Vai uma auto-ajudazinha aí? – Augusto Vilaça

Por Augusto Vilaça, 4 de novembro de 2009 7:24

Hoje, abri a carteira e não tinha um único centavo. Não foi a primeira vez em que isso me aconteceu, e é provável que já tenha ocorrido com algum de vocês também. Talvez motivado pelas notícias da crise mundial, as oscilações das bolsas e a grande desvalorização do dólar em relação ao real, me veio à cabeça aquela velha e mentirosa máxima (perdoem-me aqueles que concordam com ela): “o dinheiro não traz felicidade”.

Não sei se já se aperceberam disso, entretanto os grandes defensores e disseminadores de tamanha lorota são, exatamente, os que já estão tão cheios de recursos monetários, que quanto maior lhes é a fortuna, mais trabalho eles têm para contá-la e decidir como gastá-la, e isso pode parecer algo penoso e desagradável. Queria vê-los convencerem alguém, que não tem nada do que eles têm, a lhes dar razão.

clip_image002Nunca fui fã e nem ocupei meu tempo lendo livros de auto-ajuda, também não pretendo criar uma visão mesquinha e egoísta, contudo creio que um escritor que se dedica a publicar um livro com os “segredos para acertar na loteria” teria um retorno financeiro muito maior se aplicasse seus conhecimentos (desde que, efetivamente, funcionassem) para ganhar nos tais sorteios do que esperar o baixo retorno financeiro resultante da venda dos livros.

Então, meus caríssimos, em verdade eu vos digo: muito cuidado ao seguirem os conselhos de vida de “gurus” que pregam o caminho da felicidade através da total libertação do “vil metal”. Se eles estivessem tão desapegados assim, não se empenhariam tanto em escrever, divulgar e vender, isso mesmo, vender suas receitas maravilhosas de uma vida perfeita. Pelo contrário, eles a distribuiriam gratuitamente, pelo simples prazer de fazerem os outros felizes, ou não eram essa a intenção?

Por falar em auto-ajuda, atualmente é quase impossível não encontrar alguém vendendo fórmulas miraculosas para a solução de qualquer problema: “como ganhar dinheiro e ser feliz”, “como não ganhar dinheiro e ser feliz”, “você é do tamanho dos seus sonhos” (e seu chefe do tamanho do seus pesadelos), “fique rico sem trabalhar”, e segue-se uma infinidade de temas, mais ou menos pitorescos ou hilariantes.

Aproveitar-se da ilusão e do despreparo alheios, que, no meu pouco conhecimento de direito, é definido como fraude, acaba por ser o caminho mais curto para escrever best-sellers e fazer fortuna. Agora, eu nunca vi uma pessoa centrada, equilibrada e consciente de suas habilidades e competências endeusar escritores e perder seu tempo com verdadeiras lavagens cerebrais dignas daqueles sistemas de venda em pirâmide.

Em uma única pesquisa na internet, experimentei buscar o verbete: “auto-ajuda” e encontrei nada menos que 4.270.000 resultados e olhem que nem usei nenhuma variante. Isso só serve para provar a disseminação de tais “mapas do tesouro” entre nós. Olha aí, até gostei do termo: “mapa do tesouro”, pena que, pelo que vemos, só quem consegue chegar até o “X” e encontrar a arca escondida é quem escreveu e nunca aqueles milhares que os compraram, enchendo, assim, o baú de moedas.

Não sei… Pode ser que eu esteja errado e nadando contra a corrente, afinal eu escrevo as minhas crônicas com a intenção de arrancar sorrisos de quem as lê, de torná-los pessoas mais felizes. Nem assim eu consegui uma única editora que quisesse publicar meus textos. É bem provável que eu tenha comprado o mapa errado.

Taí uma boa ideia. Vou começar a pensar em algum problema que aflija a humanidade, vou desenvolver uma técnica qualquer de mentalização e rumar ao sucesso literário. Se tantos já conseguiram, por que não eu? É só imaginar! Foco nas minhas capacidades! Eu sou capaz! Eu sou capaz! O sucesso está ao meu alcance! Tudo depende da minha garra e determinação. O mundo está aos meus pés, basta olhar em frente e seguir adiante.

Teve jeito não. Por mais que eu me esforçasse e buscasse atrair só os fluidos positivos, não apareceu nem uma moedinha sequer na minha carteira. O vendedor olhou para mim como se não tivesse entendido bulhufas e com cara de “o que é que eu tenho a ver com isso?”. Não tive alternativa a não ser me desculpar e devolver o pacote de pão. Amanhã eu me lembro de pegar dinheiro antes de sair de casa.

Do Timor, com carinho,

Gus

Díli, 21/10/09

Augusto Vilaça tem 33 anos e é brasileiro de nascimento, pernambucano de registro, sertanejo de coração, policial por vocação, honesto por convicção, cozinheiro por enxerimento e escritor por falta do que fazer. Querem mais?

Todas as segundas com uma novidade no Blog Notícias de Muito Longe: http://aavs1976.wordpress.com

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12 comentários para “Vai uma auto-ajudazinha aí? – Augusto Vilaça”

  1. Maria Vicença disse:

    Augusto!!!

    Gostei muito do seu texto. Ralmente, como existem fraudadores neste mundo de Deus. E como você bem disse, se fosse tão fácil achar a “arca do Tesouro” eles distribuiriam gratuitamente pelo simples fato de fazerem os outros felizes.
    Que lógica heim?!

    Um grande abraço.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Maria Vicença, É isso mesmo amiga, o fenômeno da auto-ajuda e das receitas milagrosas chegou para ficar. Desde que tenha um público desesperado a ponto de partir em busca de tais gurus, isso vai continuar sendo uma fórmula de sucesso.

    Eu que não entro nessa! Ou melhor, não entro como leitor, como escritor, é um caso a se pensar… deve dar dinheiro, dada a quantidade de autores com seus best sellers no mercado…

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  2. Paulo Afonso disse:

    A fórmula para o sucesso é o trabalho. Claro que existem outras fórmulas (alguns prefeitos as conhecem bem) não recomendadas.

    Uma coisa que acho importante: cada um deve visualizar aquilo que deseja e estabelecer metas para atingir o objetivo. Mas também não adianta estabelecer objetivos e metas impossíveis de cumprir. A coerência é tudo.

    Não desanimar nunca!

    Abraços,

    Paulo

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Paulo Afonso, Meu prezado Paulo, outro dia eu li no MSN de um amigo meu: “As pessoas dizem que eu sou um cara de sorte, o fato é que quanto mais eu me esforço, mais sorte eu tenho…”, é a pura verdade.

    Não existem fórmulas mágicas, existe o esforço de cada um e pronto. Se todos se apercebessem disso, até mesmo os escritores de “auto-ajuda” teriam que se esforçar um pouco mais.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  3. Hila Flávia disse:

    Dinheiro realmente não compra felicidade, mas a falta dele é complicada. Agora, especialista em auto-ajuda se ajuda muito. Profissão boa.

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Hila Flávia, Já ouviu falar no cantor e compositor Falcão? Se analisarmos as músicas dele, deixando um pouco de lado o aspecto puramente cômico, é possível perceber um alto nível de crítica social.

    Numa de suas obras ele escrever uma verdade ululante: “O dinheiro não é tudo, mas é 100%”. Infelizmente vivemos em um mundo que gira em torno dele e a falta dele já é um passo enorme para uma infeliz dor de cabeça.

    Agora, que parece ser fácil fazer os outros acreditarem em receitas fantásticas de sucesso, fortuna e felicidade, ah isso parece…

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  4. GUTIERRITOS disse:

    GUS

    Eu também.

    A Cidinha havia levado até a carteira ao supermercado.

    Eu fiquei assim procurando-a em todos os aposentos de minha casa.

    Mas logo chegou, com a carteira vazia.

    Gastou tudo.

    Agora até pensei: bem que poderia ter sido a carteira do Gus – não havia nenhum centavo – e aí não restaria tão pensativo.

    Gostei do teu texto, principalmente quando mencionas a auto-ajuda.

    Inclusive, estava pensando: como ser feliz sem ganhar ou ter dinheiro ?

    Acho que neste caso o auto-ajuda não irá servir para nada.

    Brincadeira a parte, Gus, há dois dias, postei o ” Dois Córregos, amado Torrão “, onde mostro minha cidade. Gostaria que desse uma espiada.

    Quem sabe um dia, vamos nos reunir lá, tomarmos uma cervejinha juntos, com toda a família, comer um churrasco preparado à moda Timor Leste ?

    Gus

    Bom dia aí em Timor Leste.

    Boa noite aqui em Dois Córregos -

    Puxa vida, e pensar que já falaram Dois Corgos.

    Inte ( herança mineira )

    Augusto Vilaça respondeu:

    @GUTIERRITOS, A nossa herança linguística é mais forte do que nós. Nem se preocupe, já ouvi muito esse tipo de sotaque e convivi com ele (adaptado à minha região nordestina).

    Você disse o que eu quis transmitir: “como ser feliz sem ganhar ou ter dinheiro ?”, é uma pergunta muito difícil de ser respondida.

    Quanto à leitura de textos, eu estive ausente, de folga, por uns dias. Tanto que atrasei o envio do texto dessa semana. Mas está anotado, ainda hoje será devidamente lido e comentado.

    Fico sempre feliz em receber suas opiniões sobre os meus textos. Espero que a presença seja sempre frequente.

    Obrigado mais uma vez pela visita.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  5. Jovimari disse:

    Gus,

    Concordo. Nada de milagres! É muito fácil ter bons pensamentos quando tudo está bem. Agora, na dificuldade, na doença, na falta de comida quero ver acreditar nestes gurus…

    Aproveitando deixo aqui o convite para a 5ª Conferência Internacional sobre Felicidade Interna Bruta FIB, de 20 a 23 de novembro de 2009 aqui em Foz do Iguaçu.

    “País rico nem sempre é país feliz – PIB não é tudo. Felicidade é.”

    Li hoje no nosso jornal local que o Butão foi quem sugeriu o FIB – o Butão é um país de menos de 700 mil habitantes encravado nas montanhas do Himalaia e que até 1974 era um país fechado para o turismo.

    Seria este FIB uma estratégia de marketing?

    Mas que felicidade e dinheiro e conhecimento dão alegrias, isto não há dúvidas.

    Beijos de felicidade!

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Jovimari, Você está correta, o que deve importar é a nossa busca incessante pela felicidade que varia de pessoa para pessoa.

    Boa essa ideia de de criar a FIB, quem sabe funciona?

    Por outro lado, não é das coisas mais fáceis ser feliz quando falta tudo, não é mesmo? Aí não tem auto-ajuda que dê jeito.

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça.

  6. Ana Lucia disse:

    Gus querido,
    Balela pura esta tal história de que dinheiro não traz felicidade. Outro dia eu cheguei a discutir com um amigo ‘zen’ quando ele tentava me fazer engolir goela abaixo um guru que surgiu aqui no sul. O cara prega o desapego e o despojamento. Eu de cara lhe perguntei: ‘ele passa seus ensinamentos de graça?Não! É rico.’ O que me fez lembrar de um outro que era o maior colecionador de Rolls Royce. Assim, malandro, até eu! Beijo.
    PS – não deixe de ler: Emagreça comendo…rsrsrsrs

    Augusto Vilaça respondeu:

    @Ana Lucia, Bezerra da Silva já dizia: “Malandro é malandro e mané é mané…”. É muito fazer pregar o desapego aos bens dos outros. Cadê ele para dar o exemplo?

    Mas o pior é que eu tô começando a me convencer de que a coisa funciona… Quem sabe eu não lance algo no campo de auto-ajuda em breve? Só assim realizo o sonho de publicar um livro, afinal, até agora nenhuma editora se interessou pelas minhas crônicas…

    Obrigado pelo comentário.

    Do Timor, com carinho,

    Augusto Vilaça

    

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