Um livro itinerante – cap V – O medo
Capítulo V – O medo
Gabi correu para pegar o ônibus. Se perdesse esse, não sabia quando passaria um outro. Na beira da calçada, tropeçou em alguma coisa. Parecia ser um embrulho… Não! Era um livro! Agora não podia ver direito. Seu ônibus estava encostando. Botou o livro na bolsa para ler na condução. Teria tempo de sobra! Mais de uma hora até chegar em casa. Constatou aliviada que havia um lugar para sentar junto à janela ao lado de uma senhora parecendo cansada. Pediu passagem e, se acomodando, examinou a capa do livro. Em letras grandes estava escrito: “Poesias”. Que bom! Poderia se distrair enquanto viajava até a casa. E era mesmo uma viagem! Abriu ao acaso e leu:
O MEDO
Afinal,
De que você tem medo?
Qual é seu mal, o seu segredo?
Você tem medo de que?
Estremeceu. Aquele livro era mágico? Bruxo? Advinha pensamentos, sentimentos? Mais uma vez tinha sentido medo! Medo de se expor diante dos outros. Recuara diante do primeiro impulso. Gabi, uma simples caixeirinha de loja, tinha um sonho. Simples, como simples era sua vida: entrar numa aula de dança de salão. Achava tão bonito! Devia ser gostoso dançar! Fazer amigos! Sentia-se tão sozinha no quartinho abafado onde morava na casa da tia. Família no interior. Que saudade! No entanto, todo dia, ao voltar do trabalho, seu ônibus passava em frente a uma “academia de dança”, como anunciava a placa colocada sobre a janela de um velho sobrado. Então, ouvindo a música que descia até ela, ás vezes o riso de alguém, seu coração batia mais forte! Muitas vezes quis saltar e entrar para conhecer aquele lugar, mas desistia sempre. Cadê coragem?
De onde vem seu medo?
Da escuridão vivida
No seu quarto de criança
Que ficou lá no passado?
Onde seu medo mora?
Qual foi sua raiz?
O que lhe fecha a garganta, agora,
E lhe trava o gesto?
Tímida, desde criança! Desde quando, aos nove anos sua professora organizou um teatrinho no fim do ano escolar. Coisinha pobre de interior. A personagem principal seria a fada da natureza. Desde o início sonhou ser essa fada! Escolhidos os papeis, a fadinha ficou com a menina mais bonita da turma. E da família mais importante, também. Claro! A ela coube o papel de uma árvore. Ficaria, no fundo do cenário, de pé, sem se mexer e a única coisa que diria, no final da peça, levantando os braços, supostos galhos dessa árvore tosca, seria gritar com todos os demais: “Viva a natureza!” Não quis participar. Inventou uma dor de barriga de última hora. Desde então se fechou na sua timidez. Nunca mais se atreveu sonhar com coisas impossíveis e nas quais ficaria exposta.
Tem medo de mudar?
De arriscar a sorte?
De se jogar
Na roleta da vida
Que não para de girar?
Mais tarde, já morando no Rio de Janeiro, quando o ônibus passava por aquele sobrado, seus olhos subiam até aquela janela como se algo estivesse lhe chamando: “Academia de dança. Aulas noturnas!
E aquela música… Ficava ecoando em seus ouvidos por longo tempo.
Então se imaginava a rodopiar pelo salão, leve e solta. Girando, girando… Girando… Como fazia aquela pequena fada do teatrinho infantil.
Quem lhe impede jogar,
Pra valer,
O jogo da vida?
Aquela poesia acabava assim, com uma pergunta instigante: Quem lhe impede se jogar no jogo da vida? Por que não? Afinal, já não era a menininha, medrosa de sua falta de jeito, de sua pobreza. Era uma adulta e não fazia mal se, de início, pisasse o pé de seu par. Todo mundo paga mico, muitas vezes, pelos salões dessa vida! E a roleta da vida continua a girar! Não para, não espera!
Levantou e, rápido, procurou a porta da saída. Faria a matrícula naquela academia! Faria as aulas de dança! Decisão tomada!
Era a fadinha que despertava no palco da vida.
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SÔNIA
Como estive viajando e não pude acessar, como gostaria, o Alma Carioca, estarei – prometo – lendo todos os capítulos do Um livro Itinerante e farei o comentário.
Gostaria de ler todos eles, com calma, assim, perdoa-me, mas quero compreender a história toda, de forma a fazer meu comentário de melhor qualidade, que possa seus textos, sempre de grande nível e excelência, devem merecer.
Até mais.
abraços.
SÔNIA
Maravilhosos. Todos eles, inclusives as poesias e as histórias a elas ligadas.
Nem sei quais deles eu gostei mais, pois realmente são lindos, trazendo, cada um deles, um ensinamento, uma razão de agir e se conduzir, penso que uma resposta a muitos problemas que temos em nossa vida.
Penso que as poesias foram muito inteligentes e sensíveis e os liames, que as ligaram para os fatos e as vidas daqueles que a leram, foram magnificamente engendrados.
Ficaria com a historia do aborto, que mais me sensibilizou, pois é um drama que se passa, infelizmente, em milhares de vidas no mundo todo.
Quanto ao medo, penso que é mais um dos momentos de nossa vida, que temos que buscar forças para vencê-lo. Penso que todos passamos por isto, de uma forma ou de outra e o enfrentamento natural pode ser movido pela leitura de um texto, como a linda poesia que fizestes.
Parabéns
Ah, vou continuar lendo os capítulos e, de ora em diante, e comentá-los, se Deus quiser.
abraços.