).

    Saiba que os nomes com os designativos de “posse” também são muito comuns no nordeste, em especial no interior. Afora esses temos alguns interessantes como: Chicuriu, Biu Frito, Losmar, Antôin de Guéga e por aí vai… muitos eu nem saberia como grafar de maneira a que a pronúncia ficasse igualzinha.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Terezinha, Lá embaixo, onde se lê: “Prezada Lu”, leia-se: “Prezada TT”, não sei o que houve comigo hoje, ehehehe, confundi tudo…

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Terezinha, Ah, só complementando (já baguncei tudo mesmo…), eu conheço um monte de mulheres com apelidos também, ehehehe, só que elas não aceitam a brincadeira facilmente. Imagine se você fosse chamada de: “Queixo de tamanco” ou “Cabeça de Côco”?

    Terezinha respondeu:

    @Augusto Vilaça, Também conheço. Mas é menos comum.
    Em minha cidade há um par de gêmeas, que já passam dos 60 de idade. A Rosa e a Tereza. Até hoje se vestem da mesma forma. São conhecidas como “par de jarras”.
    TT

  3. Sonia Quartin disse:

    Amigo
    Quando eu era adolescente tinha na turminha o Fubá. Diziam que “engrossava atoa” como o fubá. Só o chamavam assim.Um dia os amigos foram chamá-lo em sua casa e um deles perguntou para sua mãe: O Fuba está? No que ela respondeu:
    Aqui não tem nenhum fubá. O meu filho se chama Roberto, nome muito bonito”
    E todos ficaram com a cara no chão. Mas ninguem mais esqueceu o nome do Fubá e passaram a chamá-lo então de “Roberto-Fubá”!!!
    Otimo texto, como sempre muito engraçado e leve.
    Beijos Sonia Quartin

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Sonia Quartin, Prezada Sonia,

    Eu também conheço histórias sobre um “Fuba” (assim mesmo, sem o acento, como é costume no nordeste), só não sei como ele recebeu o tal apelido.

    Também é interessante que a história do Roberto-Fubá é bem parecida com a do Igor-Baré. É isso que eu gosto nos meus textos, quando alguém se identifica, gosto de escrever sobre algo que aconteceu comigo, mas que pode acontecer com qualquer pessoa que esteja lendo.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

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