Vaidades e vontades – Jovimari Balotin

Por Jovimari Balotin, 10 de outubro de 2009 5:58

Sou presença constante no mesmo salão de beleza há bastante tempo. Constante, não necessariamente fiel e nem frequente. De tempos em tempos mudam os personagens desde meu mundo estético e então cabelos, mãos, pés, pelos, pele tornam-se responsabilidades de profissionais desconhecidos.

E por que mudo? Quase sempre a frustração é com o corte do cabelo. Uma tesourada a mais ou a menos e minha desilusão me leva à migração total.

Ah, mas fala sério! Essa tal de vaidade consegue cansar a pouca beleza, que em busca de muita beleza, me faz perder horas na futilidade das luzes, reflexos, cortes, esmaltes, ceras. São tons, cores, navalhas, tesouras, alicates que vibram em mãos hábeis e ágeis, e me torturam.

Ontem o dia foi do novo. Novo salão, nova cabeleireira, nova manicure. E desta vez o que me chamou mais atenção, foi o atendimento. No antigo salão, sendo conhecida há mais de 20 anos, quase passo despercebida. Estão tão acostumados comigo, que nem me notam. Simpáticos nos cumprimentos e profissionais no atendimento, mas sem novidades. Claro, eu deixei de ser novidade!

É tão comum e normal a preocupação com o novo que se esquece de agradar o velho, mesmo que o velho seja presença incontestável e possa ser visto com um olhar novo, todo novo dia.

Seria o poder da ilusão na originalidade? Afinal, o novo é sempre estimulante. É novidade que anuncia inovação, que combina com diferente, que assemelha com energia, que transmite vida.

Logo na recepção um “Bom dia!”, sorridente e acompanhando meu nome com pronúncia exata. E a seguir um “Aguarde um instante e logo será atendida!”, “Aceita um café, água, uma revista?”– eu estava adiantada alguns minutos.

Enquanto lia algumas frivolidades, observava a organização, limpeza, decoração, luminosidade – sim, tudo era novo a mim também – e o todo era um ambiente agradável, clean; e uma agradável sensação de bem-estar chegou até mim.

“Vamos lavar?” – uma voz gentil e leve me despertou de meus pensamentos. Simpática, minha nova, futura ou ex cabeleireira, me conduzia como se eu fosse a pessoa mais importante naquele momento e lugar. Enquanto perguntava sobre meu cabelo, ia dando sugestões. Gostei dela! A experiência lhe dava segurança no manuseio da tesoura e a calma me transmitia tranqüilidade.

Cortou, secou, me agradou e ainda disse que meus cabelos são bonitos e jeitosos. – eu também acho! E percebo que elogios sinceros dão vida ao coração e a alma.

Em seguida, outra amável profissional. Minha sobrancelha foi aparada e delicadamente minhas unhas das mãos foram tratadas e pintadas. Eu queria cor clara, mas ela me convenceu do vermelho. Disse que a naturalidade de minha unha mostrava que eu estava saudável. – sim! E estou.

Saí de lá com a leveza de uma manhã linda e ensolarada de primavera, com a alegria de uma criança ingênua e com a beleza provável de um sonho bom e na possibilidade impossível, com o charme de Hollywood!!

Se eu voltarei? Para que os retornos aconteçam é preciso que haja objetivos e que eles saciem anseios e desejos, e que os desejos sejam mais do que simples vontades, que sejam opções de escolhas – livres, mutáveis e agradáveis.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Não poderia Camões ter pensado em vaidades ao escrever estes versos?

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14 comentários para “Vaidades e vontades – Jovimari Balotin”

  1. manoel rodrigues disse:

    Oi, Jovimari.

    Embora eu descenda diretamente do Camões ( pelo menos através da pátria), não tenho cá a certeza se era sobre isso que ele falava. Não descarto, no entanto, essa possibilidade. Esses gênios (Shakespeare, Da Vinci, etc)estavam séculos adiantados em relação à época em que viveram; além do mais, não tenho dúvidas que as mulheres das suas épocas também eram vaidosas e bonitas e, falando especificamente do Camões, conhecendo o sangue que corria em suas veias, tenho a certeza que ele apreciava o material (material no bom sentido, frise-se).
    Jovimari, você escreve muito bem. Conseguiu transformar uma simples ida ao cabelereiro num texto de primeira.
    Por coincidência, ontem fui cortar meu cabelo. Chovia muito. Lembro que escolhi um profissional que estava disponível, nem sei o seu nome. Sei que gastei 25 pratas, e que a tarefa toda me surrupiou 20 minutos da minha vida, que ele nem deixou que eu os aproveitasse adequadamente: não me deixou ler o jornal enquanto trabalhava, pois insistia em falar sobre as telhas que o temporal e vento haviam arrancado. Acho que queria minha contribuição pecuniária.
    Abraços e parabéns pelo texto e estilo. É uma delicia ler o que você posta (não gosto dessa palavra).
    Abraços
    Manoel

    Jovimari respondeu:

    @manoel rodrigues, Obrigada, Manoel.

    Eu também acho estranha “posta”…;) mas não é estranho receber elogios, é sim uma delícia!

    Vaidades, conversas, mulheres, palavras…e olha o que achei:

    MUDAM-SE OS TEMPOS…

    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    muda-se o ser, muda-se a confiança;
    todo o mundo é composto de mudança,
    tomando sempre novas qualidades.

    Continuamente vemos novidades,
    diferentes em tudo da esperança;
    do mal ficam as mágoas na lembrança,
    e do bem (se algum houve), as saudades.

    O tempo cobre o chão de verde manto,
    que já coberto foi de neve fria,
    e, enfim, converte em choro o doce canto.

    E, afora este mudar-se cada dia,
    outra mudança faz de mor espanto,
    que não se muda já como soía.

    Beijo!

    manoel rodrigues respondeu:

    @Jovimari,

    Oi, Jovimari
    Muito bonito esse poema.
    Ele me remeteu à musica do Renato Russo, “Mudaram as estações”.Ei-la:

    Mudaram as estações
    nada mudou
    Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
    Tá tudo assim, tão diferente

    Se lembra quando a gente
    chegou um dia a acreditar
    Que tudo era pra sempre
    sem saber
    que o pra sempre
    sempre acaba

    Mas nada vai conseguir mudar
    o que ficou
    Quando penso em alguém
    só penso em você
    E aí, então, estamos bem

    Mesmo com tantos motivos
    pra deixar tudo como está
    Nem desistir, nem tentar,
    agora tanto faz…
    Estamos indo de volta pra casa

    Mudaram as estações,
    nada mudou
    Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
    Tá tudo assim, tão diferente

    Se lembra quando a gente
    chegou um dia a acreditar
    Que tudo era pra sempre
    sem saber
    que o pra sempre
    sempre acaba

    Mas nada vai conseguir mudar
    o que ficou
    Quando eu penso em alguém
    só penso em você
    E aí, então, estamos bem

    Mesmo com tantos motivos
    pra deixar tudo como está
    Nem desistir, nem tentar,
    agora tanto faz…
    estamos indo de volta pra casa

    Abraços
    Manoel

    Jovimari respondeu:

    @manoel rodrigues, Que bela lembrança!!

    Beijo!

  2. Lu Dias BH disse:

    Jovi

    Você acaba de nos presentear com uma deliciosa crônica, que como ninguém sabe escrever.
    Como disse o Manoel, em suas mãos qualquer assunto vira preciosidade.

    Para quem não sabe, a Jovi foi outra amiguinha que eu trouxe para este blog.

    As considerações que você faz sobre o novo e o velho são bem interessantes.

    Mas, as coisas estão mudando.
    A globalização, o grande nível de concorrência, vem tornando o mundo mais educado, mesmo que, como uma forma de receber maiores dividendos.

    O tratamento, reservado ao cliente, jamais poderá cair na indiferença.
    Ele deve ser tratado sempre como o máximo de carinho possível.

    O ser humano, talvez em função da finitude da vida, é extremamente carente, principalmente aquele de nariz empinado, que nos quer passar uma visão de prepotência.

    A educação, o carinho e a meiguice derretem qualquer barreira de mau humor.
    Acho que seja essa a nossa principal ferramenta para viver bem.

    Você deve estar mais linda ainda… feito uma diva de Bollywood …

    Grande beijo,

    lu

    Jovimari respondeu:

    @Lu Dias BH, Obrigada minha madrinha!!

    Ah, Lu!!! Bollywood não! Vão lá querer me colocar lenços e assim vão esconder minhas madeixas!!!

    Beijo!

  3. Cristine disse:

    Olá Jovimari,

    O que chama a atenção em sua crônica é como a gentileza faz milagres; acredito que se você tivesse ido a um salão bonito, com profissionais competentes mas secos e distantes, não teria saído de lá tão satisfeita. A simpatia e a gentileza das pessoas fez a diferença.

    É triste ver que muita gente não dá valor a essas palavrinhas simples, a um sorriso, a uma gentileza… com elas a vida seria melhor para todos! E isso não significa gentileza por interesse, mas uma simpatia genuína para tratar a todos; e felizmente, ainda vemos isso por aí, como você pôde constatar.

    Grande abraço, e um ótimo final de semana!

    Jovimari respondeu:

    @Cristine, Obrigada, Cris!

    Você tem razão em tudo. E como o sorriso natural desarma qualquer cara fechada.

    Beijo!

  4. GUTIERRITOS disse:

    JOVIMARI

    “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Não poderia Camões ter pensado em vaidades ao escrever estes versos? ”

    Não me passa pela cabeça que teu texto tenha tido a intenção apenas de explorar nosso sentimento de vaidade, na visita ao cabelereiro.

    Não.

    Acho que fostes muito mais longe.

    Não sou aquele que fui e não serei o que sou agora.

    Cada instante de vida é uma vida nova… uma nova vida.

    Mudam-se os tempos, as condições, nossa concepção de vida, nosso instante, nossos momentos, frustações, vitórias, progressos.

    Mudam as vontades, pois hoje, percebo, estás cada vez mais triunfante, vitoriosa e confiante em teu talento maravilhoso.

    Continua a escrever, cultive nosso idioma, tens uma extraordinária capacidade para ser desenvolvida,, uma grande escritora que está nascendo.

    Parabéns.

    Jovimari respondeu:

    @GUTIERRITOS, Obrigada, Guti!

    Aceito os adjetivos mesmo não tendo certeza de ser merecedora. Tenho sim, muito a melhorar e aprender.

    Passei a ser uma observadora assídua dos fugazes momentos que aparecem a minha frente. Constantemente me pego a escrever mentalmente. Nem sempre posso sentar em frente a tela ou pegar uma caneta e papel. E então tudo foge e perdi aquele instante. Mas outro vem e sigo…

    Beijo!

  5. Ana Lucia disse:

    Jovi querida,
    Do trivial você fez um banquete. Maravilha! Como diz sua madrinha a gente anda tão carente que qualquer coisa que diferencie do velho já traz um sabor novo, imenso prazer. Beijão minha linda. Ana

    Jovimari respondeu:

    @Ana Lucia, Obrigada, Ana!

    Então posso dizer que meu banquete foi feito para receber pessoas tão queridas como vocês!!! ;)

    Beijo!

  6. Rosalí Amaral disse:

    Jovimari,

    Excelente e interessante o seu texto. O bom atendimento e
    boa aparência do estabelecimento contam muito na hora em
    que a pessoa tem que decidir se volta ou não.

    Mas o mais importante e decisivo de tudo é se o profissional
    conseguiu captar os anseios da cliente e fez um serviço
    satisfatório que tenha realmente agradado, como foi o seu
    caso. Caso contrário, não há sorriso ou cafezinho que façam
    a pessoa mudar de idéia. Ela não retorna nunca mais.

    Abraços,
    Rosalí.

    Jovimari respondeu:

    @Rosalí Amaral, Rosalí,

    Você tem razão. Vou retornar se com o passar dos dias meu cabelo ficar bacana… se o corte foi prático e se ficou como eu queria. O salão e todos e tudo que o compõe é um contexto, o que vale mesmo é o texto…

    Beijo!

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